Juliano de Médici

 Nota: Para o sobrinho homónimo, veja Juliano II de Médici.
Juliano de Médici
Giuliano de' Medici, malt av Sandro Botticelli
Nascimento28 de outubro de 1453
Florença
Morte26 de abril de 1478
Santa Maria del Fiore
SepultamentoBasílica de São Lourenço
CidadaniaRepública Florentina
Progenitores
CônjugeFioretta Gorini
Filho(a)(s)Papa Clemente VII
Irmão(ã)(s)Maria di Piero de' Medici, Nanina de Médici, Bianca de Médici (1445-1488), Giovanni de' Medici, Lourenço de Médici
Ocupaçãopolítico
Causa da mortePerfuração por arma branca

Juliano de Médici (em italiano: Giuliano di Piero de' Medici; Florença, 28 de outubro de 1453 – Florença, 26 de abril de 1478) foi um mecenas e político italiano. Tornou-se corregente de Florença com seu irmão Lourenço de Médici e, como ele, destacou-se como mecenas das artes. Foi assassinado na Conspiração dos Pazzi, no dia da Páscoa, em 1478. Teve grande popularidade durante a sua vida, graças a sua imagem de "menino dourado", bonito, atlético, ao seu comportamento e suas atitudes. Sua morte provocou grande consternação na cidade e em toda Itália. E ajudou a manter a família Médici no governo de Florença.[1]

Biografia

Juliano foi o segundo filho de Pedro de Cosme de Médici e Lucrécia Tornabuoni e foi educado com o seu irmão, Lourenço. Após a morte do pai, em 1469, quando Juliano tinha apenas quinze anos, os rapazes foram designados "príncipes do Estado". Apesar da paixão de Juliano por arte e cultura, Lourenço o queria ao seu lado na administração da cidade. Confiava muito nele, ainda que tivessem desentendimentos ocasionais, em virtude das suas personalidades distintas.[2]

A imagem de Juliano, o "menino dourado", alto, bonito e atlético, contrastava com a do irmão que, segundo as imagens da época, não tinha boa aparência.[3] Juliano ganhou fama de boémio em consequência das suas várias participações em justas e amizades com artistas da época e foi bastante popular durante a sua vida. A certa altura, foi proposto que Juliano seguisse uma carreira eclesiástica, mas a ideia foi rapidamente esquecida pois ele não tinha a menor vocação.[4] O poeta Angelo Poliziano descreveu Juliano como alto, de constituição forte, com olhos negros, pele e cabelo morenos. Amante de passeios, arremesso de dados, desporto e luta e, em especial, de dança, pintura, música e poesia.[5]

No campo amoroso, houve rumores de casamento com um membro da família Correr para cimentar uma aliança com Veneza, mas tal não chegou a acontecer. Mais tarde surgiram rumores de que Juliano procurava uma união com a filha do Marquês de Mântua depois de este ter visitado a cidade. Em 1475, o seu irmão Lourenço queria que ele se casasse com a filha da família Borromeo, mas Juliano opôs-se por considerar inapropriado casar-se com a filha de um comerciante, ainda que este fosse rico e tivesse raízes em Florença. Em 1476, foi-lhe proposto um casamento com uma sobrinha de Girolamo Riario, um sobrinho poderoso do Papa Sisto IV, mas esta união também não se concretizou. Em 1477, foi finalmente finalizado um acordo de casamento quando Juliano decidiu casar-se com Semiramide, irmã de Jacopo IV Appiano, senhor de Piombino. No entanto, o casamento não chegou a realizar-se uma vez que Juliano foi morto no ano seguinte.[6] O verdadeiro amor de Juliano foi Fioretta Gorini, filha do professor universitário Antonio Gorini, com quem teve um filho ilegítimo, Júlio de Médici, que nasceu um mês depois da morte do pai. A criança foi criada pelo padrinho, o arquiteto Antonio da Sangallo, e pelo tio Lourenço. Seguiu a carreira eclesiástica, chegando ao cargo de cardeal e, mais tarde, papa, com o nome de Clemente VII.[7]

Assassinato

Pormenor de Retrato de Juliano de Médici de Sandro Botticelli.

