Genocídio circassiano

Genocídio circassiano
Genocídio circassiano
Pintura que descreve circassianos tentando evacuar sua cidade para evitar a agressão russa
Local: Circássia
Contexto: Guerra russo-circassiana
Período: 1864-1867
Vítimas: Circassianos
Tipo de agressão: Assassinato em massa, violação, estupro genocida, Deportação, genocídio e limpeza étnica, Marcha da morte e Tortura
Número de vítimas: 1 000 000 – 2 000 000
Motivo: Imperialismo, Islamofobia, Cristianização, Racismo, Russificação
Responsáveis: Império Russo

O Genocídio circassiano, ou Tsitsekun, foi o assassinato sistemático em massa, a limpeza étnica e o deslocamento forçado de entre 95% e 97% do povo circassiano durante os estágios finais da invasão russa da Circássia no século XIX. Estima-se que entre 1 e 2 milhões de circassianos tenham morrido, e a região da Circássia foi então anexada pelo Império Russo. As ações de extermínio foram principalmente direcionadas aos circassianos, que eram predominantemente muçulmanos, mas outros grupos étnicos do Cáucaso também foram afetados no contexto da Guerra do Cáucaso.

O Exército Imperial Russo também empalava suas vítimas e abria as barrigas de mulheres grávidas para intimidar os circassianos e devastar seu moral, recorrendo também com frequência à violência sexual. Alguns generais russos, como Grigory Zass, descreveram os circassianos como "lixo sub-humano" e uma "raça inferior" para justificar e enaltecer seu extermínio em massa e seu uso como sujeitos humanos em experimentos científicos antiéticos. Soldados russos também foram autorizados a estuprar mulheres circassianas.

A população nativa circassiana foi em grande parte dizimada ou expulsa para o Império Otomano. Apenas aqueles que aceitaram a Russificação e firmaram acordos com as tropas russas foram poupados. A fome foi usada como instrumento de guerra contra vilas circassianas, muitas das quais foram posteriormente incendiadas. O escritor russo Liev Tolstói relatou ataques de soldados russos às casas das aldeias durante a noite. O diplomata britânico Gifford Palgrave afirmou que “seu único crime foi não ser russo.”

Em busca de intervenção militar contra a Rússia, líderes circassianos enviaram em 1864 a “Petição dos líderes circassianos à Sua Majestade a Rainha Vitória”, mas não obtiveram sucesso em conseguir auxílio do Império Britânico. Nesse mesmo ano, o Exército Imperial Russo lançou uma campanha de deportação em massa da população circassiana sobrevivente. Até 1867, grande parte dos circassianos havia sido expulsa. Muitos morreram por epidemias ou fome; há relatos de que alguns corpos foram devorados por cães e outros morreram quando navios de transporte naufragaram durante tempestades.

A maioria das fontes afirma que restaram apenas cerca de 3% da população da Circássia após o genocídio, e que até 2,5 milhões de pessoas foram forçadas a fugir ao todo, embora apenas cerca de metade tenha sobrevivido à jornada. Arquivos otomanos registram a entrada de mais de um milhão de imigrantes do Cáucaso até 1879, com quase metade chegando moribundos às margens do Mar Negro devido a doenças. Se essas estatísticas estiverem corretas, a campanha militar russa na Circássia constitui o maior genocídio do século XIX. Registros russos, confirmando os arquivos otomanos, documentaram a presença de apenas 106.798 circassianos no Cáucaso às vésperas do século XX. Outras estimativas de historiadores russos são ainda menores, variando entre 40.400 e 65.900. O censo do Império Russo, realizado em 1897, registrou a presença de 150.000 circassianos na região conquistada.

Arquivos imperiais russos sigilosos na Geórgia foram abertos a historiadores pelo governo georgiano, o que revelou informações até então desconhecidas sobre as ações russas. Em seguida, em 20 de maio de 2011, a Geórgia reconheceu formalmente o genocídio circassiano. A Ucrânia reconheceu o genocídio circassiano em 9 de janeiro de 2025, após apelos circassianos em junho de 2024. A cidade de Wayne (Nova Jérsei), nos Estados Unidos, e o Governo do Exílio do Turquestão Oriental também reconheceram oficialmente o Genocídio circassiano.

