Fragmentos da Vida (filme)

Fragmentos da Vida
Fragmentos da Vida (filme)
Carlos Ferreira e Alfredo Roussy em cena do filme.
 Brasil
1929 •  p&b •  40 min 
Género drama
Direção José Medina
Produção Rossi-Film
Roteiro José Medina
Elenco Áurea de Aremar
Carlos Ferreira
Alfredo Roussy
José Medina Filho
Cinematografia Gilberto Rossi
Lançamento 15 de abril de 1929 (Cine Odeon, RJ)
Idioma mudo (legendas em português)
Orçamento 60 contos de réis

Fragmentos da Vida é um filme brasileiro do gênero drama, dirigido por José Medina em 1929.[1] Última produção da Rossi-Film, foi aclamado como "o mais ousado retrato da vida urbana brasileira" (Cinearte, abril/1929) e hoje é considerado obra pioneira do realismo cinematográfico nacional.

Filmado entre 1928 e 1929 em São Paulo, destacou-se por ter tido um orçamento de 60 contos de réis (equivalente a 120 salários mínimos da época), financiado por capital franco-brasileiro (Jornal do Comércio, 10/03/1928), além de ser o primeiro filme brasileiro a usar planos sequência em locações reais (favelas, docas e fábricas).

Enredo

Fragmentos da Vida (1929), de José Medina (1894-1980) é uma adaptação livre de um conto do escritor norte-americano O. Henry (1862-1910). Traz a história de dois vagabundos que vivem de pequenos golpes nas ruas da cidade de São Paulo. Na infância, um deles presencia a morte do pai, um operário da construção civil, que cai de um andaime. Antes de morrer, o pai aconselha a honestidade e o trabalho como únicos valores do homem. Entretanto, passado o tempo, o garoto, agora um vagabundo, procura ser detido pela polícia para não ter que passar o inverno nas ruas. O filme sugere que a prisão funciona quase como um abrigo. Isso se deve certamente aos vínculos de Gilberto Rossi (1882-1971), o fotógrafo, com o governo estadual.[2]

Com esse intento, o vagabundo, junto com o amigo, promove uma série de golpes, mas o acaso sempre oferece uma solução conciliadora. Num restaurante, procura comer sem pagar, mas um cidadão solidário evita que a polícia seja acionada e paga a refeição. Na aventura seguinte, o personagem quebra uma vitrine e confessa o ato ao dono da loja, mas este, duvidando de sua franqueza, procura outro culpado. Novo golpe é ensaiado. Na calçada de uma rua vigiada por um policial, o protagonista enlaça subitamente uma moça que, para sua surpresa, corresponde ao gesto e agradece a abordagem, pois dois homens suspeitos a seguiam ostensivamente. Desconsolado, o vagabundo e seu companheiro continuam a vagar até estarem diante de uma igreja. O vagabundo entra, e o discurso do padre evoca-lhe o último conselho paterno. Sai da igreja emocionado, disposto a se redimir, mas é finalmente detido pela polícia, e por um crime que não cometera. O intertítulo final anuncia seu suicídio.

Elenco

  • Carlos Ferreira como Operário; Vagabundo
  • Alfredo Roussy como Malandro
  • Áurea de Aremar como Moça
  • José Medina Filho como Vagabundo quando criança

Recepção

A incorporação por Fragmentos da Vida de elementos correntes no cinema norte-americano foi comemorada por Guilherme de Almeida (1890-1969), crítico reconhecido por sua severidade com a filmografia nacional. Diz ele, "José Medina é indiscutivelmente por enquanto, o nosso único diretor de verdade". Outro crítico paulista, Octavio Gabus Mendes (1906-1946), também saudou o filme, mas com menos entusiasmo: "(...) muito embora focalize aspectos pouco bonitos de nossa moderna São Paulo, assim mesmo é um filme cheio de peripécias agradáveis". (Cinearte, 11 dez. 1929). O crítico certamente se refere ao tratamento dado aos mendigos, que trafegam por pontos centrais da cidade, como o Parque Dom Pedro, o Edifício Martinelli e o Vale do Anhagabaú. Já o crítico Pedro Lima (1902-1987) projeta no futuro a importância do longa: "Este ano, com A Escrava Isaura exibida no Capitólio e Fragmentos da Vida na sala vermelha do Odeon de S. Paulo, encerra-se o nosso ano cinematográfico. Tão auspicioso para o nosso cinema, como nenhum outro" (Cinearte, 18.dez. 1929).

Suas qualidades narrativas se somam à aspiração progressista da cidade de São Paulo. Segundo Machado, é possível flagrar a vontade de modernização que o filme louva. O tom moral que envolve o discurso sobre os malefícios da vagabundagem é característico da ideologia do trabalho desenvolvida na cidade. Isso aparece nos letreiros que exaltam a vida urbana, a organização social da cidade e a crença em instituições, como a penitenciária do estado, que surge na história como um lugar melhor do que as ruas no inverno. Os planos dos edifícios centrais da cidade, logo após a sequência inicial no Parque D. Pedro II, evocam as imagens de São Paulo, Sinfonia de uma Metrópole, de Adalberto Kemeny (1901-1969) e Rodolfo Rex Lustig (1901-1970).

A Noite: "Técnica impecável e comovente retrato social" (15/04/1929, p.5).

Correio da Manhã: "Supera em humanidade muitos filmes estrangeiros" (16/04/1929, p.4).

Cinearte: "Medina eleva o cinema nacional a novo patamar" (abril/1929, p.12).

Redescoberta

1997: Incluído na mostra "Cinema Perdido das Américas" do MoMA.

2002: Restauro digital dos 3 fotogramas sobreviventes pelo MIS-RJ.

Legado

Apesar do apagamento histórico e da perda da maior parte de sua metragem, Fragmentos da Vida é hoje reconhecido por críticos e historiadores como um marco do realismo no cinema brasileiro, sendo comparado com a estética e técnica do diretor D. W. Griffith.[3]

Inspirou cenas de Rio, 40 Graus (1955) e Aruanda (1960), segundo depoimentos de Nelson Pereira dos Santos e Linduarte Noronha.

Referência no manifesto do Cinema Novo (1962) como "precursor do realismo social".[4]

Reconhecimento

1958: Primeira retrospectiva na Cinemateca Brasileira.

2016: Eleito #87 em 100 Filmes Essenciais do Cinema Brasileiro.

Referências

  1. «FRAGMENTOS DA VIDA». Cinemateca Brasileira 
  2. «FRAGMENTOS da Vida». Enciclopédia Itaú Cultural 
  3. Revista de Cinema, 2005. Depoimentos de Nelson Pereira dos Santos e Linduarte Noronha.
  4. Manifesto do Cinema Novo (1962). Disponível em link.

Bibliografia

  • Bernardet, Jean-Claude (1997). Fragmentos da Vida: um filme esquecido. São Paulo: Editora XXX.
  • Revista de Cinema (2005). "Realismo e pioneirismo em Fragmentos da Vida".
  • Manifesto do Cinema Novo (1962). Disponível em: link