Juliano foi assassinado dentro da Catedral de Florença, no domingo de Páscoa de 1478. O evento ficou conhecido como a Conspiração dos Pazzi, que tinha por objetivo afastar os Médici do governo. Esta foi a segunda tentativa de homicídio de Juliano e do seu irmão pelos membros da família Pazzi. O plano original consistia em envenenar os irmãos num almoço, em 19 de abril, mas Juliano, que estava doente, não pôde comparecer. Assim, o plano foi adiado para a semana seguinte. Os assassinos foram convidados para o banquete que os Médici iriam oferecer depois da missa da Páscoa e deveriam realizar o ato depois da refeição. Porém, pouco antes da missa, os criminosos descobriram que Juliano ainda estava doente e não estaria presente no banquete, então foi decidido assassiná-los durante a cerimónia religiosa. O local sagrado fez com que um dos assassinos originais desistisse, e foram contratados dois padres para o substituir.[1]

Em virtude da sua doença e de uma infeção numa perna, Juliano precisou de ajuda para chegar à catedral. Essa ajuda foi providenciada por seus assassinos, Bernardo Bandini e Francesco de Pazzi, que o foram buscar pessoalmente. No caminho, um deles o abraçou para verificar se estava armado e vestia a sua cota de malha, mas não era o caso.

Os criminosos escolheram o momento da elevação da hóstia para iniciar o ataque. Quando os devotos baixaram suas cabeças, Bernardo Baroncelli apunhalou Juliano nas costas. Francisco de Pazzi o seguiu e desferiu vários golpes no peito.[8] No total, Juliano foi apunhalado em torno de doze vezes.[1]

Em seguida, um dos padres correu na direção de Lourenço e tentou apunhalá-lo, ferindo-o levemente no pescoço. A vítima conseguiu fugir e esconder-se na sacristia, escapando com apenas um corte no pescoço.[1]

Após um funeral modesto, em 30 de abril de 1478, Juliano foi enterrado no túmulo do seu pai, na Basílica de São Lourenço, em Florença. Mais tarde, seus restos mortais e os de Lourenço foram transferidos para a Capela dos Médici, na mesma igreja, num túmulo que se encontra embaixo de uma estátua de Nossa Senhora e o Menino de Michelangelo.

Consequências

A Conspiração dos Pazzi não teve êxito, e a população de Florença descobriu que Lourenço de Médici tinha sobrevivido. Algumas horas depois do assassinato de Juliano, alguns dos conspiradores, detidos no Palazzo dei Signori, foram lançados das janelas do segundo andar do palácio, caindo na praça. Uma multidão em fúria os agrediu. Francesco de Pazzi e Bernardo Barocelli foram enforcados em praça pública poucas horas depois do ataque.[1]

Os Médici gozavam de grande popularidade junto à população, que não hesitou em participar na vingança contra os Pazzi. Nos dias que se seguiram, os membros daquela família foram capturados, exilados ou executados.[1]

O evento teve o efeito de reforçar o poder de Lourenço, o Magnífico, em Florença. Ele passou a contar com um grande apoio popular, e eliminou a antiga ameaça dos Pazzi.[1]

Representações na arte

Vénus e Marte de Sandro Botticelli. Juliano de Médici terá servido de modelo para a pintura.
A Primavera de Sandro Botticelli. Segundo algumas interpretações, Juliano de Médici serviu de modelo para Mercúrio, que surge à esquerda do quadro.

Por ser jovem e popular, a morte de Juliano chocou Florença e a Itália, em geral. Nos anos seguintes, foram encomendados vários retratos dele para uma exposição pública para o homenagear, e para dissuadir outros conspiradores. O mais famoso pertence a Botticelli — Retrato de Juliano de Médici. O facto do modelo aparecer de olhos fechados nessa obra sugere que tenha sido pintado a partir de uma máscara mortuária.

