Jan Jolles
| Jan Andries Jolles | |
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| Nome completo | Jan Andries Jolles |
| Outros nomes | Alonso, Emilio, Eoles, Macario, Manuel Cazón; identidade falsa: Manuel Enrique Casson Arribar |
| Nascimento | 13 de abril de 1906 |
| Morte | 5 de abril de 1942 (35 anos) |
| Nacionalidade | alemã (anteriormente neerlandesa por filiação paterna) |
| Ocupação | militante comunista; quadro da Internacional Comunista |
Jan Andries Jolles (Freiburg im Breisgau, 13 de abril de 1906 — Quito, 5 de abril de 1942) foi um militante comunista alemão vinculado à Internacional Comunista (Komintern). Destacou-se por suas atividades na América do Sul entre as décadas de 1920 e 1930.
Na Argentina, integrou o Comitê Central (1928) e o Politburo (1931) do Partido Comunista da Argentina (PCA) e foi delegado à Primeira Conferência Comunista Latino-Americana (Buenos Aires, 1929).[1][2]
Entre 1933 e 1935, foi enviado pelo Komintern ao Partido Comunista do Brasil (PCB) como instrutor do Comitê Central.[3] Nos anos seguintes, residiu no Chile e no Equador,[4] onde publicou crítica literária sob o pseudônimo Manuel Cazón.[5] Morreu em Quito, em 1942, após cirurgia gástrica.[6]
Origem e juventude
Jolles era filho do germanista neerlandês André Jolles (1874–1946), professor em Leipzig e autor de Einfache Formen (1930), e de Mathilde (Tilli) Mönckeberg (1879–1958), filha do prefeito de Hamburgo, Johann Georg Mönckeberg.[7]
Nascido em Freiburg im Breisgau, passou a infância entre a cidade natal, Wannsee (Berlim) e Hamburgo. Era o quarto de seis filhos do primeiro casamento do pai: Hendrik (1901–1902), Hendrika Jeltje “Jella” (1903–2001), Jacoba Jennigje “Bota” (1904–1988), Otto Jolle Matthijs “Thijs” (1911–1968) e Ruth Huberta Mathilde (1915–1997).[8]
Em 1914, André Jolles alistou-se no exército alemão, o que levou à naturalização prussiana da família.[9] Após a separação dos pais em 1918, Jan mudou-se para Leipzig, vivendo com o pai e a madrasta, Margarethe “Grittli” Boecklen. Do segundo casamento nasceram Barbara Sibylle (1918–2006), Jolle (1921–1942), Jacob Cornelis (1922–2008) e Eva-Gertrud (n. 1930).[8]
Jan Jolles tentou abandonar a escola aos 13 anos e, por um período, trabalhou em uma fábrica como encadernador. Paralelamente, aproximou-se do movimento juvenil Wandervogel.[10] A influência paterna em sua trajetória foi ambígua: André Jolles, que havia passado pelo SPD e pelo KPD, difundia ideais comunistas no âmbito familiar, mas aderiu abruptamente ao NSDAP em 1933, vindo a receber em 1944 a Goethe-Medaille do regime nazista.[11] A adesão do pai ao nazismo contrastava com o engajamento comunista de Jan e se somaria à morte do meio-irmão Jolle Jolles na Batalha de Stalingrado, reforçando a divisão política dentro da família.
