José Mauricio Nunes Garcia Junior

José Mauricio Nunes Garcia Junior
Nascimento10 de dezembro de 1808
Morte18 de outubro de 1884
Ocupaçãomédico

José Mauricio Nunes Garcia Júnior (Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1808 – Rio de Janeiro, 18 de outubro de 1884) foi um médico, compositor, organista, pintor, anatomista, e professor catedrático da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

Atuou como professor substituto e catedrático da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro entre 1833 a 1857. Filho de José Maurício Nunes Garcia e de Severiana Rosa de Castro.

Doutorado pela antiga Academia Médico Cirúrgica em 1831, defendendo a tese “Torção das Artérias”. Foi eleito membro da Academia Nacional de Medicina em 1836, com o número acadêmico 52, na presidência de Joaquim Cândido Soares de Meireles.[1]

Homem negro e livre, ele viveu no contexto escravocrata brasileiro. Era bisneto de escravizados oriundos da região da Guiné, na África, e seus pais nasceram livres[2]. Recebeu sólida formação intelectual e humanística de seu pai, compositor e funcionário da Corte, o padre José Mauricio Nunes Garcia.

Optou pela carreira médica devido aos contatos do pai na Corte carioca. A partir dos ensinamentos de cultura geral e idiomas (italiano, francês e latim) recebidos do pai[3],. Foi matriculado como aluno externo no Seminário São José para aperfeiçoamento intelectual. É plausível pensar que a escolha do pai já visava ao ingresso do filho na então Academia Médica-Cirúrgica, antecessora da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

A trajetória do doutor José Mauricio Nunes Garcia Júnior acompanhou as grandes mudanças históricas e da própria história da Saúde do país. Ele testemunhou a passagem do período joanino para o Primeiro Império, as regências, e o Segundo Império. Morreu alguns anos antes da assinatura da Lei Áurea.

Como professor catedrático, foi autor de teses e métodos anatômicos, além de discursos como docente daquela faculdade. Na Academia Imperial de Medicina, foi autor de pesquisas relacionadas à elefantíase, parto, anatomia e febre amarela. Entretanto, pesquisou diversos outros temas, sendo pioneiro[4] na prática do sonambulismo no Brasil e adepto do magnetismo animal. O doutor Nunes Garcia Júnior foi membro da Sociedade de Propaganda do Magnetismo" e o "Júri Magnético , inaugurada em 1862, com a presença do Imperador dom Pedro II.[5]

Por meio de concurso público de 1839, foi o primeiro professor concursado e catedrático de anatomia geral e descritiva da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Foi vítima de preconceito racial na Escola Médica, tanto como professor substituto quanto catedrático, e denunciou, constantemente, o seu grande oponente e desafeto, o doutor José Martins da Cruz Jobim, diretor da Faculdade de Medicina durante muitos anos.

O doutor Nunes Garcia foi casado entre 1833 e 1853 com Anna Francisca da Silva, com quem teve dois filhos: José Mauricio Nunes Garcia Filho e Apolinário Nunes Garcia, ambos mortos em tenra idade. Após vinte anos de união, desquitou-se de Anna Francisca, em cartório, acusando-a de tentativa de assassinato, por meio de envenenamento, com "vidro moído e a planta timbó,"[6] colocados em suas refeições, em um escândalo que marcou profundamente sua vida pública e pessoal[7].

Além disso, ele foi autor de discursos, pinturas, composições, uma autobiografia e outros documentos que registram sua existência.

Após sucessivas crises de fotofobia, artrite e artroses José Maurício Numes Garcia Júnior morreu no dia dedicado ao médico, em 18 de outubro de 1884,, aos 77 anos, em um imóvel localizado na rua Luiz de Camões, 62, após anos residindo em sua chácara no bairro do Rio Comprido.

Nunes Garcia Júnior foi sepultado no cemitério de São João Batista . Deixou para atrás, dois irmãos por parte de pai e mãe, o jornalista, Antônio José Nunes Garcia (1813-1894), e Josefina Rosa de Castro.(1810-1891).[8]

Vida

_________________________

Primeiros anos

Nasceu em 10 de dezembro de 1808, na Rua dos Borbonns (atual rua Evaristo da Veiga), nas proximidades dos Arcos da Lapa e da Rua das Marrecas, onde seu pai, o padre José Mauricio, mantinha um curso público de música. Sua mãe foi Severiana Rosa de Castro, nascida em 1788 nas proximidades do Valongo. Ela foi filha de um português do Porto, João de Castro Moreira, com Andreza Maria da Piedade. É plausível pensar que Andreza fosse uma escravizada ou liberta desse português. O padre José Mauricio e Severiana viveram uma relação concubinada, provavelmente de 1806 até ao menos o ano de 1813[9],, quando nasceu o último dos cinco filhos do casal: Apolinario José, organista (1807-?); José Mauricio Jr. (1808-1884); Panfilia (1810- ca.1850); Josefina (1811-1891); Antônio José Nunes Garcia, jornalista (1813-1894). É plausível que, a partir de 1816, ano da morte de Vitória Maria, mãe do padre José Mauricio e figura fundamental na criação dos netos, acompanhada da mudança de residência do padre José Mauricio da Rua dos Borbons para a Rua dos Inválidos e o fechamento do curso de música na Rua das Marrecas, tenha contribuído para o afastamento de Severiana do religioso. De fato, ela se casou posteriormente, em 1819,[10]] com o ourives, Antônio Rodrigues Martins, com quem teve quatro filhos: Severiano Rodrigues Martins, Emília Rosa Martins, Deolinda Rosa Martins e Francisco Rodrigues Martins, sendo os dois homens médicos de renome tanto na Corte carioca como na cidade de Resende, onde o doutor Francisco Rodrigues Martins, veio a óbito, contando com menos de 30 anos[11]. O doutor Severiano Rodrigues Martins foi quem tratou do compositor Louis Moreau Gottschalk, quando de passagem pela Corte carioca; o compositor contraiu febre amarela e veio a óbito em 1869. Severiana Martins manteve proximidade com os filhos após a morte do padre José Mauricio, vindo a óbito em 1878, aos 90 anos, em um sobrado na Rua Ipiranga, no bairro de Laranjeiras.[12]

Nos primeiros anos de vida, o futuro doutor Nunes Garcia Júnior, aprendeu as primeiras letras, em casa, com o pai, que também lhe ensinou i(taliano, geografia, lógica e retórica), pelas mesmas apostilas do tempo em que o padre José Mauricio estudou com o professor Manuel da Silva Alvarenga nos idos da Sociedade Literária Carioca.

