Interculturalismo

O interculturalismo, ou interculturalidade, refere-se ao apoio à interação do diálogo intercultural e às tendências de autossegregação desafiadoras dentro das culturas.[1] O interculturalismo envolve também ir além da mera aceitação passiva de um facto multicultural de múltiplas culturas efectivamente existentes numa sociedade e, em vez disso, promove o diálogo e a interacção entre as culturas.[2]

A expressão também define um movimento que tem como ponto de partida o respeito pelas outras culturas, superando as falhas de relativismo cultural, ao defender o encontro, em pé de igualdade, entre todas elas.

O interculturalismo propõem-se a promover os seguintes objetivos:

  • Compreender a natureza pluralista da nossa sociedade e do nosso mundo;
  • Promover o diálogo entre as culturas;
  • Compreender a complexidade e riqueza das relações entre diferentes culturas, tanto no plano individual como no comunitário;
  • Colaborar na busca de respostas aos problemas mundiais que se colocam nos âmbitos sociais, económicos, políticos e ecológicos.

Dado que não se pode considerar que qualquer cultura tenha atingido o seu total desenvolvimento, o diálogo entre os povos de diferentes culturas é o meio de possibilitar o enriquecimento mútuo de todas elas. O interculturalismo propõe, assim, que se aprenda a conviver num mundo pluralista e se respeite e defenda a humanidade no seu conjunto.

É necessário a existência de valores interculturais para podermos viver em conjunto, isto é, chegarmos a consenso e a um conjunto de valores universalmente respeitados, tais como a tolerância, a aceitação e o respeito mútuos.

Seus opositores defendem que, quando adotado na prática, o interculturalismo pode ser danoso às sociedades e particularmente nocivo às culturas nativas.

Origem do termo

O conceito de interculturalidade, ou interculturalismo, surge a partir do campo das ciências sociais, sendo derivado de outro conceito, o de cultura. O conceito é criado por antropólogos pós segunda guerra, no contexto do processo de descolonização dos continentes africano e asiático, e do reconhecimento da diversidade cultural advinda dos processos migratórios dos países de independência recente para a Europa, provocando assim uma transformação demográfica e cultural.[1]

No contexto da América Latina, o termo interculturalidade passa a ser utilizado a partir da década de 1960 para se referir a miscigenação das culturas europeias colonizadoras aos traços culturais dos povos originários que sobreviveram ao processo de colonização, criando assim uma relação complexa e de tensão entre diferentes expressões culturais e visões de mundo.[2] No contexto latino-americano, Luis Enrique López, sociolinguista peruano, se coloca como uma das principais referências sobre o tema, discutindo questões como a educação bilíngue para os povos originários, e as relações entre os diferentes povos e culturas que formaram a região.[3]

Fundamentação teórica e significado aprofundado

O Interculturalismo é uma abordagem que busca ativamente a interação, o diálogo e a construção mútua entre diferentes culturas, valorizando a diversidade e promovendo a transformação e enriquecimento recíproco das culturas envolvidas.

Os valores centrais da Interculturalidade variam dependendo da abordagem, seja funcional ou crítica. No entanto, a perspectiva da interculturalidade crítica, defendida por Catherine Walsh, se apoia em um conjunto de valores que visam a transformação social e a justiça.[3]

Os valores centrais da interculturalidade crítica de Catherine Walsh são:

I. Justiça Epistêmica e Reconhecimento

O valor central é o reconhecimento de que todos os conhecimentos (saberes indígenas, ancestrais, populares) são válidos e devem ter paridade com o conhecimento ocidental.

  • Anticolonialidade do Saber: Combate a ideia de que o conhecimento europeu ou ocidental é o único universal e legítimo.
  • Diálogo de Saberes: Não se trata apenas de "tolerar" a existência de outros saberes, mas de colocá-los em diálogo horizontal e igualitário, para que possam contribuir na resolução de problemas e na construção de um conhecimento mais plural e complexo.[3]

II. Transformação Estrutural e Descolonização

A Interculturalidade Crítica baseia-se no valor da transformação social, buscando erradicar as raízes históricas da desigualdade.

