Josefologia

Josefologia é o estudo teológico de José, o esposo da Virgem Maria. Registros de devoções a José remontam ao ano 800, e Doutores da Igreja, desde Tomás de Aquino, têm escrito sobre o assunto. Com o crescimento da Mariologia, o estudo teológico de José também cresceu e, na década de 1950, centros específicos para ele foram formados. O estudo moderno da teologia referente a José é uma das disciplinas teológicas mais recentes.[1][2]
A devoção a São José desenvolveu-se lentamente na História da Igreja.[3] Os documentos pontifícios católicos, por exemplo, que o têm como tema principal só começam a surgir a partir do século XIX, tais como:
Uma frase atribuída a São João da Cruz - quando a Igreja já tinha XVI séculos de história -, de uma certa maneira, resume este lento processo de valorização da figura de São José:[4]
| “ | "Não entendi [a São José] muito bem, mas isso mudará". | ” |
— São Josão da Cruz.
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O dito atribuído a João da Cruz não é de espantar, dada a sua estreita amizade com a Doutora da Igreja Santa Teresa de Ávila, reconhecidamente uma fiel devota do pai adotivo de Jesus. É comum na literatura devocional, nos estudos históricos e nos escritos papais que Santa Teresa de Ávila desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da veneração a São José.[5][6][7]
Em fato, Santa Teresa de Ávila, em Livro da Vida, declarou:[8]
| “ | Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e encomendei-me muito a ele. Vi claramente que, tanto desta necessidade como de outras maiores de honra e perda de alma, este Pai e Senhor meu me tirou com maior bem do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo até agora de lhe ter suplicado coisa que tenha deixado de fazer. É coisa de espantar as grandes mercês que Deus me tem feito por meio deste bem-aventurado Santo e dos perigos de que me tem livrado, tanto no corpo como na alma. | ” |
— Santa Teresa de Ávila.
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Outra Doutora da Igreja, mais recente, e de grande influência na espiritualidade católica contemporânea, Santa Teresinha do Menino Jesus, também explicitou sua profunda confiança em São José:[9]
| “ | Pedi também a São José para velar por mim; desde a minha infância, tinha por ele uma devoção que se confundia com meu amor pela Santíssima Virgem. Todo dia rezava a oração: "Ó São José, pai e protetor das virgens"; por isso, empreendi sem receio minha longa viagem, estava tão bem protegida que me parecia impossível ter medo. | ” |
— Santa Teresinha do Menino Jesus.
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No que diz respeito a esta devoção, o Papa Francisco reconhece e afirma na Carta Apostólica Patris corde:[10]
| “ | "Muitos Santos e Santas foram seus devotos apaixonados, entre os quais se conta Teresa de Ávila que o adotou como advogado e intercessor, recomendando-se instantemente a São José e recebendo todas as graças que lhe pedia; animada pela própria experiência, a Santa persuadia os outros a serem igualmente devotos dele." | ” |
— Papa Francisco.
