Guerra de gangues no Haiti

Guerra de gangues no Haiti
Crime no Haiti e Crise haitiana desde 2019

  Áreas de atividade de gangues entre 2023–2024

DataMaio de 2020–em curso
LocalPrincipalmente Port-au-Prince, Haiti
Beligerantes
Forças Revolucionárias da Família G9 e Aliados Apoiado por:
 Haiti (até 2021)
G-pep
400 Mawozo
 Haiti Apoiado por:
 Estados Unidos
 Mexico
Comandantes
Jimmy Chérizier Gabriel Jean-Pierre Haiti Jovenel Moïse 
Haiti Ariel Henry
     
400+ mortos[1][2]

A guerra de gangues[3][4] ou Guerra Civil Haitiana ou ainda insurgência criminal no Haiti[nota 1] é um conflito civil, em andamento, entre as Forças Revolucionárias da Família G9 e Aliados (FRG9 ou G9), o G-Pep e o Governo do Haiti.

O governo e as forças de segurança haitianas têm lutado para manter o controle de Porto Príncipe em meio a este conflito.[4] Em 2023, fontes oficiais estimavam que grupos armados controlassem até 90% da capital.[6]

Em resposta à escalada dos combates entre gangues, também surgiu um movimento de justiceiros armados, conhecido como bwa kale (do francês bois calé, "peso de porta"), com o objetivo de combater as gangues.[4][7]

Em 2 de outubro de 2023, foi aprovada a Resolução 2699 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, autorizando uma "missão multinacional de apoio à segurança" liderada pelo Quênia ao Haiti.[8]

Em março de 2024, a violência de gangues espalhou-se por Porto Príncipe visando demitir o primeiro-ministro, que também atuava como presidente, Ariel Henry, levando ao assalto a duas prisões e à libertação de milhares de prisioneiros. Estes ataques e os subsequentes ataques a várias instituições governamentais levaram o governo haitiano a declarar o estado de emergência e a impor um recolher obrigatório.[9] Em 11 de março, Henry concordou em renunciar assim que um governo tradicional fosse formado.[10]

Antecedentes

Os grupos armados não estatais estão firmemente estabelecidos no Haiti desde a década de 1950. Esse processo começou com a criação de milíciass paramilitaress (os Tontons Macoutes) pelo ditador François Duvalier. Esses grupos eram usados para reprimir violentamente os dissidentes [11][12]. Após o fim da ditadura e a remoção de Jean-Claude Duvalier do poder, em 1986, a violência não estatal continuou. Os Tontons Macoutes foram desbaratados, mas nunca foram desarmados, e se reorganizaram como milícias de extrema-direita. Os políticos haitianos continuaram a usar grupos armados para defender seus interesses, manipular eleições e reprimir manifestações públicas. Em 1994, o presidente Jean-Bertrand Aristide proibiu os grupos armados pró-Duvalier e dissolveu as Forças Armadas do Haiti, mas isso não resolveu o problema porque, mais uma vez, não houve desarmamento. Como resultado, ex-militares e milicianos continuaram a engrossar as fileiras das facções militantes não oficiais. De 1994 a 2004, uma insurreição anti-Aristide ocorreu em Porto Príncipe, quando ex-militares atacaram o governo. Em resposta ao caos, os jovens haitianos criaram grupos de autodefesa, chamados les chimères, que receberam apoio da polícia e do governo para consolidarem suas posições.[12]

Com o apoio de facto do Estado e do partido Fanmi Lavalas, de Aristide, as gangues de jovens assumiram o controle de comunas inteiras e tornaram-se cada vez mais independentes.[13] Segundo o diplomata americano Daniel Lewis Foote,"Aristide criou [as gangues] propositalmente, no início dos anos 1980, como uma voz, como um meio de obter algum poder, [...] e elas se transformaram ao longo dos anos".[14]

Após o terremoto de 2010, gangues mais jovens e mais cruéis superaram o domínio das gangues mais antigas e mais alinhadas politicamente. Os grupos armados de jovens tornaram-se cada vez mais poderosos.[15] O terremoto também levou a uma fuga em massa de criminosos das prisões.[14] A MINUSTAH, uma operação de manutenção da paz da Nações Unidas no Haiti, lançada após o fim do Golpe de Estado de 2004, não conseguiu conter a agitação e cometeu seus próprios abusos.[14]

Desde o fim da MINUSTAH em outubro de 2017, houve um aumento da violência relacionada a gangues, bem como um aumento da violência contra civis, destacando-se o Massacre de La Saline, em Porto Príncipe (2018), no qual foram mortos 71 civis.[16][17]

