Indústria automóvel em Portugal

A indústria automóvel em Portugal surgiu na década de 1930 e continua na actualidade, com a produção de componentes automóveis e veículos de marcas internacionais sobretudo.
Origens
O primeiro automóvel em Portugal foi um Panhard & Levassor importado de Paris em 1895 pelo conde Jorge de Avillez.[1][2][3]
A indústria automóvel portuguesa nasceu da cultura de provas de competição e de modificação de automóveis em pequenas oficinas, que tomara raiz em Portugal nas décadas de 1920 e 1930, à semelhança do que se passava nos restantes países da Europa ocidental e EUA. Entre os primeiros carros feitos em Portugal contava-se o Felcom, montado em 1933 pelo piloto Eduardo Carvalho, a partir do chassis de um Turcat-Mery e de um motor modificado de um Ford A, que tinham pertencido ao piloto, mecânico e industrial Eduardo Ferreirinha, ao qual se juntou uma carroçaria original.[4]
Em plena década de 30, a revista O Volante popularizou o debate em torno da oportunidade de se criar uma indústria automóvel nacional.[5] O primeiro passo nesse sentido foi dado por Eduardo Ferreirinha que, através da sua metalúrgica dedicada ao fabrico de componentes para automóveis, a Eduardo Ferreirinha & Irmão, criou talvez o mais sofisticado e soberbo automóvel produzido em Portugal relativo à sua época, o Edfor Grand Sport.[6] Apresentado no Salão Automóvel do Porto em 1937, o roadster de dois lugares surpreendeu pelo seu conjunto de características técnicas inovadoras.[6] Incluía um motor V8 da Ford modificado com novos pistões desenhados pela EFI, passando assim a ter uma faixa rotativa mais alta, 3620 cm3 de cilindrada e 90cv, um chassis cujo esqueleto era construído numa liga de alumínio fundido, tambores em alumínio com alhetas, o que era raro à época, uma carroçaria aerodinâmica que, por ser feita em alumínio pesava somente 150kg e uma direcção fortemente desmultiplicada para facilitar a realização de manobras.[6] Pesava 970 kg e atingia a velocidade máxima de 160 km/h.[7] Só foram, porém produzidos quatro exemplares e a Segunda Guerra Mundial interrompeu as esperanças de se consolidar a produção em pequena série.[8]
Pós II Guerra Mundial
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A década de 1950 viu surgir em Portugal um número considerável de automóveis portugueses de elevada qualidade técnica e estética, embora dedicados quase exclusivamente à competição. A primeira marca a ser criada a seguir à Segunda Guerra Mundial foi a FAP, do piloto Fernando Palhinhas, que em 1950 participou no Circuito da Boavista com um automóvel feito por si, baseado num Adler Trumpf Junior.[9] A marca marcaria presença na maioria das corridas da década de 50, ganhado várias vitórias com vários carros.[9]
Seguiu-se o MG Canelas, construído entre 1952 e 1954 pelo engenheiro José Jorge Canelas, com 90 cv de potência, chassis tubular original, caixa de velocidades original, um motor de 1500cc de base MG e uma carroçaria aerodinâmica desenhada por um colega, António Andrade.[10] Ainda em 1952 foi criado o Alba, considerado estilisticamente mais apurado que os DM ou FAP, construído pela Fábrica Metalúrgica Alba, em Albergaria-a-Velha, por iniciativa de António Augusto Martins, filho do dono.[11] O piloto e mecânico Francisco Corte Real desenvolveu para a Alba desenvolveu vários motores também.[11]
