Lavanderia azerbaijana

A lavanderia azerbaijana é um esquema complexo de lavagem de dinheiro organizado pela República do Azerbaijão que foi revelado pelo Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) em setembro de 2017.[1][2] As investigações expuseram que entre 2012 e 2014 cerca de US$ 2,9 bilhões foram desviados por meio de empresas e bancos europeus.[3][4] O dinheiro foi usado para pagar políticos ocidentais em uma tentativa de encobrir a reputação do Azerbaijão no exterior.[5][6][7][8]

Investigação da mídia

O esquema foi descoberto por meio de uma investigação conjunta do OCCRP,[1] Berlingske[9] (Dinamarca), The Guardian[10] (Reino Unido), Süddeutsche Zeitung[11] (Alemanha), Le Monde[12] (França), Tages-Anzeiger [13] e Tribune de Genève[14] (Suíça), De Tijd[15] (Bélgica), Novaya Gazeta[16] (Rússia), Dossier[17][18] (Áustria), Atlatszo[19](Hungria), Delo[20] (Eslovênia), RISE Project[21] (Romênia), Bivol[22] (Bulgária), Aripaev[23] (Estônia), Czech Center for Investigative Journalism[24] (República Tcheca) e Barron's[25] (EUA), que publicaram uma série de artigos revelando os resultados de suas investigações em setembro de 2017.[26] Em 2018, o OCCRP publicou mais dois relatórios investigativos sugerindo que a lavanderia azerbaijana também foi usada para influenciar órgãos e políticas governamentais estadunidenses em favor do Azerbaijão.[27][28]

Documentos bancários internos detalhando mais de 16.000 transações entre 2012 e 2014 foram inicialmente obtidos por meio de um vazamento pelo jornal dinamarquês Berlingske e posteriormente compartilhados com seus parceiros de mídia. Os documentos analisados ​​revelaram um grande número de transações obscuras indiretamente ligadas a "pessoas influentes" no Azerbaijão, que usaram principalmente quatro empresas de fachada sediadas no Reino Unido e a filial do Danske Bank na Estônia para transferir milhões para contas de empresas e indivíduos em todo o mundo.[29] O esquema permitiu que a elite governante do Azerbaijão desviasse pelo menos US$ 2,9 bilhões para supostamente comprar o silêncio sobre as violações de direitos humanos no Azerbaijão, promover as posições do governo azerbaijano e criar uma imagem positiva do Azerbaijão no exterior.[30]

Esta foi a primeira investigação cooperativa internacional de grande porte do Berlingske. Teve um grande impacto na Dinamarca devido ao envolvimento do Danske Bank no esquema. O primeiro-ministro dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, reagiu publicamente dizendo à TV2 dinamarquesa: "Isso me deixa triste e com raiva."[31]

Implicações sociopolíticas

Durante o período das atividades de lavagem de dinheiro, o governo azerbaijano prendeu mais de 90 ativistas de direitos humanos, políticos da oposição e jornalistas (como Khadija Ismayilova, Anar Mammadli, Intiqam Aliyev, Rasul Jafarov e Leyla Yunus) sob acusações politicamente motivadas. Embora essa repressão aos direitos humanos tenha sido veementemente condenada por grupos internacionais de direitos humanos,[32][33][34] vários políticos europeus, que estavam entre os beneficiários dos pagamentos da lavanderia, conseguiram mobilizar importantes organizações internacionais, como a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (PACE)[35] e, supostamente, a UNESCO,[36][37][38][39] para silenciar as críticas ou obter vitórias de relações públicas para o governo azerbaijano.[40]

As revelações confirmaram alguns dos relatos anteriores sobre a corrupção de diplomatas europeus por autoridades azerbaijanas, descobertos pela Iniciativa Europeia de Estabilidade em 2012, uma vez que alguns dos beneficiários do dinheiro, como Eduard Lintner (político alemão e observador eleitoral no Parlamento Europeu), Alain Destexhe (político belga e membro da APCE), Luca Volontè (político italiano e membro da APCE) e outros, já estavam implicados na investigação sobre a "diplomacia do caviar". Outros beneficiários incluíram: Kalin Mitrev (membro do conselho do BERD e casado com Irina Bokova – chefe da UNESCO), Zmago Jelincic Pleminiti (político esloveno e candidato presidencial)[41][42] e Karin Strentz (membro do Bundestag – CDU)[43]

