Lourdes Barreto
| Lourdes Barreto | |
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| Conhecido(a) por |
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| Nascimento | 22 de janeiro de 1943 (83 anos) |
| Residência | Belém, Pará |
| Nacionalidade | Brasileira |
| Filho(a)(s) | 4 (incluindo Leila Barreto) |
| Ocupação | Ex-prostituta, ativista pelos direitos das trabalhadoras sexuais |
| Movimento literário |
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| Magnum opus | Puta Autobiografia (2023) |
Lourdes Barreto (Brejo de Areia,[nota 1] 22 de janeiro de 1943) é uma ex-prostituta e ativista brasileira pelos direitos das trabalhadoras sexuais. É mãe de quatro filhos, avó de dez netos e bisavó de oito bisnetos. Ainda jovem, mudou-se para Catolé do Rocha, na Paraíba, e posteriormente para Belém, no Pará, onde reside desde meados da década de 1950.[4]
Lourdes é uma das fundadoras do Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará (GEMPAC) e da Rede Brasileira de Prostitutas (RBP), organizações dedicadas à defesa dos direitos das trabalhadoras sexuais no Brasil.[5] Foi uma das 100 pessoas que iniciaram programas de combate à AIDS no Brasil e contribuíram para a construção do Sistema Único de Saúde (SUS).[6]
Em 2023, Lourdes publicou sua autobiografia intitulada Puta Autobiografia, onde narra toda a sua trajetória e as diversas lutas que travou ao longo da vida.[5] Em 2024, foi incluída na lista BBC 100 Women, reconhecimento internacional da BBC às mulheres mais influentes e inspiradoras do mundo.[7]
Vida
Infância e juventude
Lourdes Barreto nasceu em 22 de janeiro de 1943 em Brejo de Areia, no Maranhão. Apesar de pertencer a uma família de classe média do sertão nordestino, enfrentou diversas restrições, especialmente no acesso à educação. Conforme relatava, não lhe foi permitido estudar, pois em sua família apenas os filhos homens tinham esse direito.[5]
Ainda jovem, sofreu violência dentro do próprio ambiente familiar. Aos 14 anos, foi estuprada por um homem que frequentava sua casa. Diante da violência e das restrições impostas, decidiu partir em busca de independência, mudando-se para Catolé do Rocha, na Paraíba.[4] Nessa jornada, acabou sendo acolhida em um prostíbulo, onde iniciou sua profissão ainda adolescente.[5]
Trajetória pelo Norte do Brasil
Iniciou sua trajetória como prostituta ainda muito jovem, por volta dos anos 1950, e percorreu diversas cidades da região Nordeste do Brasil. Passou por garimpos na região amazônica, incluindo Serra Pelada e Itaituba, antes mesmo da grande corrida do ouro que tornaria esses locais famosos décadas depois.[8]
Ao final de sua jornada, escolheu a região Norte do país para firmar raízes, estabelecendo-se em Belém por volta de 1955, cidade onde vive até os dias atuais. Lourdes trabalhava no famoso Quadrilátero do Amor, região do bairro da Campina, área central da cidade de Belém.[4]
Durante a ditadura militar
Durante o período de Ditadura Militar no Brasil (1964-1985), Lourdes Barreto enfrentou violência e repressão sistemáticas. O meretrício Quadrilátero do Amor foi fechado, transformando-se em uma zona confinada sob controle policial.[9]
As prostitutas eram obrigadas a realizar exames ginecológicos a cada 15 dias e a se registrar na Delegacia de Costumes, órgão responsável pelo controle higienista social. Quem chegava a Belém tinha que ir primeiro à Delegacia de Costumes para se registrar.[4] No auge da repressão, Lourdes não podia sair do meretrício a não ser acompanhada de algum policial. Ao colocar a cabeça para fora da janela do cabaré, foi presa pela guarda que passava vigilante no Quadrilátero do Amor, levada à delegacia e ficou dias na prisão, sob tortura física e psicológica.[5]
Trajetória ativista
Movimentos de libertação sexual
Apesar da repressão, Lourdes Barreto foi uma figura importante nos movimentos de libertação sexual durante a década de 1970.[4] Em Belém, teve papel fundamental na fundação da primeira Delegacia da Mulher na cidade. Mais tarde, foi convidada pelo Ministério da Saúde a participar de campanhas de combate à AIDS, tornando-se uma das pioneiras no enfrentamento da epidemia no Brasil.[6]
Esteve à frente do 1.º Encontro Nacional de Prostitutas em 1987, chamado "Mulher da vida é preciso falar", realizado no Rio de Janeiro. O evento reuniu prostitutas de todo o país e marcou o início da organização política da categoria no Brasil.[10] Também atuou na campanha pedindo as Diretas Já durante o processo de redemocratização do Brasil.[8]
Fundação do GEMPAC
Lourdes fundou o Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará (GEMPAC) em 1990, com o objetivo de garantir os direitos das trabalhadoras sexuais, estabelecer estratégias e intervenções jurídicas, e realizar oficinas sobre gênero e sexualidade. A organização luta contra os preconceitos, pela redução da discriminação e pela valorização da identidade de mulher e trabalhadora sexual.[11]
O GEMPAC tornou-se uma das principais organizações de defesa dos direitos das trabalhadoras sexuais no Norte do Brasil, oferecendo apoio jurídico, psicológico e promovendo ações de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.[8]