  • Questionamento do Poder: Valoriza a crítica radical às estruturas sociais, políticas e econômicas que perpetuam a racialização e a subalternização de grupos, como os povos indígenas.
  • In-surgir e Re-existir: Enfatiza o valor da ação política e da resistência ativa (o "in-surgir") contra a ordem estabelecida, afirmando o direito dos povos de re-existir com suas próprias identidades e projetos de vida.[3]

III. Paridade de Participação e Equidade Social

Este valor está ligado à inclusão política e social, garantindo que a diferença cultural não seja uma causa de desigualdade.

  • Inclusão Genuína: Promove a participação plena de todos os grupos culturais na tomada de decisões e na esfera pública, eliminando as assimetrias de poder.
  • Equidade: Vai além da mera igualdade formal perante a lei, buscando corrigir as desigualdades históricas e estruturais para que todos tenham condições reais de desenvolver-se.[3]

IV. Bem-Viver (Viver Bem)

Este é um valor fundamental, particularmente na perspectiva Andina (e explorado por Walsh), que se apresenta como uma alternativa civilizatória ao modelo capitalista.

  • Harmonia: Valoriza o equilíbrio e a harmonia entre os seres humanos e entre os seres humanos e a natureza (Mãe Terra/Pachamama).
  • Comunidade: Contrapõe o individualismo ocidental com o valor da vida comunitária, da solidariedade e da responsabilidade mútua.[3]
Interculturalismo como Processo Ativo: A Perspectiva Crítica

O Interculturalismo é um processo ativo em três dimensões principais:

  1. Processo de Negociação e Conflito (Inter-relação)

A Interculturalidade ativa não pressupõe harmonia imediata; ela reconhece que o encontro cultural em sociedades marcadas pela colonialidade gera conflito e tensão.

  • Diálogo com Conflito: O processo ativo envolve o diálogo constante entre diferentes grupos, mas um diálogo que deve ser capaz de lidar com as diferenças de poder e as desigualdades. O conflito é visto como necessário para expor as assimetrias históricas.
  • Luta pela Hegemonia: É a disputa pela definição das regras de convivência. É um processo ativo porque exige que os grupos subalternizados (como os povos indígenas) lutem ativamente para que suas culturas e cosmovisões sejam reconhecidas em pé de igualdade, em vez de serem meramente toleradas.

2. Processo de Transformação Estrutural (Político)

O Interculturalismo ativo é uma ferramenta para desmantelar o que Walsh chama de colonialidade do poder, do saber e do ser.

  • Não é Funcional: Se fosse passivo (Funcional), o processo se resumiria a adicionar a diversidade ao modelo existente (como uma política de cotas que não questiona o currículo eurocêntrico).
  • Decolonial: O processo ativo é decolonial porque exige uma ação política radical voltada para a transformação das estruturas. Ele busca refundar as instituições, o Estado e os sistemas de conhecimento (Walsh, 2009).
  • Pedagogia Ativa: A educação, nesse contexto, torna-se uma Pedagogia Decolonial – um ato político-pedagógico contínuo de "in-surgir, re-existir e re-viver", que desafia o status quo e constrói novos conhecimentos.[3]

3. Processo de Construção de um "Lugar Outro" (Epistêmico)

O Interculturalismo ativo é um processo contínuo de criação de novas perspectivas e saberes.

