Leonardo da Ca'Masser

Leonardo da Ca'Masser
Dados pessoais
NascimentoVeneza
Morte11 de março de 1531
Veneza
PaiFrancesco da Ca'Masser

Leonardo da Ca'Masser, Massari ou Masser (Veneza  ? - Veneza, 11 de março de 1531), foi um dos mais rigorosos espiões veneziano radicado em Lisboa entre 1504 e 1506. A sua missão era de recolher informações sobre a carreira da Índia.

Biografia

Sabemos muito pouco sobre a vida de Leonardo da Ca'Masser, de origem nobre e natural de Veneza,[1] talvez tenha permanecido em Portugal durante a sua juventude porque tinha um profundo conhecimento do país.[2] Ao certo o que sabemos é que no dia de 3 de julho de 1504, o Conselho dos Dez de Veneza (que supervisionava entre outros a diplomacia e os serviços de informação), confiou-lhe a missão de espiar o que se passava em Lisboa disfarçado em simples comerciante italiano. No dia 15 de setembro, escreveu de Medina del Campo que se tinha encontrado com o embaixador de Veneza na Espanha, Piero Pasqualigo, que já tinha dois espiões por sua conta Cesare Barzi, e João Francisco Affaitati. Por isso viu a chegada de Ca'Masser diretamente sob controle do Conselho dos Dez, como uma desautorização do seu trabalho. Mas os "espiões" de Pasqualigo eram na verdade comerciantes que não podiam, por falta de tempo, dedicar-se integralmente a espionagem, demais eles, e principalmente Affaitati, tinham grandes interesses económicos em Portugal e uma estreita ligação com o rei que detinha ainda um grande monopólio do comercio ultra-marino, por isso a informação prestada nem sempre seria fidedigna. Assim Veneza, em apuros pela forte concorrência portuguesa, precisava dum homem dedicado ao assunto e sem nenhuma ligação a Portugal e a corte, para ser parcial e digno de fé, e mandou de propósito Ca'Masser com esse intuito.[2] Mas Ca'Masser depois de chegar a Lisboa no dia 3 de outubro é logo no dia posterior, depois de ter sido convocado pelo rei D. Manuel,[1] preso numa torre em total isolamento. Um outro Italiano, Benedetto Morelli, sobrinho do comerciante florentino Bartolomeo Marchionni, que tinha fortes interesses comerciais no país já tinha denunciado ao rei as suas verdadeiras intenções. Foi interrogado pelo rei mais três ou quatro vezes, mas finalmente conseguiu ser libertado sem nada ter dito. E assim dedicou-se ao trabalho de espionagem durante um pouco menos de dois anos, porque em 5 de dezembro de 1506, Ca’Masser solicitava ao Conselho dos Dez a nomeação para o cargo de chanceler em Colónia. Cargo que lhe foi concedido por um período de doze anos. Mas parece que ele não cumpriu por inteiro o mandato porque em 1512 aparece o seu nome numa lista de comerciantes que viajavam do Cairo a Veneza. Em 1517, Ca’Masser candidatou-se, juntamente com outros quarenta e seis concorrentes, a um cargo de escrivão no escritório do Cazude (escritório encarregue da dívidas fiscais). E enfim, terá falecido na noite de 11 de março de 1531, como secretário do Conselho Menor da Serenissima Signoria, o órgão supremo do governo da República de Veneza.[2]

As suas obras

Leonardo da Ca'Masser durante esses dois anos escreveu inúmeras cartas que porventura serão em grande parte perdidas mas algumas foram copiadas por Marino Sanuto (1466 – 1536)) e inseridas no seu diário (I Diarii di Marino Sanuto). Por isso, Ca'Masser é sobretudo conhecido pelo sua relação escrita no fim da sua estadia em Portugal, e que relata num breve resumo, as viagens dos portugueses até a índia desde a primeira de Vasco da Gama até a viagem de Tristão da Cunha de 1506.[2] No entanto, ele não se contenta de descrever só essas viagens, ele aborda os aspetos económicos ignorados pelos cronistas, como as cargas de especiarias trazidas como sobretudo os produtos exportados (Cobre, chumbo, Cinábrio, corais...).[1]