Rede Brasileira de Prostitutas
Em parceria com Gabriela Leite, Lourdes participou da fundação da Rede Brasileira de Prostitutas (RBP), criada visando promover os direitos da prostituição como uma profissão, desde que exercida por maiores de 18 anos. A RBP atua contra formas de exploração e abuso sexual, estigmatização da prostituição e associação da profissão à criminalidade.[12]
Lourdes também participou da articulação internacional de trabalhadoras sexuais, integrando organizações como a Plataforma Latino-Americana de Pessoas que Exercem o Trabalho Sexual (PLAPERTS) e a Rede Global de Projetos de Trabalho Sexual (NSWP).[8]
Participação política
Em 2000, Lourdes candidatou-se a vereadora em Belém pelo Partido dos Trabalhadores (PT), defendendo políticas públicas para trabalhadoras sexuais e grupos marginalizados. Embora não tenha sido eleita, sua candidatura teve importante papel simbólico na visibilização das demandas da categoria.[10]
Participou do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, onde atuou na defesa de políticas públicas voltadas para mulheres em situação de vulnerabilidade social.[8]
Reconhecimentos
Em 2023, Lourdes Barreto foi homenageada pelo bloco de carnaval Piratas da Batucada, de Belém, que levou sua história para as ruas durante o carnaval da cidade.[13]
Sua trajetória foi tema do espetáculo teatral "Nas Brenhas", que estreou em 2023 e narra histórias de mulheres prostitutas da Amazônia.[14]
Em 2024, foi lançado o documentário "Puta Retrato", dirigido por Carol Barreto, que acompanha a vida de Lourdes e explora sua luta pelos direitos das trabalhadoras sexuais.[15]
No mesmo ano, foi incluída na lista BBC 100 Women, reconhecimento internacional da BBC que destacou sua trajetória de mais de seis décadas de luta pelos direitos das trabalhadoras sexuais no Brasil.[7]
Em 2025, participou do programa "Conversa com Bial", da TV Globo, onde narrou sua história de vida e ativismo.[10]
Para o carnaval de 2026, a escola de samba Unidos do Porto da Pedra, do Rio de Janeiro, anunciou que sua história será tema do desfile no Sambódromo da Marquês de Sapucaí.[10]
Autobiografia
Em 2023, Lourdes Barreto publicou sua autobiografia intitulada Puta Autobiografia. O livro foi inicialmente lançado pela editora Paka-Tatu e posteriormente reeditado pela Claraboia no mesmo ano.[5]
Na obra, Lourdes narra toda a sua trajetória desde a infância no Maranhão até sua consolidação como uma das principais ativistas pelos direitos das trabalhadoras sexuais no Brasil. O livro descreve as diversas "ondas", maneira pela qual Barreto chama suas lutas ao longo da vida, incluindo a violência da ditadura militar, a fundação de organizações de classe e as conquistas do movimento.[5]
Puta Autobiografia tornou-se uma referência importante para estudos sobre prostituição, direitos humanos e movimentos sociais no Brasil, sendo utilizado em universidades e centros de pesquisa.[8]
Notas e referências
Notas
- ↑ A localidade de Brejo de Areia, onde algumas fontes afirmam ter nascido o biografado, tornou-se município apenas em 1994, desmembrando-se de Altamira do Maranhão[1], que por sua vez se desmembrou em 1961 de Vitorino Freire[2], município constituído em 1952 com territórios de Vitória do Mearim e Bacabal.[3]
Referências
- ↑ «Brejo de Areia». IBGE Cidades. Consultado em 19 de janeiro de 2026
- ↑ «Altamira do Maranhão». IBGE Cidades. Consultado em 19 de janeiro de 2026
- ↑ «Vitorino Freire». IBGE Cidades. Consultado em 19 de janeiro de 2026
- ↑ a b c d e Calabria, Amanda de Mello (2022). Puta Livro. Rio de Janeiro: Aurora. p. 65
- ↑ a b c d e f g Barreto, Lourdes (2023). Puta Autobiografia. São Paulo: Paka-Tatu. p. 16
- ↑ a b «Sex Work – Global Feminisms Project» (em inglês). Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ a b «BBC 100 Mulheres 2024: Conheça as brasileiras na lista deste ano». BBC News Brasil. Consultado em 17 de dezembro de 2024
- ↑ a b c d e f «Lourdes Barreto: a voz das mulheres prostitutas na Amazônia». Portal Catarinas. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ Sousa, Silvia Lilia Silva (22 de dezembro de 2018). «Na Batalha e na Militância: O Cotidiano de Protitutas no Bairro da Campina, Belém-PA». ILUMINURAS (47). ISSN 1984-1191. doi:10.22456/1984-1191.89035. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ a b c d «Conheça a história de Lourdes Barreto». O Liberal. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ base.digital. «Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará – GEMPAC- PA». Fundo Brasil. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Carta de Princípios da RBP». Observatório da Prostituição. 28 de maio de 2014. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Conheça a história de Lourdes Barreto, homenageada pelos Piratas da Batucada». Diário do Pará. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Nas Brenhas». Sesc São Paulo. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Documentário 'Puta Retrato' sobre ativista Lourdes Barreto estreia em Belém». Na Amazônia. Consultado em 17 de janeiro de 2026