. Além disso, por conta dos contatos paternos, aprendeu a língua francesa com o professor padre Antônio Manoel de Moraes e caligrafia com um velho português, em casa. [13] Em 1823, matriculou-se como aluno externo nas aulas de francês e filosofia do Seminário São José com os professores padre Franchè, no idioma francês e, frei Perez, em filosofia, sendo condiscípulo do escritor Gonçalves de Magalhães.[14]

No ano de 1824, a Academia Médica-Cirúrgica anunciou a abertura de inscrições para alunos naquele ano letivo. Segundo o doutor Nunes Garcia, foi graças aos contatos do pai que ele pôde se apresentar ao diretor, barão de Inhomirim, para fazer exame de francês e matricular-se no primeiro ano daquela Academia médica, sem passar por exames, conforme palavras do doutor Nunes Garcia em seus apontamentos biográficos[15].

Na primeira aula anatômica da antiga Academia Medica- Cirúrgica, o doutor Nunes Garcia informa que, dos 72 alunos matriculados, boa parte abandonou o curso horrorizada com as demonstrações cadavéricas ministradas pelo professor de anatomia, doutor José Joaquim Marques. Dos contemporâneos do doutor Nunes Garcia Júnior nos tempos de aluno da Academia Médica-Cirúrgica, ele cita os médicos João Francisco de Souza, Porfirio J. da Rocha e Francisco Crispiano Valdetaro..[16]

Nesse período, as aulas da Faculdade Médica ocorriam no Morro do Castelo, no antigo Colégio dos Jesuítas que se localizava na parte mais alta desse sopé. As aulas de patologia eram ministradas pelo professor doutor Antônio Amâncio de Azevedo; Patologia Crítica e Higiene com o professor diretor, barão de Inhomirim; Partos e Arte Obstétrica, doutor Cambucy do Valle; Operação e Aparelhos, Jerônimo Alves de Souza; Medicina Prática e Arte de Formular, doutor Mariano J. do Amaral; e Medicina Legal, doutor João Fernandes Tavares.[17]

Em 1829, os estatutos determinavam que, para se ter o título de "cirurgião", era necessário repetir as matérias do 4º e 5º ano, conforme José Mauricio Nunes Garcia Júnior fez entre os anos de 1830 e 1831.

Além disso, no período de 1825 a 1828, para complementar os estudos acessórios, o futuro doutor Nunes Garcia matriculou-se na Escola Militar, em botânica, química e mineralogia com os professores dom João da Silva Caldeira, frei Custódio Alves Serrão e capitão Paiva..[18]

Em março de 1831, ele concluiu seus estudos acadêmicos como médico e cirurgião, entretanto, foi um período de agitados e violentos episódios na história do Brasil.

Na noite das Garrafadas, o doutor Nunes Garcia já estava munido de seu diploma médico.[19] Formado em medicina e cirurgião apresentou-se como parteiro em diversas residências, atendendo a diferentes classes sociais.

De fato, nesse período, a classe médica, pouco a pouco, firmava-se como detentora de um discurso oficial relativo à saúde, fazendo com que, nesse primeiro momento, o doutor Nunes Garcia vivesse atritos com a tradicional classe das parteiras ou comadres.[20]

Nesse período, ele realizou diversos partos, muitas vezes, acompanhado do amigo pessoal, padrinho de casamento, professor doutor José Maria Cambuci do Valle. A amizade, o respeito e o reconhecimento do doutor Nunes Garcia foram manifestados de forma pública em diversas ocasiões para com seu mestre na arte de partejar, por meio de discursos e de uma composição musical composta por doutor Nunes Garcia para piano, intitulada "Cambucina", por conta da morte desse médico.

O doutor Cambuci do Valle e o compositor Cândido Inacio da Silva foram padrinhos de casamento do doutor Nunes Garcia com Anna Francisca da Silva em 22 de setembro de 1833.

Em 1833, a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro anunciou a abertura de concurso público para contratação de professores para diferentes cadeiras. Para a cátedra de partos, três candidatos concorreram: os doutores negros José Mauricio Nunes Garcia e Francisco Júlio Xavier, recém-formado pela Faculdade de Paris. E o doutor José Cardozo de Menezes, dito protegido do diretor da escola.[21]

De fato, nesse concurso, a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro tornou-se palco dos debates raciais de então, já dados em diferentes setores da sociedade.. [22] Ainda que somente no segundo semestre de 1833 surgisse o primeiro jornal voltado para a causa negra, de propriedade do editor Francisco de Paula Brito, tornando-se o primeiro veículo midiático voltado para uma identidade racialmente negra, entretanto, foi no primeiro semestre daquele ano que a Escola Médica serviu de palco para os embates e tensões entre os ditos homens de "cor" e suas buscas para garantirem seus direitos como cidadãos e livres no serviço público. Em um primeiro momento, os doutores Nunes Garcia Junior e Francisco Júlio Xavier se uniram por seus direitos contra o seus oponentes para, participarem em pé de igualdade com o outro candidato, que, diante de dois oponentes negros, dirigiu-lhes diversos insultos perante a banca examinadora.[23]

Nesse concurso, a vaga ficou com o doutor Francisco Júlio Xavier, entretanto, o doutor José Mauricio Nunes Garcia, por meio de um despacho assinado pelo desembargador Aureliano de Souza Oliveira Coutinho, tomou posse em 16 de julho como professor substituto na cadeira de anatomia, auxiliando seu velho mestre, dr. José Joaquim Marques.

Em 22 de setembro de 1833, três meses após a posse no cargo como professor substituto, o doutor Nunes Garcia Júnior se casou com Anna Francisca da Silva. Dessa união, tiveram os filhos José Mauricio Nunes Garcia Filho e Apolinário Nunes Garcia. A cerimônia realizou-se no dia natalício do pai, padre José Mauricio, três anos após sua morte, na Igreja do Santíssimo Sacramento, contando com a celebração do vigário, Luiz Francisco de Menezes, e os padrinhos dos noivos, o músico e compositor Cândido Inacio da Silva e o médico amigo de longa data doutor José Maria Cambuci do Valle[24]. O registro de casamento, por razões óbvias, não consta o nome do pai do noivo, somente da mãe, Severiana Rosa de Castro. Os pais da noiva eram Francisco Fernandes Novaes e Francisca Inácia da Silva. Sabemos pouco sobre Anna Francisca. Era alfabetizada, sabia ler e escrever[25]. Era de origem da Freguesia da Candelária. O casamento se desfez em 1853, de forma extremamente abrupta, em um processo que envolveu: traições, polícia e tentativas de assassinato. Segundo o doutor Nunes Garcia, a mando de sua esposa Anna Francisca da Silva, que admoestava as suas refeições com veneno.

O enredo é pormenorizadamente narrado pelo doutor Nunes Garcia Júnior. Ele nos informa que, após a morte do filho, Apolinário Nunes Garcia, com menos de 3 anos de idade, seguido da morte repentina do amigo médico, doutor Francisco Júlio Xavier – que deixava em orfandade mais de cinco filhos com uma mulher que era divorciada de um primeiro casamento, em uma relação considerada amoral para a época e que dificultava a criação dos filhos do doutor Júlio –, foi por conta da iniciativa de amigos como o editor Francisco de Paula Brito e do próprio doutor Nunes Garcia Júnior, abriram uma loteria para arrecadar fundos para a criação das crianças.

