Geraldo Simplício

Nêgo
Retrato de Geraldo Simplício em frente a um painel com seu autorretrato no Jardim do Nêgo.
Nome completoGeraldo Simplício
Conhecido(a) porJardim do Nêgo
Nascimento
2 de abril de 1943 (82 anos)

NacionalidadeBrasileiro
OcupaçãoEscultor
Movimento estéticoSurrealismo e Expressionismo

Geraldo Simplício, mais conhecido como Nêgo (Aurora, 2 de abril de 1943), é um artista plástico brasileiro reconhecido internacionalmente por suas esculturas monumentais de barro e musgo, situadas em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Seu trabalho se destaca pela integração das obras com a paisagem natural, criando um efeito visual único ao longo do tempo devido ao crescimento do musgo sobre as peças.[1][2]

Biografia

Nêgo nasceu no sertão do Cariri, na cidade de Aurora, no estado do Ceará. Filho de pais analfabetos, demonstrou interesse por desenho e escultura desde a infância. Vindo de uma família com poucos recursos financeiros, começou a trabalhar cedo como ajudante de sapateiro, usando carvão para marcar solas de sapato em seus primeiros desenhos e barro do sertão para modelar. Em 1964, na cidade de Crato, Ceará, trabalhou como porteiro no Seminário de São José, onde seu talento chamou a atenção dos salesianos.[3][4][5]

Em 1968, incentivado a investir em sua arte, Nêgo mudou-se para Recife. No ano seguinte, chegou ao Rio de Janeiro para uma exposição na Galeria Escada e passou a residir no Mosteiro de São Bento, onde aprendeu a praticar meditação. Durante suas estadas em ordens religiosas, trabalhou na restauração de obras sacras e começou a esculpir em madeira. Inicialmente, produzia ex-votos e esculturas utilizando cabos de guarda-chuva como suas primeiras ferramentas. Com o tempo, sua obra passou a retratar as emoções do cotidiano brasileiro, abordando temas como a seca, a migração, a religiosidade e a alegria do povo.[5][6][4]

Em 1971, a crítica de arte Cecília Falk incentivou Nêgo a se mudar para Nova Friburgo e apoiou sua trajetória artística. Inicialmente, ele se dedicou à produção de peças em madeira. Algum tempo depois, começou a esculpir diretamente nos barrancos de terra do jardim. Para aumentar a durabilidade de suas obras, o artista desenvolveu uma técnica inovadora: após esculpir, cobria as esculturas com plástico e deixava o limo crescer sobre elas, enrijecendo a superfície e evitando a erosão. O clima e as temperaturas amenas da cidade contribuíam para essa conservação. Além disso, ele realizava uma manutenção constante, plantando, regando e podando a vegetação ao redor das esculturas. Esse foi o ponto de partida para um trabalho que, ao longo do tempo, se tornaria mais refinado e receberia ainda mais dedicação e atenção do artista.[7][8][4]

No início dos anos 80, passou a residir em um pequeno sítio, e a viver da exposição de seu jardim ao cobrar uma pequena taxa de visitação. Com o passar do tempo, suas obras adquiriram notoriedade, atraindo turistas e admiradores da arte.[8][4]

Nêgo nunca frequentou uma escola e afirma ter uma "cultura auditiva". Segundo ele, aprendeu ouvindo as pessoas, sem a necessidade de estudos formais. É irmão mais velho do também artista Cícero Simplício do Nascimento, conhecido como Cizin, um dos mais expressivos artistas populares do Ceará. Nêgo teve um papel fundamental em sua trajetória, influenciando e incentivando Cizin a ingressar no mundo das artes.[7][9]

Em janeiro de 2011, seu sítio foi atingido pela catástrofe natural que devastou diversas áreas do município de Nova Friburgo. No entanto, em entrevista concedida ao jornal O Globo, Nêgo se mostrou determinado a recuperar e preservar seu trabalho.[10]

Em 7 de setembro de 2023, Nêgo foi homenageado em sua cidade natal. A cerimônia, intitulada Dos Jardins para o Mundo – A História do Artista Aurorense, aconteceu durante o desfile cívico de 7 de setembro e contou com a presença do prefeito Marcone Tavares e de membros do governo local.[11][12]

