História de Braga

Com origem no Mesolítico o território que hoje é designado por Braga já existia como cidade antes de os romanos invadirem a Península Ibérica e estava já habitada pela tribo dos Brácaros quando o imperador César Augusto a rebatizou como Bracara Augusta, conforme atestam vestígios de aglomerados populacionais de há milhares de anos, estando comprovados estudos arqueológicos a partir da Idade do Bronze.
Sendo uma das mais antigas cidades europeias convertidas aos cristianismo, a história bracarense divide-se em diferentes períodos que podem ser mais claramente divididos desta forma devido às influências que produziram no território: brácaros, romanos, suevos, muçulmanos, a fundação de Portugal, a afirmação como Primado Católico, O Estado Novo e o Pós-25 de Abril.
Pré-História
Os vestígios da presença humana na região vem de há milhares de anos, como comprovam vários achados no região. Em Braga um dos achados mais antigos é a Mamoa de Lamas, um monumento megalítico edificado no período Neolítico. A sua descoberta revelou várias informações sobre o passado da região. No entanto apenas se consegue provar a existência de aglomerados populacionais em Braga na Idade do Bronze. Caracterizam-se por fossas e cerâmicas encontradas no Alto da Cividade, local onde existiria uma povoação e por uma necrópole que terá existido na zona dos Granjinhos.
Na Idade do Ferro, desenvolveram-se os chamados “castros", próprios de povoações que ocupavam locais altos do relevo. Em Braga conhecem-se vários Castros de pequena e média dimensão: Castro do Pedroso e Castro do Monte de Vasconcelos em Adaúfe, Castro de Cabanas em Dume, Castro do Monte de Santa Marta das Cortiças (Imóvel de Interesse Público) em Esporões, Castro de Monte Redondo (Monumento Nacional) em Guisande, Castro do Monte da Consolação (Imóvel de Interesse Público) em Nogueiró, Castro da Sola em Palmeira, Vinha de Laje - Castro Agrícola em Pousada, Castro do Monte das Caldas em Sequeira, Castro Máximo (Imóvel de Interesse Público) em São Vicente, Castro de Vimieiro em Vimieiro. Apesar destes serem os únicos castros que chegaram até hoje, e que provam a sua existência, existiria ainda um grande castro, a Cividade[carece de fontes].
A Cividade, nome que deriva de grande Castro, situa-se no coração da cidade de Braga. Apesar de não estar provado que ali tenha existido um castro, certos historiadores defendem a existência de um Castro no alto da colina. A teoria baseia-se principalmente em que Bracara Augusta foi construída sobre um castro destruído pelas guerras entre os povos locais e os romanos, aproveitando o material existente, o que eliminara grande parte dos vestígios anteriores. Castro esse que fora a evolução natural do povoado que existiu no local na Idade do Bronze. Bracara Augusta situa-se no topo de uma colina, e não à beira rio ou perto de campos férteis condições típicas nas fundações de cidades romanas, essas condições existem a poucos quilómetros na zona ribeirinha do rio Cávado. Os historiadores de opinião contrária criticam esta teoria, pois a colina de Cividade é de relevo suave a Sul, não possuindo grande desnível. O astrónomo e geógrafo grego Claudius Ptolemeu (c. 85 – c. 165), em meados do século II, referiu na sua obra - Geografia (8 v.) -, que a cidade de Bracara Augusta era anterior à dominação romana. Recentemente a descoberta ao acaso de um Balneário pré-romano em Maximinos (freguesia adjacente) relançou a questão. No entanto, esta questão está longe de ser resolvida, dado que o presumível castro situa-se no centro histórico de Braga sob Monumentos Nacionais o que impede a realização de pesquisas arqueológicas profundas. É também de relevo o facto do local ser habitado continuamente há mais de dois mil anos, e palco de grandes guerras e destruições, o que alterou substancialmente o local.
Bracara Augusta
Cidade Romana

Fundação (136 a. C. a 14 d. C.)