Além disso, o doutor Nunes Garcia adotou os filhos do finado amigo, levando para sua residência crianças, viúva e amas de leite[26]. O gesto certamente pode ter provocado a irá da esposa, Anna Francisca. Ela conseguiu, em 1851, que o doutor Nunes Garcia Júnior suspendesse o processo de adoção. O período, segundo ele, foi extremamente difícil e delicado. E, para piorar, as constantes crises de sonolência nas aulas que ele ministrava na Escola Médica, até o ano de 1853, período em que o doutor Nunes Garcia descobriu as tentativas de assassinato da esposa com a ajuda de um cozinheiro da residência, que alteravam suas refeições com uso de "timbó e vidro moído"[27] a mando de sua esposa Anna Francisca. O caso foi encerrado com os cozinheiros presos na Casa de Detenção e, Anna Francisca, expulsa da sua residência na presença dos escritores Manuel de Araujo Porto Alegre e Joaquim Manoel de Macedo, e por eles acompanhada até o Saco do Alferes, na Praia do Cajú, onde residia a mãe de Anna Francisca.[28]

No ano de 1839, após a aposentadoria do professor doutor José Joaquim Marques, a Faculdade de Medicina propõe abertura de concurso singular para a cátedra de anatomia. Nunes Garcia Júnior se apresentou como único concorrente para a cadeira anatômica. A singularidade desse concurso se dava pelo fato dele, o doutor Nunes Garcia, ser o único professor substituto daquela cadeira anatômica. Segundo ele, essa disciplina era extremamente maçante e vista com desprestígio por outros médicos, por conta da rápida putrefação dos cadáveres para as aulas de anatomia. Todavia, a diretoria da Escola Médica, na pessoa do doutor José Martins da Cruz Jobim, não aceitou a singularidade desse concurso e dificultou ao máximo sua realização. Para isso, lançaram o nome do recém-médico, doutor Domingos Azevedo Americano, ex-aluno do doutor Nunes Garcia, para se colocar como possível oponente nesse concurso.

Esse fato, extrapolou os muros da Faculdade Médica e alcançaram os principais jornais da época. Em um primeiro momento, o doutor Domingos, apoiado pela diretoria da Escola, expôs a origem sacra do doutor Nunes Garcia, denunciando ser ele o "filho do padre José Mauricio," no Jornal do Comércio.

Alguns dias após essa publicação, foi o doutor Nunes Garcia Júnior que partiu para os jornais. No primeiro momento, ele assumiu publicamente suas origens sacras, confessou "ter recebido todo o ensinamento do seu afamado pai, padre José M. N. G."

E, em um segundo momento, capciosamente, ele traz o embate para o debate racial de então, ao questionar, publicamente, a direção da Faculdade de Medicina por dificultar a realização de um concurso singular e, questiona, se seria por conta da sua "cor" de pele "escura""[29].

Dessa forma, o doutor Nunes Garcia inquiriu a diretoria da Faculdade de Medicina sobre os crimes que ela corria contra um cidadão livre e que pleiteiava , por meio de concurso, uma vaga na Faculdade de Medicina.

Finalmente, o concurso se realizou de forma singular, sem concorrentes. Entretanto, somente por conta de um despacho do desembargador e ministro de Estado, Manuel Antonio Galvão,. O doutor Nunes Garcia pôde realizar suas provas, defendendo tese intitulada "Método de demonstrar o aparelho da audição", perante banca formada pelos professores doutores da Faculdade de Medicina. Ainda assim, após o concurso, a diretoria da Faculdade impôs mais dificuldades para que o doutor Nunes Garcia tomasse posse de sua cátedra. Novamente, graças à intervenção do ministro de Estado Manuel Antônio Galvão, e por meio de um decreto, que ele finalmente se apossou de sua cadeira em fins de 1839, como proprietário da cadeira de anatomia geral e descritiva da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

Os anos seguintes, ainda que como catedrático, foram bastante delicados na Escola Médica. Segundo o doutor Nunes Garcia, ele sofreu os piores "acintes" e "discriminações"[30] de professores, principalmente, do diretor José Martins da Cruz Jobim.

De fato, nesse período, o doutor sofreu diversos problemas de saúde, tendo que, muitas vezes, entrar de licença médica e se deslocar para tratamento em sua casa de veraneio na região de Valença, no estado do Rio de Janeiro.[31]

Vandelir Camilo (2024), em recente pesquisa sobre a história de vida do doutor José Mauricio Nunes Garcia Jr., destacou questões interessantes sobre "raça e cidadania", naquele contexto do século XIX. Para o autor, as estratégias que os homens negros recorriam para terem possibilidades de ascensão social passavam pela formação educacional. Para isso, redes de solidariedade entre esses sujeitos possibilitavam que eles circulassem em diferentes espaços de liberdade, ainda que em um contexto escravocrata. A história de vida do doutor Nunes Garcia Junior é um bom exemplo para analisarmos sua permanência como professor catedrático da Faculdade de Medicina por mais de vinte anos.

Ele esteve no cargo de professor catedrático até o ano de 1857, quando foi jubilado com um salário fixo de 157$000..[32] Ainda que longe do magistério, manteve-se ativamente como pesquisador na Academia Imperial de Medicina, analisando casos de febre amarela, cólera e outros. No campo da parturiente mantinha atendimento em sua clínica particular na Rua da Carioca onde uma vez na semana atendia mulheres pobres e escravizadas grávidas gratuitamente.[33]

Em 1860, inicia seus apontamentos biográficos por solicitação do então secretário do IHGB, o escritor, Joaquim Manoel de Macedo. Nesse texto autobiográfico, o médico reflete sobre sua atuação como catedrático na Faculdade de Medicina, os preconceitos vivenciados, os atentados, a sua formação intelectual e sua constante gratidão ao pai, padre José Mauricio Nunes Garcia. O texto foi finalizado no ano de 1880, em sua chácara no bairro do Rio Comprido, entretanto, a autobiografia não foi entregue ao IHGB, conforme solicitado. Todavia, anos depois, foi adquirida pelo bibliófilo José Carlos Rodrigues, por meio de um auto de sequestro que acrescentou esse texto a sua grande coleção.[34]

Em 1881, um ano após finalizar seus apontamentos biográficos, solicitou um empréstimo ao amigo pessoal Joaquim Manoel de Macedo no valor de um conto de réis, quantia considerável para a época.[35] No ano seguinte, morreu o escritor Manoel de Macedo e a dívida é assumida por um advogado da Corte que judicializou a questão, cobrando os valores do doutor Nunes Garcia Júnior. O processo se arrastou ao menos um ano antes da morte do médico. E, em meados de 1884, alguns meses antes de sua morte, o doutor Nunes Garcia Júnior, transferiu-se de sua chácara no bairro do Rio Comprido para um pequeno imóvel nas proximidades da Academia de Belas Artes e do Conservatório Imperial de Música.