De 2017 a 2021, os líderes políticos do Haiti se viram mergulhados em uma crise; o Parlamento Haitiano foi colocado num impasse; a administração pública deixou gradualmente de funcionar por falta de financiamento, e o sistema judiciário entrou em colapso de facto. [18] As eleições foram adiadas várias vezes. A economia do país foi seriamente abalada pelos repetidos desastres naturais e a crescente agitação, o que agravou ainda mais a crise. [16] A jornalista Ellen Ioanes, da Vox, assim resumiu a história recente do país: "O Haiti enfrentou crises graves e cada vez piores, incluindo um terremoto devastador em 2010, inundações, epidemias de cólera, furacões e líderes corruptos, ditatoriais e incompetentes".[14] As gangues ocuparam o vácuo de poder político, mediante a cooperação do políticos, e assumiram também o poder econômico, por meio de esquemas de extorsão, sequestros e assassinatos. [18]

Em junho de 2025, segundo a OIM, havia cerca de 1,3 milhões deslocados internos no Haiti, em razão da violência das gangues.[19]

Gangues conhecidas

Em 2022, os investigadores estimaram que cerca de 200 gangues operavam em todo o Haiti. Destas, metade estava localizada em Porto Príncipe. As gangues mais influentes controlam grandes áreas de território, incluindo municípios e comunas inteiras.[15]

  • "Aliança G9",[20] oficialmente Fòs Revolisyonè G9 an Fanmi e Alye (Forças Revolucionárias da Família G9 e Aliados):[21] foi fundada e é liderada por Jimmy Chérizier, apelidado de Barbecue, um ex-policial.[21][22] O G9 está sediado nas comunas de Delmas, Pétion-Ville, na capital, e em partes de Carrefour. A aliança G9 inclui muitos antigos soldados e polícias nas suas fileiras e esteve durante muito tempo ligada ao PHTK, distanciando-se depois que Ariel Henry se tornou presidente. O G9 apresenta-se agora como uma organização revolucionária,[23] e começou a criar uma rede de alianças a nível nacional denominada “G20”.[22]
    • Gangue Delmas 6: gangue pessoal de Jimmy Chérizier, chefe geral do G9.[22] A gangue já operava enquanto Chérizier ainda era um policial ativo, indicando os fortes vínculos da gangue com as forças de segurança haitianas.[12]
    • "Baz Pilate": uma das gangues mais importantes da capital, composta principalmente por ex-policiais de elite da SWAT.[24]
    • Baz Krache Dife[22]
    • Nan Ti Bwa[22]
    • Simon Pelé's gang[22]
    • Baz Nan Chabon, Waf Jérémie[22]
    • Nan Boston,[22] também chamada de "gangue de Boston"[25]
    • Gangue Belekou[22][25]
  • "G-Pep": esta aliança de gangues foi formada em resposta direta ao G9. Foi organizada pela gangue Nan Brooklyn e seu chefe Jean Pierre Gabriel (também conhecido como "Ti Gabriel"). Acredita-se que o G-Pep esteja ligado a partidos de oposição haitianos e/ou a "um conhecido empresário haitiano". Está centrada na Cité Soleil de Porto Príncipe.[24]
    • Gangue Nan Brooklyn,[24] também chamada de "gangue do Brooklyn"[25]
  • "400 Mawozo": maior gangue do Haiti, baseada principalmente em Ganthier e Tabarre, em Porto Príncipe, e em Pétion-Ville. É constituída em grande parte por deportados, antigos líderes de grupos de oposição, antigos contrabandistas e agentes da polícia. Em 2022, alinhou-se com o "G-Pep" depois de o seu líder ter sido extraditado para os Estados Unidos.[26]
  • "Grand Ravine" e "5 Second": duas gangues de jovens baseadas em Martissant, em Porto Príncipe; consiste principalmente em vigilantes e "organizações populares" anteriormente ligadas ao Fanmi Lavalas.[24]
  • "Baz Galil": com sede fora da capital, consiste principalmente de deportados dos Estados Unidos e está intimamente ligada ao PHTK, a várias agências governamentais e outras gangues.[20]
  • "Gangue Titanyen": Opera em Cabaret.[25]
  • "Base 5 Secondes": Opera em Village de Dieu.[27]
  • "Gangue Canaan": Opera em Cabaret.[25]

Violência sexual

Em dezembro de 2023, os Estados Unidos sancionaram quatro líderes de gangues, dentre os quais Johnson André, líder da gangue 5 Segond, que o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos identificou como sendo responsável por mais de 1.000 casos de violência sexual, em 2022.[28] O estupro – que só se tornou crime no Haiti em 2005 – está a ser utilizado por gangues como forma de humilhar aqueles que vivem em bairros de gangues rivais.[29]

