Hesíquio I, o Parta

São Hesíquio I, o Parta
Católico de todos os armênios
Morte 347/8
Veneração por Igreja Apostólica Armênia
Portal dos Santos

Hesíquio I ou Húsico (em latim: Hesychius ou Husicus; em armênio: Հուսիկ; romaniz.: Husik), dito o Parta (em armênio: Պարթև; romaniz.: Part’ev), foi católico de 341/2 a 347/8. Era neto de Gregório, o Iluminador e filho de São Vertanes I e esteve ativo no reinado de Tigranes VII (r. 339–350). Desposou uma filha de Tigranes e teve dois filhos, Papa e Atenógenes. Foi espancado até a morte sob ordens de Tigranes em 347/8 após um desentendimento numa igreja. Ele é reverenciado como santo.

Nome

Hesíquio (Hesychius; Ἡσύχιος, Hēsúkhios)[1][2] ou Húsico (Husicus)[3] são as formas grega e latina do armênio Iusique (Յուսիկ, Yusik) ou Husique (Հուսիկ, Husik), que deriva do armênio yoys (armênio moderno huys), "esperança", com o sufixo diminutivo -ik. Seu nome significa, portanto, "pequena esperança".[4][5] O sufixo -ik deriva do sufixo iraniano *-ika- (de *-yaka-), típico em muitos substantivos de origem iraniana.[6]

Vida

Hesíquio era o filho mais novo de Vertanes com sua esposa de nome desconhecido e irmão de Gregoris.[7][8] É incerta a data de seu nascimento. De acordo com Fausto, o Bizantino, foi criado na corte junto de Tigranes, filho do rei Cosroes III (r. 330–339), que lhe entregou sua filha em casamento. Diz-se que a princesa concebeu na primeira noite do casal e Hesíquio recebeu uma visão divina segundo a qual teria dois filhos que não seriam aptos à vida ministerial. Alega-se que Hesíquio arrependeu-se da união e esbravejou que foi forçado a casar. Por conseguinte, nunca mais se relacionou com sua esposa. Segundo Fausto, em conformidade com a visão, nasceram os gêmeos Papa e Atenógenes.[a][9] Enquanto vivia na corte, foi tratado com hostilidade, pois negava-se a aceitar os benefícios de ser parente da realeza e por evitar sua esposa. Nesse período, sua esposa faleceu, e Hesíquio foi poupado de calúnias a seu respeito. Fausto relata que Hesíquio permanecia inconformado pelo destino de seus filhos e um anjo desceu do céu e o consolou:[10]

Hesíquio, filho de Gregório, não temas! Pois o Senhor ouviu tua prece, e destes teus filhos nascerão outros filhos. E eles serão iluminadores do conhecimento e fontes de sabedoria espiritual para este reino da Armênia, e a graça dos Mandamentos de Deus jorrará deles. E grande paz e prosperidade, e o fundamento de muitas igrejas, lhes serão concedidos pelo Senhor, junto com muitas vitórias e grande poder. Por meio deles, muitos dos que haviam se desviado retornarão ao caminho da verdade e glorificarão Cristo em muitas línguas. Eles serão as colunas da Igreja, os dispensadores da Palavra da vida e os fundamentos da fé, os ministros de Cristo e os servos do Espírito Santo; pois onde quer que uma construção receba seu fundamento, ali também se completará. E muitas plantas frutíferas, úteis e benéficas serão plantadas por sua diligente mão no jardim espiritual, e receberão a bênção de Deus. Mas aqueles que não quiserem ser plantados com eles, nem beber o mesmo orvalho espiritual do conhecimento, serão castigados e lançados fora, e seu fim será o fogo ardente. Serão odiados e invejados muitas vezes pelos indignos por causa do Senhor, mas permanecerão firmes na fé como uma rocha, e os vencerão pela grande perseverança. E após eles, a falsidade reinará, por meio de homens desenfreados, amantes de si mesmos e da prata, enganadores, depravados, inúteis, mentirosos e caluniadores; e depois disso, mal se encontrará alguém que se mantenha fiel à aliança da fé.[11]