Foi ali, na Rua Luiz de Camões, 62, que o doutor José Mauricio Nunes Garcia Júnior veio a óbito no dia 18 de outubro de 1884.

Às 8h da manhã, foi chamado um padre para administrar a extrema-unção, entretanto, o moribundo dispensou a presença de um religioso, não quis ele receber os últimos sacramentos[36]. Os amigos médicos, doutores, José Joaquim França, João José da Silva e Ignacio Goulart foram os inventariantes, e acompanharam de perto os últimos momentos. Ainda que o doutor Nunes Garcia tenha tomado todas as providências com aquisição de sepultura, exéquias, missas pós-mort e o seu testamento. Esse documento contou com a assinatura da irmã, Josefina Rosa de Castro, e deixava uma elevada quantia de mais de contos de réis, guardado no Montepio Geral dos Servidores do Estado, e beneficiava diferentes famílias.[37]

No dia seguinte ao óbito, o corpo foi transladado do centro do Rio de Janeiro, para o outro lado da cidade, no Cemitério São João Batista da Lagoa. Os jornais informaram a ausência de representantes da Faculdade de Medicina e da Academia Imperial de Medicina, instituições das quais o doutor Nunes Garcia Júnior fez parte, entretanto, as exéquias foram acompanhada por alguns populares que se fizeram presente na despedida desse velho médico professor emérito catedrático da Faculdade de Medicina, e um dos cinco filhos do padre José Mauricio Nunes Garcia com Severiana Rosa de Castro.

As Composições


Doutor Nunes Garcia, além de sua ocupação principal como médico e professor catedrático, foi pianista e compositor de destaque da música brasileira. É certo que a formação recebida do pai no campo musical é descrita por ele em seus apontamentos biográficos. Ainda menino, frequentou as aulas de música do pai na Escola mantida pelo padre José Mauricio na Rua das Marrecas; é importante destacarmos que compositores como Francisco Manuel da Silva, autor do Hino Nacional Brasileiro, e Cândido Inácio da Silva frequentaram as aulas do padre José Mauricio.

Doutor Nunes Garcia, além de sua ocupação principal como médico e professor catedrático, foi pianista e compositor de destaque da música brasileira. É certo que a formação recebida do pai no campo musical é descrita por ele em seus apontamentos biográficos. Ainda menino, frequentou as aulas de música do pai na Escola mantida pelo padre José Mauricio na Rua das Marrecas; é importante destacarmos que compositores como Francisco Manuel da Silva, autor do Hino Nacional Brasileiro, e Cândido Inácio da Silva frequentaram as aulas do padre José Mauricio.

Além disso, o doutor Nunes Garcia nos informa sobre a vida cotidiana dessa escola de música. A ausência de instrumentos na aula para acompanhamento dos alunos e nos detalha um encontro com o cantor castrato Giovanni Faccioti que, por essa época, vivia no Brasil. Nesse encontro, ambos apostaram cantar o dueto "Quando mortus morietur" do "Stabat Mater" do compositor Joseph Haydn [38]

Doutor Nunes Garcia, garboso em suas declarações, nos informa ter alcançado notas mais agudas do que o cantor castrato e se atirado cada vez mais com afinco no campo musica inclusive tocando órgão na igreja da Lampadosa e do Santíssimo Sacramento.[39]

A década de 1830 foi produtiva na lavra composicional do doutor Nunes Garcia Júnior. São diversas composições para piano e outras para canto e piano com modinhas, lundus e barcarolas escritas pelo médico. É fundamental destacarmos que, nesse momento, a música brasileira passava por grandes transformações: A impressão de partituras. A popularização do piano na cidade do Rio de Janeiro, e a profusão de composições modinheiras e lundus na sociedade brasileira. Boa parte dessas composições do doutor Nunes Garcia Júnior foram ajuntadas em um álbum intitulado "As Mauricinas", em homenagem ao padre José Mauricio Nunes Garcia.

Antes de adentrar a essas "Mauricinas", seja relevante destacar outras composiçúniorvulsas do doutor Nunes Garcia Junior. Há uma composição em homenagem a sua mãe, Severiana Rosa de Castro, para canto e piano, intitulada "Na solidão da noite". Assim como, uma modinha intitulada "Fora o regresso".

"As Mauricinas" são uma coleção de canções para piano, e para canto e piano, únior tas pelo doutor Nunes Garcia Junior; em dois volumes: um volume em versão autógrafo manuscrito e, outro volume, em versão impressa, lançado em 1849 pela Tipografia Healton & Rensburg.

O frontispício da obra é uma capa desenhada pelo médico com homenagens que destacam as produções musicais e intelectuais do pai, padre José Mauricio. E, a outra versão, manuscrito autógrafo, para canto e piano, contendo modinhas e lundus. Ambas as versões contêm parcerias com os mais destacados intelectuais da época, amigos pessoais do doutor Nunes Garcia Júnior, tal qual Manuel de Araujo Porto Alegre, Joaquim Manoel de Macedo, Francisco de Paula Brito e outros.

Diferentes pessoas do ciclo social do médico são homenageadas nessas composições, tal qual o escritor Porto Alegre, por meio de uma composição intitulada "Porto Alegrense". o pai, padre José Mauricio, é homenageado com uma composição intitulada "Saudades de meu pai". Assim como, o amigo pessoal e compositor, Cândido Inacio da Silva, morto prematuramente, é homenageado com uma música para piano intitulada "Saudades Negras".[40]

No frontispício das "Mauricinas" na versão impressa, o filho destaca as composições religiosas do pai como Missas, Ladainhas e Te Deum. E, na parte superior, são destacados os sermões produzidos pelo padre José Mauricio Nunes Garcia.[41]

"As Mauricinas" na versão manuscrita contêm composições para canto e piano, e na versão impressa, composições para piano. É importante destacarmos que, no período de 1830 até 1839, o doutor Nunes Garcia compôs mais de dez peças musicais, em uma média de duas composições por ano. Entretanto, é mportante destacarmos que, nesse mesmo período, surgiam, por meio da tipografia P. Laforge, duas composições póstumas do padre José Mauricio: "No momento da partida" (1837) e "Beijo a mão que me condena" (1838).

Vandelir Camilo (2024) destaca, no campo da memória social, uma interessante passagem que ajuda a explicar esse silenciamento sobre essas composições e de como música, memória, poder e sociedade podem atender a diversos interesses, seja na exaltação de determinadas composições musicais, seja no silenciamento e apagamento de determinadas músicas, a depender do contexto.