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Em 1954 nasceu em Águeda a Olda, contracção de “Oliveira de Águeda”.[12] Com um veículo que tinha por base o chassis do Fiat 1100 e uma carroçaria construída numa pequena oficina situada no Porto, no Largo do Viriato, o projecto destacou-se não só pela sua qualidade como pelo piloto e técnico Joaquim Correia de Oliveira e Ângelo Costa, responsável pela preparação dos motores e pelo desenho da carroçaria.[12] Na II Taça da Cidade do Porto, no Circuito da Boavista, em 27 de Junho de 1954, a Olda terminou na terceira posição.[12] A marca ainda obteve bons resultados obtidos na Boavista, em Monsanto e um 2º lugar na classe de 1500 no circuito internacional de Tanger, porém a sua participação nas competições não passou das épocas de 1954, 1955 e 1956.[12]
O primeiro a idealizar um automóvel acessível para ser produzido em massa foi António Gonçalves Baptista, que produziu em 1952 um protótipo de um micro-carro bastante simples, o AGB Lusito, que dispunha um motor de 125cc retirado de uma motocicleta e colocado na traseira.[13] Apresentado em 1954 pelo jornal O Volante, a Direcção Geral de Viação proibiu a marca de fabricar motores e caixas de velocidade.[13] Teve o mérito de impressionar o engenheiro João Monteiro Conceição perto de cuja oficina metalomecânica avariou por acaso.[14] João Monteiro lançou uma parceira com António Gonçalves Baptista e criaram a Indústria Portuguesa de Automóveis.[13] A IPA desenvolveu apenas um modelo, o IPA 300, baseado na marca inglesa Astra, com dois protótipos, um de dois lugares e outro de quatro.[13] Demoraram cinco anos a desenvolver e trabalharam nos protótipos 25 pessoas na plataforma onde antes funcionara a Empresa Mineira do Lena, na Corredoura, em Porto de Mós.[14] Embora inspirado pelo AGB Lusito e dispondo também de motor atrás, era em tudo superior e tinha um motor de 300cm3 capaz de produzir 16cv.[13] Apresentado na Feira das Indústrias de 1958, que contou com a presença de Craveiro Lopes e Marcello Caetano, embora tenham sido homologados, recebido livretes e uma pré-encomenda de cinco exemplares, a produção foi proibida pelo Estado Novo, pois o secretário de Estado da Indústria tinha já decidido que a política industrial de Portugal passaria antes pela montagem no país de veículos de marcas europeias e americanas.[14]

Durante a Guerra do Ultramar, a Metalúrgica Duarte Ferreira destacou-se na produção das Berliet Tramagal para as Forças Armadas Portuguesas, montadas em Portugal entre 1964 e 1974 sob licença da marca francesa Berliet.[15] Tinham por base a Berliet Gazelle e o seu objectivo era substituir as obsoletas GMC produzidas pela General Motors durante a Segunda Guerra Mundial, bem como as viaturas pesadas civis militarizadas, de tracção traseira.[15] Foram apreciadas pelas tropas portuguesas em África devido à sua robustez, que oferecia uma certa resistência ao rebentamento de minas, à força do motor, capacidade de passagem de rios a vau.[15] Ainda durante a guerra, a pedido do governo português a BRAVIA SARL, Sociedade Luso-Brasileira de Viaturas e Equipamentos desenvolveu a Chaimite, um blindado de tracção às quatro rodas baseado no Cadillac Gage V-100 Commando americano.[16] Os seus cascos eram fabricados pela SOREFAME (Sociedades Reunidas de Fabricações Metálicas), que se dedicava à construção de locomotivas e carruagens para os caminhos-de-ferro e depois totalmente montadas nas Oficinas Gerais de Material de Engenharia, disponibilizadas para o efeito.[16] As primeiras unidades foram entregues em 1970 e posteriormente a Bravia exportou para o Peru, Líbia, Líbano e Filipinas, tendo sido a primeira empresa a exportar veículos militares portugueses.
1975-2000
O último quartel do séc. XX ficou marcado pelo predomínio da UMM, Portaro e Sado como projectos realmente concretizados na indústria automóvel portuguesa.