Jardim do Nêgo

Batizado de Jardim do Nêgo, o acervo de esculturas de Geraldo Simplício está localizado no distrito de Campo do Coelho, em Nova Friburgo. Situado no KM 55 da RJ-130, o espaço recebe visitantes diariamente.[8][13][14][15]

Filosofia

Nêgo diz basear seu processo criativo em uma conexão com energias e culturas globais, vendo-se como um receptáculo que transforma essas forças em arte. Ele descreve a energia como algo que entra por sua cabeça, atravessa seu corpo e sai pelos pés, alimentando sua inspiração. Para manter esse fluxo, adota um estilo de vida ascético, abstendo-se temporariamente de atividades sexuais.[4][13][8]

Sua obra abrange temas variados, desde elementos sacros até questões contemporâneas e universais, como a relação entre o homem e a natureza. Segundo ele, suas esculturas manifestam forças telúricas e cósmicas, refletindo uma dualidade entre ascetismo e erotismo. Nêgo entende a arte como um fluxo de energia resultante da interação entre o mundo externo e interno, transformando influências sociais em intervenções artísticas.[4][13][8]

Legado

Ao longo de sua carreira, Nêgo consolidou-se como um dos principais artistas populares do Brasil. Seu trabalho é reconhecido nacional e internacionalmente, sendo objeto de reportagens e estudos sobre arte popular e integração da arte com a natureza. Seu Jardim do Nêgo segue como um ponto turístico e cultural relevante no estado do Rio de Janeiro, mantendo viva sua contribuição para a arte brasileira.[1][16][13]

Imagens

Ver também

Referências

  1. a b «80 anos de Nêgo: a trajetória do artista plástico que há 42 anos esculpe a natureza em Nova Friburgo». G1. 29 de maio de 2023. Consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  2. «Presente de Nêgo». O Globo. 11 de maio de 2013. Consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  3. «Geraldo Simplício». Google Arts & Culture. Consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  4. a b c d e f Góes Viegas, Nanímia (nov. de 2012). «NÊGO - INVENTIVIDADE E INTERVENÇÃO». Portal de Publicações Eletrônicas da UERJ. Textos escolhidos de cultura e arte populares. v.9: p. 107-121. Consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  5. a b c Entrevista, TV Educativa (1977). «Arte negra - esculturas de Geraldo Simplício (Nêgo)». SIAN - Sistema de Informações do Arquivo Nacional. Consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  6. «Sudeste». www.artedobrasil.com.br. Consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  7. a b de Freitas Sampaio, Jurema Luzia; do Carmo Lourenço, Janaina (2018). Arte e cultura popular (PDF). [S.l.]: Editora e Distribuidora Educacional S.A. p. 154 
  8. a b c d e Alt-Vídeo (17 de maio de 2018), Conheça o Nego, escultor da terra, consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  9. «CIZIN - Biografia». Guia das Artes. Consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  10. «Escultor Nêgo pede para avisar que está vivo». O Globo. 22 de janeiro de 2011. Consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  11. «Geraldo Simplício, o Nêgo, será homenageado por sua cidade natal». Jornal A Voz da Serra. 8 de agosto de 2023. Consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  12. Redação. «Homenagem em Aurora: Artista Geraldo Simplício, conhecido como 'Nêgo', receberá honraria em sua terra natal». Aurora Notícias. Consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  13. a b c d Portal Multiplix (5 de maio de 2023), Criador de esculturas feitas no barro, Nêgo fala da sua arte em Friburgo || portalmultiplix.com, consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  14. Lima, Fabio (30 de novembro de 2013). «Off-Rio: Arte e natureza no "Jardim do Nego" em Nova Friburgo - Diário do Rio de Janeiro». Consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  15. Serrana, Do G1 Região (15 de março de 2013). «Jardim do Nego, em Nova Friburgo, RJ, tem esculturas feitas de barro». Serra, Lagos e Norte do RJ. Consultado em 8 de fevereiro de 2025 
  16. «Nêgo completa três décadas de arte em Nova Friburgo». O Globo. 12 de maio de 2012. Consultado em 8 de fevereiro de 2025 

Ligações externas