Em fins de 1890, o empresário Alfredo Pinto de Morais, por meio do Jornal do Comércio, informava ao Visconde de Taunay – que era naquele momento um importante herdeiro da memória do padre José Mauricio e que tinha como grande projeto a aquisição de todas as composições manuscritas do padre José Mauricio – por parte do Estado Brasileiro. Na reportagem, o empresário informava ao Visconde ter adquirido em um leilão na Corte carioca duas obras musicais de pai e filho localizadas em um mesmo envelope. Tratava-se da Missa de 1801 para coro e orquestra do padre José Mauricio, e o álbum musical de partituras "Mauricinas" do dr. Nunes Garcia Júnior. Ora, até aquele momento, havia por parte do Visconde de Taunay uma tentativa de solidificação no projeto de memória ao padre José Mauricio Nunes Garcia, por meio do Estado brasileiro, como o maior compositor sacro brasileiro.

Dessa forma, o destino das "Mauricinas" foi, por parte da inteligência cultural brasileira, daquele momento, o silenciamento e, posteriormente, o apagamento, dessas partituras do doutor Nunes Garcia Júnior estendido até os dias de hoje. O historiador Michel Pollak (1989) apresentou uma pertinente discussão sobre disputas de memória quando problematizou como algumas memórias proibidas ou clandestinas, presentes em diferentes contextos culturais, evidenciam a existência de um fosso que separa a sociedade civil e a ideologia de um partido, ou de um Estado que busca estabelecer uma narrativa hegemônica.

Por esse caminho, a proposta de estatizar as partituras e, por conseguinte, a história de vida do religioso padre José Maurício, idealizada pelo Visconde de Taunay, em fins do século XIX, buscou produzir um mito, por meio da história de vida e das composições do padre José Mauricio Nunes Garcia, todavia, esse mito era estabelecido a partir da interdição a qualquer referência ao filho médico e compositor, ainda que em homenagem à memória do pai padre.

As Teses Médicas

O doutor José Mauricio Nunes Garcia Júnior apresentou a defesa de três teses na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em concursos nos anos de 1833, 1838 e 1839 para provimento no cargo de professor da Escola Médica da Corte. O primeiro concurso para a cátedra de partos, o segundo para a cadeira de Operações e Aparelhos e, finalmente, o terceiro para a cadeira de anatomia geral e descritiva.

A tese de 1833 do doutor Nunes Garcia, intitulada "Ensaio sobre as manobras em geral, demonstrado por classe", foi defendida em 26 de março de 1833. O trabalho foi editado na tipografia de Lessa & Perez, localizada na Rua do Hospício, 222. O texto contém uma média de vinte e duas páginas e é dedicado ao seu mestre e amigo, o doutor José Maria Cambuci do Vale, que partiu em Comissão para o Estado do Ceará para atuar na revolta de Pinto Madeira na época dessas provas. Na dedicatória, o doutor Nunes Garcia destaca o seu aprendizado na área obstétrica ao seu mestre: "se tudo o que sei, ou pelo menos, o que não ignoro da arte obstétrica, é filho do vosso incansável gênio, não é possível que o meu primeiro trabalho sobre esta arte deixe de te pertencer". Além disso, o autor acrescenta uma dedicatória ao seu pai, reconhecendo todo o esforço e dedicação para sua formação, três anos após a morte do padre José Maurício Nunes Garcia.

A tese de 1833 apresenta, além do capítulo inicial, princípios e regras gerais para as manobras no parto. No mais, há três grandes mapas relativos à parturiente e ao feto. O primeiro mapa demonstrativo das dimensões e diâmetros do feto que dizem respeito à arte de partejar, seguindo os anatomistas Jacques-Pierre Maygrier e Alfred Velpeau. Ambos foram médicos franceses e participaram ativamente de transformações no campo da obstetrícia. A influência da escola médica francesa, nesse período, conforme apontado por Ferreira (1994), é demonstrada no uso desses autores europeus, entretanto, se até aquele momento os manuais e livros sobre o parto eram exclusivamente no idioma de origem, essa geração de médicos inovava traduzindo ou adaptando essas obras às suas experiências, vivências e realidade brasileira. O texto é bastante metódico e instrutivo para que parteiros possam deter o conhecimento relativo às diferentes manobras para o parto. Segundo o autor, o objetivo foi exaltar os preceitos da arte obstétrica para estar a serviço das mulheres no momento do parto e em suas diferentes possibilidades de manobras que garantam a realização de um bom parto para a mãe e o recém-nascido.[16]

A tese de 1838 foi defendida em concurso para provimento de cargo na cadeira de operações e aparelhos, aberta em virtude das trocas de professores. A tese, intitulada "Dissertação inaugural sobre o valor terapêutico dos hemostáticos de Paré e M. Amussat ou a ligadura e a torção de artérias em paralelo", foi apresentada à Faculdade em sete de maio de 1838, e dedicada ao amigo médico, doutor Otaviano Maria da Rosa, membro titular e ex-presidente da Academia Imperial de Medicina. Na dedicatória, doutor Nunes Garcia Junior destaca a amizade e os ensinamentos do doutor Otaviano Rosa: "Se é o reconhecimento a primeira qualidade de uma alma bem formada, e a ingratidão o pior dos delitos do coração humano; antes de vos provar que amo, firmado nos mais puros sentimentos da amizade que vos consagro, vos rogo, aceiteis este meu trabalho", dedicava o doutor Nunes Garcia ao amigo e mestre.

A obra se diferencia não somente das teses defendidas naquele ano, mas de boa parte das defesas da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro por totalizar uma média de cento e cinco páginas, ao contrário de parcela considerável de trabalhos médicos defendidos naquela escola. Além disso, é um texto extremamente inovador, na medida em que é apresentado um denso trabalho que inclui pesquisas e dados de outros médicos e revelam a relação do doutor Nunes Garcia como médico e pesquisador do corpo escravizado.

Grosso modo, a tese analisa o valor terapêutico dos hemostáticos de Ambroise Paré e de Jean Zuléma Amussat, destacando duas técnicas: a torção das artérias e a ligadura. Nunes Garcia buscou, de modo comparativo e anatomoclínico, destacar três pontos dessa tese: a importância do conhecimento anatômico, que era sua área de atuação na Faculdade de Medicina como catedrático; o conhecimento clínico, onde ele atuou paralelamente durante anos em sua clínica particular, na Rua da Carioca; e o conhecimento terapêutico, a fim de destacar qual deles é o mais eficaz em contextos cirúrgicos. Para isso, nessa tese, o doutor Nunes Garcia cita pesquisas de campo no atendimento clínico realizadas por ele e por outros médicos cariocas, tal qual os doutores Antônio Freire Alemão e Pereira de Carvalho, em atendimentos na Santa Casa ou em outras clínicas. A tese está dividida em três eixos que abordam as considerações gerais e históricas dos hemostáticos desde Galeno e Paré até os médicos contemporâneos do doutor Nunes Garcia que adotam esse método.