  • Conhecimento em Movimento: o processo questiona a validade universal do conhecimento ocidental e exige que o conhecimento seja sempre contextualizado e plural.
  • Reafirmação do Ser: É um processo ativo porque implica a reafirmação constante da identidade dos grupos oprimidos, recuperando a dignidade e a humanidade que foram negadas pela colonialidade do ser.
Detalhamento das Diferenças

Interculturalismo vs. Multiculturalismo:

O filósofo e teórico cultural esloveno Slavoj Žižek tem uma postura crítica em relação ao Multiculturalismo. Ele não critica a diversidade em si, mas sim o modo como o Multiculturalismo funciona como uma ideologia que sustenta e mascara as relações de poder do capitalismo global[4]

Em suma, a crítica de Žižek não é contra a diversidade, mas contra a ideologia multiculturalista que, segundo ele, é a forma perversa pela qual o neoliberalismo administra as diferenças para manter o status quo de dominação política e econômica. Ele concorda, implicitamente, com a Interculturalidade Crítica de Catherine Walsh ao exigir que o foco esteja na transformação radical das estruturas de poder (colonialidade/capitalismo), e não na mera celebração da superfície cultural.[4]

Interculturalismo vs. Transculturalismo:

O filósofo alemão Wolfgang Welsch é o nome mais proeminente na teorização do conceito de Transculturalidade.[5]

Welsch defende que a forma contemporânea das culturas não é mais a de esferas claramente delimitadas (como pressupõem o multiculturalismo e, em certa medida, o interculturalismo). Ele argumenta que, devido à globalização, à migração e às mídias de massa, as culturas de hoje estão profundamente interligadas e interpenetradas, gerando novas formas que são inerentemente híbridas e que transcendem as fronteiras nacionais e étnicas. Para ele, a transculturalidade descreve o estado atual das culturas, onde as linhas internas e externas estão borradas, e a identidade é composta por múltiplos elementos de diversas origens.[5]

Interculturalismo vs. Intraculturalismo:

O autor que popularizou a distinção e o contraste entre Intraculturalismo e Interculturalismo (ou Interculturalidade), é o intelectual indiano Rustom Bharucha.[6]

Bharucha, é frequentemente citado por definir os dois termos com base nas fronteiras e contextos em que as interações culturais ocorrem:

  • Interculturalismo: Preocupa-se com a negociação de diferenças culturais entre as fronteiras dos Estados-nação.
  • Intraculturalismo: Preocupa-se com a negociação de diferenças culturais dentro das fronteiras dos Estados-nação ou dentro de uma mesma região geográfica maior. Bharucha começou a usar esse termo ao trabalhar em projetos na Índia, percebendo que as diferenças entre, por exemplo, Calcutá, Bombaim e Madras (cidades indianas) eram tão profundas e significativas quanto as diferenças entre países. O termo foca, portanto, nas diversidades e conflitos internos de uma nação ou de um grupo maior.[6]
Conceito Foco Principal Natureza Autor(es) Chave
Interculturalismo Interação e Diálogo (o "Inter") Projeto Político/Crítico que visa a transformação estrutural (Walsh). Catherine Walsh
Multiculturalismo Coexistência e Reconhecimento (o "Multi") Ideologia Funcional/Liberal que mascara a exploração econômica e a desigualdade. Slavoj Žižek (Crítico)
Transculturalismo Fusão, Hibridização e Permeação (o "Trans") Descrição da Realidade das culturas interconectadas na globalização. Wolfgang Welsch
Intraculturalismo Diferenças e Conflitos Internos (o "Intra") Foco na Diversidade e negociação cultural dentro das fronteiras nacionais. Rustom Bharucha

Teóricos e Pesquisadores de Interculturalidade

A interculturalidade é um assunto frequentemente discutido na literatura acadêmica, que tem ganhado interesse nacional e internacional à medida que o mundo se globaliza e os povos desejam compreender de que maneiras suas culturas se influenciaram no passado e como dialogam no presente.[7] Nesse cenário de intercâmbios de saberes, tradições, costumes etc., as discussões interculturais adquirem relevância, sobretudo em regiões com forte apelo multicultural e nas quais por razões sócio-históricas, ocorreu em alguma escala, processos etnocêntricos, com repressão de grupos minoritários. [8]