Coalizão pré-FRG9

Em maio de 2020, uma coalizão de onze gangues (Delmas 19, Delmas 6, Delmas 95, Nan Barozi, Nan Belekou, Nan Boston, Nan Chabón, Nan Ti Bwa, Pilate Base, Simon Pele, Wharf de Jeremie) foi fundada para operar em vários bairros de Porto Príncipe como forma de garantir e expandir o controle territorial. No mesmo mês, atacaram civis nos bairros da capital haitiana, matando 34 pessoas, em no final do mês a coalizão foi dissolvida.[30]

Fundação da FRG9 e início dos massacres

Após esses ataques, outra coalizão de nove gangues foi anunciada em um vídeo no Youtube como sendo fundada em Porto Príncipe sob o nome de Fòs Revolisyonè G9 an Fanmi e Alye (Forças Revolucionárias da Família G9 e Aliados) para operar para o desenvolvimento dos bairros mais desfavorecidos do Haiti.[21] A coalizão é liderada por Jimmy Chérizier, apelidado de Barbecue, um antigo oficial de polícia. Desde a fundação da coalizão, foi responsável por muitos massacres contra civis e confrontos com outras gangues rivais. De 2020 a 2021, a FRG9 foi responsável por uma dezena de massacres, nos quais morreram pelo menos 200 pessoas.[21]

Acreditava-se que a FRG9 tinha laços estreitos com o governo do presidente Jovenel Moïse, acusado de corrupção em grande escala, porque os membros da coalizão escapavam das perseguições policiais após os massacres e confrontos. Chérizier se destacou nesse aspecto porque, apesar dos mandados de prisão contra si, continuou a circular livremente e a ter uma presença ativa nas redes sociais sem nenhuma tentativa das forças governamentais do Haiti de prendê-lo efetivamente, além disso a coalizão passou a atacar os bairros onde os civis realizavam protestos contra o presidente e a G9 também iniciava confrontos contra gangues rivais com o apoio da polícia.[21][31]

Na sequência do assassinato de Jovenel Moïse, em 7 de julho de 2021, a G9 passou a auxiliar o governo na perseguição aos 28 criminosos estrangeiros. Com o assassinato do presidente, Ariel Henry, que supostamente estaria ligado ao homicídio de Moïse, tornou-se presidente do Haiti, depois disso a violência aumentou. Em janeiro de 2021, outra gangue, chamada G-Pep, liderada por Gabriel Jean-Pierre, foi fundada em Porto Príncipe e começou a lutar contra o FRG9 pela liderança criminal.[32] Em 12 de maio de 2021, durante um confronto com a G-Pep, Chérizier foi ferido.[33] De 8 a 9 de julho de 2022, a violência entre as duas gangues aumentou após o início de um confronto nos bairros de Porto Príncipe, que matou 89 pessoas e feriu 74.[2]

O conflito fez com que o terminal de campo próximo de Varreux cessasse suas operações, resultando numa escassez mais drástica de combustível, pois dois caminhões-tanque não puderam ser descarregados, e os Médicos Sem Fronteiras afirmaram que a organização não conseguiu acessar a favela devido à violência.[34] Na sequência dos combates e do aumento do preço do combustível pela crise socioeconômica, em 12 de setembro, a FRG9 iniciou confrontos contra o governo e bloqueou o terminal de combustíveis de Varreux, o maior depósito de combustíveis do país. Em resposta, o governo - com a ajuda dos Estados Unidos e do México - enviou tropas estrangeiras e veículos blindados contra a organização criminosa em 15 de outubro.[35][36][37] Em 6 de novembro de 2022, depois de duas semanas de negociações com o governo haitiano e após uma ofensiva armada lançada pela Polícia Nacional do Haiti, a coalizão de gangues G9 cedeu o controle do terminal de combustível de Varreux.[38]

Notas

  1. Uma insurgência é considerada "uma rebelião contra um poder estabelecido, revestida muitas vezes de ideais políticos, econômicos e sociais." No entanto, uma insurgência criminal "busca apenas o poder incivilizado, para garantir a continuidade e sucesso de suas empreitadas criminosas." [5]