De 1505, a 22 de julho, regressaram 10 naus, Capitão Lupo Soares; e uma chegou antes, a 30 de junho, e as duas últimas chegaram a 23 de agosto; e uma perdeu-se ao largo do Cabo da Boa Esperança no regresso:de modo que chegaram no total 13 naus, as quais trouxeram 24 mil quintais de especiarias. A descrição delas, na verdade: pimenta 22 mil quintais, canela 350, C? 450 quintais, cravos-da-índia 150 a 200, macis 7, cânfora 15, pimenta longa 10, laca 60, gengibre 80, pérolas por onça, 750 onças, no valor de 4000 ducados; mercadorias que foram vendidas na presente remessa na Índia, ou seja, Cobre 2800 quintais a 12 ducados o quintal, os quais não se podem vender nem mais nem menos, por ser assim o acordo feito entre eles, o qual o Almirante fez em Cochim: 1/4 de cobre ao dito preço, e 3/4 em dinheiro; isto aplica-se somente a pimenta; zimbro 300 quintais a 20 ducados o quintal; prata viva (mercúrio) 300 quintais, a 18 a 19 ducados; chumbo 500 quintais, a 6 ducados o quintal; corais, ou seja, botões 6500 quintais[nota 1], a um ducado a onça: e mais contrato foram feitos pelo Capitão em Cochim; em Cananor, em Chaucoulã, em Culão, em Comorim, em Belém, no regresso de Cochim...
 
Relação de Ca'Masser[3].

Ele não se limita a espiar as novas descobertas marítimas, os recursos técnicos portugueses (em particular a técnica de navegação astronómica), a política do rei e do estado para o ultra-mar mas faz um retrato completo do reino de Portugal, passando do governo a administração (os membros da Casa do rei), a alta nobreza com os seus rendimentos), o poderio militar, a rede do comércio oceânico, a estrutura eclesiástica, as finanças públicas, os direitos aduaneiros....[1] pouca escapa ao olhar atento de Ca'Masser e a sua rede de espiões constituída "de muitos portugueses e de vários outros estrangeiros que estiveram naquelas paragens". Ele descreve com um olhar mordaz, e talvez com algum rancor, o rei D. Manuel qualificado como sendo "desconfiado, irresoluto, avarento e intolerante" mas não é mais manso com Vasco da Gama que ele acha ser um "homem destemperado, sem qualquer razão" e sublinha as divergências entre ele e o rei "Ele fez muitas coisas na Índia durante sua viagem, que não foram muito agradáveis ​​a Sua Alteza." E aponta os pontos fraco de Portugal um reino grandemente despovoado, deficitário em trigo, com poucas pastagens e gado.[1] Ele até com alguma perspicácia prevê o futuro e que "os indianos, por não possuírem artilharia nem navios robustos, cederiam aos portugueses, mas estes seriam incapazes de bloquear a rota dos árabes para o Mar Vermelho".[2]

Bibliografia

Obra de Ca'Maser

Outras obras

  • Godinho, Vitorino Magalhães, “Portugal no começo do século XVI: instituições e economia. O relatório do veneziano Lunardo de Cà Masser”, em Revista de História Económica e Social, 4, Julho-Dezembro, 1979, pp. 75-88.

Notas

  1. O valor de 6500 quintais de corais deve ser errado, a unidade poderá ser onças e não quintais.

Referências

  1. a b c d e Ana Isabel Buescu. "Olhares estrangeiros sobre Portugal (c. 1450-1571)" . Centro de Humanidades, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e Departamento de História da Universidade Nova de Lisboa. Lisboa.
  2. a b c d e Tucci, Ugo. Istituto della Enciclopedia Italiana fondata da Giovanni Treccani, ed. «"CA'MASSER (Masser, Massari), Leonardo da" em Dizionario Biografico degli Italiani - Volume 17 (1974)» (em italiano). Consultado em 27 de janeiro de 2026 
  3. Centenário do descobrimentoda América. Memórias da comissão portuguesa, Lisboa, 1892, p. 73