Ilê Aiyê
Ilê Aiyê
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| Fundação | 1 de novembro de 1974 (51 anos) |
| Cores | |
| Bairro | Curuzu |
| ileaiyeoficial.com | |
O Ilê Aiyê, ou Ilê, é o primeiro bloco afro do Brasil[1][2] e se consolidou como uma das expressões culturais do Carnaval de Salvador.
Fundado em 1974 por moradores do bairro do Curuzu, constitui um grupo cultural que promove a expansão da cultura de origem africana no Brasil.[3] A expressão significa, em língua iorubá, Mundo negro ou Casa de negro ou ainda Casa da Terra.[4]
História
O Ilê Aiyê foi fundado em 1 de novembro de 1974 por Antônio Carlos dos Santos e Apolônio de Jesus no bairro do Curuzu, com a proposta de ser um bloco negro.[5] Sua primeira apresentação ocorreu no carnaval de 1975, tendo participação de menos de cem pessoas.[6] Nela o grupo apresentou a música Que Bloco é Esse, de Paulinho Camafeu:
Que Bloco é esse
Eu quero saber
É o mundo negro
Que viemos cantar para você
A história do Ilê Aiyê mistura-se à história do terreiro Ilê Axé Jitolu e sua responsável, a Ialorixá Mãe Hilda. Por aproximadamente 20 anos, o terreiro serviu ao bloco como diretoria, secretaria, salão de costura e recepção de associados. No Carnaval, o bairro do Curuzu é palco de um ato cultural-religioso, a bênção para a saída do bloco.[7][8]
O surgimento do grupo evidenciou a fragilidade do conceito de democracia racial, provocando críticas como a do jornal A Tarde, que em 12 de fevereiro de 1975 tinha como manchete: "Bloco Racista, Nota Destoante".[9] Inicialmente seus fundadores pretendiam nomeá-lo "Poder Negro". Entretanto, a Polícia Federal da Bahia impediu o registro do bloco com este nome alegando conotações negativas e "alienígenas". Além disso, à época, a imprensa baiana apoiou e incentivou a proibição acusando o movimento de formação do bloco de ter "inconcebíveis intenções subversivas" por pretender vincular a situação do negro brasileiro à do negro americano.[10]
Atualmente o bloco mantém uma associação cultural com cerca de 3 mil associados, sendo considerado um patrimônio da cultura baiana, marco no processo de reafricanização do Carnaval da Bahia. Caracteriza-se também como uma entidade de militância negra, contando com ações de valorização da cultura e de combate ao racismo.[11]
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Com vários discos gravados, o Ilê Aiyê excursiona freqüentemente ao exterior. O projeto cultural mantém escolas para crianças carentes em Salvador. Entre os maiores sucessos do bloco estão "Que Bloco É Esse", "Depois que o Ilê Passar", "Charme da Liberdade", "Viva o Rei", "Décima Quinta Sinfonia", "Exclusão", "Deusa do Ébano".
O objetivo da entidade é preservar, valorizar e expandir a cultura afro-brasileira.
Rituais
A Bênção e o Ritual de Saída do Ilê Aiyê
A celebração, que mescla elementos culturais e religiosos, inicia-se com uma orquestra de percussão e um coral negro, entoando cânticos e ritmos ancestrais. Até 2009, a liderança desse ritual era exercida por Mãe Hilda, ialorixá e figura central na história do Ilê Aiyê. Mãe Hilda, com a sua sabedoria e fé, conduzia a oferenda de milho branco cozido e pipoca, alimentos sagrados para Oxalá, orixá da paz, e Obaluaê, orixá da saúde.
Após a partida de Mãe Hilda, sua filha e sucessora, Hildelice Benta dos Santos, carinhosamente conhecida como Doné Hildelice, assumiu a responsabilidade de manter viva a tradição. Doné, termo do candomblé jeje para sacerdotisa, preserva com zelo cada detalhe do evento, garantindo a continuidade desse marco cultural de Salvador.