As primeiras explorações militares ao noroeste da Península Ibérica realizaram-se entre os anos 136 a 138 antes de Cristo (século II a.C.), comandadas pelo cônsul romano D. Junius Brutos. Nessa altura realizou-se uma grande batalha entre romanos e brácaros, provavelmente nas imediações da futura Bracara Augusta. Após a conquista definitiva do noroeste peninsular (guerras franco-cantábricas), Augusto (r. 27 a.C.-14 d.C.) ordena a reorganização administrativa. A reorganização consistia principalmente na integração das populações no mundo romano, fundação de cidades, construção de vias e o comércio a nível inter-regional. É nesta política que entre o ano 20 a 10 antes de Cristo foi fundada a cidade Bracara Augusta sobre um possível povoado indígena local. A finalidade da fundação foi de carácter religioso e difusão cultural do império sobre os povoados nas proximidades. Também é provável que a cidade desde o início teria funções jurídicas e económicas.
Dinastia Júlio-Cláudio (14 a 68 d. C.)
As primeiras décadas da cidade foram marcadas por grande crescimento. Foram construídos os primeiros edifícios públicos (Domus, templo…), abriram-se estradas (vias XVI, XVII e XIX), desenvolveram-se as actividades económicas (metalurgia, olaria e comércio), a criação de novos bairros. Foram formadas condições para que inúmeros indígenas, e alguns militares e imigrantes se deslocassem para ali viver. A cidade desenvolveu-se em forma ortogonal (ruas alinhadas) orientada Noroeste/Sudeste, e era dividida por quarteirões. Nos anos 50 d. C. o comércio já desempenhava um papel fulcral na cidade e na região.
A cidade Flávio-Antonina (68 a 192 d. C.)
A cidade sofre reestruturações, devido à dimensão que terá atingido, mais de 48 hectares. São reparadas as vias e a construção da Via Nova (Geira). Continuam as construções de edifícios públicos como teatro, termas, templos, senado, e a “monumentalização” da cidade. Aumentam os bairros e assiste-se à instalação de pessoas abastadas na zona oriental da cidade. Verificou-se a promoção jurídica de peregrinos à cidadania romana, das elites da cidade e da região envolvente. O forte comércio é caracterizado pelas importações de vidro, cerâmica e objectos de adorno, alguns produtos importados eram de grande qualidade e gosto refinado, o que sugere a existência de uma poderosa elite. As exportações eram marcadas pela cerâmica de qualidade e metais. A cidade no Alto Império era já de referência a nível peninsular.
Século III
O terceiro século de existência é marcado pelo abrandamento do crescimento devido à crise instalada na Hispânia, e consequentemente a construção da muralha citadina. A muralha circulava a cidade por completo, e continha torreões. Dada a localização peninsular e a dependência local na sobrevivência, Bracara Augusta ficou fora das agitações de então, o que permitiu uma plenitude vida urbana. É criada “Hispania Nova Citerior Antonina” (futura Galécia). Visita dos imperadores Galiano (253 a 268 d. C.) e Claúdio II (268 a 270 d. C.).
Baixo-império (285 a 409 d. C.)
Por ordem de Diocleciano é criada a Galécia, e Bracara Augusta sua capital. A Galécia integra os três conventos do Noroeste peninsular e parte do convento Clunia. Com esta decisão, a cidade sofre uma nova expansão urbana, reestruturam-se e criam-se edifícios públicos, requalifica-se as vias, introduz-se melhoramentos na cidade, enriquecimento da população, inclusão de zona de banhos e pavimento de mosaicos nas vivendas privadas. O comércio intensifica-se fortemente e aparecem os ateliers de cerâmica. A decretal do Papa S. Sirício em 385 faz referência à metropolitana de Bracara Augusta, sugerindo que Bracara Augusta possuía já um bispado. A cidade assume a centralidade do Noroeste peninsular.
