Inibidor da protease

Para os medicamentos para tratar infeções virais, ver inibidor da protease (farmacologia).

Em biologia e bioquímica, os inibidores da protease, ou antiproteases,[1] são moléculas que, na natureza, inibem a função das proteases (enzimas que realizam a degradação das proteínas). Muitos inibidores da protease naturais são proteínas.[2]

Em medicina, o termo inibidor da protease é frequentemente utilizado de forma indistinta com o termo alfa 1-antitripsina (A1AT, que se abrevia PI, isto é, inibidor da protease, por essa razão).[3] A A1AT é efetivamente um inibidor da protease que costuma estar envolvido em casos de doenças, concretamente na deficiência de alfa-1 antitripsina.

Classificação

Os inibidores da protease podem ser classificados pelo tipo de protease que inibem ou pelo seu mecanismo de ação. Em 2004, Rawlings e colegas introduziram uma classificação de inibidores da protease baseada nas semelhanças detetáveis ao nível da sequência de aminoácidos.[4] Esta classificação identificava inicialmente 48 famílias de inibidores que se podiam agrupar em 26 superfamílias (ou clãs) relacionadas pela sua estrutura. De acordo com a base de dados MEROPS existem 81 famílias de inibidores. Estas famílias são denominadas com um I (de inibidor) seguido de um número, por exemplo, a família I14 compreende os inibidores similares à hirudina.

Por protease

As classes de proteases são:

  • Inibidor da aspártico protease
  • Inibidor da cisteína protease
  • Inibidor da metaloprotease
  • Inibidor da serina protease
  • Inibidor da treonina protease
  • Inibidor da tripsina
    • Inibidor da protease STI Kunitz

Por mecanismo

As classes de mecanismo de ação inibidor são:

  • Inibidor suicida
  • Inibidor de estado de transição
  • Inibidor da proteína protease (ver serpinas)
  • Agentes quelantes

Famílias

Inibidor I4

Esta é uma família de inibidores suicidas de proteases chamadas serpinas. Contém inibidores de múltiplas famílias de cisteína proteases e serina proteases. O seu mecanismo de ação depende de sofrer uma grande mudança conformacional que inativa a tríade catalítica do seu alvo.

Inibidor I9

Inibidor da protease
Indicadores
PfamPF05922
InterProIPR010259
SCOP1gns

Os inibidores do propéptido proteinase (às vezes denominados péptidos de ativação) são responsáveis pela modulação do pregamento de proteínas e da atividade da proenzima peptidase ou zimogénio. O prosegmento atraca na enzima, protege o sítio de união do substrato, promovendo assim a inibição da enzima. Vários desses propéptidos têm uma topologia similar, apesar de frequentemente a identidade de sequências ser baixa.[5][6] A região propéptido tem um pregamento antiparalelo-alfa/antiparalelo-beta em sanduíche aberto, com duas hélices alfa e quatro fibras beta com uma topologia (beta/alfa/beta)x2. O inibidor da peptidase I9 contém o domínio propéptido no N-terminal das peptidases que pertencem à família S8A de MEROPS, a das subtilisinas. O propéptido é eliminado por corte proteolítico, o que ativa a enzima.

Inibidor I10

Inibidor da protease
Indicadores
PfamPF12559
InterProIPR022217

Esta família inclui as microviridinas e as marinostatinas. É provável que em ambos os casos o C-terminal seja o que se converte no inibidor ativo após modificações pós-traducionais do prepéptido de comprimento completo. São os enlaces éster dentro da região chave de 12 resíduos que circularizam a molécula, dando-lhe a sua conformação inibitória.

Inibidor I24

Inibidor da protease
Indicadores
PfamPF10465
InterProIPR019506

Esta família inclui PinA, que inibe a endopeptidase La. Liga-se ao homotetrámero La, mas não interfere com o sítio de ligação do ATP ou o sítio ativo de La.

Inibidor I29

Inibidor da protease
Indicadores
PfamPF08246
InterProIPR013201

O domínio inibidor I29, que pertence à família I29 de inibidores da peptidase de MEROPS, encontra-se no N-terminal de diversos precursores de peptidases que pertencem à subfamília C1A de peptidases de MEROPS; entre eles estão a catepsina L, papaína e procaricaína.[7][8] Forma um domínio alfa-helicoidal que atravessa o sítio de ligação do substrato, impedindo o seu acesso. A eliminação desta região por corte proteolítico resulta na ativação da enzima. Este domínio também se encontra, numa cópia ou mais, em vários inibidores de cisteína peptidases, como a salarina.[8]

Inibidor I34

Inibidor da protease
Indicadores
PfamPF10466
InterProIPR019507

O inibidor da sacaropepsina I34 é muito específico para a aspártico peptidase sacaropepsina. Na ausência de sacaropepsina está muito desestruturado,[9] mas na sua presença, o inibidor sofre uma mudança conformacional formando uma hélice alfa quase perfeita desde a Asn2 à Met32 na fenda do sítio ativo da peptidase.