Referências

  1. «UCDP – Uppsala Conflict Data Program». ucdp.uu.se. Consultado em 28 de julho de 2022 
  2. a b Charles, Jacqueline (13 de julho de 2022). «Gang continues deadly attack on Haiti slum, sparking violent protests over fuel shortages». Miami Herald 
  3. Rivers, Matt (31 de julho de 2023). «Rare glimpse inside neighborhood at the center of Haiti's gang war». ABC. Cópia arquivada em 3 de outubro de 2023 
  4. a b c Dyer, Evan (8 de maio de 2023). «In Haiti, a grassroots vigilante movement is fighting back against gang warfare». cbc. Cópia arquivada em 1 de outubro de 2023 
  5. Rodrigo Bustamante (10 de junho de 2022). «Insurgência criminal». O Tempo. Cópia arquivada em 11 de fevereiro de 2023 
  6. «Chaos In Haiti Escalates as Gang Violence, Fuel Shortages Threaten Access to Health Care». Partners in Health. 24 de março de 2023. Cópia arquivada em 3 de outubro de 2023 
  7. Chéry, Ons (18 de novembro de 2022). «Bwa kale: Protests still draw people fed up in Haiti, despite risks». The Haitian Times. Cópia arquivada em 24 de dezembro de 2022 
  8. Robles, Frances; Fassihi, Farnaz (2 de outubro de 2023). «U.N. Approves Kenya-Led Security Mission to Help Haiti Stamp Out Gangs». The New York Times (em inglês). ISSN 0362-4331. Cópia arquivada em 3 de outubro de 2023 
  9. «It's not just gang violence surging in Haiti. It's a rebellion: ANALYSIS». ABC News. Cópia arquivada em 8 de março de 2024 
  10. Coto, Dánica; Sanon, Evens (12 de março de 2024). «Ariel Henry: Haiti's PM says he will resign». Associated Press. Cópia arquivada em 12 de março de 2024 
  11. Walker 2022, p. 5.
  12. a b c Da Rin, Diego (27 de julho de 2022). «New Gang Battle Lines Scar Haiti as Political Deadlock Persists». Crisis Group. Cópia arquivada em 2 de outubro de 2023 
  13. Walker 2022, pp. 5-6.
  14. a b c d Ellen Ioanes (26 de março de 2023). «Haiti's gang violence crisis, briefly explained». Vox. Cópia arquivada em 4 de outubro de 2023 
  15. a b Walker 2022, p. 6.
  16. a b «UN peacekeepers leave Haiti: What is their legacy?». Al Jazeera. 6 de outubro de 2017. Cópia arquivada em 15 de janeiro de 2019 
  17. Charles, Jacqueline (18 de novembro de 2018). «Anti-corruption protest in Haiti turns into referendum on Haitian president». Miami Herald. Cópia arquivada em 15 de janeiro de 2019 
  18. a b Walker 2022, pp. 3-4.
  19. Haïti : un record de 1,3 million de déplacés en raison de la violence des gangs. ONU Info, 11 juin 2025.
  20. a b Walker 2022, p. 19.
  21. a b c d e «UCDP – Uppsala Conflict Data Program». ucdp.uu.se. Cópia arquivada em 7 de janeiro de 2023 
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  26. Walker 2022, pp. 4, 17–18.
  27. Ives, Kim (9 de dezembro de 2020). «Léon Charles du SIN à l'ANI». Haiti Liberté (em francês) 
  28. «UN, US slap sanctions on four Haiti gang leaders». Reuters. 9 de dezembro de 2023 
  29. Merancourt, Widlore; Coletta, Amanda (29 de janeiro de 2024). «'Collective rapes' surge as weapon in Haiti's gang war». Washington Post 
  30. «UCDP – Uppsala Conflict Data Program». ucdp.uu.se. Consultado em 28 de julho de 2022 
  31. «Haiti gang leader declares 'revolution' as violence spreads». Al Jazeera. Reuters. 24 de junho de 2021. Cópia arquivada em 7 de julho de 2021 
  32. «UCDP – Uppsala Conflict Data Program». ucdp.uu.se. Consultado em 28 de julho de 2022 
  33. «Barbecue" Cherizier, Haiti's top gang leader, shot in gunfight». The Haitian Times. 14 de maio de 2021. Cópia arquivada em 14 de maio de 2021 
  34. «Thousands trapped as gangs battle for control in Port-au-Prince». www.aljazeera.com (em inglês). Consultado em 14 de julho de 2022 
  35. «Haiti's Protests: Images Reflect Latest Power Struggle». Council of Foreign Relations. 3 de março de 2021 
  36. «Dispute over Haiti presidential term triggers unrest». BBC News. 15 de fevereiro de 2021 
  37. Chéry, Ons (18 de novembro de 2022). «Bwa kale: Protests still draw people fed up in Haiti, despite risks». The Haitian Times 
  38. Dupain, Etant; Alam, Hande Atay (6 de novembro de 2022). «Critical Haiti gas terminal freed after weeks of talks with G9 gang leader» (em inglês). CNN 

Obras citadas