Lavagem a seco

Uma máquina de lavagem a seco na Alemanha Oriental em 1975

Lavagem a seco é um termo que se refere a qualquer processo de limpeza de roupas ou têxteis em geral por meio da utilização de um outro solvente, em detrimento da água. Ao invés da utilização do solvente universal, os tecidos são mergulhados num solvente líquido, geralmente apolar e orgânico, sem água em sua composição, no interior de uma máquina especializada.

Entre os solventes utilizados, o percloroetileno ("PCE" ou "perc") é o mais comum, embora outras misturas contendo hidrocarbonetos ou decametilciclopentasiloxano também sejam utilizadas. Historicamente, outros solventes notáveis utilizados foram o tetracloreto de carbono, o tricloroetileno, o triclorotrifluoroetano, o tricloroetano e o brometo de n-propila.

A maioria das fibras naturais podem ser levadas em água, entretanto, algumas fibras sintéticas, como raiom, não reagem bem com água e devem ser lavadas a seco, se possível. Nessas fibras, a lavagem convencional pode provocar mudanças na textura, cor, resistência do têxtil e formato.[1]

Histórico

No início do século XIX, o tintureiro francês Jean Baptiste Jolly desenvolveu seu próprio método para limpeza de tecidos se utilizando de querosene e gasolina, abrindo um negócio dedicado para o método em 1845, em Paris. Ao longo do século, compostos a base de benzeno também foram utilizados.[2]

Conta-se que a ideia de Jolly partiu de um acidente em 1825, ao perceber que sua toalha de mesa estava mais limpa após ser molhada pelo líquido do interior de uma lamparina, provavelmente canfeno.[3]

Alguns anos depois, o perigo da flamabilidade dos compostos empregados levou William Joseph Stoddard, um profissional da lavagem a seco de Atlanta, a desenvolver um solvente que acabou levando seu nome (solvente de Stoddard), uma mistura mais específica da classe mais geral de aguarrás minerais (white spirits, em inglês), em 1924. Esse solvente se mostrou menos inflamável, provando-se uma alternativa aos tradicionais solventes a base de gasolina ou benzeno.[4]

O solvente inventado por Stoddard foi o mais utilizado no método de lavagem a seco nos Estados Unidos até os anos 1950, quando o percloroetileno tomou o seu lugar.[5][6]

Solventes clorinados

Após a Primeira Guerra Mundial, solventes clorinados começaram a ser utilizados na lavagem a seco. Dentre os primeiros a serem utilizados, podemos citar o tetracloreto de carbono e o tricloroetileno (TCE). Enquanto o tetracloreto de carbono foi introduzido ainda na Alemanha na década de 1890 como tira-machas, o TCE teve sua introdução nos anos 1930. Embora seu sucesso, o produto tinha o revés de ser incompatível com tinturas à base de acetatos.[7]

Em 1930, os químicos Sylvia Stoesser, John Grebe e J. Lawrence Amos da Dow Chemical Company sugeriram o uso de percloroetileno no lugar dos solventes baseados em hidrocarbonetos, inflamáveis, após pedidos de representantes industriais. Uma máquina de lavar adquirida pelo laboratório teve seus componentes de borracha substituídos por versões de neopreno, resistentes a solventes orgânicos.[8]

Alguns anos depois, em 1933, o percloroetileno foi adotado como solvente para lavagem, ganhando a fama de ser o "solvente ideal para a lavagem a seco". No mesmo ano, uma máquina especializada para lavagem a seco com TCE e percloroetileno foi desenvolvida.[9]

Na métade da década, este último solvente tinha se tornado o padrão da indústria, sendo considerado um solvente com capacidade de limpeza excelente, não-flamável e compatível com a maior parte dos tecidos. Além disso, pela sua característica estabilidade, o percloroetileno é reciclado após o uso por destilação.[10]

Reprocessamento de solventes

Máquina de reprocessamento de solventes (Alemanha)

Numa máquina de lavagem a seco, o solvente utilizado passa por diversas seções de filtração antes de retornar à câmara de lavagem. A primeira seção impede a passagem de pequenos objetos adiante, como fiapos, botões e moedas, que poderiam entrar na bomba de solventes no interior do maquinário. Depois dessa filtragem inicial, o solvente utilizado passa por um filtro cartucho (cartridge filter), que contém carvão ativado e argilas ativadas, com o objetivo de filtrar resíduos insolúveis, não-voláteis e tinturas. Depois dessas filtragens e da passagem por um outro filtro adicional, o solvente, agora limpo, retorna à câmara de lavagem.

Ao longo do tempo, uma fina camada de resíduos acumula no filtro inicial, que deve ser limpo frequentemente. De preferência, os resíduos devem ser processados com o objetivo de recuperar qualquer solvente que esteja absorvido por eles.