O segundo eixo apresentado nesta tese é relativo aos caracteres anatômicos e clínicos, onde o doutor Nunes Garcia aborda a anatomia do sistema vascular, seus efeitos fisiológicos, da ligadura e da torção e as condições específicas para as diferentes técnicas. Dessa forma, ele destaca as duas abordagens – anatômicas e clínicas – a partir de diferentes referenciais teóricos, destacando as vantagens, desvantagens, riscos e eficácia de cada técnica em casos de aneurismas a partir das pesquisas realizadas.

Além disso, o doutor Nunes Garcia relata os diferentes tratamentos dispensados aos escravizados de diferentes freguesias da Corte carioca. Em um dos casos, ele cita sobre: "um preto escravo de José Antônio de Jesus, com 28 anos, sofreu em 1834, a ligadura da femoral, por caso de aneurisma, e curou-se em 27 dias".[17] Assim como, ele destaca o caso de "uma sra. (Joaquina de tal), com 56 anos de idade, e com o aneurisma varicoso da braquial na flexura do braço, curou-se em 29 dias pela ligadura". O autor acrescenta ainda que poderia disponibilizar inúmeros casos atendidos por ele e outros médicos, seja na Santa Casa ou no hospital militar, destacando casos de ferimentos ou mutilações tratados com essa técnica.[42]

A tese de 1839 foi defendida em 16 de outubro desse ano para preenchimento da cátedra de anatomia geral e descritiva, em um concurso singular, promovido pela Faculdade de Medicina. A singularidade dava-se por conta das normas estatutárias que estabeleciam a preferência aos professores substitutos em primeira ordem aos concursos catedráticos. Estando exclusivamente o doutor Nunes Garcia servindo como substituto à cadeira de anatomia desde 1833, já caracterizava a singularidade desse concurso. Além disso, era o primeiro concurso específico com provas específicas para a cátedra anatômica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro que dava a primazia desse cargo ao nosso personagem.

O texto, editado na Tipografia do amigo pessoal, Francisco de Paula Brito, nos informa que o júri formado para esse concurso foi presidido pelo médico, doutor Manoel de Valadão Pimentel, e contou com os seguintes arguentes: os doutores Joaquim José da Silva, José Vicente Torres Homem, Francisco Júlio Xavier, Manoel Feliciano Pereira de Carvalho, Luiz Francisco Ferreira e Thomas Gomes dos Santos.[43] Entre amigos e desafetos, o doutor Nunes Garcia reconhecia que se sua tese não buscava "esperar de nós novidades"[20], entretanto, tinha como objetivo destacar a anatomia, por meio do órgão da audição.

A tese do doutor Nunes Garcia analisa a anatomia do aparelho auditivo, propondo um método eficaz para sua demonstração nas aulas práticas de anatomia. Para isso, nosso personagem subdivide a obra destacando aspectos do ouvido em três eixos: a "orelha externa", com descrição do pavilhão auricular e do conduto auditivo; em seguida, ele apresenta a "orelha média", incluindo a membrana do tímpano, ossículos (martelo, bigorna, estribo), músculos associados e a tuba auditiva (trompa de Eustáquio). A originalidade da tese se dá por conta de análises relativas ao desenvolvimento embrionário do ouvido, onde o doutor Nunes Garcia destaca os seus estudos em suas duas áreas de atuação, o parto e a anatomia; para isso, ele descreve suas observações sobre a formação das estruturas auditivas antes e após o nascimento do recém-nascido.

A tese de 1839 foi o último trabalho doutoral defendido pelo doutor Nunes Garcia Junior na Faculdade de Medicina. É um trabalho de pesquisa complexo que envolve diferentes aspectos do estudo anatômico do ouvido, destacando sua localização e a delicadeza das estruturas deste órgão. Grosso modo, nosso personagem buscou, por meio do órgão da audição, destacar a importância das dissecções para um aprendizado eficiente. De certo que essa tese assimila técnicas próprias que o doutor Nunes Garcia adquiriu dos autores da escola francesa, entretanto, adaptou à sua realidade como professor de anatomia.

Os Discursos

Os discursos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, no século XIX, eram considerados momentos de solenidade e prestígio para os professores que subiam ao púlpito e narravam os seus conhecimentos e capacidade de oratória. O doutor Nunes Garcia apresentou três discursos na Faculdade de Medicina. O primeiro como professor substituto, em 1839, e os dois últimos como professor catedrático, em 1840 e em 1857, sendo este último discurso proferido dias antes de sua aposentadoria.

No primeiro discurso, podemos observar as ideias de um homem que, nos seus 31 anos de idade, buscava estabelecer reformas no ensino médico, especialmente em sua especialidade anatômica. Para isso, ele propunha novas instalações, já que as aulas de dissecções se davam na antiga cozinha do colégio dos jesuítas; para isso, ele propunha a construção de um anfiteatro para as demonstrações anatômicas, seguindo o modelo de ensino francês.[44]

O discurso de 1839 marcou sua estreia como professor substituto da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Nesse texto, é destacado o trabalho do seu velho mestre, o anatomista José Joaquim Marques. Neste discurso, dr. Nunes Garcia já defendia uma reestruturação no ensino anatômico, citando as dificuldades impostas pelo clima veranico do Rio de Janeiro e a rápida degradação dos cadáveres usados em suas aulas. Para isso, ele propõe a realização de aulas práticas no segundo semestre do ano. Além disso, ele propõe a adoção do modelo francês, especialmente da Escola de Paris, como exemplo de excelência no ensino anatômico. No mais, o doutor Nunes Garcia cobra uma solução da direção da Faculdade e celeridade por obras na construção de um anfiteatro para as dissecções de cadáveres. Nosso médico apresentou duras críticas sobre a precariedade do ensino médico brasileiro no que tange à falta de materiais e de recursos financeiros da Faculdade, destacando como, antes da independência, Portugal privou as Academias Médico-Cirúrgicas do Rio de Janeiro e da Bahia de melhores professores, o que resultou nesses atrasos que precarizavam o ensino. Além disso, o doutor Nunes Garcia cita como uma das possibilidades de reformas no ensino anatômico a aplicação do seu Plano Geral para o Estudo da Anatomia, já apresentado à direção da Faculdade de Medicina.

