Imunoeletroforese

A imunoeletroforese é uma técnica de imunoprecipitação, que combina eletroforese e imunodifusão radial em meio gelificado, em tempos distintos, mas com alto poder de resolução. Esse método tem a capacidade de comparar e evidenciar frações antigênicas que são separadas em geral, em gel de galactose, sob influência de um campo elétrico; Entretanto, apesar de que moléculas podem apresentar cargas elétricas próximas, a técnica junta-as em pontos próximos para a migração eletroforética.[1][2]

Imunoelectroforese cruzada de 2 microlitros de soro humano normal. A electroforese foi realizada em camadas finas de agarose, o gel mostrado é de cerca de 7x7 cm. A parte inferior é o gel de primeira dimensão sem anticorpos, onde o soro foi aplicado no sulco na parte inferior esquerda. A parte superior é o gel de segunda dimensão com anticorpos Dako contra proteínas do soro humano. Podem ser nomeadas mais de 50 proteínas séricas principais.
Imunoelectroforese de foguete fundido de uma separação cromatográfica de afinidade de proteínas de soro humano em ConA. Uma amostra de 15 microlitros de cada fração é aplicada (a começar pela esquerda) e deixada a difundir durante uma hora, depois a electroforese é realizada durante a noite. O pico "a" não é retido, o pico "b" é retido e eluído com metilmanose, a seta indica algumas proteínas ligeiramente retidas.

A imunoelectroforese é um nome geral aplicado a vários métodos bioquímicos para a separação e a caracterização de proteínas baseados na electroforese e na reação com anticorpos. Todas as variantes de imunoelectroforese requerem imunoglobulinas (anticorpos), que reagem com as proteínas para que sejam separadas ou caracterizadas. Os métodos foram desenvolvidos e usados extensivamente durante a segunda metade do século XX. Por ordem quase cronológica, apareceram os seguintes métodos: análise imunoelectroforética (imunoelectroforese unidimensional ad modum Grabar), imunoelectroforese cruzada (imunoelectroforese quantitativa bidimensional ad modum Clarke e Freeman ou ad modum Laurell), imunoelectroforese foguete (imunoelectroforese quantitativa unidimensional ad modum Laurell), imunoelectroforese foguete fundido ad modum Svendsen e Harboe, imunoelectroforese de afinidade ad modum Bøg-Hansen.

A agarose em lâminas de gel a 1% de aproximadamente 1 mm de espessura, tamponadas a alto pH (cerca de 8,6) é o material tradicionalmente preferido para a electroforese com reação com anticorpos. A agarose foi escolhida como matriz do gel porque tem poros grandes que permitem a livre passagem e separação das proteínas, mas proporciona ao mesmo tempo uma âncora para os imunoprecipitados de proteínas e anticorpos específicos. É realizada a um pH alto porque os anticorpos são praticamente imóveis a pH alto. Recomenda-se geralmente um equipamento de electroforese com uma placa de arrefecimento horizontal. Os imunoprecipitados podem ser observados no gel de agarose húmido, mas são corados com corantes para as proteínas, como o Azul Brilhante Coomassie, no gel seco. Em contraste com a SDS-electroforese em gel, a electroforese em agarose permite manter as condições nativas, conservando a estrutura nativa e as atividades das proteínas em investigação, portanto, a imunoelectroforese permite a caracterização de atividades enzimáticas, de ligação a ligandos, etc., para além da separação electroforética.

Tipos

A análise imunoelectroforética ad modum Grabar é o método clássico de imunoelectroforese. As proteínas são separadas por electroforese, depois os anticorpos são aplicados num sulco próximo às proteínas separadas e formam-se imunoprecipitados após um período de difusão das proteínas separadas e anticorpos. A introdução da análise imunoelectroforética deu um grande impulso à química de proteínas, e alguns dos primeiros resultados foram a resolução de proteínas em fluídos biológicos e extratos biológicos. Entre as importantes observações feitas estiveram a caracterização do grande número de proteínas diferentes do soro, a existência de várias classes de imunoglobulinas e a sua heterogeneidade electroforética.

A glutamato desidrogenase (pGluDH) de Plasmodium separada por contrainunoelectroforese[3]

A imunoelectroforese cruzada também se chama imunoelectroforese quantitativa bidimensional ad modum Clarke e Freeman ou ad modum Laurell. Neste método as proteínas são primeiramente separadas durante a electroforese de primeira dimensão, depois em vez da difusão em direção aos anticorpos, as proteínas são submetidas a electroforese num gel que contém anticorpos na segunda dimensão. A imunoprecipitação terá lugar durante a electroforese de segunda dimensão e os imunoprecipitados têm uma característica forma de sino, na qual cada precipitado representa um antigénio; a posição dos precipitados é dependente da quantidade das proteínas, bem como da quantidade de anticorpos específicos no gel, pelo que se pode realizar a quantificação relativa. A sensibilidade e o poder de resolução da imunoelectroforese cruzada é como o da análise imunoelectroforética clássica e há múltiplas variações da técnica úteis para vários propósitos. A imunoelectroforese cruzada foi utilizada para estudos de proteínas em fluídos biológicos, particularmente no soro humano, e extratos biológicos.

A imunoelectroforese foguete é uma imunoelectroforese quantitativa unidimensional. O método foi utilizado para a quantificação de proteínas do soro humano antes do aparecimento dos métodos automatizados.

A imunoelectroforese foguete fundida é uma modificação de uma imunoelectroforese quantitativa unidimensional usada para uma medida detalhada de proteínas em frações procedentes dos experimentos de separação de proteínas.

A imunoelectroforese de afinidade está baseada em mudanças no padrão electroforético de proteínas por meio de interações específicas ou formação de complexos com outras macromoléculas ou ligandos. A imunoelectroforese de afinidade foi utilizada para a estimativa das constantes de ligação, como por exemplo com as lectinas ou a caracterização de proteínas com características específicas, como conter glicanos ou ligação a ligandos. Algumas variantes da imunoelectroforese de afinidade são semelhantes à cromatografia de afinidade no uso de ligandos imobilizados. A estrutura aberta do imunoprecipitado no gel de agarose permite a ligação adicional de anticorpos marcados radioativamente para revelar proteínas específicas. Esta variação foi utilizada para a identificação de alergias por reação com IgE.

Uso atual

Dois fatores determinam que os métodos imunoelectroforéticos não se utilizem amplamente. O primeiro é que dão muito trabalho e requerem certa perícia manual. O segundo é que necessitam de quantidades bastante grandes de anticorpos policlonais. Hoje, a electroforese em gel seguida de electroblotting é o método preferido para a caracterização de proteínas devido à sua facilidade de operação, a sua alta sensibilidade e o seu baixo requerimento de anticorpos específicos. Além disso, as proteínas são separadas por electroforese em gel baseando-se no seu peso molecular aparente, o que não é realizado por imunoelectroforese, mas, no entanto, os métodos imunoelectroforéticos são ainda úteis quando são necessárias condições não redutoras.

Referências

  1. Departamento de Microbiologia e Parasitologia (2004). Imunoeletroforese. Universidade Federal de Santa Maria.
  2. A. Teva, J.C.C. Fernandez, V. L. Silva. Imunologia.
  3. Ling IT.; Cooksley S.; Bates PA.; Hempelmann E.; Wilson RJM. (1986). «Antibodies to the glutamate dehydrogenase of Plasmodium falciparum». Parasitology. 92 (2): 313–324. PMID 3086819. doi:10.1017/S0031182000064088