A Portaro lançou em pleno processo revolucionário o primeiro todo-o-terreno português.[17] Tinha por base chassis negociados à romena ARO por um dos seus fundadores, o empresário Hipólito Pires, motores Daihatsu a gasóleo ou Volvo a gasolina e carroçarias originais, montadas em Portugal.[17] Criado a pensar nas necessidades dos anos 80, os primeiros modelos começaram a ser vendidos em 1976 e tinham um estilo simples mas gradualmente ganharam carroçarias mais desenvolvidas.[17] A Portaro vendeu quase 7000 unidades em território nacional e exportou vários milhares até ter fechado portas em 1990, tendo a produção anual atingido os 2000 veículos, chegando a concorrência internacional a prestar atenção à capacidade técnica portuguesa devido ao Portaro.[17] A Portaro também desenvolveu um modelo pensado para as forças armadas e apresentado na Exposição do Exército Português em 1983 na FIL, denominado Portaro GVM.[17]

No ano seguinte ao lançamento dos primeiros Portaro foi criada a UMM, que começou a fabricar metalo-mecânica ligeira assim como veículos todo-o-terreno, após a aquisição de uma licença de fabrico à Cournil.[18] A empresa procurara produzir uma viatura ligeira 4x4 facilmente adaptável a diversas funções com o transporte fora de estrada, a ligação militar, agrícola, florestal, segurança pública como polícia e bombeiros, construção civil e lazer.[18] As carroçarias eram feitas em Mem Martins e enviadas para pintura numa linha de montagem própria da UMM em Setúbal.[18] A UMM destacou-se em provas como o Rally Dakar mas o declínio da marca começou quando o Estado Português optou pelo concorrente directo do UMM Alter II, o Nissan Patrol.[19]

Entre 1975 e 1978, enquanto eram lançados os primeiros Portaro e UMM, a Entreposto Comercial SA, um grupo empresarial que desde a década de 50 se dedicava à metalo-mecânica, projectou um micro-carro a que deu o nome de Projecto Ximba, pensado com as crescentes dificuldades no sector automóvel em mente.[20][21] Depois desenvolveu e testou até 1979 todos os aspectos do carro para garantir uma produção economicamente viável e utilização simples, fiável e económica.[20] O objectivo era produzir um veículo pequeno, funcional, fiável e barato de produzir, utilizar e manter, em pequenos circuitos urbanos e que utilizasse o máximo de incorporação nacional possível.[20][21] O resultado foi o veículo mais acessível no mercado, com um forte cunho português, pois utilizava quase 70% de incorporação nacional na sua produção, incluindo a mão-de-obra.[20] Existiam cinco versões, custando entre entre 70 000 escudos e 290 000 escudos.[21] Comercializado a partir de 1982, os primeiros Sado 550 produzidos esgotaram rapidamente e a procura gerou uma lista de espera.[20] Não obstante, só foram comercializados até 1985 devido à falta de viabilidade económica do projecto, que gerou custos inesperadamente altos causados pela "falta de planeamento e de produtividade da maioria das empresas" segundo um dos responsáveis.[21] No total foram vendidos 500 Sados 550.[21]
Actualidade
Após a saída da Portaro, Sado e UMM dos mercados, a indústria automóvel portuguesa reverteu em grande medida para o fabrico de componentes e montagem de veículos para marcas estrangeiras.
Em 2020, o sector automóvel em Portugal contava com 752 empresas, que não só montam automóveis mas também produzem reboques, semi-reboques, componentes e empregavam mais de 43,2 mil pessoas.[22] Elas pesam 20,2% nas exportações nacionais da indústria transformadora e mantêm-se como a segunda Divisão da CAE com maior contribuição (3,8%) das exportações para o PIB português, com 82,8% do valor da produção com destino além-fronteiras.[23]
Portugal conta actualmente com cinco fábricas de produção e montagem de automóveis.[22]
| Localização | Produtor | Tipo de Produção | Marca | Nome |
|---|---|---|---|---|
| Mangualde | Stellantis | Veículos comerciais ligeiros | Peugeot, Citroën | Stellantis Mangualde |
| Ovar | Toyota Motor Europe | Veículos comerciais ligeiros | Toyota | Toyota Caetano Portugal S.A. |
| Palmela | Grupo Volkswagen | Veículos ligeiros de passageiros | Volkswagen, SEAT | Autoeuropa |
| Tramagal | Mercedes-Benz Group | Veículos pesados de mercadorias | Fuso | Mitsubishi Fuso Truck Europe |
| Vila Nova de Gaia | Caetanobus | Autocarros | Caetano, Cobus | CaetanoBus |
Antigos fabricantes automóveis em Portugal
- Auto Federal Lda.