Hesíquio sucedeu seu pai como católico da Armênia pouco após a ascensão de Tigranes como rei. Fausto não explicita exatamente quando Vertanes faleceu. Moisés de Corene alega que a sucessão ocorreu no quarto ano do reinado de Tigranes,[12] que é variadamente datada em 341[13] ou 342[14] Em conformidade com o costume, Tigranes ordenou que uma comitiva fosse organizada para conduzir Hesíquio até Cesareia Mázaca, na Capadócia, onde seria ordenado pelo bispo local.[15] Compareceram a essa escolta Vologases de Anzitena, Zariadres de Sofanena, Varazes de Sofena Menor, Guenite Caminacano, Orodes de Vananda, Saíno Anzevaci, Atão de Coltena, Manavazo de Colbafora, Gorute de Zorofora, Manaspe Corcorúnio, Tirose Sarones e Aba Genúnio.[16] Ao retornarem, Zariadres e Varazes foram incumbidos de seguir a frente e informarem o rei do sucesso da missão. Ciente, Tigranes marchou com suas tropas à planície no outro lado do rio, junto à ponte de Taper, onde saudou os recém-chegados. Dali, entraram na cidade de Artaxata, onde entronizaram Hesíquio na igreja local.[17]

Segundo Fausto, durante seu episcopado Hesíquio dedicou-se à repreensão e admoestação das condutas impróprias do rei e dos nobres (nacarares), que cometiam iniquidades, adultérios, sodomia, derramamento de sangue, pilhagem, crueldade com os pobres e muitos outros pecados semelhantes.[18] Durante uma celebração anual na igreja, Hesíquio proibiu que Tigranes entrasse. Em consequência, o rei arrastou-o para dentro da igreja, onde foi açoitado com varas e deixado no chão, quase morto.[18] Segundo Moisés de Corene, esse episódio ocorreu no sexto ano de seu episcopado, em 347/8. As agressões foram feitas com correias de bois e os agressores o chicotearam até a morte.[19] Como justificativa, o cronista afirmou que Hesíquio foi agredido após destruir uma estátua do anacrônico imperador Juliano (r. 361–363) recebida por Tigranes.[20][b]

Nina Garsoïan propôs que ambos as versões do destino de Hesíquio são fantasiosas e é mais provável que seu assassinato esteve associado à sua aderência à ortodoxia de sua família, os gregóridas, em detrimento das tendências arianizantes do rei e sua corte.[21] Moisés de Corene se limitou a afirmar que o corpo de Hesíquio foi levado à aldeia de Tordã (atual Doancoi, na Turquia), no distrito de Daranália, onde foi sepultado ao lado de seus antepassados. Fausto dá mais detalhes e afirma que os ministros da igreja palatina da fortaleza real de Babila, no distrito de Sofanena, o levantaram e levaram à aldeia de Tordã, onde morreu após alguns dias e foi sepultado junto de seu avô Gregório, o Iluminador e seu pai.[22] O rei tomou conselho com a nobreza a respeito do sucessor de Hesíquio. Os filhos dele foram desconsiderados à sucessão, pois eram alegadamente ineptos ao cargo, e o rei consentiu com a possível nomeação do corebispo Daniel.[23]

Avaliação

Fausto fez uma longa exaltação das características físicas e de caráter de Hesíquio:

[Hesíquio] era jovem em idade, vigoroso, alto de estatura, de rosto de beleza e graça maravilhosas, de modo que não havia igual a ele sobre a terra. Puro e resplandecente em espírito, não se preocupava com as coisas terrenas, mas, desde a juventude, como um valente soldado de Cristo, um campeão heroico, enfrentava o inimigo invisível e o desafiava com vitória. Não conhecia a parcialidade nem o respeito de pessoas, mas empunhava a palavra do Espírito Santo como uma espada ao lado. E o Espírito que o preenchia, como uma fonte, regava com sabedoria os ouvidos e os corações de todos os que o ouviam. (...) Embora fosse jovem em idade, demonstrava em si o conselho de um ancião, e cumpria valentemente a obra de admoestação de seus pais, ampliando-a. Parecia com seus antepassados em sua sabedoria juvenil, e, como uma flor, alcançou a honra venerável da dignidade da velhice, a vigilante acuidade da mente. Lutou até a morte pela verdade, desejando primeiro salvar a si mesmo e, depois, também as almas dos outros.[24]