Em 7 de fevereiro de 1992, a República Socialista Soviética Autônoma da Cabardino-Balcária decidiu condenar o genocídio circassiano. Em 12 de maio de 1994, a República da Cabardino-Balcária e, em 29 de abril de 1996, a República de Adigueia apresentaram pedidos à Duma Estatal da Federação Russa para o reconhecimento do genocídio circassiano. Em 15 de outubro de 1997, a Abecásia reconheceu as deportações e assassinatos de abecásios no século XIX como genocídio e os deportados como refugiados.

Em outubro de 2006, mais de 20 associações circassianas apelaram ao Parlamento Europeu para reconhecer o genocídio circassiano. Em novembro de 2006, associações circassianas nas repúblicas de Adigueia, Cabardino-Balcária e Carachai-Cherquezia apelaram ao presidente russo Vladimir Putin para reconhecer o genocídio. A Federação Russa classifica os eventos na Circássia como uma migração em massa (russo: Черкесское мухаджирство, lit. "muhadjirismo circassiano") e nega que tenha ocorrido genocídio.

O dia 21 de maio é observado anualmente como Dia de Luto Circassiano, com cerimônias e marchas em memória das vítimas e, por vezes, protestos contra o governo russo. Hoje, a diáspora circassiana está concentrada principalmente na Turquia e na Jordânia, com cerca de 750.000 pessoas vivendo na Região Econômica do Norte do Cáucaso, na Rússia.

Dança circassiana

Um trecho traduzido da segunda página do único livro inteiramente dedicado a essa tragédia[1]: O oficial russo Ivan Drozdov descreveu a cena ao redor de Sochi enquanto os russos estavam celebrando: “Na estrada nossos olhos encontraram uma imagem atordoante: corpos de mulheres, crianças e idosos, esquartejados e parcialmente devorados por cães. Deportados abatidos por fome e doenças, quase fracos demais para movimentar as pernas, colapsando de exaustão e se tornando presas para cães enquanto ainda vivos.”

Em 1869 Qbaada foi estabelecida por imigrantes russos e renomeada Krasnaya Polyana (Campina Vermelha), uma referência a todo o sangue derramado no campo durante a batalha final.

Outra cena grotesca é descrita no livro do historiador galês Oliver Bullough Let Our Fame Be Great: Journeys Among the Defiant People of the Caucasus e outros jornalistas: cabeças de circassianos derrotados na guerra sendo coletadas como troféus.[2]<

A Circássia e o Povo Circassiano

Walter Richmond especulou em seu livro The Circassian Genocide que os circassianos sejam descendentes dos hatitas, que habitaram uma área próxima (Anatólia, atual Turquia) e falavam uma língua com semelhanças em relação às línguas caucasianas da costa Noroeste (Circássia e Abcázia).

No século XIII o Norte do Cáucaso, inclusive áreas habitadas pelos ancestrais dos circassianos (adigue/adyge), sofreu incursões mongóis que causaram destruição e deslocamentos.

Houve contatos e influências do cristianismo no Cáucaso, especialmente na Geórgia e na Abecásia, e indícios de cristianização pontual entre alguns caucasianos. Entre os circassianos há evidências de influências cristãs em certos períodos, mas não prova de uma cristandade homogênea e contínua de toda a população antes da islamização.

A islamização foi um processo gradual e regionalizado (séculos XV–XIX), impulsionado por comércio, laços com otomanos e tártaros, e atividade sufista. Muitas comunidades já eram muçulmanas antes das guerras russas do século XIX; a conquista russa e a expulsão em massa na década de 1860 aceleraram deslocamentos e reforçaram identidades islâmicas, mas não foram a única causa da conversão.

Códigos sociais tradicionais (adat) e influências sufistas moldaram práticas religiosas circassianas, resultando em formas de religiosidade frequentemente menos dogmáticas em vários círculos.