O conceito de interculturalidade, por ser abordado a partir de diferentes pontos de vista e regiões geográficas, origina diferentes perspectivas teóricas.[9] Abordagens comuns do assunto, incluem as perspectivas relacional, funcional e a crítica, que variam na maneira de fundamentar e interpretar a interculturalidade. [10]

A interculturalidade relacional é aquela que enfoca, sobretudo, o intercâmbio e contato de saberes, práticas, visões de mundo, entre pessoas de diferentes culturas, muitas vezes, analisando-os a nível individual. Já a abordagem funcional, refere-se àquela que enfatiza a diversidade e diferenças culturais, visando o diálogo, convivência e tolerância, e muitas vezes, a inclusão das culturas minoritárias à estrutura social estabelecida. Por fim, temos a interpretação crítica da interculturalidade, presente principalmente entre autores do Sul global, que afirma que as duas anteriores (relacional e funcional) não tocam as raízes da desigualdade, produzindo leituras assimilacionistas de outros povos, e que busca analisar sobretudo o problema estrutural-colonial-racial. [11]

Pessoas citadas regularmente na literatura sobre interculturalidade incluem Kwok Pui-lan, Wendy Wen Li, Yoshio Sugimoto, Achille Mbembe, Kabengele Munanga, Paulin J. Hountondji, Catherine Walsh, Fidel Tubino, Vera Maria Candau, Martine Abdallah-Pretceille, Fred Dervin e Adalberto Dias de Carvalho.

Educação e Interculturalismo

O interculturalismo é uma ferramenta essencial para a construção de uma educação emancipadora e inclusiva, que reconhece o outro não como diferente a ser tolerado, mas como sujeito de direitos e produtor de saberes. Na educação, o interculturalismo orienta práticas pedagógicas voltadas à inclusão e valorização da diversidade cultural e epistemológica presente nas salas de aula. Isso exige currículos que incorporem diferentes visões de mundo e formações docentes sensíveis às realidades socioculturais dos estudantes. O professor, nesse contexto, torna-se mediador de saberes, facilitando o diálogo entre o conhecimento científico e os saberes comunitários e tradicionais. A formação intercultural docente, portanto, não se limita ao domínio de conteúdos, mas envolve a construção de uma postura ética e reflexiva diante das diferenças, combatendo o racismo, o etnocentrismo e as desigualdades educacionais.

A construção das identidades de sujeitos silenciados na sociedade atual é necessária no sentido de melhor compreender e possibilitar a promoção da igualdade de oportunidades e a integração dos diferentes sujeitos socioculturais na sociedade e não há melhor lugar senão o espaço escolar, onde várias realidades convivem.[12]

Críticas e controvérsias

Embora o interculturalismo seja visto como uma proposta mais dinâmica que o multiculturalismo, ele recebe críticas importantes. Alguns autores afirmam que o conceito pode ser idealista, pois pressupõe que todas as culturas dialogarão em condições de igualdade. Na prática, o diálogo não ocorre de forma horizontal quando há desigualdade social, racismo e relações de poder já estabelecidas. Walsh e Tubino explicam que, quando o interculturalismo não enfrenta essas estruturas, ele se torna apenas funcional, isto é, promove o diálogo e a tolerância sem tocar nas causas da assimetria social e cultural .[13]

Outra crítica vem de povos indígenas e grupos minoritários, que alertam para o risco de uma assimilação disfarçada. Em muitos contextos, o Estado e instituições usam o discurso da interculturalidade apenas para incluir diferenças dentro da mesma lógica dominante, neoliberal e colonial, sem realmente transformá-la . Assim, valores e práticas da cultura hegemônica continuam sendo priorizados, enquanto identidades locais são enfraquecidas.[14]

Também há debates sobre se o interculturalismo realmente supera o multiculturalismo ou se apenas o reformula com nova linguagem. Enquanto o multiculturalismo enfatiza o respeito à coexistência de diferentes culturas, o interculturalismo propõe o diálogo e a interação entre elas, mas críticos alertam que esse diálogo pode ocorrer de forma assimétrica, favorecendo quem já tem mais poder social e político.[15]

