Hermano José

Hermano José

Hermano Guedes de Melo[1] (Serraria, 15 de julho de 1922João Pessoa, 21 de maio de 2015)[1][2], conhecido artisticamente como Hermano José[1], foi um pintor, desenhista, gravador, crítico de arte, cenógrafo, poeta, ilustrador, professor, ativista cultural e ecologista brasileiro[2]. Reconhecido por sua multifacetada contribuição às artes visuais e à cultura da Paraíba, foi uma figura central na formação de artistas e no fortalecimento das instituições culturais no estado.

Biografia

Hermano José nasceu em 15 de julho de 1922, no Engenho Baixa-Verde, em Serraria, no Brejo paraibano[1][2]. Filho de Raul Espínola Guedes e Maria Alice, foi o primogênito de uma família de doze filhos.[1][2] Viveu a infância entre as paisagens verdejantes do engenho, onde teve os primeiros contatos com as linguagens visuais, como desenhos a guache, litogravura, quadros a óleo e muitos objetos em estilo art nouveau.

Em 1923, sua família passou a residir no ambiente semiárido de Caiçara, onde iniciou os estudos e foi registrado, tornando-se cidadão caiçarense[1][2]. Foi também em Caiçara que passou a ser chamado de Hermano José, nome que sua mãe escolhera em homenagem a São Hermano José Steinfeld. [1]Embora o nome não tenha sido incluído no registro de nascimento, acabou consolidando-se entre familiares, colegas e, mais tarde, como seu nome artístico.[1]

Sua infância foi marcada por um ambiente musical e alegre, apesar da saúde frágil[1]. Frequentemente doente, passava períodos afastado dos irmãos, mas via na solidão um refúgio tranquilo das incertezas do cotidiano.[1] A vida na pequena cidade era pacata, interrompida apenas pelas festas religiosas, como a da padroeira Nossa Senhora do Rosário, ocasião de missas, novenas e apresentações musicais em que seus pais tocavam e cantavam no coro da igreja.[1] Esses eventos marcaram profundamente sua memória e serviram de inspiração para sua sensibilidade artística.[1]

Entre suas lembranças de infância, destaca-se a figura do tio Joaquim José Pereira de Melo, a quem considerava um segundo pai e a quem dedicou a poesia “O pai que podia ter sido meu – Tio Joaquim”.[1][2]

A morte também foi uma presença marcante em sua infância. A perda de sua irmã Maria de Lourdes o impactou profundamente. [1]Ao entrar sozinho na sala onde o corpo estava sendo velado, Hermano sente o seu cheiro e o das flores no ambiente, lembrança que o acompanhou por toda a vida e o fez evitar velórios, por remeter sempre àquela experiência dolorosa.[1]

Para que continuasse seus estudos, em 1936, seu pai providenciou sua mudança para a capital do estado, João Pessoa, onde passou a residir com seus avós maternos e a estudar na Escola Santa Teresinha, onde iniciou seus primeiros desenhos e pinturas.[1][2] Em 1937, seu pai adquiriu um imóvel na capital, onde a família passou a morar.[1][2] Estudou também no Colégio Paraibano (atual Lyceu Paraibano), onde aperfeiçoou sua técnica de desenho, teve o primeiro contato com a aquarela e recebeu incentivo à escrita. [1][2]

A cidade de João Pessoa foi aos olhos do adolescente Hermano um novo mundo, onde encontraria novos ideais que o perseguiram pela vida[1], sobretudo a preservação dos bens culturais e artísticos da cidade: a Praça do Ponto de Cem Réis (Praça Vidal de Negreiros), a balaustrada das Trincheiras e a Rua das Trincheiras. Todos esses patrimônios se tornaram fundamentais para o desenvolvimento de suas obras, embasada no respeito e na admiração pela beleza da cidade.

Em 1945 aos 23 anos foi admitido como funcionário do Banco do Brasil em Natal[1][2], período no qual realizou suas primeiras pinturas a óleo[1][2], como as obras Praia de Rendinha e Praia da Ponta Negra.