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Os centros de estudos sobre Josefologia têm crescido muito nas últimas décadas.[11] Um dos principais polos de difusão são os vinculados ao Oratório de São José, em Montreal, Canadá.[12]
A Josefologia impõe-se quase como uma exigência nos estudos teológicos, atualmente, pois: São José, se não é desmerecido, ou pouco conhecido, é "mal conhecido", considerando-se que muitíssimas igrejas são dedicadas a ele no mundo inteiro; que ultrapassa o número de 200 as congregações religiosas que o têm como protetor; e que, ainda, ele é, oficialmente, o "Patrono Universal da Igreja".[13]
Contexto histórico
Antecedentes
No aspecto histórico para o desenvolvimento da Josefologia cabe citar a obra Contra Elvidium (c. 383), de São Jerônimo, que abriu caminho para aspectos da futura devoção josefina, com sua afirmação de que José permanecia eternamente virgem, em consonância com o futuro dogma da virgindade perpétua de Maria.[14] Na Igreja Ocidental, a primeira evidência de uma devoção formalmente estabelecida a São José encontra-se no Martirológio de Rheinau, no norte da França, datado do ano 800. Com o desenvolvimento da Mariologia, as referências a José como nutritor Domini ("educador/guardião do Senhor") continuaram a aumentar do século IX ao século XIV.[15] No século XII, monges beneditinos começaram a incluir seu nome em calendários litúrgicos e martirológios.[16][17]
No século XIII, o dominicano São Tomás de Aquino defendeu a necessidade da presença de José no plano da Encarnação porque, segundo ele, se Maria não tivesse se casado, seus companheiros judeus a teriam apedrejado até a morte como adúltera. Além disso, o menino Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, ainda precisaria do cuidado amoroso e da proteção de uma figura paterna humana devido à sua humanidade. A adoção de José, portanto, segundo este Doutor da Igreja, é um momento chave na genealogia de Jesus, visto que seu suposto pai descende diretamente do Rei Davi.[18]
No século XV, Bernardino de Sena, Pierre d'Ailly e Jean Gerson, chanceler da Catedral de Notre Dame em Paris, fizeram avanços importantes. Gerson escreveu um longo tratado em francês intitulado Consideration sur Saint Joseph, bem como um poema latino de 120 versos dedicado a ele. De 1416 a 1418, Gerson pregou sermões sobre São José no Concílio de Constança, nos quais tomou emprestados muitos conceitos de temas mariológicos.[19]
Séculos XVI-XIX
Em 1540, foi consagrada a primeira igreja em homenagem a São José, a igreja San Giuseppe dei Falegnami, em Roma, localizada no Fórum Romano, acima da prisão que tradicionalmente abrigava os apóstolos São Pedro e São Paulo.[20] Em 1597, a primeira versão da Ladainha de São José foi publicada em Roma e, em 1697, foi fundada a primeira confraria do santo, a Arquiconfraria do Cordão de São José, em Antuérpia, com sede na San Rocco all'Augusteo, em Roma. Em 1850, foi introduzido o Terço de São José, dividido em quinze grupos de quatro contas, compostos por uma branca e três roxas; em 1880, o Escapulário Capuchinho de São José foi aprovado.[21] A veneração formal da Sagrada Família começou no século XVII com o trabalho de São Francisco de Laval.
A partir do século XVI, numerosos santos católicos rezaram a São José, invocaram sua ajuda e proteção e encorajaram outros a fazê-lo. Em sua Introdução à Vida Devota, Francisco de Sales incluiu José e a Virgem Maria entre os santos a serem invocados durante a oração após o exame de consciência.[22] Santa Teresa de Ávila atribuiu sua cura a José e o recomendou como defensor da justiça.[23] Em sua biografia, História de uma alma, Santa Teresa de Lisieux afirmou que, por algum tempo, rezava diariamente a "São José, pai e protetor das virgens..." e se sentia a salvo do perigo.[24] Todos esses três santos são Doutores da Igreja.
Em 1870, o Papa Pio IX proclamou São José "Patrono da Igreja Universal". Em 1889, o Papa Leão XIII publicou a encíclica Quamquam pluries, exortando os católicos a rezarem a José como padroeiro da Igreja. Isso ocorreu em vista dos desafios que a Igreja era chamada a enfrentar, como a crescente depravação moral das gerações mais jovens. O Sumo Pontífice prescreveu que todo mês de outubro uma Oração a São José fosse acrescentada ao Rosário, com as indulgências correspondentes.
Todos estes eventos colaboraram para o florescimento de uma espiritualidade josefina, e, consequentemente, para o surgimento da Josefologia, enquanto disciplina, no século XX.
Desenvolvimentos recentes
Com o crescimento da Mariologia, o estudo teológico de José também começou a se expandir para discutir seu papel na Economia da Salvação. Três centros de Josefologia foram formados na década de 1950: o primeiro em Valladolid, Espanha; o segundo, no Oratório de São José, em Montreal; e o terceiro em Viterbo, Itália.[25][26][27][28]
Referências
- ↑ Curso de Josefologia. OSJ. Consultado em 13 de outubro de 2025.
- ↑ The Nature and Extend of Josephology. Catholic Insight. Consultado em 13 de outubro de 2025.
