Galactose-1-fosfato uridililtransferase

Para o tecido linfoide associado ao intestino ver GALT.
Galactose-1-fosfato uridililtransferase
Dímero da galactose-1-fosfato uridiltransferase de Escherichia coli.

A galactose-1-fosfato uridiltransferase (GALT) (EC 2.7.7.12) é uma enzima responsável por converter a galactose ingerida em glicose.[1]

A GALT catalisa a segunda etapa da rota de Leloir do metabolismo da galactose.

UDP-glicose + galactose 1-fosfato glicose 1-fosfato + UDP-galactose

O enzima está codificado no gene GALT do cromossomo 9,[2] e a sua expressão é controlada pelo gene FOX3. A ausência deste enzima origina nos humanos a doença galactosemia que pode ser mortal nos neonatos se não se elimina da dieta a lactose (dissacarídeo que contém galactose). A fisiopatologia da galactosemia não foi ainda definida claramente.[1]

Mecanismo

Figura 1. Reação em duas etapas da GALT. Imagem adaptada de[3]

A galactose-1-fosfato uridiltransferase (GALT) catalisa a segunda reação da rota de Leloir do metabolismo da galactose por meio de uma cinética enzimática de duplo deslocamento.[4] Isto significa que a reação líquida consiste em dois reagentes e dois produtos, e procede por meio do seguinte mecanismo: O enzima reage com um substrato para gerar um produto e o enzima modificado, o qual posteriormente reage com o segundo substrato para formar o segundo produto, regenerando-se o enzima original.[5] No caso da GALT, o resíduo His-166 atua como um nucleófilo potente para facilitar a transferência de um nucleótido entre UDP-hexoses e hexoses-1-fosfato.[6]

  1. UDP-glicose + Enzima-His está em equilíbrio com Glicose 1-fosfato + Enzima-His-UMP
  2. Galactose 1-fosfato + Enzima-His-UMP está em equilíbrio com UDP-galactose + Enzima-His[6]

A GALT necessita de um ião ferro e um ião zinco por subunidade.[7]

Estudos estruturais

Galactose-1-fosfato uridiltransferase, domínio N-terminal
Indicadores
PfamPF01087
PROSITEPDOC00108
SCOP1hxp
Galactose-1-fosfato uridiltransferase, domínio C-terminal
Indicadores
PfamPF02744
InterProIPR005850
PROSITEPDOC00108
SCOP1hxp

A GALT é um homodímero.[7] A estrutura tridimensional por cristalografia de raios X a uma resolução de 1,8 ángstroms da galactose-1-fosfato uridiltransferase foi obtida por Wedekind, Frey e Rayment, e a sua análise estrutural encontrou os aminoácidos chave essenciais para a função da GALT.[6] Os aminoácidos importantes encontrados por Wedekind et al. (Leu-4, Phe-75, Asn-77, Asp-78, Phe-79 e Val-108) são concordantes com os resíduos que foram implicados em experimentos de mutações pontuais e em rastreio clínico na galactosemia humana.[6][8]

Importância clínica

A deficiência em galactose-1-fosfato uridiltransferase causa a galactosemia clássica. A galactosemia é uma doença da infância de natureza hereditária.[9] Os traços autossómicos recessivos afetam aproximadamente 1 em cada 40.000-60.000 nascidos. A galactosemia clássica (G/G) é causada por uma deficiência na atividade da GALT, enquanto que a forma mais comum, Duarte/Clássica (D/G), se produz pela atenuação da atividade da GALT.[10] Os sintomas incluem problemas ováricos, dispraxia (dificuldade para falar correta e consistentemente)[11] e déficits neurológicos.[10] Uma única mutação nalguns aminoácidos pode produzir atenuação ou deficiência da atividade da GALT.[12] Por exemplo, uma mutação simples de A a G no éxon 6 do gene GALT muda o Glu-188 por Arg, e uma mutação de A a G no éxon 10 muda a Asn-314 por Asp.[10] Estas duas mutações também adicionam novos sítios de corte para as enzimas de restrição.[10] O rastreio clínico praticamente eliminou a morte neonatal pela galactosemia clássica, mas a doença, devido ao papel da GALT no metabolismo da conversão da galactose ingerida em glicose, pode ser mortal.[9][13] Contudo, as pessoas afetadas pela galactosemia podem viver de forma relativamente normal evitando os produtos que contêm leite e qualquer alimento que contenha galactose, ainda que haja um risco potencial para problemas no desenvolvimento neurológico, ou outras complicações, mesmo naqueles indivíduos que evitem a galactose.[14]

Referências

  1. a b «Entrez Gene: GALT galactose-1-phosphate uridylyltransferase» 
  2. OMIM 606999
  3. «Copia arquivada». Consultado em 24 de abril de 2014. Cópia arquivada em 4 de dezembro de 2008 
  4. Wong LJ, Frey PA (1974). «Galactose-1-phosphate uridylyltransferase: rate studies confirming a uridylyl-enzyme intermediate on the catalytic pathway». Biochemistry. 13 (19): 3889–3894. PMID 4606575. doi:10.1021/bi00716a011 
  5. «Copia arquivada». Consultado em 24 de abril de 2014. Cópia arquivada em 3 de março de 2016 
  6. a b c d Wedekind JE, Frey PA, Rayment I (1995). «Three-dimensional structure of galactose-1-phosphate uridylyltransferase from Escherichia coli at 1.8 A resolution». Biochemistry. 34 (35): 11049–61. PMID 7669762. doi:10.1021/bi00035a010 
  7. a b «Galactose-1-phosphate uridylyltransferase». Consultado em 8 de dezembro de 2011 
  8. Seyrantepe V, Ozguc M, Coskun T, Ozalp I, Reichardt JK (1999). «Identification of mutations in the galactose-1-phosphate uridyltransferase (GALT) gene in 16 Turkish patients with galactosemia, including a novel mutation of F294Y. Mutation in brief no. 235. Online». Hum. Mutat. 13 (4). 339 páginas. PMID 10220154. doi:10.1002/(SICI)1098-1004(1999)13:4<339::AID-HUMU18>3.0.CO;2-S 
  9. a b Fridovich-Keil JL (2006). «Galactosemia: the good, the bad, and the unknown». J. Cell. Physiol. 209 (3): 701–5. PMID 17001680. doi:10.1002/jcp.20820 
  10. a b c d Elsas LJ, Langley S, Paulk EM, Hjelm LN, Dembure PP (1995). «A molecular approach to galactosemia». Eur. J. Pediatr. 154 (7 Suppl 2): S21–7. PMID 7671959. doi:10.1007/BF02143798 
  11. «Copia arquivada». Consultado em 24 de abril de 2014. Cópia arquivada em 28 de fevereiro de 2006 
  12. Dobrowolski SF, Banas RA, Suzow JG, Berkley M, Naylor EW (2003). «Analysis of common mutations in the galactose-1-phosphate uridyl transferase gene: new assays to increase the sensitivity and specificity of newborn screening for galactosemia». J Mol Diagn. 5 (1): 42–7. PMC 1907369Acessível livremente. PMID 12552079 
  13. Lai K, Elsas LJ, Wierenga KJ (2009). «Galactose toxicity in animals». IUBMB Life. 61 (11): 1063–74. PMC 2788023Acessível livremente. PMID 19859980. doi:10.1002/iub.262 
  14. «Copia arquivada». Consultado em 24 de abril de 2014. Cópia arquivada em 29 de maio de 2013