Filme interativo
Um filme interativo é um videogame ou outra mídia interativa que possui características de um filme cinematográfico. Na indústria de videogames, o termo refere-se a um jogo que apresenta sua jogabilidade de maneira cinemática e roteirizada, frequentemente através do uso de full-motion video (vídeo em movimento completo, FMV) com filmagens animadas ou de ação ao vivo.
Na indústria cinematográfica, o termo "filme interativo" refere-se ao cinema interativo, um filme no qual um ou mais espectadores podem interagir e influenciar os eventos que se desenrolam na narrativa. Este gênero surgiu com a invenção dos laserdiscs e de seus reprodutores, os primeiros dispositivos de reprodução de vídeo não lineares ou de acesso aleatório.
História
Primeiros experimentos (1967–1974)
O primeiro exemplo documentado de cinema interativo foi o filme Kinoautomat, criado pelo cineasta tcheco Radúz Činčera e exibido na Expo 67 em Montreal em 1967.[1] Durante a projeção, um moderador ao vivo aparecia no palco em nove momentos diferentes para pedir que a audiência escolhesse entre duas cenas através de votação com botões. A cena escolhida era então exibida.[2]
Em 1974, a Nintendo lançou Wild Gunman, um jogo eletromecânico de arcade que usava projetores de filme de 16mm para exibir vídeo de ação ao vivo de pistoleiros do velho oeste que o jogador podia atirar e matar com uma pistola de luz.[3]
Era do Laserdisc (1983–1987)
O gênero ganhou força comercial com os jogos de laserdisc dos anos 1980. O primeiro grande jogo de arcade em laserdisc foi Astron Belt da Sega, um jogo de tiro espacial em terceira pessoa com vídeo FMV de ação ao vivo, desenvolvido em 1982 e apresentado no Amusement Machine Show em Tóquio em setembro de 1982.[4] Seu lançamento nos Estados Unidos foi adiado devido a problemas técnicos, permitindo que outros jogos chegassem primeiro ao mercado americano.
O jogo que popularizou o gênero nos Estados Unidos foi Dragon's Lair, desenvolvido pela Advanced Microcomputer Systems e publicado pela Cinematronics, com animação criada pelo ex-animador da Disney Don Bluth.[3] Lançado em junho de 1983, foi o primeiro jogo de laserdisc lançado nos EUA.[4] O jogo continha cenas animadas elaboradas e em certos pontos durante a reprodução, o jogador tinha que pressionar uma direção específica no joystick ou o botão para avançar para a próxima cena, num formato semelhante aos quick time events modernos.
A tecnologia dos laserdiscs permitia que os jogos apresentassem gráficos de qualidade cinematográfica muito superiores aos jogos baseados em sprites ou gráficos vetoriais da época. No entanto, essa qualidade gráfica tinha um custo elevado. Os aparelhos de laserdisc usados nos arcades eram projetados principalmente para reproduzir filmes de forma linear, e Dragon's Lair exigia que o laser pulasse entre diferentes sequências de vídeo a cada poucos segundos, o que causava desgaste significativo nos equipamentos e exigia manutenções e substituições frequentes.[3]
Apesar das limitações técnicas e da jogabilidade restrita, Dragon's Lair foi extremamente popular. O jogo custava 50 centavos de dólar para jogar, o dobro do preço padrão da época, mas as filas para jogar frequentemente se estendiam por todo o arcade.[3] O sucesso de Dragon's Lair gerou vários sequências e jogos similares, incluindo Space Ace (1983), também animado por Don Bluth.
Outros jogos notáveis da era incluíram Cliff Hanger (1983) da Stern, que usava filmagens dos filmes de anime Lupin III O Castelo de Cagliostro (dirigido por Hayao Miyazaki) e O Mistério de Mamo, ajudando a expor muitos americanos ao anime japonês antes que qualquer produção de Lupin ou Miyazaki tivesse sido oficialmente lançada nos Estados Unidos.[4]
A popularidade dos jogos de laserdisc atingiu o pico em 1983, mas declinou rapidamente em 1984. Os altos custos de produção, os problemas de confiabilidade dos aparelhos e a jogabilidade limitada contribuíram para o declínio do formato nos arcades.