Juliano serviu de modelo para Marte no famoso Vénus e Marte, também de Botticelli. Segundo algumas interpretações, foi modelo de Mercúrio na obra A Primavera, do mesmo autor.[9][10] Em ambas as obras, surge também a figura feminina que pode ser baseada em Simonetta Vespucci, uma nobre de Florença, considerada a mulher mais bonita do Renascimento e que pode ter sido amante de Juliano.[11]

Uma das interpretações de A Primavera diz que a obra é uma homenagem a Juliano de Médici e Simonetta Vespucci que morreram jovens, de forma trágica e com uma diferença de exatamente dois anos. Segundo esta interpretação, as duas figuras na esquerda do quadro, de Mercúrio e de uma das Três Graças, baseiam-se nos dois jovens. Cupido, no topo do quadro, está a disparar uma seta de amor na sua direção.[12]

No entanto, esta interpretação é bastante contestada por vários motivos. Não existem provas e é até bastante improvável que Juliano e Simonetta fossem amantes: o marido de Simonetta, Marco Vespucci era um aliado da família Médici e uma relação entre eles seria um grande risco político. Além disso, não existem provas de que Simonetta ou Juliano fossem modelos de Botticelli e a ideia é mesmo considerada um "mito romântico" pelo historiador Ernst Gombrich.[11] O historiador Leopold Errlinger descreveu esta interpretação como "ridícula".[12]

Referências

  1. a b c d e f g «The Pazzi conspiracy: The Scholar, the Prince and the Priest». The Ultimate History Project (em inglês). Consultado em 28 de agosto de 2018 
  2. Lorenzo de’ Medici, Lettere, VIII, a cura di H. Butters, Firenze. 2001, p. 71
  3. Hugh Ross Williamson, Lorenzo the Magnificent, Michael Joseph, (1974), ISBN 07181 12040
  4. «Il Catalogodi libri diGiambattistaMorgagni. Edizione deltesto eidentificazionedegliesemplari possedutidalla Biblioteca Universitaria di Padova,a cura di Elisabetta Barile e Rosalba Suriano. Saggio introduttivo di Giuseppe Ongaro, Padova, Edizioni Lint, 1983 (Centro per la Storia dell'Universit di Padova. Biblioteca Universitaria di Padova).». Annali dell'Istituto e Museo di storia della scienza di Firenze. 10 (1): 180–200. 1 de janeiro de 1985. ISSN 0391-3341. doi:10.1163/221058785x02163 
  5. A. Poliziano, Pactianae coniurationis commentarium, p. 62-65, cura di A. Perosa, Padova 1958
  6. Milana, Giuliano. «TECNICHE GEOFISICHE NON INVASIVE PER LA MAPPATURA DI CAVITÀ SOTTERRANEE.». Quodlibet: 72–77. ISBN 9788822909190 
  7. «CATHOLIC ENCYCLOPEDIA: Pope Clement VII». www.newadvent.org. Consultado em 28 de agosto de 2018 
  8. «Giuliano de' Medici». www.nga.gov. Consultado em 28 de agosto de 2018 
  9. 1913-, Ettlinger, Leopold D. (Leopold David),; 1445-1510., Botticelli, Sandro, 1444 or (1976). Botticelli. London: Thames and Hudson. ISBN 050018156X. OCLC 2734372 
  10. Heyl, Charles Christian (1912). The Art of the Uffizi Palace and the Florence Academy (em inglês). [S.l.]: L.C. Page 
  11. a b Jiminez, Jill Berk (15 de outubro de 2013). Dictionary of Artists' Models (em inglês). [S.l.]: Routledge. ISBN 9781135959142 
  12. a b "Ettlingers": Leopold Ettlinger with Helen S. Ettlinger, Botticelli, 1976, Thames and Hudson (World of Art), ISBN 0500201536