Forte de São Miguel Arcanjo
| Forte de São Miguel Arcanjo | |
|---|---|
![]() Forte de São Miguel Arcanjo, Nazaré. | |
| Informações gerais | |
| Estilo dominante | Maneirista |
| Construção | 1577 |
| Estado | Bom |
| Promotor | Sebastião I de Portugal |
| Património de Portugal | |
| Classificação | |
| DGPC | 73954 |
| SIPA | 3294 |
| Geografia | |
| País | Portugal |
| Localização | Nazaré |
| Coordenadas | 🌍 |
| Localização em mapa dinâmico | |
| [♦] ^ DL Decreto n.º 95/78, DR, I Série, n.º 210 de 12-09-1978 | |
O Forte de São Miguel Arcanjo, também referido como Forte do Morro da Nazaré ou simplesmente Forte da Nazaré, localiza-se na vila, freguesia e município da Nazaré, em Portugal.[1]
Ergue-se em posição dominante sobre a praia da Nazaré, afamado e tradicional ponto de pesca, santuário e balneário, no litoral português.
Aberto ao público desde 2014, conta com uma das mais enigmáticas vistas sobre a Vila da Nazaré e é um dos locais favoritos para os entusiastas das ondas gigantes.
O Forte de São Miguel Arcanjo está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1978.[1]
História
Origens
A fundação da estrutura defensiva remonta ao reinado de D. Sebastião (1557-1578). Em 1577, o Rei, provavelmente sob assessoria de Francisco de Holanda, determinou erguer no promontório da Nazaré uma fortificação para defesa do povoado piscatório no monte da Pederneira (1577) e dos respectivos estaleiros navais, por cujo porto era escoada a madeira do Pinhal d’El Rey (Pinhal de Leiria) e cujos estaleiros já possuíam importância econômica de vulto à época.
Filipe II e o projecto de Casale
Inicialmente, o sistema defensivo era de natureza rudimentar e de eficácia limitada, servindo apenas como alicerce para desenvolvimentos futuros.
Foi somente sob o domínio da Dinastia Filipina, especificamente por determinação de Filipe II de Espanha (I de Portugal), que o projecto ganhou complexidade técnica. Em 1593, o engenheiro militar e arquitecto florentino Giovanni Vicenzo Casale delineou uma nova planta, inserida num mapa que representava os lugares da Pederneira, do Sítio e do Porto, assinalando a localização do forte, embora o projecto não tenha sido integralmente executado na época. Dois anos volvidos, em 1595, foi nomeado um capitão para a vila da Pederneira, estando o forte já apetrechado com quatro peças de artilharia e guarnecido por um bombardeiro.
Ainda em construção, um corsário neerlandês penetrou no porto de Pederneira e apresou uma embarcação portuguesa com carga de madeira de pinho e uma nau de Biscaia que transportava ferro, vinho e armas (1611).
Restauração da Independência

Durante o século XVII, o forte foi alvo de sucessivas e profundas intervenções arquitectónicas. Em 1639, D. Tomás de Almeida, administrador da Casa de Nossa Senhora da Nazaré, conjuntamente com o capitão Manuel Gomes Pereira, ordenaram a construção de uma nova fortaleza.
Este projecto de reestruturação foi conduzido pelo engenheiro Mateus do Couto, o Velho, ficando as obras concluídas em 1641. Nessa fase, a praça de armas dispunha de capacidade para aproximadamente 200 homens, contando com seis peças de artilharia em ferro.
Em Outubro de 1641, o rei D. João IV solicitou informações detalhadas sobre o estado da fortificação ao Conselho de Guerra, visando aferir a necessidade de novos melhoramentos. Em 1644, sob a égide do dito monarca procedeu-se a uma nova ampliação e modernização estrutural, seguindo o plano de um engenheiro francês desconhecido. Foi neste período que o monumento adquiriu a sua configuração actual, tendo sido colocada sobre o portal de entrada uma imagem em pedra calcária de São Miguel Arcanjo, acompanhada por uma legenda comemorativa, dizendo "ELREY DOM JOAM O 4º - 1644".
Em 1645, terá ocorrido uma visita régia de D. João IV, facto assinalado numa lápide na muralha da praça de armas. Anos mais tarde, em 1654, o monarca determinou o pagamento de oito mil cruzados a Manuel Gomes Pereira pelas despesas efectuadas nas obras. A governação do forte manteve-se na linhagem da família Pereira, com José António Pereira a assumir o cargo em 1681 e Luís Inácio Pereira em 1721. No ano de 1762, o forte mantinha-se operacional sob o comando do capitão Agostinho Coelho e do sargento-mor António Teive da Costa.