Ressurgimento com CD-ROM (Anos 1990)
Com a chegada dos CD-ROMs em consoles domésticos como o Sega CD e em computadores pessoais, jogos com ação ao vivo e vídeo em movimento completo com atores foram considerados inovadores. Alguns jogos de aventura notáveis dessa era incluem Under a Killing Moon, The Pandora Directive (ambos parte da série Tex Murphy), The Beast Within: A Gabriel Knight Mystery, Phantasmagoria e The X-Files Game.
Em 1987, o jogo Night Trap, com vídeo em movimento completo, foi criado para o sistema de videogame Control-Vision da Hasbro, que usava fitas VHS. A American Laser Games produziu uma ampla variedade de jogos de pistola de luz em laserdisc com ação ao vivo, incluindo Mad Dog McCree, que se tornaram populares no final dos anos 1980 e início dos anos 1990.
Devido às limitações de memória e espaço em disco, bem como aos longos prazos e altos custos necessários para a produção, não foram filmadas muitas variações e cenas alternativas para os possíveis movimentos do jogador, então os jogos tendiam a não permitir muita liberdade e variedade de jogabilidade.
Jogos em DVD (Final dos anos 1990)
Um jogo em DVD (às vezes chamado de DVDi, "DVD interativo") é um jogo independente que pode ser jogado em um reprodutor de DVD convencional. O jogo aproveita a tecnologia integrada no formato DVD para criar um ambiente de jogo interativo compatível com a maioria dos reprodutores de DVD sem exigir hardware adicional.
A empresa Aftermath Media lançou os filmes interativos Tender Loving Care e Point of View (P.O.V) para a plataforma DVD. Tais jogos também apareceram em DVDs voltados para o público mais jovem, como os discos de recursos especiais da série de filmes Harry Potter.
Era moderna (2010–presente)
Jogos narrativos cinematográficos
A partir dos anos 2010, desenvolvedores começaram a usar gráficos computadorizados totalmente animados em vez de FMV de ação ao vivo. A Quantic Dream, estúdio francês fundado por David Cage, tornou-se conhecida por jogos narrativos cinemáticos como Heavy Rain (2010), Beyond: Two Souls (2013) e Detroit: Become Human (2018).[5]
Heavy Rain, lançado em 2010 para PlayStation 3, foi aclamado pela crítica e ganhou vários prêmios. O jogo apresenta quatro personagens jogáveis investigando um serial killer conhecido como Origami Killer, com escolhas do jogador levando a múltiplos finais diferentes.[6] David Cage define Heavy Rain como um filme interativo, combinando o potencial interativo dos videogames com a riqueza expressiva do cinema.
Detroit: Become Human (2018) é o jogo mais ambicioso da Quantic Dream, apresentando três personagens jogáveis androides em um futuro próximo onde robôs domésticos se tornaram comuns. Com milhares de escolhas e dezenas de finais, as decisões do jogador alteram drasticamente como a narrativa se desenrola.[5]
A Telltale Games também alcançou sucesso com jogos episódicos narrativos como The Walking Dead, onde as ações do jogador podem mudar drasticamente jogos futuros, com diferentes personagens vivos ou mortos dependendo das escolhas feitas pelo jogador.[6]
Streaming interativo
Em 2015, o grupo britânico Blast Theory estreou My One Demand, descrito como o primeiro filme interativo ao vivo do mundo. O filme foi transmitido ao vivo para o TIFF Lightbox em Toronto em três noites sucessivas, com o público no cinema usando telefones celulares para responder perguntas do narrador, e suas respostas eram incluídas na narração e nos créditos finais.
A Netflix começou a experimentar com obras interativas voltadas para crianças em 2016, incluindo uma versão animada de Gato de Botas e uma adaptação do jogo Minecraft: Story Mode da Telltale Games.[7]
O primeiro grande filme interativo da Netflix com cenas de ação ao vivo foi Black Mirror: Bandersnatch, lançado em dezembro de 2018. Escrito pelo criador da série Charlie Brooker e dirigido por David Slade, o filme apresenta múltiplas escolhas narrativas que levam a diferentes finais.[8] Na história ambientada em 1984, um jovem programador chamado Stefan adapta um romance de fantasia para um videogame, e o espectador toma decisões para o personagem principal.[9]
Bandersnatch tem mais de cinco horas de conteúdo gravado, mas o filme ao qual o espectador assiste, dependendo de suas escolhas, tem uma duração média de 90 minutos.[10] Segundo a Netflix, existem cinco finais principais, com variações dentro de cada um. O filme foi removido do catálogo da Netflix em maio de 2025 como parte de uma reformulação da interface da plataforma.[11]
Características
Tecnologia
Os filmes interativos baseados em laserdisc consistiam em um reprodutor de laserdisc conectado a um processador configurado com software de interface que atribuía uma função de pular para o capítulo a cada um dos botões do controle em cada ponto de decisão. Assim como um livro de Escolha sua própria aventura poderia dizer "Se você virar à esquerda, vá para a página 7. Se você virar à direita, vá para a página 8", o controlador para Dragon's Lair era programado para ir ao próximo capítulo da história bem-sucedida se o jogador ativasse o controle correto, ou ir ao capítulo da morte se ativasse o errado.