O reino Suevo
A formação do reino suevo

Os Suevos (povo germânico), sobre pressão dos Hunos, chegam à Península Ibérica em outubro de 409, e ao convento bracarense em 411.[1] Sabemos pelo testemunho do bracarense Paulo Orósio, que por pouco tempo "trocaram a espada pelo arado[2]"), mas pouco depois entrarem em conflito com os seus vizinhos os vândalos Asdingos, que ocupavam também parte da Galécia. Em 419 os Suevos do rei Hermerico são atacados e cercados na Batalha dos montes Nervasos pelos vândalos do rei Gunderico, Astério, conde de Hispânia, com tropas romanas vem ao seu socorro e muitos vândalos são massacrados em Braga pelo vigário Maurocellus, na sua retirada para a Bética.[3]
Bracara, capital do reino suevo
Tendo os visigodos, em nome dos romanos, derrotado os Alanos que ocupavam a Lusitânia pouco tempo antes, os suevos tomam conta desse território e Bracara Augusta torna-se a capital política do Reino Suevo que englobava a extinta região da Galécia, e se prolongava até ao rio Guadalquivir. Esse curto reino de 174 anos, é no entanto, o primeiro reino medieval do ocidente, o primeiro reino católico e enfim o primeiro reino “bárbaro” a cunhar moeda. De fato, em Bracara foram cunhados síliqua com as letras “B e R” por Bracara e a inscrição “ivssv richiari reges” por “Por ordem do rei Requiário”[4]. Requiário, que foi convertido ao catolicismo por Balcónio, bispo de Bracara e fundador duma escola teológica na cidade[5], figura proeminente do catolicismo bracarense com Paulo Orósio (que contactou diretamente com Sto. Agostinho e com S. Jerónimo), os dois Avitos (um peregrino no Oriente, outro peregrino em Roma)[5] e Santa Engrácia de Saragoça. Depois de vários sucessos os suevos alargam ainda mais o seu território. Os visigodos sempre aliados e mesmo federados dos romanos são novamente enviados para a Península e derrotam os suevos perto de Astorga (na batalha do Rio Órbigo), muitos deles escapam, e durante a perseguição, os visigodos atacam e saqueiam Bracara, no domingo 28 de outubro de 456. São feitos muitos prisioneiros “romanos”, as Igrejas são profanadas, os padres são despidos das suas vestes sacerdotais, até a nudez. Curiosamente segundo Idácio, Bracara caiu sem derrame de sangue e violações. Teodorico e seus visigodos, depois de ter capturado e morto Requiário no Porto, seguem para a Lusitânia, e deixam o convento bracarense nas mãos de bandos armados de saqueadores[6].
O reino de Galécia é dominado indiretamente pelos Visigodos, os Suevos encontrando-se numa clara posição de vassalagem e dividem-se em dois reinos. Bracara, já não sendo a única capital perde influência, ao invés Lugo e sobretudo Porto ganham importância. Com a morte de Idácio, depois de 469, ficamos sem informação até 561, e a ordem do rei Ariamiro[7], de proceder ao Primeiro Concílio de Braga, entre os anos 561 e 563, na presidência de Lucrécio, bispo de Bracara. Seguido em 572, no reino de Miro, pelo segundo concílio de Braga, presidido desta por São Martinho, bispo de Dume e de Braga, novamente única capital do reino. Essa curta fase marca um renascimento dum certo esplendor político e religioso de Bracara, muito influenciada pelo Império Bizantino. E deve muito a obra de (re)organização, e de formação (inclusivo do próprio rei, Miro), do culto bispo São Martinho de Dume.
Em 585, o reino Suevo, acaba, dominado pelo Reino Visigótico, durante 130 anos. Bracara deixa de ser definitivamente capital política dum estado, guardando no entanto o seu estatuto de capital eclesiástica. Durante esses dois reinos germânicos, apesar do saque, houve uma relativa continuidade, económica, com uma certa prosperidade da cidade, e na configuração e ocupação do espaço. A periferia até conhece um desenvolvimento, ilustrada com a construção de varias igrejas (S. Vicente, S. Vítor, e S. Pedro de Maximinos)[8].