Inibidor I36

Inibidor da protease
Indicadores
PfamPF03995
InterProIPR007141
SCOP1bhu

O domínio da família do inibidor da peptidase I36 só se encontra num pequeno número de proteínas restritas a espécies de Streptomyces. Todas têm quatro cisteínas conservadas que provavelmente formam duas pontes dissulfeto. Uma destas proteínas de Streptomyces nigrescens, é o bem caracterizado inibidor da metaloproteinase SMPI.[10][11]

Determinou-se a estrutura do SMPI. Tem 102 resíduos de aminoácidos com duas pontes dissulfeto e inibe especificamente metaloproteinases como a termolisina, que pertence à família de peptidases M4 de MEROPS. O SMPI é composto por duas folhas beta, cada uma das quais consiste em quatro fibras beta antiparalelas. A estrutura pode considerar-se como dois motivos de grecas com simetria interna binária, um barril beta em greca. Uma característica estrutural única encontrada no SMPI encontra-se na sua extensão entre a primeira e segunda fibras do segundo motivo de greca que se sabe estar envolvida na atividade inibitória do SMPI. Na ausência de semelhança de sequências, a estrutura do SMPI mostra uma clara semelhança com ambos os domínios das proteínas cristalinas do cristalino do olho, e com ambos os domínios da proteína S sensora do cálcio, assim como com o domínio único da toxina mortal de leveduras. A estrutura da toxina mortal de leveduras pensava-se que era uma precursora das proteínas beta gama-cristalinas de dois domínios, devido à sua semelhança estrutural com cada um dos domínios das beta gama-cristalinas. O SMPI fornece, pois, outro exemplo de uma estrutura de proteína de um só domínio que corresponde a pregamentos ancestrais a partir dos quais se crê que evoluíram as proteínas de dois domínios da superfamília das beta gama-cristalinas.[12]

Inibidor I42

Inibidor da protease
Indicadores
PfamPF09394
InterProIPR018990

A família do inibidor I42 inclui a chagasina, um inibidor reversível das cisteína proteases similares à papaína.[13] A chagasina tem uma estrutura de barril beta, que é uma variante única do pregamento de imunoglobulina com homologia com o CD8alfa humano.[14][15]

Inibidor I48

Inibidor da protease
Indicadores
PfamPF10467
InterProIPR019508

A família I48 de inibidores inclui a clitocipina, que se liga e inibe cisteína proteases. Não tem semelhança com nenhum outro inibidor de cisteína protease conhecido, mas apresenta algumas semelhanças com uma família de proteínas similares à lectina de cogumelos.[16]

Inibidor I53

Inibidor da protease
Indicadores
PfamPF11714
InterProIPR021716

Os membros desta família são o inibidor da peptidase das madaninas. Estas proteínas foram isoladas da saliva de carraças.[17]

Inibidor I67

Inibidor da protease
Indicadores
PfamPF11405
InterProIPR022713

O inibidor da bromelaína VI, na família de inibidores I67, é um inibidor de cadeia dupla que consta de uma cadeia de 11 resíduos e outra de 41 resíduos.

Inibidor I68

Inibidor da protease
Indicadores
PfamPF10468
InterProIPR019509

A família do inibidor da carboxipeptidase I68 representa uma família de inibidores da carboxipeptidase encontrada em carraças.[18]

Inibidor I78

Inibidor da protease
Indicadores
PfamPF11720
InterProIPR021719

A família do inibidor da peptidase I78 inclui o inibidor da elastase de Aspergillus.