Uruguai e Argentina (1924–1933)
Em conflito crescente com o pai, Jolles mudou-se de Leipzig para Amsterdã no início de 1924. Insatisfeito com a vida na capital neerlandesa, cogitou migrar para a Inglaterra, mas em 25 de junho de 1924 embarcou no navio Flandria rumo à América do Sul.[12] Após breve escala em São Paulo, seguiu para o Uruguai, onde se filiou ao Partido Comunista do Uruguai (PCU). Trabalhou na gráfica do jornal comunista, vivendo em extrema pobreza e dependendo da ajuda financeira da mãe na Alemanha.[13]
Em abril de 1925, entrou clandestinamente na Argentina, filiando-se ao Partido Comunista da Argentina (PCA) e buscando contato com Orestes Ghioldi.[14] Entre 1925 e 1930, atuou como instrutor, tipógrafo e jornalista em Buenos Aires, Rosário, Santiago del Estero e Tucumã. Também colaborou na organização da Juventude Comunista no Rio Grande do Sul. Sua ascensão foi rápida: em 1928 ingressou no Comitê Central e, em 1929, foi delegado à Primeira Conferência Comunista Latino-Americana, em Buenos Aires.[15]
O golpe de José Félix Uriburu em setembro de 1930 intensificou a repressão.[16] Jolles foi preso e deportado para Montevidéu, de onde continuou a colaborar com o movimento comunista. Na capital uruguaia trabalhou no Secretariado Sul-americano da Internacional Comunista (SSAIC), ao lado do dirigente russo August Guralski (“Rústico”) e do alemão Arthur Ewert.
Em maio de 1931, retornou à Argentina como delegado do Secretariado Sul-americano para participar da conferência clandestina do PCA em Rosário. Ali foi confirmado como membro do Politburo. Identificado com a linha de “classe contra classe” do chamado “terceiro período” da Internacional Comunista — política que pregava a luta frontal contra os partidos socialistas e a recusa de alianças com setores não comunistas —, defendeu a substituição de Rodolfo Ghioldi na direção do partido, acusando-o de “reformismo”. Ghioldi, figura central do comunismo argentino desde a fundação do PCA, reagiu junto a Guralski e Ewert, conseguindo reverter a decisão: o afastado foi o próprio Jolles, acusado de fracionismo e de “atitude trotskista”.[17] Enviado a Tucumán para trabalho de base, foi novamente detido em 1932, transferido a Buenos Aires e condenado a um ano e meio de prisão.
Em abril de 1933, após um ano encarcerado, foi deportado como “estrangeiro incômodo” para a Alemanha, no navio Vigo.[18]
Alemanha e Moscou (1933)
De volta à Alemanha em abril de 1933, encontrou o país já sob o regime nazista. Esperava ser preso ao desembarcar em Hamburgo, mas foi liberado e passou alguns meses com a mãe. A inexistência de tratado de extradição com a Argentina, o desconhecimento de suas atividades pelo governo alemão e os vínculos de parte da família com o regime hitlerista podem ter contribuído para que chegasse desapercebido.[18] Em Hamburgo, tentou aproximar-se da célula comunista local, mas o clima de perseguição e a falta de informações sobre seu histórico militante geraram suspeitas e impediram uma integração efetiva.
Entre maio e agosto de 1933, obteve um passaporte espanhol falso em nome de Manuel Enrique Casson Arribar — identidade que manteria até a morte.[16][19] Decidiu então deixar a Alemanha, segundo relatos porque o próprio irmão teria ameaçado denunciá-lo.[17] Em agosto, seguiu para Moscou, onde foi recebido por Georgi Borisovich Skalov, conhecido como Sinani, vice-diretor da Secretaria Latino-Americana da Internacional Comunista, e instalado no Hotel Lux, residência dos quadros estrangeiros do Komintern. Ali redigiu uma autobiografia político-militante para os arquivos da organização e se submeteu a uma avaliação rigorosa. As disputas travadas na Argentina foram revisitadas por dirigentes como Victorio Codovilla e Orestes Ghioldi, então radicados em Moscou, embora também se registrasse sua dedicação militante. Nesse ambiente de crítica, mas com abertura a uma possível reabilitação, recebeu a designação para atuar no Brasil como instrutor do PCB.[20][21][22]