Invasões Muçulmanas
A entrada dos mouros na Península ocorreu com o desembarque em Gibraltar a 27 de abril de 711 de Tárique. Seis anos depois, em 717, os Mouros tomam Bracara,[9] e a sede da diocese bracarense é transferida até 1070 para Lugo. Porém menos de 40 anos depois, no tempo de Afonso I das Astúrias, Braga é de novo em zona cristã, embora numa zona muito perigosa, demasiada perto da fronteira do Douro. Por isso durante o século X, após um período de paz, Almançor, governador do Alandalus, consegue inverter o avanço da reconquista e saquear as cidades galegas do Porto, até Santiago de Compostela (997).[9] E destruí boa parte de Bracara como o conta o cronista árabe ibne Abde Almumine Alhimiari, citando um texto do geógrafo Abu Ubaide Abedalá Albacri (século XI).[10]
| “ | Esta cidade de Braga, que remontava a Antiguidade, foi uma das fundações dos romanos e uma das suas residências reais. Assemelhava-se a Mérida pela solidez dos seus edifícios e ordenação das muralhas. Está hoje quase inteiramente destruída e deserta: foi demolida pelos muçulmanos que expulsaram a população ... | ” |
— ibne Abde Almumine Alhimiari.
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Braga

A cidade de Braga que nasce no século XI, tem pouco a ver com a antiga Bracara. Depois de D. Fernando I de Leão ter conquistado Coimbra, por decisão real, Braga torna a ser sede episcopal com a nomeação do bispo D. Pedro de Braga que manda reconstruir a Sé. A cidade medieval desenvolve-se em torno da sua Sé fortificada, ocupando só o quarto noroeste da antiga Bracara até a muralha romano do norte,[8] o resto da cidade é aos poucos destruído e transformado em campos e hortas. Braga perdeu certamente mais de metade da sua população, e toda a zona Oeste ocupada com monumentos públicos, fórum, termas, teatro e anfiteatro é abandonada.
Braga foi oferecida como dote, por Afonso VI de Leão e Castela, à sua filha D. Teresa, no seu casamento com D. Henrique de Borgonha. Estes últimos foram senhores da cidade entre 1096 a 1112. Em 1112, doam a cidade aos Arcebispos.
Pouco depois uma nova cerca amuralhada, baixa de mais, é erguida em complemento do troço da antiga muralha romana que ficou de pé no norte da cidade.[nota 1] A partir do século XIII, uma nova fase construtiva se inaugurou, com o abandono do troço norte da muralha romana por causa do crescimento da urbe em torno da Sé-Catedral para norte em resultado do aumento demográfico registado a partir do século XI. Existem poucas informações acerca desta fase, o primeiro alargamento terá ocorrido entre finais do século XII inícios do XIII. Nos inícios do século XIV multiplicam-se as referências às obras de alargamento da muralha. A cidade, desloca-se ainda mais relativamente à cidade romana para norte, passando a incluir a nova freguesia de S. João do Souto. Certamente que sob o reinado de D. Dinis (1279-1325), se iniciou uma requalificação da cerca, complementada por uma torre de menagem e o início da construção do castelo. As obras progrediram com lentidão e, no reinado do Rei Pedro I, o projeto ainda não estava concluído.[11] No reinado de D. Fernando, durante as guerras fernandinas as tropas de Castela invadam a cidade durante seis dias, em agosto de 1369. Braga é novamente em parte destruída [nota 2]. De acordo com a Crónica de Fernão Lopes “Chegou el-rei D. Henrique a Braga, como o logar era grande e mal cercado, sem haver ahi mais d’uma torre, em logar ainda que não prestava, era bem azado para se tomar. ...o muro fosse baixo e os dentro mui mal armados ...”.[12] Razões que terão levado D. Fernando a restaurar o sistema defensivo de Braga com maior robustez.[8]
Do século XVI ao século XVIII, os edifícios de traça romana vão sendo apagados e substituídos por edifícios de Arquitectura religiosa.