Invasões Francesas
O século XIX trouxe novos desafios militares à fortaleza. Durante a primeira invasão francesa em 1807, a guarnição original deslocou-se para a Praça-forte de Cascais, ficando o baluarte entregue à protecção da população local. Em Dezembro desse ano, um destacamento de 50 soldados das forças do general Junot, comandado por Miron, ocupou o forte, que se encontrava desguarnecido.
Este efectivo foi expulso pela população local em Junho do ano seguinte, tendo se destacado na ocasião um grupo de seis estudantes que, com a farda do Batalhão Académico de Coimbra, tentaram convencer os invasores que tinham recebido reforços. Indo a Cascais num batel, à procura de armamento, lograram repelir os reforços inimigos que, da Praça-forte de Peniche, acorriam em socorro da guarnição do forte. Posteriormente os invasores franceses retornaram à região, matando os seus habitantes e incendiando casas e embarcações nas povoações da Nazaré, de Pederneira e do Sítio, em represália.
O monumento tornou-se, assim, um símbolo da resistência e autonomia nazarenas, embora a expulsão definitiva das tropas napoleónicas do país apenas se tenha concretizado em 1811.
Guerra Civil
Posteriormente, o forte foi palco de confrontos no âmbito das Lutas Liberais entre os partidários de D. Pedro IV e D. Miguel. Em 1830, o rei D. Miguel visitou o Sítio e o forte, sendo acolhido em ambiente festivo. Em 1831, realizaram-se consertos na estrutura, incluindo a criação de uma nova calçada de acesso e de um novo altar para o padroeiro, tendo o forte sido reforçado com duas peças de calibre doze.
Em Agosto desse ano, realizou-se uma procissão solene de São Miguel, do Santuário até ao seu altar na fortaleza. No entanto, em 1833, as peças de artilharia foram novamente movidas para Peniche e a imagem de madeira policromada do Arcanjo foi transferida para o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré. Com a vitória liberal e o exílio de D. Miguel em 1834, a imagem de pedra sobre a porta sofreu actos de vandalismo por parte dos liberais, que a arremessaram das muralhas para o areal, onde permaneceu mutilada como testemunho desses conflitos fratricidas.
A partir de 1855 a sede do concelho foi transferida de Pederneira para Nazaré.
A actualidade
Extinta a sua utilidade militar no final do século XIX, a fortaleza chegou a ser propriedade privada de Gertrudes da Conceição Rodrigues no ano de 1900. Face às necessidades da actividade piscatória, o Estado procedeu à reaquisição do imóvel por expropriação em 1902, pelo valor de cento e vinte mil réis.
Em 1903 realizaram-se obras de consolidação para a instalação de um farol de auxílio à navegação. A 1 de Dezembro, este entrou em funcionamento, estando dotado de um aparelho óptico-catadióptrico de quinta ordem e candeeiro a petróleo de luz fixa vermelha.
A infra-estrutura técnica evoluiu ao longo do século XX: em 1926, a luz passou a ser branca; em 1952, instalou-se um sinal sonoro de ar comprimido; em 1953, procedeu-se à electrificação.
O forte foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1978 e, em 1980, o sinal de ar comprimido foi substituído por uma sereia. Foram-se registando trabalhos de restauro do monumento, em 1907 e 1941. O processo de automatização culminou em 1986 com a substituição do equipamento antigo.
Embora actualmente bem conservada, a estrutura encontra-se ameaçada de desabamento em virtude do avançado processo erosivo que a solapa pelo lado do mar.
Em 2012, o monumento foi aberto ao público de forma pontual para a observação das ondas gigantes da Praia do Norte, fenómeno associado ao desportista Garrett McNamara. Em 2013, o local serviu de base para a instalação de dispositivos de medição da ondulação marítima, num projecto desenvolvido por alunos da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Finalmente, em 2018, a estrutura foi convertida num núcleo museológico, consolidando a sua transição de praça de guerra a espaço cultural e de observação científica e turística.[2][3][4]
Características
Localização e contexto geográfico
O monumento encontra-se implantado numa zona isolada de natureza marítima, erguendo-se sobre as escarpas do designado Sítio da Nazaré. Esta povoação divide-se administrativamente entre o Sítio, a Praia e a Pederneira, estando a fortificação situada no limite ocidental do promontório, onde este se precipita sobre o oceano.
A estrutura ergue-se a uma altitude de quinze metros acima do nível das águas, encontrando-se cercada pelo mar nas direcções Norte, Oeste e Sul. Do lado setentrional, o baluarte confronta-se com a Praia do Norte, ao passo que a face meridional se orienta para a Praia da Nazaré.
Distanciada cerca de um quilómetro para Oeste do promontório, localiza-se a formação rochosa conhecida como Pedra do Guilhim. A implantação do edifício foi executada de forma a que a sua planimetria se ajustasse com rigor à topografia acidentada e irregular do terreno escarpado.