As propostas de reformas no ensino médico, na disciplina de anatomia, apresentadas pelo então professor substituto, Nunes Garcia, ainda levaram alguns anos a serem adotadas pela Faculdade de Medicina. Ainda que o médico recorresse aos principais teóricos da Escola francesa para defender suas propostas de mudanças no ensino médico, deram-se dificuldades impostas pela diretoria para o seu magistério.[45]

Os referenciais teóricos apresentados pelo doutor Nunes Garcia, no campo anatômico, se relacionam com a própria formação médica brasileira de então, segundo ele: ”à sombra dos Anthomarchys, dos Marjolins, e Meygriers, dos Cruviethiers e Bourgerys, dos Cloquets e Brocs, dos Baylles e Marques, dos Soares Franco“ [46] são alguns dos nomes citados por nosso personagem, nesse discurso, que somente confirmam a influência da escola francesa na formação médica brasileira de então. De fato, o texto é uma exaltação sobre o seu campo de atuação, anatômico, o que resultou alguns anos depois no Manual Antropotômico, organizado em 1840 e lançado em 1855, de autoria do nosso personagem e que foi por muitos anos adotado pela escola médica.

Mais do que um discurso técnico, o texto também é uma declaração das ambições científicas e pedagógicas de um jovem médico negro, que alcançava um espaço de prestígio numa época marcada pelo racismo e pela escravidão. É um documento que revela tanto os desafios da ciência médica no Brasil Imperial, quanto as estratégias de resistência e afirmação de intelectuais afrodescendentes.

Já no segundo discurso, de 1840, nosso médico se impunha aos pares como o professor catedrático e proprietário da cadeira de anatomia e, com autoridade, ele nos apresenta a história da Faculdade de Medicina, frequentada por ele desde 1824, aos 16 anos, como aluno da então Academia Médica-Cirúrgica. Nesse discurso, Nunes Garcia tensiona os debates relativos aos usos e abusos de corpos dos escravizados ou indigentes trazidos para suas aulas anatômicas como um entrave, conforme veremos.

As orientações teóricas do ensino na Faculdade de Medicina, nesse período, conforme já visto, sofriam uma forte influência da medicina escolar e clínica francesa, ainda que as disputas teóricas se dividissem entre os adeptos do brousseismo – que era a medicina fisiológica experimental, contrária à Escola de Pinel – e, por outro lado, os ecletismos, surgidos na primeira metade do século XIX – que se baseavam no ceticismo dos médicos ao brousseismo e que tinham como dogma a valorização da experiência a partir da observação e de pesquisas realizadas a partir de autópsias.

Há, por exemplo, uma interessante passagem desse discurso de abertura relativa, justamente, aos corpos escravizados e indigentes, utilizados nas aulas de anatomia do doutor Nunes Garcia Junior na FMRJ. Diante de seus pares médicos e alunos, o doutor Nunes Garcia denúncia:

"Todo mundo sabe que é da classe mais indigente da sociedade, ou dos escravos, que saem os corpos trazidos para as demonstrações deste curso; e que esta circunstância ligada a perniciosa influência do nosso clima – a natureza das moléstias com que tais indivíduos sucumbem, - às consequências dos tratamentos, que as vezes nem poderão ter, do mesmo modo que ao uso dos maus alimentos a que foram forjados, modificando o estado de suas organizações durante a vida, como influindo na dissolução mais ou menos pronta dos seus cadáveres..."[47]

De fato, Nunes Garcia aproveita da situação para revelar aos seus pares médicos o incômodo causado ao professor catedrático de anatomia, os usos e abusos sobre corpos escravizados em suas aulas. A situação foi constantemente denunciada pelo doutor Nunes Garcia, que faz referência ao fato em seu último discurso, ou seja, dezessete anos após essa primeira denúncia. Além disso, o discurso referencia figuras históricas no campo da medicina brasileira, com destaque para os primeiros professores que atuaram na antiga Academia Médico-Cirúrgica.

Doutor Nunes Garcia faz alusão a seu mestre, doutor Joaquim José Marques, célebre anatomista que atuou nos primeiros anos no professorado médico na Corte carioca. Além dos professores médicos, doutores Mazarém e Américo de Urzedo, seus antecessores pela dedicação ao magistério e ao campo anatômico. No mais, sem nominar, ele apresenta críticas aos seus contemporâneos, diretores da escola, pelas constantes dificuldades impostas para sua atuação como professor catedrático. Em um rápido intercruzamento com sua autobiografia, localizamos que esse período como professor catedrático, segundo suas narrativas pessoais, foi de "picardias e acidentes" dos diretores, doutores José Martins da Cruz Jobim e Manoel Valadão Pimentel,[48]contudo, de intensa atividade e pesquisas no magistério.

De fato, nesse discurso, o doutor Nunes Garcia não nomina seus oponentes, como faz em seus apontamentos biográficos, denunciando o médico e diretor doutor José Martins da Cruz Jobim, como "sábio e eloquente médico que tanto amargurou a minha existência".[49] Nesse discurso, nosso personagem é tomado por emoções que o impedem, por exemplo, de destacar e valorizar as conquistas e mudanças produzidas por ele, como catedrático, a partir das reformas no ensino que ele mesmo propôs no seu campo anatômico, ainda que com todas as contrariedades impostas pela direção da Escola. O lançamento de um manual anatômico, escrito por ele, e adotado durante alguns anos pela Faculdade de Medicina, mesmo após a sua aposentadoria, é um dos reflexos do legado que esse médico deixou para a Faculdade de Medicina. No ano de 1880, graças a iniciativas do doutor Moraes e Valle, antigo aluno, o doutor Nunes Garcia foi um dos homenageados pela Faculdade de Medicina com a inauguração de sua fotografia no novo laboratório anatômico, contando com a presença do imperador dom Pedro Ii.[50]

Finalmente, o último discurso do doutor Nunes Garcia, pronunciado na Faculdade de Medicina no ano de 1857, dias antes de sua aposentadoria, após os vinte e cinco anos em que atuou como professor catedrático daquela escola médica. Na introdução, Nunes Garcia apresenta uma reflexão e uma confissão pessoal relativa à sua crença de que o ensino anatômico, poderia por meio das reformas propostas por ele, estar em outro patamar, e detalha, novamente, as dificuldades impostas nesse tema por parte dos diretores e os limites impostos por esses para o seu magistério.

O discurso foi escrito por um homem nos seus 49 anos, após um divórcio, a recente perda de um dos filhos. A narrativa se constitui por meio de autocríticas, por um lado, e o amadurecimento intelectual, por outro. Para isso, ele confidencia suas esperanças passadas, destaca seus erros e o aprendizado adquirido como catedrático. O sofrimento físico e emocional é relatado, após os anos de doença com fotofobia, artrite e, nos últimos anos de vida, as constantes crises de artroses. Ao cruzarmos esse discurso com suas narrativas autobiográficas, somos informados que o esgotamento físico e emocional o acompanhou na leitura desse discurso:

"Anunciou-se na escola, em 1857, e segundo a lei, a abertura de minha aula, estando eu de cama, com um tumor no quadril. Redijo o meu discurso de abertura, que fica sob o título de – último ato escolar meu: vou da cama e pelo braço dos Srs. Porto Alegre e Mafra – diretor e secretário da Academia das Belas Artes."[51]

De fato, a companhia de amigos pessoais como Manuel de Araújo Porto-Alegre e João Mafra serviam como esteio na solidão dos últimos anos de vida. Entretanto, a doença e a presença de amigos tão próximos não foram impedimentos para o doutor Nunes Garcia tocar em assuntos delicados. A ocasião foi propícia para ele retornar aos seus pares médicos um tema que o acompanhou por toda sua trajetória acadêmica: as necessárias reformas no ensino médico anatômico e as questões relativas aos cadáveres desse curso. Para isso, no discurso final, o doutor Nunes Garcia destacou a importância das reformas no curso de anatomia descritiva; as mudanças no calendário escolar, especialmente em questões relativas às dissecções, e destaca o seu método anatômico, lançado alguns anos antes e que, segundo ele, possibilitou uma maior agilidade das aulas e preservação de corpos, evitando os abusos.