Uma máquina de lavagem a seco com solventes cíclicos Firbimatic Saver. Ao invés de destilação, a máquina utiliza apenas filtração por argila, economizando energia.

Após o processamento desses resíduos, um rejeito será gerado, contendo um pouco de solvente residual, tintas, água, fiapos e outros resíduos. Como outros resíduos líquidos, internacionalmente estão geralmente sujeitos à regulações ambientais.

Várias máquinas utilizam filtros discais giratórios, que removem os resíduos dos filtros por força centrífuga, além da utilização da lavagem do filtro com solvente.

Lavagem a seco de veículos

O conceito geral de lavagem a seco, com o passar do tempo, foi sendo aprimorado, até ultrapassar as fronteiras dos tecidos e chegar à limpeza de veículos. Esta entrada da lavagem a seco no setor automotivo pode ser relacionada ao imenso desperdício de recursos hídricos que este segmento representa.

O produto pioneiro neste tipo de lavagem utiliza cera de carnaúba como base e água como solvente. O produto foi desenvolvido e patenteado pelo brasileiro José Manoel Ramos Rodriguez[11] em 1996.

Na lavagem de carros utilizando-se água para enxágue, podem ser desperdiçados até 500 litros[12] de água a cada automóvel lavado. Neste sentido, é válido afirmar que já foram desperdiçados incontáveis litros de água potável ou água tratada só na lavagem de veículos.

Ainda existe um certo preconceito com relação à lavagem sem água de veículos, mas muitos dos paradigmas deste tipo de lavagem já foram desmitificados, como a possibilidade de riscar o carro e de manchar a pintura. [13]

A lavagem a seco de veículos preserva milhões de litros de água todos os meses. Apenas na principal rede de lava-rápidos do país, são economizados cerca de 20 milhões de litros mensais, que equivalem ao consumo diário de 180.000 pessoas. [14] [15]

Além da economia de água, as principais lojas prestadoras de serviços de lavagem a seco se preocupam com outros aspectos sustentáveis, como os panos utilizados na lavagem, que são reciclados para fabricação de tapeçaria automotiva, além de capacitação dos funcionários, entre outros. [16]

O tema lavagem a seco também se torna um grande problema quando olhamos para os pequenos empreendedores que precisam abrir um lava rápido[17], esse tipo de prestação de serviços além de ter todas as características do serviço propriamente dito também precisam oferecer soluções sustentáveis do ponto de vista do uso da água e mais do que isso, obedecer todas as legislações municipais e estaduais de orgãos como a CETESB, por exemplo.

Vantagens

As vantagens relacionadas ao processo de lavagem a seco não são poucas. Primeiramente as principais vantagens estão ligadas à sustentabilidade do negócio. Evitar que litros de água sejam desperdiçados ao final do procedimento é o principal diferencial deste tipo de lavagem.

A precisão nos resultados também é um ponto forte. Independente do setor da lavagem, estofados, tecidos ou automóveis, são utilizados produtos químicos formulados especificamente para a utilização em determinada superfície, o que proporciona resultados superiores à lavagem convencional que utiliza a água como método padrão, independente da superfície a ser aplicada.

Como funciona

Apesar de possuírem o mesmo embasamento, o procedimento de lavagem a seco pode variar de acordo com o que está sendo higienizado. Apesar disso, independente do procedimento é preciso verificar se a superfície do veículo não possui nenhum dano já existente para que seja provado que o processo de lavagem não danifica a peça em questão.

Mais especificamente no caso das roupas, as mesmas são devidamente colocadas em uma máquina e lavadas com um solvente, para que depois, se consistida alguma impureza o solvente seja aplicado diretamente no local da mancha.

No caso dos estofados, como sofás[18], inicialmente faz-se aspiração dos sólidos e líquidos existentes, em seguida é aplicado produtos especiais compatíveis com o tecido de fibras naturais ou sintéticas, espera-se o tempo necessário de reação do produto e em seguida faz a escovação mecânica por cerdas macias apropriadas para evitar danos, e em seguida faz a extração total da sujidade desprendida utilizando máquinas extratoras. A limpeza não elimina[19] ácaros, bactérias e microorganismos, pois essa é a função da higienização (que utiliza outros tipos de produtos específicos e é feita após a limpeza). Nem sempre ao fim da limpeza a seco o cheiro fica agradável, a função dos produtos é remover sujeira e não necessariamente odorizar, portanto deve-se aplicar produtos finalizadores próprios para tecidos com função de amaciar e odorizar agradelmente conforme gosto pessoal. Dependendo do produto utilizado,da ventilação do local e da umidade do ar a secagem pós lavagem dura entre 3 a 8 horas.