Hermano José faleceu em João Pessoa, em 21 de maio de 2015, aos 93 anos, em decorrência de uma pneumonia.[2]

Formação e Carreira

Em 1946, Hermano José retornou a João Pessoa, onde foi convidado a integrar o Conselho Diretor do Centro de Artes Plásticas da Paraíba. Como o mais jovem do corpo docente, teve a oportunidade de aprender com professores experientes, o que lhe permitiu desenvolver e aprimorar suas técnicas de pintura a óleo. Nesse período, sua produção artística se concentrava na poética figurativa, especialmente nas paisagens, que se tornaram um de seus principais temas. Além de ser o responsável pela formação de diversas gerações de artistas paraibanos, como Fred Svendsen, Miguel dos Santos, Flávio Tavares e Martinho Patrício.[1][2]

Ainda na década de 1940, participou de exposições coletivas e foi premiado com uma bolsa de estudos pelo suplemento Correio das Artes, do jornal A União. Essa conquista lhe possibilitou viajar para Lisboa, Veneza, Paris, Roma e Florença em 1950, experiências que ampliaram significativamente sua visão estética e técnica.[1][2]

Em 1955, iniciou suas atividades no teatro, atuando como cenógrafo e diretor geral. Nesse mesmo ano, dirigiu a peça “Cantam as Harpas do Sião”, de Ariano Suassuna, e assinou a cenografia de “O Grande Teatro do Mundo”, de Calderón de la Barca. Por sua cenografia em “A Corda”, recebeu medalha de prata no II Festival Nacional de Teatro, em Natal.[1][2]

No ano seguinte, em 1956, ainda funcionário do Banco do Brasil, Hermano foi transferido para Guarabira, mas, com o apoio de um colega da instituição, conseguiu transferência para o Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar no setor de arquitetura. Paralelamente, aprofundou seus estudos artísticos: frequentou o Liceu de Artes e Ofícios, o curso de pintura de Ivan Serpa e o Ateliê de Gravura do Museu de Arte Moderna (MAM-RJ), onde recebeu uma bolsa para estudar gravura em metal. Entre 1959 e 1963, produziu 46 gravuras, consolidando-se como um dos grandes nomes da gravura brasileira.[1][2]

Em 1962, foi premiado pela Piccola Galleria do Instituto Italiano de Cultura, no Rio de Janeiro, e em 1968, teve seu nome incluído no “Dicionário das Artes Plásticas no Brasil”, de Roberto Pontual. Em 1974, foi citado na Grande Enciclopédia Delta Larousse, e no ano seguinte, 1975, recebeu convite para expor na Embaixada do Brasil em Roma, reafirmando seu reconhecimento internacional.[1][2]

Nesse mesmo ano, o então governador da Paraíba, Dr. Ivan Bichara Sobreira, convidou Hermano a retornar ao estado como assessor cultural, encarregado do projeto de criação do Museu de Arte para o Estado da Paraíba. Já aposentado e vivendo tranquilamente no Rio de Janeiro, o artista relutou em aceitar, mas acabou se convencendo pelos argumentos do governador e pelos sonhos da sua juventude.[1][2]

Em 1979, Hermano voltou definitivamente a João Pessoa, instalando-se inicialmente na casa dos pais, enquanto sua residência própria era construída. Com o fracasso do projeto do museu, pensou em retornar ao Rio de Janeiro, mas foi incentivado por amigos a participar do processo seletivo para professores do Departamento de Artes da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde foi aprovado e passou a lecionar.[1][2]

Na UFPB, fundou o Ateliê de Gravura em Metal e foi um dos idealizadores da Pinacoteca da Universidade, consolidada em 1987, sem a sua presença ou ao menos uma menção a quem lutou tanto pelo projeto. Posteriormente, tornou-se diretor da Pinacoteca, cargo que exerceu por quatro anos, período em que ampliou o espaço físico, duplicou o acervo, organizou diversas exposições e lançou novos artistas no cenário das artes paraibanas.[1][2]

Outros marcos importantes de sua trajetória:

1948 – Realiza sua primeira exposição coletiva na Biblioteca Pública do Estado.[1][2]

1950 – É premiado pelo Correio das Artes e indicado para a exposição Um Século da Pintura Brasileira.[1][2]

1959 – Participa da exposição em homenagem aos artistas do Congresso Extraordinário da Associação Internacional de Críticos de Arte, no MAM-RJ.[1][2]

1982 - Assumiu a coordenação de Artes Plásticas do Espaço Cultural José Lins do Rego.[1][2]

Reconhecimento

A partir dos anos 1960, sua produção em gravura ganhou destaque nacional e internacional. Participou da V Bienal de São Paulo (1961), da Bienal de Gravura de Santiago (1963), da exposição "Gravura Brasileira", em Londres, e teve obras adquiridas por instituições como o Museu de Arte Moderna de Nova York e o Museu Metropolitano de Nova York.[1][2]

Em 1966 foi convidado pela The Vancouver Art Gallery para a Exposition Internationale d’Estampes, para a Bienal Americana de Arte, em Córdoba, e V Salão Internacional de Março Arte Atual, em Valência.[1][2]