Arquitectura
A arquitectura militar deste exemplar seiscentista, em estilo maneirista, manifesta-se através de muralhas de grande espessura e uma planta longitudinal de contornos irregulares. O projecto defensivo apresenta uma configuração singular, assemelhando-se a uma estrutura truncada por possuir apenas metade dos baluartes habitualmente encontrados em fortificações abaluartadas da época.
Para o lado de terra, na face Este, existem dois meios baluartes com ângulos flanqueados agudos, orientados a Sudeste e Nordeste. Em oposição, as frentes voltadas ao mar assumem um traçado atenalhado, incluindo uma plataforma na face Oeste que é acessível através de uma pequena escadaria.
A envolvente é marcada por dois cordões de pedra que percorrem a totalidade da estrutura em planos sobrepostos, adaptando-se à inclinação das linhas que se estendem até ao precipício. O portal de entrada, definido por um arco de volta inteira, é encimado por uma edícula rectangular ornamentada com aletas e mísulas em voluta com decoração floral. Neste nicho, vislumbra-se uma representação em médio relevo de São Miguel Arcanjo, talhada em pedra calcária e apresentando sinais de erosão, sendo o conjunto acompanhado por um lintel onde se lê a inscrição: "ELREY DOM JOAM O 4º - 1644".
O interior do recinto organiza-se numa planta em forma de L, englobando oito dependências que serviam originalmente como aquartelamentos, Casa do Comando, corpo da guarda e armazéns. Ao transpor o portal, acede-se imediatamente a um compartimento abobadado que distribui a circulação: em frente situa-se a praça de armas, à esquerda um pequeno espaço com janela inserido no baluarte Sudeste e, à direita, o paiol correspondente ao interior do baluarte Nordeste.
O paiol constitui um amplo espaço com abóbada de berço em tijolo, cujas fiadas foram dispostas em espiral com peças talhadas em cunha, integrando ainda um respiradouro quadrangular para ventilação. A praça de armas não assume uma posição central, mas sim a função de terraço no segundo piso, estendendo-se entre os baluartes.
Na zona Norte, existem três espaços semi-rectangulares e abobadados com entradas em arco de volta inteira, dotados de aberturas que funcionariam como canhoneiras, rematadas com arcos de descarga. O acesso ao terraço e ao paiol é garantido por escadarias embutidas na estrutura murária, existindo ainda uma escada metálica em caracol que estabelece a ligação ao interior do farol. Em cada flanco interior dos baluartes, observam-se frestas direccionadas para a entrada principal.
Farol
Sobre a muralha de face Oeste, ergue-se o farolim contemporâneo, com lanterna pintada com pigmento avermelhado. Esta torre de sinalização possui uma altura de oito metros, situando-se o seu foco luminoso a uma altitude de 40 metros acima do plano do feixe (ou 50 metros em relação ao nível do mar).
O sistema de iluminação é composto por uma óptica de cristal de natureza omnidireccional fixa, que emite luz branca com um alcance de 14-15 milhas náuticas, e é completado por um sinal sonoro de aviso em dias de nevoeiro intenso. A instalação desta infra-estrutura exigiu a adaptação de uma das dependências interiores do forte, onde se localiza o acesso técnico à lanterna. [2][3][4]
A onda da Nazaré
O espaço interior foi reconvertido para acolher diversos núcleos expositivos relacionados com a célebre "onda da Nazaré":
- Centro Interpretativo do Canhão da Nazaré: Inaugurado a 30 de Maio de 2015, em parceria com o Instituto Hidrográfico, apresenta conteúdos sobre a geomorfologia do canhão submarino (incluindo uma maquete), a monitorização oceanográfica e o afundamento do submarino alemão U-963;
- Surfer Wall: Um projecto museológico estabelecido em 2016 que expõe as pranchas oferecidas pelos atletas de elite que desafiam as ondas da Praia do Norte, acompanhadas das respectivas biografias.[5][4]
Galeria
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Vista panorâmica -
Vista com neblina -
Portão de Armas e farol -
Epigrafia sobre o Portão de Armas -

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Farol -
Surfer Wall -
Vista aérea
Ver também
Referências
- ↑ a b Ficha na base de dados SIPA
- ↑ a b «PESQUISA GERAL». imovel.patrimoniocultural.gov.pt. Consultado em 27 de dezembro de 2025
- ↑ a b «Monumentos». www.monumentos.gov.pt (em inglês). Consultado em 27 de dezembro de 2025
- ↑ a b c «Forte S. Miguel». Nazaré Qualifica (em inglês). 13 de julho de 2023. Consultado em 27 de dezembro de 2025
- ↑ «Forte de S. Miguel Arcanjo». www.cm-nazare.pt. Consultado em 27 de dezembro de 2025