O dinheiro também foi repassado a estrelas do esporte, magnatas da mídia, músicos e jornalistas para fortalecer a imagem do Azerbaijão.[44] Eckart Sager, um ex-jornalista da CNN que escreveu artigos amigáveis ​​ao regime azerbaijano, estava entre os beneficiários.[45][46]

Os relatórios do OCCRP também expuseram Adil Baguirov (um empresário azerbaijano baseado em Dayton, Ohio) como "o homem de Baku na América", alegando que Baguirov recebeu US$ 253.150 meses depois que sua organização sem fins lucrativos realizou uma conferência em Baku em 2013, da qual participaram dez membros do Congresso dos Estados Unidos, a maioria dos quais falou favoravelmente sobre o Azerbaijão após seu retorno aos EUA. Conforme relatado pelo OCCRP, Baguirov também ajudou a organizar outras conferências EUA-Azerbaijão em Washington, testemunhou repetidamente perante a Câmara a favor da ajuda militar estadunidense ao Azerbaijão, atuou como coordenador do Congressional Azerbaijan Caucus e trabalhou com destaque em uma empresa sediada em Houston, que organizou uma viagem do presidente azerbaijano à Casa Branca. A investigação afirmou que Baguirov e seu pai exerceram inúmeras funções de consultoria para os governos azerbaijano e russo, respectivamente, e que "Baguirov fez tudo isso enquanto detinha cidadania norte-americana, azerbaijana e, ao que parece, russa, pelo menos até 2005".[28]