Em reconhecimento à sua trajetória, Hermano foi homenageado em diversos momentos: participou da Constituinte Paraibana de 1989, quando proferiu um discurso marcante na Assembleia Legislativa em defesa da preservação das riquezas naturais do estado; em 2001, o Colégio Pio X criou a Pinacoteca Hermano José em sua homenagem; e em 2002, recebeu o título de Honra ao Mérito durante o VII Festival Nacional de Arte, por proposição do Conselho Estadual de Cultura.[1][2]

Ainda em 2002, realizou a exposição “A Coleção Hermano José”, apresentando seu vasto acervo ao público paraibano, na Pinacoteca da UFPB. Em 2009, o Zarinha Centro de Cultura inaugurou um espaço dedicado à pesquisa em artes plásticas que recebeu seu nome. Na ocasião, foi realizada a exposição “Retrospectiva 1940–2009” e exibido um documentário sobre sua vida e obra, em celebração à sua contribuição inestimável à cultura paraibana e brasileira.[1][2]

Engajamento ambiental

A partir da década de 1990, Hermano passou a se dedicar também à causa ambiental. As pausas entre sua vida artística e profissional eram preenchidas com sua luta ambientalista, como a luta a favor das baleias, das matas, pelo Centro Histórico, contra os espigões e pela preservação da falésia do Cabo Branco.[1][2]

Em 1992, participou da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92), onde apresentou a obra “Cabo Branco: até quando?”, alertando sobre o desgaste da falésia paraibana.[1][2]

Museu Casa de Cultura Hermano José

Em seus últimos anos, Hermano José dedicou-se intensamente à preservação de seu acervo pessoal. Doou à Universidade Federal da Paraíba (UFPB) cerca de 6.500 obras, uma biblioteca com mais de 3.000 títulos, além de sua casa e ateliê, que passaram a abrigar o Museu Casa de Cultura Hermano José. O museu, equipamento cultural ligado à Universidade Federal da Paraíba (UFPB), nasceu dessa doação realizada ainda em vida pelo artista e docente da instituição.[1][2]

Em 21 de abril de 2013, um grupo de intelectuais — entre eles Terezinha Fialho, Juan Cortez, Maria José Teixeira, Ana Maria Ferreira e Irismar Fernandes de Andrade — apresentou à Reitoria da UFPB um pleito formal solicitando a incorporação da casa/ateliê e do acervo de Hermano José ao patrimônio da universidade. O objetivo era assegurar a preservação e a valorização do legado artístico e pessoal do artista, transformando o espaço em um centro de memória e cultura voltado à difusão de sua contribuição para as artes visuais da Paraíba e do Brasil.[1][2]

A missão do Museu Casa de Cultura Hermano José é preservar, conservar e difundir a memória, a obra e as coleções do artista, além de estimular a produção de conhecimento científico-cultural por meio de ações e projetos de Pesquisa, Ensino e Extensão.[1][2]

Exposições[2]

  • 1960 – I Salão “O Retrato e a Obra”, Rio de Janeiro
  • 1961 – V Bienal de São Paulo
  • 1963 – Bienal Americana de Gravura, Santiago (Chile)
  • 1963 – Gravura Brasileira, Londres
  • 1966 – Bienal Americana de Arte, Córdoba (Argentina)
  • 1992 – IV Exposição de Arte da Eco 92, Rio de Janeiro
  • 2001 – VII Fenart, João Pessoa (Homenageado)
  • 2011 – Exposição comemorativa de 90 anos, Galeria Gamela, João Pessoa
  • 2013 – Retrospectiva na Usina Cultural Energisa, João Pessoa

Homenagens[2]

  • 2001 – Homenageado na Bienal de Gravura da Fenart
  • 2002 – Título de Honra ao Mérito do Conselho Estadual de Cultura
  • 2003 – Inauguração da Sala Hermano José no IFPB
  • 2007 – Comenda Verde da Assembleia Legislativa da Paraíba
  • 2009 – Inauguração da Biblioteca de Arte Hermano José, no Zarinha Centro de Cultura
  • 2011 – Documentário Ícone da Arte e da Cultura Paraibana
  • 2013 – Lançamento da biografia A Vida Luminosa de Hermano José, de Irismar Fernandes de Andrade

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af ag ah ai aj ak al am an ao ap Andrade, Irismar Fernandes de (16 de setembro de 2013). A vida luminosa de Hermano José. [S.l.]: SESC- PB 
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af ag ah ai «Biografia — UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA - UFPB Museu Casa de Cultura Hermano José». www.ufpb.br. Consultado em 22 de outubro de 2025