Parte das críticas ao interculturalismo levou ao desenvolvimento de distinções conceituais dentro do próprio campo. Autores como Catherine Walsh e Fidel Tubino diferenciam o chamado interculturalismo funcional da interculturalidade crítica. O interculturalismo funcional refere-se a abordagens que promovem o diálogo cultural e a tolerância sem questionar as estruturas históricas de poder, como o colonialismo, o racismo estrutural e as desigualdades sociais. Nessa perspectiva, a diversidade é incorporada de forma limitada, muitas vezes como estratégia de gestão da diferença, sem promover transformações profundas nas relações sociais.[16]

Já a interculturalidade crítica propõe uma abordagem emancipatória, que reconhece os conflitos, as assimetrias e as disputas de poder entre diferentes grupos culturais. Essa perspectiva busca não apenas o diálogo entre culturas, mas também a transformação das estruturas que produzem exclusão e subalternização, valorizando os saberes de povos indígenas, comunidades quilombolas e outros grupos historicamente marginalizados. Assim, a interculturalidade crítica é frequentemente associada a projetos políticos e pedagógicos voltados à justiça social, à descolonização do conhecimento e à ampliação dos direitos coletivos.[17]

Interculturalidade no Brasil e Perspectivas Comparadas

A interculturalidade é definida como o processo de diálogo, negociação e aprendizagem mútua entre diferentes grupos culturais. Diferencia-se do multiculturalismo descritivo por propor uma interação dinâmica e a transformação das relações sociais, visando superar a mera tolerância em direção a uma construção coletiva de direitos e cidadania.[18]

Contexto Brasileiro e Educação

No Brasil, o debate intercultural é indissociável do histórico de colonização e da crítica ao mito da democracia racial. A perspectiva da interculturalidade crítica aponta que as desigualdades raciais e sociais são estruturais, exigindo políticas que vão além da celebração de datas comemorativas.[18][19]

As políticas interculturais brasileiras focam em:

  • Reforma Curricular: Inclusão das histórias e culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas (conforme as Leis 10.639/03 e 11.645/08).[18]
  • Ações Afirmativas: Políticas de reserva de vagas e modalidades de ensino específicas para populações historicamente marginalizadas.[19]
  • Perspectivas Comparadas

A aplicação do conceito varia conforme as urgências geopolíticas de cada região:

  • América Latina: Caracteriza-se por um viés descolonial. Na Bolívia, a Lei Avelino Siñani-Elizardo Pérez (2010) institucionalizou a educação plurilíngue, integrando saberes ancestrais ao sistema formal de ensino.[20]
  • Europa: O foco recai na gestão de fluxos migratórios. Na Catalunha, o modelo prioriza a integração linguística e a coesão social em contextos de diversidade urbana.[19]
  • Canadá: Coexistem o multiculturalismo federal e o interculturalismo de Quebec, que enfatiza a integração à cultura francófona enquanto reconhece os direitos das minorias e dos povos originários.[19]
  • Austrália: As políticas interculturais concentram-se na reconciliação histórica com os povos aborígenes e das Ilhas do Estreito de Torres, além da gestão da imigração de massa.[18]


A interculturalidade não é apenas uma política ou um conceito acadêmico, é um projeto de convivência. No Brasil, ela carrega o peso e a urgência de reparar séculos de exclusão, olhando para a escola como um espaço onde podemos finalmente tirar do papel o diálogo entre culturas.[18]

Ao comparar diferentes países, percebemos que cada lugar constrói sua própria história e estratégia, mas um ponto é comum: a interculturalidade é um caminho para transformar não só a educação, mas também as relações humanas.[19]