- ↑ Josephology Studies. Josephology Society. Resources. Consultado em 14 de outubro de 2025.
- ↑ In, CALDECOTT, Stratford. The Chivalry of St. Joseph. Uma palestra ministrada aos "Knigths of Our Lady", em 19 de outubro de 2002.
- ↑ TERESA DE JESUS, Santa. O livro da vida. Tradução de Pe. Ambrósio de Pina. 22. ed. Petrópolis: Vozes, 2010, capítulo VI (Coleção Clássicos da Espiritualidade). ISBN 978-85-326-3442-8.
- ↑ CHORPENNING, Joseph F., OSFS. Saint Joseph and the Carmelite Reform of Saint Teresa of Ávila: Father, Teacher of Prayer, Intercessor in Every Need. Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 2025. ISBN 978-0-8132-3882-1
- ↑ Conheça 3 santos amigos de São José. Carmelitas Mensageiras do Espírito Santo. Consultado em 14 de outubro de 2025.
- ↑ Santa Teresa de Ávila, Livro da Vida, Capítulo VI
- ↑ Santa Teresinha do Menino Jesus. História de uma Alma. São Paulo: Edições Loyola, 1996, p.113-114.
- ↑ Papa Francisco. Carta Apostólica Patris Corde. Item 1.
- ↑ Centros de Estudos e de Publicações Josefinas. OSJ. Consultado em 14 de outubro de 2025.
- ↑ « Joséphologie » ou la science de saint Joseph. L'Oratoire Saint-Joseph du Mont-Royal. Consultado em 14 de outubro de 2025.
- ↑ Curso de Josefologia. OSJ. Consultado em 14 de outubro de 2025.
- ↑ JERÔNIMO, São. A virgindade perpétua de Maria. Tradução de José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto. São Paulo: Paulus, 1997.
- ↑ DALMAIS, Irénée. (org). The liturgy and time. Pierre Jounel 1985, p 143. ISBN 0-8146-1366-7
- ↑ JESTICE, Phyllis G. Holy people of the world: a cross-cultural encyclopedia. Volume 3, 2004, p. 446. ISBN 1-57607-355-6 p. 446
- ↑ PRANGER, M. B. Bernard of Clairvaux and the Shape of Monastic Thought: Broken Dreams. Leiden: Brill, 1994, p. 244. (Brill’s Studies in Intellectual History, v. 56). ISBN 90-04-10055-5.
- ↑ AQUINAS, Tomás de. The Childhood of Christ: Summa Theologiae, 3a. 31–37. Tradução e edição de Roland Potter. Cambridge: Cambridge University Press, 2006, p. 110–120. ISBN 0-521-02960-0.
- ↑ PARSONS, John Carmi; WHEELER, Bonnie (orgs.). Medieval Mothering. New York; London: Garland Publishing, 1999, p. 107. ISBN 0-8153-3665-9.
- ↑ WATKIN, David. The Roman Forum. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2009. p. 128. ISBN 0-674-03341-8.
- ↑ BALL, Ann. Encyclopedia of Catholic Devotions and Practices. Huntington, Ind.: Our Sunday Visitor, 2003. p. 520. ISBN 0-87973-910-X.
- ↑ de Sales, São (St. Francis). Introduction to the Devout Life. London: Kessinger Press, 1942. p. 297. ISBN 0-7661-0074-X.
- ↑ Teresa de Ávila, Santa. The Interior Castle. New York: Paulist Press, 1979. p. 2. ISBN 0-8091-2254-5.
- ↑ Therese de Lisieux, Santa. The Story of a Soul. Bibliolife, 2008. p. 94. ISBN 0-554-26158-8.
- ↑ P. de Letter, "The Theology of Saint Joseph", The Clergy Monthly, March 1955, Online at JSTOR
- ↑ Josephology Society International. Consultado em 20 de outubro de 2025.
- ↑ Centro Josefino Español. Consultado em 20 de outubro de 2025.
- ↑ « Joséphologie » ou la science de saint Joseph. Oratoire Saint-Joseph. Consultado em 20 de outubro de 2025.