O ponto culminante do ritual é a revoada de pombas brancas, um símbolo de paz e pureza, que anuncia a saída da Deusa do Ébano, a representante da beleza negra escolhida pelo Ilê Aiyê. A partir desse momento, o bloco inicia seu desfile pela ladeira do Curuzu, contagiando o público com sua música, dança e ancestralidade. O ritual de saída do Ilê Aiyê no Curuzu transcende a mera celebração carnavalesca, representando um ato de resistência cultural e religiosa. A tradição, transmitida de geração em geração, fortalece os laços da comunidade afro-brasileira com suas raízes africanas, preservando a memória e a identidade de um povo. [12][8]
Deusa do Ébano
Das majestades que o bloco desperta, tem uma que é divindade: a Deusa do Ébano. Eleita durante a Noite da Beleza Negra, uma festa que ocorre desde 1979 e foi idealizada por um dos frequentadores do bloco, Sérgio Roberto dos Santos, a partir dos concursos tradicionais de Rainhas do Carnaval. Nos anos anteriores, de 1976 a 1978, antes de a festa ter nome, o concurso elegeu três rainhas. A primeira escolhida, em 1976, foi Mirinha, (Maria de Lourdes Cruz – Salvador, 1958).
A festa subverte a proposta dos concursos de beleza tradicionais, tornando-se um evento de celebração da raça negra. Em sua dimensão política e estética, o concurso é um exercício de autovalorização e de decomposição dos discursos racistas, a partir do reconhecimento da beleza negra. Não se usam padrões de idade ou de medidas para definir a vencedora. O que faz valer a vitória é a força da "deusa" em envolver a plateia e os jurados com sua simpatia e performance.
O espetáculo ocorre antes do Carnaval e é aberto por um cortejo coreografado, com figurinos e adereços da diretora artística e estilista do bloco, Dete Lima. Desse cortejo, em 1985, nasceu o Grupo de Dança do Ilê Aiyê. A programação da noite segue com a apresentação das candidatas – com roupas do Ilê e fantasias individuais. Quando a vencedora é escolhida, ocorre a passagem do manto da deusa eleita no ano anterior.
A eleita é destaque nas saídas do bloco no Carnaval e participa de todas as suas atividades durante o ano. É consenso que o concurso tem como resultado a consciência de pertencimento étnico-racial e suas reverberações no campo político. São mulheres conscientes de sua dimensão social.[8]
Discografia
- Álbuns de estúdio[13]
| Ano | Álbum |
|---|---|
| 1984 | Canto Negro I |
| 1989 | Canto Negro II |
| 1996 | Canto Negro III |
| 1998 | Ilê Aiyê 25 Anos |
| 2015 | Bonito de se ver |
Ver também
Referências
- ↑ «Carnaval Salvador: Conheça o Ilê Aiyê, o 1º bloco afro do Brasil». Carnaval Salvador 2022 - Bahia - Blocos de Rua.com. Consultado em 8 de junho de 2021
- ↑ «Primeiro bloco afro do Brasil, Ilê Aiyê faz aniversário de 45 anos nesta quinta; fundador lembra marcos históricos: 'Dias de Luta'». G1. Consultado em 8 de junho de 2021
- ↑ «Ilê Aiyê - Página Oficial». www.ileaiyeoficial.com. Consultado em 15 de outubro de 2018
- ↑ «Bloco Afro Ilê-Aiyê». Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Consultado em 15 de outubro de 2018
- ↑ «A história do Ilê Aiyê». Revista Raça. 15 de outubro de 2016
- ↑ «Bloco Ilê Aiyê: 44 anos de "reafricanização" do carnaval brasileiro». Brasil de Fato. 2 de fevereiro de 2018
- ↑ Cultural, Itaú. «Ocupação Ilê Aiyê - A origem». Ocupação. Consultado em 30 de janeiro de 2021
- ↑ a b c Cultural, Itaú. «Deusa do Ébano». Itaú Cultural. Consultado em 30 de janeiro de 2021
- ↑ «Bloco Ilê Aiyê, símbolo da luta contra o racismo, ganha mostra em SP». Folha de S.Paulo. 1 de outubro de 2018
- ↑ «Nêgo n.3 pág.2 e n.14 pág.7». Boletim Informativo do MNU-Ba. Consultado em 15 de outubro de 2018
- ↑ «Ocupação Ilê Aiyê - O Carnaval». Itaú Cultural. Consultado em 15 de outubro de 2018
- ↑ Cultural, Itaú. «Ocupação Ilê Aiyê - A origem». Ocupação. Consultado em 3 de março de 2025
- ↑ «Origem». Ilê Aiyê Oficial. Consultado em 23 de janeiro de 2026