Antes da influência cristã, havia os mitos próprios dos povos do Cáucaso.[3] Um grande corpus de mitos, as Sagas Narth, entesoura tradições e crenças extremamente antigas, com muitos paralelos com os contos da Índia Védica, a Escandinávia pagã e a Antiga Grécia.

Os mamelucos do Oriente Médio eram essencialmente georgianos e circassianos, embora alguns tivessem outras origens. Apesar de ter sido a nação nobre do Cáucaso, exercendo influência sobre os outros países, em determinadas épocas as pessoas vendiam os filhos como escravos como único meio de manter a autonomia financeira. Isso originou tanto os mamelucos quanto as concubinas dos haréns. Isso também é, parcialmente, a razão do termo “caucasiano” ter sido usado como sinônimo de etnicamente branco. Quando a Circássia era conhecida e enaltecida pelos países do Ocidente, os circassianos foram considerados um ideal de beleza.

A língua circassiana está ameaçada, com aproximadamente 1,5 milhão de falantes. De acordo com os 4 níveis de risco da Unesco, a língua circassiana se encontra no primeiro nível (vulnerável): A maioria das crianças fala a língua, mas apenas em poucos locais (em casa). Se a estimativa de que existem 3,7 milhões de circassianos no total, ao redor do mundo, estiver correta, menos da metade da população circassiana domina a língua; a maior parte dos que são fluentes são os que permaneceram na pátria.

O circassiano se destaca por ser uma língua ergativa, pelo complexo sistema fonético e sua formação de palavras.

Carachai-Circássia

A família de línguas do Noroeste caucasiano divide-se desta maneira[4]: Ubykh, circassiano, abcás-abaza.

Circassiano - Leste: besleney e cabardiano. Oeste - natukhay, shapsegh, hakuchi, bzhedukh, chemgwi, hatukhay, yegerukay.

Cabardino-Balcária.

Abcás-abaza - abaza (tapanta).

Abcás - bzyb (gudaut), sadzwa, abhzwi, samurzakan, ashkarwa (abaza).

O alfabeto circassiano foi desenvolvido por volta de 1918. Antes disso ninguém (com exceção de escrivães e clérigos) fazia uso da escrita. Poucos livros sobre o Norte do Cáucaso e sobre a Circássia foram escritos em inglês ou traduzidos para o inglês, com exceção de livros sobre as guerras na Chechênia.

Depois do genocídio aconteceram a deportação e consequente diáspora, e a fragmentação do território nacional. Hoje a diáspora circassiana é a maior do mundo, com 86% de todos circassianos vivendo fora da terra de origem de suas famílias. Os países com comunidades significativas são: Estados Unidos, Turquia, Egito, Israel, Palestina, Jordânia, Líbia, Síria, Iraque e Albânia (perto da fronteira com Kosovo, por terem fugido do conflito).

A Circássia hoje se encontra lamentavelmente dividida em 3 partes: República Adigueia (que usa a bandeira nacional da Circássia), Cabardino-Balcária e Caracai-Circássia. Os nomes compostos denotam a diluição da população circassiana feita pelo governo russo, favorecendo outras etnias; sejam os povos túrquicos Carachais, bálcaros ou os próprios russos. Apenas no estado Cabardino-Balcária os circassianos são a maioria.

Recentemente dois eventos foram um gatilho para a retomada do ímpeto nacionalista circassiano: A Guerra Civil na Síria e os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, na antiga capital circassiana Sochi.

No primeiro caso uma parte da população circassiana se envolveu no conflito e a necessidade de repatriação se tornou emergencial, sendo sensível, mais do que nunca, o direito de retorno a pátria ser negado.

No segundo caso houve uma indignação e revolta generalizada pela diáspora circassiana contra os jogos no exato local do genocídio, depois de 150, sem qualquer menção por parte dos russos ao povo circassiano e ao fato ocorrido. circassianos compararam Sochi a Auschwitz, sendo um local de luto onde, de maneira alguma, deveriam ocorrer jogos olímpicos.

Referências