Desafios e perspectivas futuras

A concretização da Interculturalidade exige um esforço contínuo de desconstrução. É crucial desnaturalizar e confrontar os estereótipos e preconceitos que se encontram profundamente enraizados nas interações sociais. Esse processo demanda que seja explicitado as redes de discriminação que, muitas vezes moldam o imaginário social sobre os diversos grupos socioculturais. Em paralelo, a educação e suas políticas devem contestar o etnocentrismo, rejeitando a ideia de uma cultura escolar homogênea. É fundamental desestruturar a falsa universalidade dos currículos para reconhecer e validar a multiplicidade de saberes, práticas e valores culturais.[21]

Além disso, um desafio central é uma articulação que possibilite o reconhecimento e a valorização das diversidades culturais. Os processos pedagógicos e as diretrizes educacionais precisam valorizar as distintas identidades culturais e seus conhecimentos. O conceito de "comum" deve ser reconstruído de forma inclusiva, garantindo que todas as pessoas inseridas num contexto cultural se sintam representadas, de modo que a igualdade se manifeste nas diferenças e não apesar delas.[21]

A perspetiva intercultural também propõe a criação de espaços de interação sistemática entre diferentes grupos, superando o isolamento ou a realização de eventos esporádicos. Esta proposta deve transformar a estrutura das instituições de ensino, desde a seleção dos conteúdos até às práticas didáticas e à relação com a comunidade externa. A prática educativa permite que os indivíduos relativizam as suas próprias visões de mundo através do contato profundo com o "outro", promovendo uma convivência que não ignora os conflitos, mas que os utiliza como base para o diálogo e para a construção de projetos coletivos.[21]

Além disso, é fundamental promover o "empoderamento" de grupos historicamente marginalizados, fortalecendo sua autonomia e participação nas decisões sociais. Estratégias como as ações afirmativas são ferramentas essenciais para corrigir desigualdades estruturais e combater o racismo. O objetivo é formar uma cidadania interativa que reconheça assimetrias de poder e promova transformações sociais baseadas na solidariedade e na dignidade humana.[21]

Por fim, essa educação constitui uma proposta contra hegemônica que utiliza a "hermenêutica diatópica", abordagem desenvolvida por Boaventura de Souza Santos, para ampliar o diálogo entre culturas, reconhecendo a incompletude de cada uma. A interculturalidade orienta-se para a construção de uma sociedade democrática e plural, capaz de unir políticas de igualdade social ao reconhecimento das identidades culturais de forma indissociável.[21]