- AGB
- Alba
- AR
- BRAVIA
- CAMAT
- DM
- Eduardo Ferreirinha & Irmão
- Edfor
- Entreposto Comercial S.A.
- Etnerap
- Fábricas Metalúrgicas Alba
- FAP
- Felcom
- IPA
- LNA
- Marlei
- Metalúrgica Duarte Ferreira
- Olda
- Portaro
- Sado
- União Metalo-Mecânica
Ver também
- Economia de Portugal
- Companhia Aveirense de Componentes para a Indústria Automóvel
- Vinci GT
- Chaimite
Referências
- ↑ www.acp.pt. «Panhard & Levassor - Clássicos com história | ACP Clássicos». www.acp.pt. Consultado em 11 de outubro de 2025
- ↑ «Os primeiros automóveis em Portugal». RTP Ensina. Consultado em 11 de outubro de 2025
- ↑ Junceiro, Pedro (8 de julho de 2019). «Conhece a história do primeiro carro a entrar em Portugal?». Motor 24. Consultado em 11 de outubro de 2025
- ↑ José Barros Rodrigues, Salvador Patrício Correia, Teófilo Santos, 2023, pp. 8-9.
- ↑ José Barros Rodrigues, Salvador Patrício Correia, Teófilo Santos, 2023, p. 8.
- ↑ a b c «EDFOR: a marca portuguesa que produziu o elegante Grand Sport». Turbo. Consultado em 11 de outubro de 2025
- ↑ Mascarenhas, Manuel (21 de abril de 2016). «Estas 11 marcas de automóveis são portuguesas. Conhece todas?». Razão Automóvel. Consultado em 11 de outubro de 2025
- ↑ José Barros Rodrigues, Salvador Patrício Correia, Teófilo Santos: Automóveis Portugueses, Museu do Caramulo, 2023, p. 11.
- ↑ a b José Barros Rodrigues, Salvador Patrício Correia, Teófilo Santos, 2023, pp. 12-13.
- ↑ José Barros Rodrigues, Salvador Patrício Correia, Teófilo Santos, 2023, pp. 14-15.
- ↑ a b José Barros Rodrigues, Salvador Patrício Correia, Teófilo Santos, 2023, pp. 16-17.
- ↑ a b c d Clássicos, Jornal dos (31 de julho de 2017). «Olda a marca de carros de corrida de Oliveira de Águeda». Motor 24. Consultado em 11 de outubro de 2025
- ↑ a b c d e «AGB e IPA: duas marcas portuguesas, um só objetivo». Turbo. Consultado em 11 de outubro de 2025
- ↑ a b c «IPA, o primeiro carro português de produção, vai regressar a Porto de Mós». Jornal de Leiria. Consultado em 11 de outubro de 2025
- ↑ a b c Morais, Ricardo. «As Berliet-Tramagal dos Fuzileiros». www.marinha.pt. Consultado em 13 de outubro de 2025
- ↑ a b «CHAIMITE V-200 (Parte I) | Operacional». Consultado em 13 de outubro de 2025
- ↑ a b c d e José Barros Rodrigues, Salvador Patrício Correia, Teófilo Santos: Automóveis Portugueses, Museu do Caramulo, 2023, p. 28-29.
- ↑ a b c José Barros Rodrigues, Salvador Patrício Correia, Teófilo Santos: Automóveis Portugueses, Museu do Caramulo, 2023, pp. 30-31.
- ↑ Clássicos, Jornal dos (11 de junho de 2018). «UMM: A história de um símbolo português». Motor 24. Consultado em 13 de outubro de 2025
- ↑ a b c d e José Barros Rodrigues, Salvador Patrício Correia, Teófilo Santos: Automóveis Portugueses, Museu do Caramulo, 2023, pp. 32-33.
- ↑ a b c d e «Entreposto: a marca portuguesa que nos deu o SADO 550». Turbo. Consultado em 13 de outubro de 2025
- ↑ a b Jordão, Fernandes, 2022, p. 7.
- ↑ Maria Jordão, Fábio Fernandes: A Indústria Automóvel em Portugal. Cadernos Temáticos, Direção de Serviços para a Política Empresarial, Divisão de Política Setorial, 2022, p. 4.