Ver também

Precedido por
Vertanes I, o Parta
Arcebispo da Armênia
341/2 a 347/8
Sucedido por
Daniel

Notas

[a] ^ A identidade da esposa de Hesíquio suscita problemas genealógicos. Segundo Fausto, Papa e Atenógenes casar-se-iam com as irmãs de Tigranes VII, o que implica dizer que desposaram suas tias-avós. Cyril Toumanoff corrigiu o problema ao assumir que a esposa de Hesíquio, na verdade, era filha de Tiridates IV (r. 298–330).[25] Nina Garsoïan considerou que o relato pode ser genealogicamente confuso por alguma imprecisão de Fausto, mas também pode ser evidência da preservação da influência dos casamentos consanguíneos zoroastristas na Armênia cristã.[26]
[b] ^ O episódio, como narrado por Moisés, apresenta um problema cronológico ao assumir Juliano como contemporâneo de Tigranes, quando na verdade ele foi contemporâneo de Ársaces II (r. 350–368). A menção à imagem do imperador pode ter possível paralelo com o episódio narrado por Flávio Josefo envolvendo o imperador Calígula (r. 37–41) e suas estátuas no templo de Jerusalém, uma das fontes de Moisés para sua História.[21]

Referências

Bibliografia

  • Ačaṙyan, Hračʻya (1942–1962). «Ասպուրակես». Hayocʻ anjnanunneri baṙaran [Dictionary of Personal Names of Armenians]. Erevã: Imprensa da Universidade de Erevã 
  • Fausto, o Bizantino (1989). Garsoïan, Nina, ed. The Epic Histories Attributed to Pʻawstos Buzand: (Buzandaran Patmutʻiwnkʻ). Cambrígia, Massachusetts: Departamento de Línguas e Civilizações Próximo Orientais, Universidade de Harvard 
  • Garsoïan, Nina (2004). «The Aršakuni Dynasty (A.D. 12-[180?]-428)». In: Richard G. Hovannisian. Armenian People from Ancient to Modern Times, vol. I : The Dynastic Periods: From Antiquity to the Fourteenth Century. Nova Iorque: Palgrave Macmillan. ISBN 978-1-4039-6421-2 
  • Grousset, René (1973) [1947]. Histoire de l'Arménie: des origines à 1071. Paris: Payot 
  • Mahé, Jean-Pierre (2007). «Affirmation de l'Arménie chrétienne (vers 301-590)». In: Gérard Dédéyan. Histoire du peuple arménien. Tolosa: Éd. Privat. ISBN 978-2-7089-6874-5 
  • Martirosyan, Hrach (2021). «Faszikel 3: Iranian Personal Names in Armenian Collateral Tradition». In: Schmitt, Rudiger; Eichner, Heiner; Fragner, Bert G.; Sadovski, Velizar. Iranisches Personennamenbuch. Iranische namen in nebenüberlieferungen indogermanischer sprachen. Viena: Academia Austríaca de Ciências 
  • Moisés de Corene (2006). Thomson, Robert W., ed. History of the Armenians. Ann Arbor, Michigão: Caravan Books 
  • Moisés de Corene (1736). Mosis Chorenensis Historiæ Armeniacæ libri III. Londres: Tipografia de Charles Ackers 
  • Toumanoff, Cyril (1976). Manuel de généalogie et de chronologie pour le Caucase chrétien (Arménie, Géorgie, Albanie). Roma: Edizioni Aquila 
  • Toumanoff, Cyril (1990). Les dynasties de la Caucasie chrétienne de l'Antiquité jusqu'au xixe siècle : Tables généalogiques et chronologiques. Roma: Edizioni Aquila 
  • Villotte, Jacques (1714). Dictionarium Novum Latino-Armenium ex Praecipuis Armeniae Linguae Scriptoribus Concinnatum. Roma: Tipografia da Sagrada Congregação da Propaganda de Deus