Ilha do Pessegueiro

Ilha do Pessegueiro
A ilha do Pessegueiro, no Alentejo, em Portugal
Ilha do Pessegueiro está localizado em: Portugal Continental
Ilha do Pessegueiro
Localização no mapa de Portugal Continental
Coordenadas: 37° 50' 1" N 8° 47' 52" O
Geografia
PaísPortugal Portugal
LocalizaçãoConcelho de Sines, a sul de Porto Covo
Ponto culminante21 m
Demografia
População0

A ilha do Pessegueiro localiza-se na costa do Alentejo Litoral, ao largo da freguesia de Porto Covo (da qual depende administrativamente), no município de Sines, distrito de Setúbal, em Portugal. A ilha, assim como a costa adjacente, faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Uma canção de Rui Veloso refere esta ilha e tornou-a mais conhecida entre os portugueses. A ilha foi habitada pelo menos desde a Idade do Ferro, tendo sido um importante entreposto durante a época romana.[1] Nos finais do século XVI e inícios do XVII iniciou-se a construção de dois fortes, um na ilha e outro em terra,[2] que iriam ser parte de um grande porto artificial ligando a ilha ao continente, mas as obras nunca chegaram a ser concluídas.[3]

Descrição

Localização e descrição física

Ilha do Pessegueiro vista de Porto Covo, numa tarde de Inverno
A ilha do Pessegueiro está incorporada no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

A Ilha do Pessegueiro apresenta uma planta sensivelmente em forma de navio, orientada de Norte para Sul, com cerca de 355 m de comprimento por por 235 m de largura.[4] é composta principalmente por arenito dunar, e está situada a cerca de 15 Km da cidade de Sines, no sentido Sul, e a uma distância de 250 m da faixa costeira.[3]

É um dos pontos da freguesia de Porto Corvo mais visitado por turistas,[5] Sendo considerada como um dos postais ilustrados da região. Recortada por rochas, a praia fica mesmo em frente à ilha. Num monte sombranceiro ao mar existe um velho forte do século XVII.[carece de fontes?] Este era utilizado em conjunto com uma outra fortificação, situada no continente.[6] No Verão há visitas organizadas à ilha, que mantém os vestígios de uma velha muralha e de um porto romano.[7]

Do ponto de vista ambiental, a Ilha do Pessegueiro faz parte de uma importante área na faixa litoral de Sines, tanto pela sua paisagem como pela sua biodiversidade.[8] A ilha, em especial, é utilizada como dormitório e local de nidificação para aves, como gralhas, gaivotas e corvos-marinhos, das quais algumas estão em perigo de se extinguirem.[8] Na costa continental, em frente à ilha e perto da fortaleza, encontra-se a Praia da Ilha do Pessegueiro.[9]

Vestígios arqueológicos

Os vestígios de ocupação romana consistem principalmente num conjunto de ruínas de edifícios, identificados como habitações, armazéns,[3] uma forja, um forno de cozer pão, e cetárias para a produção de derivados de peixe.[4]

Foram identificadas várias casas de planta rectangular, sendo os muros compostos na base por blocos de grés dunar ligados por argila, enquanto que a parte superior utilizava taipa.[10] Os pavimentos eram formados por rocha cortada e regularizada.[10] Estas habitações foram construídas principalmente a partir da segunda metade do século I d.C., embora alguns dos compartimentos tenham sido abandonados ainda durante essa centúria, como pode ser constatado pelo derrube de parte das paredes.[10] Por volta do século IV, provavelmente na segunda metade dessa centúria, foi construído um pequeno balneário,[10] sobre uma camada de vestígios dos séculos III ou IV.[10] Este era composto por uma sala, que seria o vestíbulo, que dava acesso a uma sala maior, de planta rectangular, com um hipocausto e uma tina de água fria, provavelmente o frigidário.[10] Este balneário terá estado em funcionamento até aos finais do século IV ou princípios do seguinte.[3] Quanto ao forno, sobreviveu a sua base, de forma circular e um diâmetro interno de 2,30m, lajeada por tijoleiras.[11] Provavelmente teria uma cúpula em barro, suportada por uma parede circular formada por blocos de grés dunar, unidos por argila.[11] Este seria principalmente utilizado para a cozedura do pão, tendo funcionado no século III.[11]

O complexo de salga do peixe, localizado no sector IV, era de forma sensivelmente quadrangular, sendo composto por um pátio central, pavimentado a opus signinum, e vários tanques escavados no solo.[11] Estes tinham cerca de 1,3 m de profundidade, e eram forrados a opus signinum, com meias-canas nos ângulos interiores.[11] Em complemento dos tanques de salga, existia um conjunto de espaços funcionais, formado por seis compartimentos divididos em dois grupos, separados por uma rua.[12] Estes seriam talvez armazéns para o sal ou oficinas para a preparação do peixe.[12]

O espólio encontrado na ilha inclui fragmentos de ânforas romanas, nas formas Almagro 50 e Almagro 51 C, além de peças em terra sigillata clara D, do século IV.[13] Algumas das peças eram de origem sudgálica, enquanto que outras eram hispânicas, provavelmente de Andújar.[10]

Planta de 1781 da Ilha do Pessegueiro, incluindo o forte.
Fotografia aérea do Forte na ilha do Pessegueiro, em 2021. No lado esquerdo é vísível o forte continental.