Brasil (1933–1935)
Jolles chegou ao Brasil no fim de 1933, incumbido de preparar uma insurreição contra Getúlio Vargas e projetar Luís Carlos Prestes como líder político. Financiado pelo Komintern, viveu em condições melhores do que na Argentina e no Uruguai.[23] Hospedou-se inicialmente em hotéis e depois na casa do simpatizante Adolpho Carvalho, em Copacabana, que se tornou ponto de reunião clandestina.[24][25]
Nos plenários do PCB, desempenhou papel central, como na destituição de Fernando de Lacerda da secretaria-geral, baseada em um laudo médico depois contestado.[26] Jolles também foi associado à decisão que resultou no brutal assassinato do militante Tobias Warchavski em 1934, sendo denunciado e condenado in absentia pela Justiça brasileira.[27][28][a]
Relatórios internos descreviam-no como otimista, enérgico e disciplinador, mas também acusado de autoritarismo, excessos “esquerdistas” e descuido com a correspondência, parte dela interceptada. Foi considerado em certo momento o “homem mais poderoso” do PCB, mas acusado de atrasar a entrada de Prestes no partido para preservar sua própria centralidade.[29]
No fim de 1934 ou início de 1935, foi chamado a deixar o Brasil e, em abril de 1935, seguiu para o Equador, via Chile.[30] Sua atuação foi criticada em relatórios enviados a Moscou. O “recall” ocorreu meses antes do Levante Comunista de 1935, deixando-o fora do episódio.[31]
Chile e Equador (1935–1942)
Após deixar o Brasil em abril de 1935, Jolles deveria seguir para o Equador, mas decidiu permanecer alguns meses em Santiago.[30] Nesse período, colaborou com o jornal Frente Único, do Partido Comunista do Chile, e participou de reuniões partidárias; suas críticas duras à direção local levaram à renúncia de secretários.[32]
Em abril de 1935 partiu de Valparaíso para Guayaquil, estabelecendo-se no Equador, então sob a ditadura de Federico Páez. Lecionou filosofia no Colegio Nacional Vicente Rocafuerte e publicou críticas literárias no semanário Noticia sob o pseudônimo Manuel Cazón.[33]
A repressão o obrigou a regressar ao Chile, onde viveu entre 1936 e 1937. Envolveu-se em polêmicas com lideranças locais, foi alvo de inquérito disciplinar e, em 1937, expulso do Komintern sob acusações de “trotskismo”, “fracionismo” e suposta ligação com a Gestapo e com Sinani, que à época caíra em desgraça durante o Grande Expurgo.[34]
De volta ao Equador, manteve atividade cultural em revistas como Noticia e Plan (1938). O Pacto Ribbentrop-Molotov de 1939 intensificou sua ruptura com o comunismo. Entre 1939 e 1941, relatos o situam no Chile, administrando um pub e um cinema. Nos últimos anos, fixou-se em Quito, em círculos intelectuais, afastado da militância.[35]
Morte
Em Quito, sob o nome de Manuel Casson (ou Cazón), Jolles morreu em 5 de abril de 1942, aos 35 anos, após cirurgia para complicações de úlcera gástrica e duodenal. Foi sepultado no cemitério San Diego em 6 de abril, sob identidade falsa.[6]
Durante a internação, escreveu fragmentos de uma autobiografia, Generación perdida. Sua morte foi noticiada discretamente pelo jornal El Comercio.[36]