No caso de tapetes, deve-se olhar a etiqueta para saber se é permitido a lavagem a seco, pois há grandes chances de desbotar as cores, provocar amarelamento, ou estragar as fibras a depender da composição.

Para colchões e camabox, o produto é aplicado também diretamente na peça, e como é comum surgir amarelados com o passar do tempo, deve-se evitar produtos com cloro ou hipoclorito de sódio (água sanitária) para alvejar e ter aspecto branco, na busca pela estética utilizando esses produtos há o perigo de reações alérgicas e respiratórias, pois na extração da sujidade no momento do enxague ainda terão resíduos.

No caso da lavagem a seco de veículos o procedimento de aplicação do produto é mais detalhada. A aplicação do produto nos veículos deve ser realizada através de borrifador especial, normalmente sendo necessário três panos para a realização da limpeza. O produto é aplicado diretamente na lataria, para que assim seja passado o primeiro pano na pintura do veículo. Outro pano deve ser passado para que o produto seja retirado, e um terceiro pano passado proporciona a retirada total do produto e o brilho final para a pintura.

Referências

  1. «Dry Cleaning Your Wool Sweaters? Don't Bother. (Published 2019)» (em inglês). 22 de maio de 2019. Consultado em 29 de novembro de 2025 
  2. Ogunseitan, Olandele (2011). Green Health: An A-to-Z Guide. [S.l.]: SAGE Publications. pp. 135–. ISBN 9781452266213 
  3. IARC Working Group on the Evaluation of Carcinogenic Risks to Humans (1995). «DRY CLEANING» (em inglês). Consultado em 29 de novembro de 2025 
  4. Sullivan, Thomas F. P.; Bell, Christopher L., eds. (2011). Environmental law handbook 21. ed ed. Lanham, Md.: Government Institutes 
  5. «Cleaning Up the Dry Cleaning Standard». www.nfpa.org (em inglês). Consultado em 29 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 18 de março de 2019 
  6. «Wayback Machine» (PDF). acpo.org.br. Consultado em 29 de novembro de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 26 de junho de 2025 
  7. Morrison, Robert D. (2015). Chlorinated Solvents: A Forensic Evaluation. Col: ISSN. Brian L. Murphy, Robert Morrison, Stephen Mudge 1st ed ed. Cambridge: Royal Society of Chemistry 
  8. Amos, J. (1990). «Chlorinated Solvents». In: Boundy, R. A History of the Dow Chemical Physics Lab: the freedom to be creative. Nova Iorque & Basileia: Marcel Dekker, Inc. pp. 71–79 
  9. «A Survey of Dry Cleaning: Advantages of Perchlorethylene». The Dyer, Calico Printer, Bleacher, Finisher & Textile Review. 70: 15-16. 1933 
  10. Tirsell, David C. (2000). «Dry Cleaning». John Wiley & Sons, Ltd (em inglês). ISBN 978-3-527-30673-2. doi:10.1002/14356007.a09_049. Consultado em 30 de novembro de 2025 
  11. EspaceNet Patent Search - Busca de Patentes - http://worldwide.espacenet.com/publicationDetails/originalDocument?CC=BR&NR=9604458A&KC=A&FT=D&date=19980623&DB=EPODOC&locale=en_EP
  12. Sabesp http://www.sabesp.com.br/CalandraWeb/CalandraRedirect/?temp=2&temp2=3&proj=sabesp&pub=T&nome=Uso_Racional_Agua_Generico&db=&docid=DAE20C6250A162698325711B00508A40
  13. Blog Por você, Pelo Planeta - Verdades e mitos sobre a lavagem a seco automotiva. Página visitada em 04 de abril de 2014
  14. Site Motorista Sustentável. Lavar carro de maneira sustentável pode economizar milhões de litros de água por mês no Brasil. Acessada em 04 de abril de 2014.
  15. ISTOÉ Dinheiro. Como um jovem paulista montou uma rede que lava 90 mil carros por dia. Acessado em 04 de abril de 2014
  16. FIESP. Iniciativas Sustentáveis. Acessada em 04 de abril de 2014
  17. Moreira, Ricardo (15 de fevereiro de 2018). «Como abrir um lava rápido.». BlogdoProfissional 
  18. GEACLEAN (10 de maio de 2022). «Lavagem a seco de Estofados». https://geaclean.com.br. Consultado em 10 de maio de 2022. Cópia arquivada em |arquivourl= requer |arquivodata= (ajuda) 🔗 
  19. miliclean (setembro de 2021). «lavagem a seco e higienização». https://www.miliclean.com.br/2021/09/lavagem-a-seco.html. Consultado em 10 de maio de 2022 

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