No século XVI, o Arcebispo de Braga D. Diogo de Sousa modifica-a profundamente. Na carta/resposta de D. Diogo de Sousa ao convite do rei (D. João III) para ocupar o cargo de bispo de Lisboa, o arcebispo esclarece como encontrou a cidade:
| “ | “eu achey esta de barro e sem templos nem gemte nem edeficios e agora a tenho fecta asy de edeficios pubricos como privados com acrecemtamento de muito povo e numero de mercadores e tracto e ofeciaees das milhores cousas do reyno. E quanto a esta See e edeficios dela e asy prata e ornamentos que nela fiz e pus sey que estaa muy deferemçada de todalas outras (…) posto que os prelados do Reyno se posam chamar prelados, os arcebispos de Braga sam prelados e senhores” | ” |
— (Carta de D. Diogo de Sousa a D. João III – 1524). | ||
Desde o século XVI que Braga era ponto de passagem de artistas estrangeiros – “estaleiro de modernidade”. Artistas estrangeiros como João de Castilho ou João de Ruão marcaram a sua presença na cidade de Braga de D. Diogo de Sousa, ou do Renascimento. Daqui, da obra de renovação da capela-mor da Sé Catedral de Braga, seguiu João de Castilho um caminho em direcção ao sul, “vindo a ser, quer no tempo de D. Manuel, quer no tempo de D. João III, o mestre de maior confiança destes monarcas”, cujo trajecto artístico foi bem definido por Pedro Dias.[13]
No século XVIII, Braga por intermédio da inspiração artística de André Soares (Arquitecto 1720- 1769) transforma-se no Ex-Libris do Barroco em Portugal. Mas também foi uma das maiores cidades em arquitetura, pois as pessoas a bem dizendo tinham muita imaginação.
Nos fins do século XVIII surge em várias edificações o Neoclássico com Carlos Amarante (Engenheiro e Arquitecto 1742-1815). Nos cem anos que se seguem, irrompem conflitos devidos às invasões francesas e lutas liberais. O centro da cidade deixa a área da Sé de Braga e passa para a Avenida Central. Em 1790 o poder local deixa de ser exercido pelo arcebispo.
Ocupação de Braga pelos franceses
Durante a segunda invasão francesa de Portugal liderada por Jean de Dieu Soult, o general Bernardim Freire de Andrade tentou travar o avanço dos franceses[14] que conquistaram Chaves em 12 de Março de 1809.[15] Freire de Andrade enviou pequenos grupos para fortificar a Portela do Homem (o 2º Batalhão da Leal Legião Lusitana chefiada pelo Barão de Eben[14] mais 800 ordenanças[16]), Ruivães e Salamonde. Avisado que eles vinham de Chaves para Braga retirou o grupo da Portela e aproveitou a Serra do Carvalho para estabelecer uma linha de defesa de Carvalho d’Este (Lanhoso) até a Falperra. No dia 16, os franceses passaram por Ruivães sem dificuldades, no dia seguinte Salamonde defendida por cerca de 300 homens (1 batalhão de Viana, 1 de milícias, muita ordenança e 5 peças de artilharia[14]) ofereceu uma pequena resistência atacando da encosta do monte a artilharia que devia estar em retaguarda. Mas dispersaram-se frente a uma carga da infantaria. A tática era a de guerrilha e o povo nisso era muito ativo:
| “ | “Fomos atacados ao longo de toda a estrada pelos moradores que desciam das sua montanhas e que atiravam sobre nos em toda impunidade, era impossível de os atingir. Mulheres, crianças estavam juntos com os atiradores, encorajavam-lhes e davam-lhes o exemplo… Se um soldado cansado ficava para trás, era de imediato massacrado, mesmo a 100 passos da retaguarda… As mulheres mostravam, em todas essas ocasiões, mais barbaridade que os homens, e iam mais alem no refinamento da crueldade. Esquecendo a contenção e modéstia do seu sexo, vimos algumas cometer atrocidades que ofendam a natureza… A população inteira das províncias de Entre Douro e Minho e de Trás-os-Montes estava a combater.” | ” |
— Relato do capitão de Dragões Joseph Jacques de Naylies[15].