Esse método, lançado dois anos antes da leitura desse discurso, em 1855, foi um trabalho denso de anos de pesquisa, realizado com esforços intelectuais, econômicos e físicos somente seus, sem nenhum amparo da diretoria da Faculdade, apesar das limitações por conta da sua saúde, entretanto, esse método foi um material fundamental para formação médica na segunda metade do século XIX. Este manual contém mais de mil páginas e trouxe mais praticidade para as aulas anatômicas, por conta das vantagens metodológicas e pedagógicas na formação médica. Finalmente, nesse discurso, a direção da Faculdade é novamente rechaçada por conta de todas as dificuldades que impuseram ao seu magistério e ao lançamento do seu método.

É um texto de despedida que revela desânimos e desapontamentos com a direção da Faculdade Médica. Ao final do discurso, o autor brada o nome do Imperador, dom Pedro II, e recebe a apatia de um auditório que se manteve em silêncio. Seguindo suas palavras, foi essa apatia silenciosa por parte de alunos, professores e diretores que provocou o seu pedido de aposentadoria, conforme nos informa em seus apontamentos biográficos:

"Por este e outros motivos, cheguei em casa e redigi esta petição – 'Senhor – O dr. José Mauricio Nunes Garcia não pode mesmo continuar no magistério, e por isso, pede a V.M a graça da sua jubilação como V.M entender de justiça – E.R.M em 15 de março de 1857'[52]

Desse pedido, finalizou-se a trajetória do nosso personagem na Faculdade Médica, após 25 anos como professor e mais de quarenta anos de vivências naquela escola. Além disso, por meio desse último discurso se encerrou a trajetória do doutor José Mauricio Nunes Garcia Júnior, como o primeiro professor concursado e catedrático de anatomia geral e descritiva da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Após a aposentadoria, ele atuou em sua clínica particular, na Rua da Carioca, e como membro ativo das sessões da Academia Imperial de Medicina.

No dia 18 de outubro de 1884, às 8h00 da manhã, veio a óbito o doutor Nunes Garcia Júnior, aos 77 anos, acompanhado dos amigos mais próximos. O doutor Ignacio Goulart foi o compadre mais próximo, além de inventariante. No dia seguinte, às 10h da manhã, o séquito deixou a residência onde o doutor Nunes Garcia vivia há pouco tempo e seguiu em direção ao Cemitério São João Batista,; o doutor já havia adquirido sua sepultura, meses antes.

Referências

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  2. CAMILO, 2024
  3. GARCIA JÚNIOR, 1860
  4. Estudos Sobre a Fotografia Fisiológica
  5. CAMILO, 2204
  6. GARCIA JUNIOR, 1860
  7. GARCIA JÚNIOR, 1860
  8. CAMILO, 2020
  9. GARCIA JÚNIOR, 1860
  10. MATTOS, 1997
  11. CAMIILO, 2025
  12. CAMILO, 2024
  13. GARCIA JÚNIOR, 1860
  14. GARCIA JÚNIOR, 1860
  15. GARCIA JÚNIOR,1860
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  39. GARCIA JÚNIOR, 1860
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  41. HARCIA JÚNIOR, 1849
  42. GARCIA JÚNIOR, 1838
  43. GARCIA JÚNIOR, 1838
  44. GARCIA JÚNIOR, 1839
  45. GARCIA JUNIOR,1860
  46. (GARCIA JUNIOR, 1839, p.21)
  47. GARCIA JÚNIOR, 1838
  48. GARCIA JÚNIOR, 1860
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2. CAMILO, Vandelir. Necromemória: a história de vida do doutor José Mauricio Nunes Garcia Júnior (1808-1884) (tese de doutorado) Programa de Pós-graduação em Memória Social, PPGMS UNIRIO, 2024. Fonte: unirio.br/cchs/memoriasocial/teses/p-2024/tese-158-vandelir-camilo-neves-deolindo-mario. Acesso em 27 de setembro de 2025

_______________Necromemória: Reflexões sobre um conceito. Ebook. Amazon, 2020.

_______________Necromemória: Reflexões sobre um conceito. Fonte: vandemir-NECROMEM_C3_93RIA.pdf_filename_UTF-8vandemir-NECROMEM_C3_93RIA-libre.pdf. Acesso em 27 de setembro de 2025.[1]

_______________. Necromemória. Editora Afrodialogos, 2022

________________Necromemória. In: VIEIRA, Paulo Roberto; MATIOLLI, Erica Aparecida. Raça e gênero no pensamento social brasileiro: leituras contemporâneas. Rio de Janeiro: Editora Paco, 2021 .

___________________. Homens de cor: as performatividades de um mulato frente ao racismo doutor José Mauricio Nunes Garcia Junior (1808-1884) Revista de Pesquisa Histórica, UFPE, v. 38, nº 2, 2020

__________________. Vestígios da memória de Antônio José Nunes Garcia: A trajetória e o esquecimento de um jornalista, professor e literato negro do século XIX (1813-1894) Revista Mosaico, v. 12 n. 19, Debates sobre racismo e antirracismo no pensamento social brasileiro, 2020

3.FERREIRA, Luiz Otávio.João Vicente Torres Homem: descrição da carreira médica no século XIX. Physis 4 (1) • 1994 •

4. GARCIA JÚNIOR, Apontamentos para noticia biográfica membro do IHGB, 1860 (manuscrito autografo) Transcrição: Vandelir Camilo.

________________. Tese 1833. Ensaio sobre o ministério das manobras em geral demonstrado por classes

________________ Tese 1838. Dissertação inaugural sobre o valor terapêutico dos termostatos de Parrè e Amussat ou a ligadura ou a torção das artérias

________________ Tese 1839. Método de demonstrar o aparelho da audição.

POLLACK, Michel.Memória, esquecimento, silêncio. Revista estudos históricos. [2]

  1. CAMILO, Vandelir. «Necromemória». Canoa do Tempo. Cópia arquivada (PDF) em 2023 |arquivourl= requer |url= (ajuda) 
  2. https://periodicos.fgv.br/reh/article/view/2278