Bibliografia

  • Multiculturalism's Double-Bind: Creating Inclusivity Cosmopolitanism and Difference. Ashgate Publishing, Ltd., 2009. P. 169
  • Ibanez B. Penas, Ma. Carmen López Sáenz. Interculturalism: Between Identity and Diversity. Bern: Peter Lang AG, 2006. P. 15.
  • CANDAU, V. M., (2000). Cotidiano escolar e cultura(as): encontros e desencontros. In: ______, Reinventar a escola. Petrópolis: Vozes. p. 61-78.
  • SILVA, V. A. DA .; REBOLO, F.. A educação intercultural e os desafios para a escola e para o professor*. Interações (Campo Grande), v. 18, n. 1, p. 179–190, jan. 2017.
  • REPETTO, Maxim. O CONCEITO DE INTERCULTURALIDADE: TRAJETÓRIAS E CONFLITOS DESDE AMÉRICA LATINA. TEXTOS E DEBATES, Boa Vista, n.33, p. 69-88, jul./dez. 2019. Disponível em: https://revista.ufrr.br/textosedebates/article/view/5986.
  • PACHECO, Natércia. Interculturalismo e Formação de Professores. In: SANTOS, M.; CARVALHO, A. (Dir.). Interacção cultural e aprendizagem. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997.p. 45-51.
  • VASCONCELOS, Luciana Machado. Mas definições em trânsito: interculturalidade. Centro de estudos multidisciplinares em cultura, UFBA. Disponível em: *Microsoft Word - INTERCULTURALIDADE.doc
  • CANDAU, Vera Maria. Direitos humanos, educação e interculturalidade: as tensões entre igualdade e diferença. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 37, p. 45-56, jan./abr. 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/5szsvwMvGSVPkGnWc67BjtC/?format=html&lang=pt
  • LOPEZ, L. E. Interculturalidad, educación y política em América Latina: perspectivas desde el sur. Pistas para una investigación comprometida y dialogal. IN: Interculturalidad, Educación y Ciudadanía. Perspectivas latinoamericanas. LÓPEZ, L. E. (Ed.). Bolivia: FUNPROEIB Andes, 2009.
  • CANDAU, V. M.; RUSSO, K. Interculturalidade e educação na América Latina: uma construção plural, original e complexa. Revista Diálogo Educacional, v. 10, n. 29, p. 151–169, 2010. [22]
  • EUZEBIO, D. F. S. O projeto educacional intercultural do Estado Plurinacional da Bolívia. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina, 2018.
  • FILGUEIRAS, I. P.; MALDONADO, D. T. Educação Intercultural e Pós-Colonial na Bolívia. Revista Educação Popular, v. 20, n. 2, 2021.
  • RUSSO, K.; BORRI-ANADON, C. Interculturalidade e inclusão na educação no Brasil e no Quebec. Periferia, v. 11, n. 3, 2019.
  • SANTIAGO, M. C.; AKKARI, A.; MESQUIDA, P. Interculturalidade no Brasil: Entre Políticas, Exclusões e Resistências. Educ. Foco, Juiz de Fora, v. 25, n. 3, p. 231-252, 2020.
  • SILVA, V. A. DA .; REBOLO, F.. A educação intercultural e os desafios para a escola e para o professor*. Interações (Campo Grande), v. 18, n. 1, p. 179–190, jan. 2017.
  • BOUCHARD, G.; TAYLOR, C. Fonder l'avenir, le temps de la conciliation. Québec: Commission de consultation sur les pratiques d'accommodement reliées aux différences culturelles, 2008.