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No entanto nesse dia 17 as forças francesas chegaram frente a linha defensiva de Carvalho d’Este. Dum lado 22 000 franceses experimentados com 3000 cavaleiros[15] do outro cerca de 23 000 portugueses, mas só 1995 eram militares ou milícias,[nota 3] os outros 5000 estavam mal armados com espingardas, 11000 com piques ou outras ferramentas agrícolas, o resto com paus.[16] Bernardim Freire vendo a defesa totalmente impossível, resolveu retirar-se com as tropas regulares para o Porto na manhã de 17 de Março, antes da chegada de Soult. O que foi muito mal aceite pelas milícias locais e pelo povo, sentido-se traídos e abandonados. Por isso prenderam-no com alguma violência no Vimieiro na estrada do Porto, chamando-lhe de “jacobino e traidor”. Passando por ai uma brigada de ordenanças a caminho de Braga, salvaram-no, mas pouco depois foi preso novamente pelas ordenanças de Tebosa e conduzido para Braga. Lá o Barão de Eben tentou leva-lo para a casa onde ia pernoitar, mas o povo não deixou e atiraram sobre a casa. Para salvar o general, o Barão propus que o levassem para a cadeia no castelo mas em caminho, o general foi brutalmente linchado com chuços e tiros, como mais tarde, outros dos seus oficiais. O Barão de Eben aceitou chefiar as operações de defesa tratando de levar comida para os homens e de produzir balas para as ordenanças, que tinham um calibre diferente dos militares, com chumbo das igrejas. Os franceses nesse dia iniciaram a batalha de Carvalho d’Este sem sucesso. No dia 18, novo ataque de manhã e durante toda a noite. No dia 19, mais ataques durante todo o dia e ao fim da tarde conquistaram o posto da Pedralva com 3 canhões perdidos. No dia 20 os franceses atacaram em 3 linhas, para a Falperra, no centro, com mais forças em Carvalho d’Este, e na direção da ponte do Porto (Amares). As 10 horas, a batalha estava perdida, todos fugiram, os franceses acusaram o Barão de Eben de ter fugido em primeiro. Os ordenanças não tinham mais munições entraram na cidade de Braga perseguidos pela cavalaria francesa. O Barão tentou junta-los, mas só lhe respondiam “não temos munições”, ainda tentou defender a cidade mas viu que os seus esforços eram vão. Prova que Bernardim Freire de Andrade tinha razão e que a defesa da cidade era impossível nessas condições, o que teria evitado a morta de cerca de 2000 portugueses e 400 prisioneiros[17], contra 40 mortos e 160 feridos do lado francês.[18]
Soult conquistou a cidade mas ficou desapontado “Antes da nossa vitoria de Lanhoso, Braga apresentava-se a nossa imaginação abastecida de tudo quanto se precisava para o exercito. Mas qual não foi a nossa dolorosa surpresa quando entrando nela, a achamos deserta! “[18] Menos os 83 doentes no hospital de São Marcos com alguns familiares. Soult conversou com eles lamentando de ter que usar a força então que só vinha para libertar os portugueses do jugo inglês. Houve nesse dia vários edifícios saqueados, nem sempre por culpa dos franceses, até no caso do Mosteiro de Tibães, foi uma ordem de Soult que pôs fim aos atos de vandalismo.
O antigo corregedor tendo sido também linchado pela população, Soult teve que nomear outro encarregue de encontrar comida nos arredores da cidade despejada, paga com papeis de reconhecimento de dividas. Permanecerem cinco dias na cidade e arredores, tempo para reparar os carros desgastados pelas fracas estradas. No dia 25 saírem em direção ao Porto deixando o general Heudelet guardar a cidade e conquistar Barcelos, Ponte de Lima e Valença[18]... Braga só foi libertada mais de um mês depois, no dia 15 de maio por Sir Arthur Wellesley que perseguia o marechal Soult.[16]
A revolução da Maria da Fonte e a Patuleia
A revolução da Maria da Fonte foi particularmente virulenta no distrito de Braga[nota 4]. A revolta que começou na Póvoa de Lanhoso alastrou-se e chegou à Braga no dia 15 de abril de 1846 quando a população da Vila de Prado atacou um quartel militar da cidade.
| “ | ... os povos de Prado, depois de queimarem o arquivo da administração do seu concelho, capitaneados por outro padre, avançaram a Braga e atacaram de surpresa os quartéis do regimento 8... Foram, porém, repelidos e perseguidas até ao rio Cávado, deixando bastantes mortos e feridas… | ” |
— Maria da Fonte de Camilo Castelo Branco..