História

A ocupação humana na ilha é muito antiga, devido principalmente às boas condições para a fundeação de barcos no canal que a separa do continente.[3] Com efeito, esta situação geográfica permitia que o canal fosse usado como porto de abrigo natural, algo de pouco comum na faixa costeira alentejana.[14]

Esta situação geográfica era pouco comum na faixa costeira alentejana, permitiu o desenvolvimento da pesca e do fabrico de produtos piscícolas, além da exportação do minério oriundo da Serra do Cercal e de outros locais, tendo-se desta forma afirmado como um importante entreposto comercial.[3] O seu forte movimento pode ser constatado pela presença de materiais cerâmicos, de várias origens.[3]

Foram encontrados alguns vestígios de ocupação durante a Idade do Ferro, embora muito destruídos.[1] No entanto, a maior parte dos indícios de ocupação na ilha pertencem à época romana, mais concretamente entre os séculos I e IV d.C., correspondendo ao período imperial.[3] Esta cronologia poderá ser subdividida em duas fases, uma inicial correspondente à ocupação inicial, que principiou na segunda metade do século I d.C., e uma posterior, de reorganização dos espaços, que decorreu entre os séculos II e IV.[12] Durante o período romano, a Ilha do Pessegueiro afirmou-se como um centro de produção de peixe salgado, podendo ter levado ao declínio desta indústria na povoação romana de Sines.[14]

Nos princípios do século XVI e inícios do XVII, durante o domínio filipino de Portugal, foi planeada a instalação de dois fortes na área da Ilha do Pessegueiro, um na própria ilha e outro no continente, no outro lado do canal, no sentido de combater a crescente ameaça dos corsários.[15] Estas duas fortificações iriam fazer parte de um grande porto artificial, que incluiria um pontão ligando a ilha ao continente.[3] Em 1603, o rei Filipe II ordenou a construção do forte insular.[2] No entanto, as obras do porto artificial não foram concluídas, embora tenha chegado a ser construído um pontão entre a ilha e o continente, que foi depois totalmente destruído pelo oceano.[3] O pontão tinha sido edificado com recurso a grandes blocos de pedra, extraídos de uma pedreira no lado setentrional da ilha, onde permaneceram alguns blocos que não chegaram a ser utilizados.[3] O forte no interior da ilha foi muito danificado pelo Sismo de 1755, ficando em estado de ruína.[6]

Na década de 1980 a ilha começou a ser usada como um destino de campismo selvagem, tendo sido um dos principais impulsos para a afirmação de Porto Covo como um dos mais importantes destinos turísticos no país.[5] Em 1980 foram feitos trabalhos arqueológicos de emergência, numa área da ilha que estava em risco de ser danificada pelo efeito erosivo das ondas, onde foram encontrados vestígios de estruturas romanas.[13] Esta campanha prosseguiu em 1981, 1982 e 1983, tendo sido descobertos vestígios de habitações, armazéns, um balneário termal, um forno de pão, e um complexo de salgas de peixe.[10][11][12]

Origem do nome

O seu nome é de origem latina e provém da atividade piscatória nomeadamente de ser centro produtor de preparados de peixe na época romana, evoluindo a partir do termos piscatório (piscatorius) ou piscário (piscarium).[16]

A Lenda de Nossa Senhora da Queimada

A tradição refere o milagre de Nossa Senhora da Queimada. Em meados do século XVIII, chegando à ilha um grupo de piratas vindos do norte de África, estes foram enfrentados por um eremita que aí mantinha uma ermida sob a invocação de Virgem Maria. Assassinado o religioso e saqueada a capela, a imagem da Nossa Senhora foi atirada às chamas.[carece de fontes?]

Após a retirada dos agressores, chegaram à ilha os habitantes de Porto Covo que, ao terem constatado os danos provocados, deram sepultura cristã ao eremita. Sem conseguir localizar a imagem mariana ali cultuada, deram-lhe busca por toda a ilha, terminando por localizá-la miraculosamente intacta no meio dos restos de uma moita queimada. Essa imagem foi recolhida em uma nova ermida, erguida para abrigá-la, no continente, a cerca de 1 km de distância: a Capela de Nossa Senhora da Queimada, local onde passou a ser venerada pela população.[carece de fontes?]

Ver também

Notas

  1. a b «Ilha do Pessegueiro». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 9 de Junho de 2025 
  2. a b «Forte da costa de Porto Covo vai ser recuperado». Público. 8 de Junho de 2006. Consultado em 13 de Junho de 2025 
  3. a b c d e f g h i j k «Sítio arqueológico da Ilha do Pessegueiro». Sítios arqueológicos. Câmara Municipal de Sines. Consultado em 5 de Junho de 2025 
  4. a b «Forte do Pessegueiro». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 9 de Junho de 2025 
  5. a b BERNARDO, Joaquim (4 de Janeiro de 2022). «Freguesia de Porto Covo comemorou 37 anos no dia 31 de dezembro». Rádio Sines. Consultado em 8 de Junho de 2025 
  6. a b «Forte do Pessegueiro». Câmara Municipal de Sines. Consultado em 7 de Junho de 2025 
  7. Guia Visão das Praias (2004), pág. 112.
  8. a b «Património natural». Sítios arqueológicos. Câmara Municipal de Sines. Consultado em 7 de Junho de 2025 
  9. «Praia da Ilha do Pessegueiro». Praias. Câmara Municipal de Sines. Consultado em 7 de Junho de 2025 
  10. a b c d e f g h «Escavação (1981)». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 9 de Junho de 2025 
  11. a b c d e f «Escavação (1982)». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 13 de Junho de 2025 
  12. a b c d «Escavação (1983)». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 13 de Junho de 2025 
  13. a b «Escavação (1980)». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 9 de Junho de 2025 
  14. a b «História». Câmara Municipal de Sines. Consultado em 7 de Junho de 2025 
  15. «História de Sines». Câmara Municipal de Sines. Consultado em 8 de Junho de 2025 
  16. Porto Covo; www.infopedia.pt

Ligações externas