Referências

  1. Nagle, John (15 de abril de 2016). «Multiculturalism's Double-Bind». doi:10.4324/9781315596235. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  2. Castillo Franco, Ignacio (1 de janeiro de 2007). «RESEÑA de: Penas Ibáñez, Beatriz, López Sáenz, Mari Carmen (eds.). Interculturalism : between identity and diversity. Berna : Peter Lang, 2006». Investigaciones Fenomenológicas (5). 299 páginas. ISSN 1885-1088. doi:10.5944/rif.5.2007.5471. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  3. a b c d e f WALSH, Catherine (2009). Interculturalidade Crítica e Pedagogia Decolonial: in-surgir, re-existir e re-viver. In: CANDAU, Vera Maria (Org.). Rio de Janeiro: 7Letras. p. p. 12-42 
  4. a b ŽIŽEK, Slavoj (27 de setembro de 2013). «Multiculturalismo ou a lógica cultural do capitalismo multinacional.». Estudos Culturais: Experiências e Projetos. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  5. a b WELSCH, Wolfgang (maio/agosto - 2007). «Mudança estrutural nas ciências humanas: diagnóstico e sugestões». Educação. Revistas Eletrônicas PUC-RS. v. 30 (n. 2 (62)): p. 197-212. Consultado em 12 jan 2026  Verifique data em: |data= (ajuda)
  6. a b BHARUCHA, Rustom (2017). «Viajando através do interculturalismo: do pós-colonial ao presente global.». ouvirOUver. v. 13 (n. 1): p. 12–23. Consultado em 12 jan. 2026 
  7. Araújo de Almeida, Marilene (2023). «Interculturalidade: um debate bibliográfico acerca dos seus desafios e perspetivas no Ambiente Escolar (2015 a 2020)» (PDF). Consultado em 12 de janeiro de 2026  line feed character character in |titulo= at position 60 (ajuda)
  8. «INTERCULTURALIDADE E MULTICULTURALISMO: A CONSTRUÇÃO DE UM CAMINHO PARA A COEXISTÊNCIA DIALOGANTE DE DUAS CULTURAS MINORITÁRIAS (QUILOMBOLAS E POMERANOS) NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO». INTERCULTURALIDADE E MULTICULTURALISMO: A CONSTRUÇÃO DE UM CAMINHO PARA A COEXISTÊNCIA DIALOGANTE DE DUAS CULTURAS MINORITÁRIAS (QUILOMBOLAS E POMERANOS) NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO. Consultado em 25 de dezembro de 2025  line feed character character in |periódico= at position 40 (ajuda); line feed character character in |título= at position 40 (ajuda)
  9. Marin, José. «Interculturalidade e descolonização do saber:relações entre saber local e saber universal, no contexto da globalização». periodicos unoesc edu br. Consultado em 17 de novembro de 2025 
  10. Walsh, Catherine (2009). «Interculturalidad crítica y educación intercultural» (PDF): 3. Consultado em 25 de dezembro de 2025 
  11. Walsh, Catherine (2009). «Interculturalidad crítica y educación intercultural» (PDF). Interculturalidad crítica y educación intercultural: 3 e 4. Consultado em 25 de dezembro de 2025 
  12. Silva, Vanilda Alves da; Rebolo, Flavinês (2017). «A educação intercultural e os desafios para a escola e para o professor*». Interações (Campo Grande): 179–190. ISSN 1518-7012. doi:10.20435/1984-042X-2017-v.18-n.1(14). Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  13. WALSH, Catherine (2009). «Interculturalidad, Estado, sociedad: luchas (de)coloniales de nuestra época.». Universidad Andina Simón Bolívar, Sede Ecuador. Consultado em 12 jan 2026 
  14. TUBINO, Fidel (2005). La interculturalidad crítica como proyecto ético-político. (PDF). [S.l.: s.n.] 
  15. WALSH, Catherine (2007). «Interculturalidad y colonialidad del poder.» (PDF). Consultado em 12 jan 2026 
  16. HALL, Stuart (2006). «A identidade cultural na pós-modernidade.» (PDF). Consultado em 12 jan 2026 
  17. WALSH, Catherine (2010). «Interculturalidad crítica y educación intercultural». Consultado em 12 jan 2026 
  18. a b c d e f CANDAU (2010). «INTERCULTURALIDADE E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA: uma construção plural, original e complexa» (PDF)  line feed character character in |titulo= at position 21 (ajuda)
  19. a b c d e RUSSO (2019). «INTERCULTURALIDADE E INCLUSÃO NA EDUCAÇÃO NO BRASIL E NO QUEBEC: diferentes concepções, semelhantes desafios» 
  20. EUZEBIO (2018). «O projeto educacional intercultural do estado plurinacional da Bolívia: análise da lei de educação 070 "avelino siñani y elizardo pérez" (2010) e os impactos de seu processo de implementação» 
  21. a b c d e Candau, Vera Maria (2008). «Direitos humanos, educação e interculturalidade: as tensões entre igualdade e diferença». Revista Brasileira de Educação: 45–56. ISSN 1413-2478. doi:10.1590/S1413-24782008000100005. Consultado em 12 de janeiro de 2026 
  22. Gava, Orlando, Eduardo (28 de julho de 2017). «AVALIAÇÃO DO FENÔMENO DA CARGA DE LAVAGEM NA ÁREA DE CONTRIBUIÇÃO DE UMA VALA DE INFILTRAÇÃO LOCALIZADA NO DISTRITO DO CAMPECHE (FLORIANÓPOLIS/SC)». Consultado em 12 de janeiro de 2026 


Ver também

Ligações externas

  • Entreculturas (consultado em 28 de Junho de 2008)
  • Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (consultado em 28 de Junho de 2008)
  • Conceitos de educação intercultural (consultado em 28 de Junho de 2008)