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No dia 24 houve uma concentração de cerca de 3 000 pessoas no terreiro da Senhora do Alívio em Soutelo, Vila Verde, para atacar novamente Braga, os militares advertidos montaram uma grande operação (com um contingente de artilharia) para cercar e dispersar os revoltosos, mas chegaram tarde a população já se tinha retirada ao romper do dia. [20]
Depois veio uma guerra civil, a Patuleia com uma batalha muito violenta em Braga, ganha pelo vila-verdense José de Barros Abreu Sousa e Alvim, no dia de 20 de dezembro de 1846 contra os miguelistas chefiados pelo general Reginald MacDonell.[21]
Em junho de 1893, Braga torna-se a terceira cidade do país a ter eletricidade. No século XX, dá-se a revolução dos transportes e das infra-estruturas básicas, reformula-se a Avenida da Liberdade, de onde se destaca o Theatro Circo e os edifícios do lado nascente. No final do século, Braga sofre um grande desenvolvimento, abre a Universidade do Minho e converte-se na terceira cidade do País.
Notas
- ↑ A primeira referência documentada a uma cerca amuralhada, que passava perto da Sé Catedral, ocorreu em 12 de junho de 1161, numa doação à Igreja de São João do Souto.[11]
- ↑ destruições nas ruas extramuros, designadamente na rua dos Chãos, correspondente ao traçado da antiga via XVIII (Via Nova), na Rua da Corredoira, nas proximidades do traçado sugerido para a via XVII e na Rua de Maximinos
- ↑ 120 granadeiros do regimento de Viana, 150 da guarnição de Salamonde, 1000 das milícias de Braga, 700 da legião (Lusitana), 25 dragões, Barão de Eben[16]
- ↑ Pela sua população e riqueza e pelas intimas relações que o prendem aos de Amares e Terras de Bouro, que formam a grande comarca de Villa Verde ou por assim dizer um todo, são estes tres concelhos os mais desordeiros e revolucionários de todo o nosso paiz!... Tem havido n'estes 3 concelhos grandes desordens, verdadeiras batalhas, muitas mortes e ferimentos, sendo necessário por vezes intervir a força armada, grandes destacamentos e batalhões inteiros! E não hesitam em reagir contra a mesma tropa os homens e as mulheres, como succedeu na revolução de 1846 a 1847, na qual as mulheres d'este districto de Braga, nomeadamente as d'estes tres concelhos e dos de Vieira e da Povoa de Lanhoso, tanto se distinguiram, que a dicta revolução tomou o nome de Maria da Fonte, virago minhota, que se tornou lendária![19]
Referências
- ↑ Crónica de Idácio de Chaves
- ↑ ’’quamquam et post hoc quoque continuo barbari exsecrati gladios suos ad aratra conuersi ...’’. Historiarum Adversum Paganos, Paulo Orósio, Livro VII, 41-8
- ↑ ’’Wandali Suevorum obsidione dimissa, instante Asterio Hispaniarum comite, sub vicario Maurocello, aliquantis Bracarae in exitu suo occisis, relicta Gallaecia ad Baeticam transierunt’’. Crónica do bispo Idácio de Chaves
- ↑ In tempore sueborum, El tiempo do los Suevos en la Gallaecia, Jorge López Quiroga y Artemio Manuel Martínez Tejera, Deputación Provincial de Ourense, 2017
- ↑ a b A Basílica paleocristã e o edifício palatino de Sta. Marta das Cortiças (Falperra): As escavações de F. Russell Cortez e de J. J. Rigaud de Sousa, de Mário J. Barroca, Andreia Arezes, Rui Morais