Apesar da documentação oficial, circularam várias versões sobre a sua morte. Eudocio Ravines falou em “circunstâncias estranhas e dramáticas”,[37] versão ecoada por William Waack e outros autores[38][39][40][14] e Isidoro Gilbert sugeriu que Jolles teria sido “agente duplo”,[41]. Outras versões especulativas mencionaram morte por atropelamento em Guayaquil, caixão vazio, transferência dos restos mortais por amigos, falecimento em estado de alienação em Milagro ou até mesmo falsificação da própria morte como forma de escapar do “longo braço de Moscou”.[42]
Essas hipóteses são em grande parte descartadas pela historiografia. Sua expulsão do Komintern, o uso de pseudônimos e as acusações de vínculos contraditórios alimentaram as dúvidas e ajudaram a consolidar a atmosfera de suspeita em torno de sua morte.[34]
Vida pessoal
Em 1927, casou-se na Argentina com María Banegas Herrera, com quem teve dois filhos. Separou-se em 1934.[18] No Brasil, manteve relações extraconjugais, inclusive com a esposa de Adolpho Carvalho e tentativas de aproximação a outras mulheres do meio militante.[25]
Em 1935, no Equador, uniu-se à equatoriana Leonor Azucena Vera, com quem teve o filho Fernando Cazón Vera, futuro poeta do Grupo de Guayaquil. O casal separou-se em 1940.[43]
Legado
Apesar de sua atuação em diversos países latino-americanos, a trajetória de Jolles permaneceu pouco conhecida em seu país natal. O resgate só se consolidou com a obra de Walter Thys (2012), baseada em arquivos russos, acervos familiares e documentação sul-americana.[44]
Notas
- ↑ Entre o fracasso da Intentona Comunista e o início da década de 1940, militantes comunistas presos delataram Jolles como participante do tribunal interno que decidiu pelo "justiçamento" de Tobias Warchavski. Em 17 de dezembro de 1942, o Tribunal de Segurança Nacional condenou-o, junto com Honório de Freitas Guimarães, Vicente Santos e Adolfo Barbosa Bastos, a 25 anos de prisão. À época da sentença, o tribunal desconhecia que Jolles havia falecido no Equador poucos meses antes.
Referências
- ↑ Thys 2012, pp. 22–25
- ↑ Becker, Marc (2023). The Latin American Revolutionary Movement: Proceedings of the First Latin American Communist Conference, June 1929. Col: Historical Materialism Book Series (em inglês). 291. Leiden: Brill. p. 357. ISBN 978-90-04-54851-0. doi:10.1163/9789004548527
- ↑ Thys 2012, p. 202
- ↑ Thys 2012, pp. 22, 182
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- ↑ «Processo-crime de Honório de Freitas Guimarães e outros». Apelação n.º 1217. Fundo do Tribunal de Segurança Nacional, BR RJANRIO C8.0.APL.1077, v.1–3. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. 1942
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- ↑ El Comercio (Quito), 6 abr. 1942, p. 8; reprodução em Thys 2012, p. 370
- ↑ Ravines, Eudocio (1952). La gran estafa: La penetración del Kremlin en Iberoamérica. Cidade do México: Libros y Revistas. p. 485
- ↑ Waack 1993, p. 343
- ↑ Jeifets, Victor; Lazar Jeifets; Peter Huber (2004). La Internacional comunista y América Latina, 1919–1943. Diccionario biográfico (PDF). Buenos Aires: CLACSO. pp. 347–348
- ↑ Tarcus, Horacio (2007). Diccionario biográfico de la izquierda argentina. De los anarquistas a la "nueva izquierda" (1870–1976). Buenos Aires: Emecé. ISBN 9789500429146
- ↑ Gilbert, Isidoro (2007). El oro de Moscú. La historia secreta de la relación entre la Argentina y la Unión Soviética. Buenos Aires: Sudamericana. p. 52. ISBN 9789500734134
- ↑ Thys 2012, pp. 235–36
- ↑ Thys 2012, pp. 22, 366
- ↑ Thys 2012, pp. 9–10
Bibliografia
- Thys, Walter (2012). Vom Wandervogel zum "Compañero": Jan Andries Jolles (1906–1942), Soldat der Weltrevolution. Leipzig: Leipziger Universitätsverlag. ISBN 9783865835314
- Waack, William (1993). Camaradas: Nos arquivos de Moscou. A história secreta da revolução brasileira de 1935. São Paulo: Companhia das Letras. ISBN 9788571643420