Ver também

Referências

  1. a b Project, Organized Crime and Corruption Reporting. «The Azerbaijani Laundromat». OCCRP 
  2. Harding, Luke; Barr, Caelainn; Nagapetyants, Dina (4 de setembro de 2017). «Everything you need to know about the Azerbaijani Laundromat». The Guardian – via www.theguardian.com 
  3. «Azerbaijan accused of $2.9bn money-laundering scheme». www.aljazeera.com 
  4. «Azerbaijani Laundromat, lo scandalo si allarga» (em italiano). 16 de julho de 2018 
  5. «Who Profited From The 'Azerbaijani Laundromat'?». 14 de setembro de 2017 – via www.rferl.org 
  6. «The Azerbaijani Laundromat: $3 Billion Azerbaijani Money Laundering and Lobbying Scheme Exposed». Armenian National Committee of America. 5 de setembro de 2017. Cópia arquivada em 2 de setembro de 2018 
  7. «The EBRD and the Azerbaijani Laundromat». www.europarl.europa.eu 
  8. «PACE – Doc. 14653 (2018) – Follow-up to the Azerbaijani Laundromat investigation». www.assembly.coe.int 
  9. Jung, Eva; Lund, Michael; Bendtsen, Simon (5 de setembro de 2017). «Dictatorship sent billions through Denmark's biggest bank». Berlingske.dk (em dinamarquês) 
  10. Harding, Luke; Barr, Caelainn; Nagapetyants, Dina (4 de setembro de 2017). «UK at centre of secret $3bn Azerbaijani money laundering and lobbying scheme». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077 
  11. Munzinger, Hannes; Obermayer, Bastian; Ratzesberger, Pia (19 de setembro de 2017). «Aserbaidschan-Connection einer CDU-Abgeordneten». Süddeutsche.de (em alemão). Cópia arquivada em 18 de setembro de 2017 
  12. «Comment " Le Monde " a enquêté sur la stratégie d'influence de l'Azerbaïdjan». Le Monde.fr (em francês). 4 de setembro de 2017 
  13. «Die Leichen in den Geldwäsche-Kellern der Schweizer Banken». Tages-Anzeiger (em alemão). ISSN 1422-9994 
  14. «Ce qui se cache derrière l'arrestation de Kerimov en France». Tribune de Genève (em francês). ISSN 1010-2248 
  15. «Gerecht onderzoekt Azerbeidzjaans geld aan Belgische politici». De Tijd (em neerlandês). 29 de novembro de 2017 
  16. Епифанова, Мария (29 de maio de 2018). «Зачистка в балтийской прачечной». Новая газета – Novayagazeta.ru (em russo). Cópia arquivada em 29 de maio de 2018 
  17. Staff, GIJN (4 de setembro de 2019). «Global Shining Light Finalist: The Azerbaijani Laundromat (Azerbaijan)». Global Investigative Journalism Network (em inglês) 
  18. «DOSSIER · Magazin». www.dossier.at (em alemão) 
  19. ANTÓNIA, RÁDI (9 de setembro de 2017). «Azerbaijani slush fund transferred millions of dollars to Hungary in 2012». English. Cópia arquivada em 14 de setembro de 2017 
  20. «Ko je Lady Gaga za dva milijona dolarjev pela režimu, sem jaz bila v zaporu». www.delo.si (em esloveno) 
  21. «Mașina azeră de spălat bani: filiera românească». Rise Project 
  22. Биволъ, Екип (15 de setembro de 2017). «Credit Suisse Rejected "Azerbaijani Laundromat" Money Wires to Kalin Mitrev as "Sensitive"». Bivol.bg (em inglês) 
  23. «Taani leht: Danske aitas rahapesule kaasa». Äripäev (em inglês) 
  24. «The Azerbaijani Laundromat». investigace.eu (em inglês). 4 de setembro de 2017 
  25. Alpert, Bill. «Denmark Takes Up Investigation of Its Biggest Bank for Money Laundering». www.barrons.com (em inglês) 
  26. «The Azerbaijani Laundromat | Allard Prize for International Integrity». www.allardprize.org 
  27. Wrate, Jonny. «US Lobbying Firm Launders Azerbaijan's Reputation — And Gets "Laundromat" Cash». OCCRP (em inglês). Consultado em 11 de maio de 2024 
  28. a b Wrate, Jonny. «Baku's Man in America». OCCRP (em inglês). Consultado em 11 de maio de 2024 
  29. «The Azerbaijani laundromat: a new money laundering machine in a familiar guise». AMLC.EU (em inglês). 24 de abril de 2019 
  30. Ismayilova, Khadjia (5 de setembro de 2017). «Azerbaijani Laundromat shows how regime robs its people to feed itself». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077 
  31. Roque, Stella (8 de novembro de 2017). «How They Did It: The Azerbaijani Laundromat». Global Investigative Journalism Network (em inglês) 
  32. Antidze, Nailia Bagirova, Margarita (5 de agosto de 2014). «Amnesty condemns arrest of another human rights activist in Azerbaijan». Reuters (em inglês) 
  33. «Azerbaijan: Investigative Journalist Arrested». Human Rights Watch (em inglês). 5 de dezembro de 2014 
  34. «Azerbaijan: Transparency Group Should Suspend Membership». Human Rights Watch (em inglês). 14 de agosto de 2014 
  35. «Caviar Diplomacy – How Azerbaijan silenced the Council of Europe | ESI». www.esiweb.org 
  36. Ismayilova, Khadija. «Letter: When UNESCO's Director General Broke Her Silence». www.occrp.org (em inglês) 
  37. «Azerbaijan: UNESCO urged to help end government's crackdown on free expression». IFEX (em inglês). 29 de setembro de 2014 
  38. Mammadova, Paul Radu, Khadija Ismayilova and Madina. «The Influence Machine». OCCRP (em inglês) 
  39. Chapple, Amos (14 de dezembro de 2020). «When The World Looked Away: The Destruction Of Julfa Cemetery». Radio Free Europe/Radio Liberty (em inglês) 
  40. «The Azerbaijani Laundromat one year on: has justice been served? -…». Transparency.org (em inglês). Outubro de 2018 
  41. «V "azerbajdžanski pralnici" omenjen tudi Jelinčič Plemeniti. "To je čisti nesmisel," pravi.». siol.net (em esloveno) 
  42. «STA: Delo: Ex MP Jelinčič involved in Azerbaijani Laundromat». english.sta.si 
  43. «German Parliament Takes Azerbaijan Corruption Seriously – Finally». Human Rights Watch (em inglês). 29 de janeiro de 2019 
  44. Editorial Board. «Opinion | Azerbaijan's president prefers pop stars to democracy». Washington Post (em inglês). ISSN 0190-8286 
  45. «Former CNN Employee Received $2.6 Million Through 'Azerbaijani Laundromat'». Asbarez.com (em inglês). 15 de setembro de 2017 
  46. Project, Organized Crime and Corruption Reporting. «Eckart Sager». OCCRP (em inglês)