- ↑ ’’Mox Hispanias rex Gothorum Theudoricus cum ingenti exercitu suo, et cum voluntate et ordinatione Aviti imperatoris ingreditur. Cui cum multitudine Suevorum rex Rechiarius occurrens duodecimo de Asturicensi urbe milliario, ad fluvium nomine Urbicum, tertio nonas Octobris die, sexta feria inito mox certamine superatur: caesis suorum agminibus, aliquantis captis, plurimisque fugatis, ipse ad extremas sedes Gallaeciae plagatus vix evadit ac profugus. Theudorico rege cum exercitu ad Bracaram extremam civitatem Gallaeciae pertendente, quinto kal. Novemb. die dominico, etsi incruenta, fit tamen satis moesta et lacrymabilis ejusdem direptio civitatis. Romanorum magna agitur captivitas captivorum, sanctorum basilicae effractae, altaria sublata atque confracta, virgines Dei exin quidem adductae, sed integritate servata, clerus usque ad nuditatem pudoris exutus, promiscui sexus cum parvulis, de locis refugii sanctis populus omnis abstractus, jumentorum, pecorum, camelorumque horrore locus sacer impletus, scripta super Jerusalem ex parte coelestis irae revocavit exempla. II. Rechiarius ad locum qui Portucale appellatur, profugus regi Theudorico captivus adducitur: quo in custodiam redacto, caeteris qui de priore certamine superfuerant, tradentibus se Suevis, aliquantis nihilominus interfectis, regnum destructum et finitum est Suevorum ... In conventus parte Bracarensis latrocinantum depraedatio perpetratur.’’ Cronica de Idácio
- ↑ Ata do primeiro Concílio de Braga "...ex preceptis prefati gloriosissimi Ariamiri regis in metropolitana eiusdem provintiae Bracarensis..."
- ↑ a b c A evolução da paisagem urbana de Braga desde a época romana até a Idade Moderna. Síntese de resultados, Maria do Carmo Ribeiro, professora auxiliar do Departamento de História UM
- ↑ a b A Capela de S. Frutuoso– Elementos para o seu estudo e compreensão. Rui Ferreira, Doutorando em Estudos Culturais pela Universidade do Minho, Braga, 2012
- ↑ Coelho Borges, António (1989). Portugal na Espanha Árabe vol.1. Lisboa: Caminho. ISBN 9789722104104
- ↑ a b Sereno, Isabel; Dordio, Paulo; Gonçalves, Joaquim; Basto, Sónia (2010). «Castelo de Braga, designadamente a Torre de Menagem (restos) (IPA.00001114/PT010303410009)». Lisboa, Portugal: SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico. Consultado em 13 Março 2016. Cópia arquivada em 12 Novembro 2013
- ↑ Fernão Lopes Chronica de el-rei D, Fernando cap. XXXIII
- ↑ Manuel Joaquim Moreira da Rocha. «Arquitectura religiosa barroca em Braga (Minho): entre a tradição e a modernidade» (PDF). Revista da Faculdade de Letras. Ciências e Técnicas do Património. Porto, vol. IX-XI, 2010-2012, pp. 331-373
- ↑ a b c Vicente, António Pedro (1970). «Um soldado da Guerra Peninsular—Bernardim Freire de Andrade e Castro». Boletim do arquivo historico militar. 40. Lisboa
- ↑ a b c de Naylies, Jacques-Joseph (1817). Maginel, Anselin et Pochard, ed. Mémoires sur la guerre d'Espagne, pendant les années 1808, 1809, 1810 et 1811 (em francês). Paris: [s.n.]
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- ↑ As Acções Militares Portuguesas em 1809 de Nuno Correia Barrento de Lemos Pires, Tenente Coronel de Infantaria
- ↑ a b c Le Noble, Pierre-Madeleine (Intendente Geral) (1821). Barrois l'Ainé, ed. Mémoires sur les opérations militaires des français en Galice, en Portugal, et dans la vallée du Tage, en 1809 (em francês). Paris: [s.n.]
- ↑ Artigo sobre Vila Verde em Portugal Antigo e Moderno de Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal, p. 1106 Vol. 11, Lisboa, 1886
- ↑ https://ahm-exercito.defesa.gov.pt/details?id=201741, Arquivo militar, Maria da Fonte e Patuleia (1846 – 1847), caixa nº1 , Carta do tenente-coronel de artilharia João Cipriano Barros e Vasconcelos ao Visconde de Fonte Nova
- ↑ Camilo, Castelo Branco. Maria da Fonte. [S.l.: s.n.]