Referências

  1. «antiprotease». The Free Dictionary 
  2. Roy, Mrinalini; Rawat, Aadish; Kaushik, Sanket; Jyoti, Anupam; Srivastava, Vijay Kumar (1 de agosto de 2022). «Endogenous cysteine protease inhibitors in upmost pathogenic parasitic protozoa». Microbiological Research (em inglês). 261 (número de artigo: 127061). ISSN 0944-5013. PMID 35605309. doi:10.1016/j.micres.2022.127061 
  3. OMIM - PROTEASE INHIBITOR 1; PI
  4. Rawlings ND, Tolle DP, Barrett AJ (março de 2004). «Evolutionary families of peptidase inhibitors». Biochem. J. 378 (Pt 3): 705–16. PMC 1224039Acessível livremente. PMID 14705960. doi:10.1042/BJ20031825 
  5. Tangrea MA, Bryan PN, Sari N, Orban J (julho de 2002). «Solution structure of the pro-hormone convertase 1 pro-domain from Mus musculus». J. Mol. Biol. 320 (4): 801–12. PMID 12095256. doi:10.1016/S0022-2836(02)00543-0 
  6. Jain SC, Shinde U, Li Y, Inouye M, Berman HM (novembro de 1998). «The crystal structure of an autoprocessed Ser221Cys-subtilisin E-propeptide complex at 2.0 A resolution». J. Mol. Biol. 284 (1): 137–44. PMID 9811547. doi:10.1006/jmbi.1998.2161 
  7. Groves MR, Taylor MA, Scott M, Cummings NJ, Pickersgill RW, Jenkins JA (outubro de 1996). «The prosequence of procaricain forms an alpha-helical domain that prevents access to the substrate-binding cleft». Structure. 4 (10): 1193–203. PMID 8939744. doi:10.1016/s0969-2126(96)00127-x 
  8. a b Olonen A, Kalkkinen N, Paulin L (julho de 2003). «A new type of cysteine proteinase inhibitor--the salarin gene from Atlantic salmon (Salmo salar L.) and Arctic charr (Salvelinus alpinus)». Biochimie. 85 (7): 677–81. PMID 14505823. doi:10.1016/S0300-9084(03)00128-7 
  9. Green TB, Ganesh O, Perry K, Smith L, Phylip LH, Logan TM, Hagen SJ, Dunn BM, Edison AS (abril de 2004). «IA3, an aspartic proteinase inhibitor from Saccharomyces cerevisiae, is intrinsically unstructured in solution». Biochemistry. 43 (14): 4071–81. PMID 15065849. doi:10.1021/bi034823n 
  10. Tanaka K, Aoki H, Oda K, Murao S, Saito H, Takahashi H (novembro de 1990). «Nucleotide sequence of the gene for a metalloproteinase inhibitor of Streptomyces nigrescens (SMPI)». Nucleic Acids Res. 18 (21). 6433 páginas. PMC 332545Acessível livremente. PMID 2243793. doi:10.1093/nar/18.21.6433 
  11. Murai H, Hara S, Ikenaka T, Oda K, Murao S (janeiro de 1985). «Amino acid sequence of Streptomyces metallo-proteinase inhibitor from Streptomyces nigrescens TK-23». J. Biochem. 97 (1): 173–80. PMID 3888972. doi:10.1093/oxfordjournals.jbchem.a135041 
  12. Ohno A, Tate S, Seeram SS, Hiraga K, Swindells MB, Oda K, Kainosho M (setembro de 1998). «NMR structure of the Streptomyces metalloproteinase inhibitor, SMPI, isolated from Streptomyces nigrescens TK-23: another example of an ancestral beta gamma-crystallin precursor structure». J. Mol. Biol. 282 (2): 421–33. PMID 9735297. doi:10.1006/jmbi.1998.2022 
  13. Monteiro AC, Abrahamson M, Lima AP, Vannier-Santos MA, Scharfstein J (novembro de 2001). «Identification, characterization and localization of chagasin, a tight-binding cysteine protease inhibitor in Trypanosoma cruzi». J. Cell Sci. 114 (Pt 21): 3933–42. PMID 11719560. doi:10.1242/jcs.114.21.3933 
  14. Figueiredo da Silva AA; de Carvalho Vieira L; Krieger MA; Goldenberg S; Zanchin NI; Guimarães BG (fevereiro de 2007). «Crystal structure of chagasin, the endogenous cysteine-protease inhibitor from Trypanosoma cruzi». J. Struct. Biol. 157 (2): 416–23. PMID 17011790. doi:10.1016/j.jsb.2006.07.017 
  15. Wang SX, Pandey KC, Scharfstein J, Whisstock J, Huang RK, Jacobelli J, Fletterick RJ, Rosenthal PJ, Abrahamson M, Brinen LS, Rossi A, Sali A, McKerrow JH (maio de 2007). «The structure of chagasin in complex with a cysteine protease clarifies the binding mode and evolution of an inhibitor family». Structure. 15 (5): 535–43. PMID 17502099. doi:10.1016/j.str.2007.03.012 
  16. Brzin J, Rogelj B, Popovic T, Strukelj B, Ritonja A (junho de 2000). «Clitocypin, a new type of cysteine proteinase inhibitor from fruit bodies of mushroom clitocybe nebularis». J. Biol. Chem. 275 (26): 20104–9. PMID 10748021. doi:10.1074/jbc.M001392200 
  17. Iwanaga S, Okada M, Isawa H, Morita A, Yuda M, Chinzei Y (maio de 2003). «Identification and characterization of novel salivary thrombin inhibitors from the ixodidae tick, Haemaphysalis longicornis». Eur. J. Biochem. 270 (9): 1926–34. PMID 12709051. doi:10.1046/j.1432-1033.2003.03560.x 
  18. Porter, Lindsay M.; Radulović, Željko M.; Mulenga, Albert (2017). «A repertoire of protease inhibitor families in Amblyomma americanum and other tick species: inter-species comparative analyses». Parasites & Vectors (em inglês). 10 (1): 152. ISSN 1756-3305. PMC 5361777Acessível livremente. PMID 28330502. doi:10.1186/s13071-017-2080-1