Avanços posteriores na tecnologia permitiram que filmes interativos sobrepusessem múltiplos campos de FMV em camadas, de maneira semelhante a como modelos poligonais e sprites são sobrepostos em fundos nos gráficos tradicionais de videogames.
Limitações
A popularidade dos jogos FMV declinou durante 1995, à medida que os gráficos 3D em tempo real ganharam atenção crescente. O custo também era um problema, já que vídeo de ação ao vivo com valores de produção decentes era caro para filmar, enquanto vídeo filmado com orçamento baixo prejudicava a imagem geral do jogo.
Embora não fosse uma questão tão crucial quanto a interatividade limitada, outro problema que atraiu críticas foi a qualidade do próprio vídeo. Embora o vídeo fosse frequentemente relativamente suave, não era realmente movimento completo, pois não tinha 24 quadros por segundo ou mais. Além disso, o hardware em que era exibido, particularmente no caso do Sega CD, tinha uma paleta de cores limitada, resultando em qualidade de imagem notavelmente inferior.
Crítica
Defensores do gênero argumentaram que, ao permitir que o jogador interaja com pessoas reais em vez de personagens animados, o vídeo interativo em movimento completo pode produzir reações emocionais e viscerais que não são possíveis com filmes ou videogames tradicionais.
Por outro lado, o designer de jogos Chris Crawford critica o conceito de filmes interativos em seu livro Chris Crawford on Game Design, escrevendo que, como o jogador deve processar o que é conhecido e explorar as opções, escolher um caminho em um ponto de ramificação é tão exigente quanto tomar uma decisão em um jogo convencional, mas com muito menos recompensa, já que o resultado só pode ser um de um pequeno número de ramificações.
Referências
- ↑ «Kinoautomat». Monoskop. Consultado em 28 de dezembro de 2024
- ↑ «Kinoautomat (1967)». Letterboxd. Consultado em 28 de dezembro de 2024
- ↑ a b c d «Gaming Landmarks 1960-1985 - Dragon's Lair (1983)». Technology UK. Consultado em 28 de dezembro de 2024
- ↑ a b c «Arcade Retrospective: The Tech That Nearly Killed the Arcade Industry!». Arcade Heroes. 3 de fevereiro de 2023. Consultado em 28 de dezembro de 2024
- ↑ a b «Quantic Dream - Official Site». Quantic Dream. Consultado em 28 de dezembro de 2024
- ↑ a b «18 Games Like Detroit: Become Human Where Your Choices Really Matter». GameSpot. 30 de junho de 2025. Consultado em 28 de dezembro de 2024
- ↑ «Netflix planeja novas histórias interativas após Black Mirror: Bandersnatch». AdoroCinema. 28 de dezembro de 2018. Consultado em 28 de dezembro de 2024
- ↑ «Black Mirror: Bandersnatch - Como funciona o filme interativo Netflix». Aficionados. Consultado em 28 de dezembro de 2024
- ↑ «Como ver conteúdo interativo na Netflix [Black Mirror: Bandersnatch]». Tecnoblog. 9 de março de 2023. Consultado em 28 de dezembro de 2024
- ↑ «NETFLIX. Black Mirror: Bandersnatch - Filme interativo tem cinco finais e duração pode variar por escolhas». AndroidGeek. 29 de dezembro de 2018. Consultado em 28 de dezembro de 2024
- ↑ «O episódio mais controverso de Black Mirror foi excluído da Netflix para sempre». AdoroCinema. 12 de maio de 2025. Consultado em 28 de dezembro de 2024
Ligações externas
- «FMV World - Laserdisc Arcade Games» (em inglês)
- «Black Mirror: Bandersnatch» (em inglês) na Netflix
- «Quantic Dream Official Site» (em inglês)