Fazenda Pau d'Alho (São José do Barreiro)

 Nota: Para a fazenda homônima em Campinas, veja Fazenda Pau d'Alho.
Fazenda Pau d'Alho
Apresentação
Tipo
Parte de
Vale do Paraíba Paulista (d)
Fundação
Estatuto patrimonial
Localização
Localização
Coordenadas

A Fazenda Pau d'Alho foi construída em 1818 município de São José do Barreiro, em São Paulo, para a produção de café, dando início às lavouras cafeeiras. É tombada como Patrimônio Histórico pelo IPHAN e CONDEPHAAT devido à sua importância para a história nacional.[1][2]

História

Sua origem remonta a 1792, quando João Ferreira Guimarães e seu filho Francisco Ferreira de Souza adquiriram as terras da Fazenda do Barreiro e outras terras próximas, que futuramente dariam origem à Fazenda Pau d'Alho.[3]

No início do século XIX, entre 1817 e 1819, quando o coronel João Ferreira de Sousa herdou as terras de seu pai, ele implementou. Foi um dos fundadores do povoado de São José do Barreiro e construiu a casa sede da fazenda por volta de 1818.[1]

Em 1822, o botânico, naturalista e viajante francês Auguste de Saint-Hilaire passa pela fazenda e comenta:[4]

"Cheguei ao rancho com muito forte dor de cabeça; outras tropas já haviam tomado lugar. O sol desferia raios na área que nos fora reservada, acabando por me incomodar seriamente. A fumaça dos fogos acesos pelas tropas, cegava-me, e vento me dispersava os papéis e eu me via obrigado a enxotar a cada momento cães, porcos e galinhas. Nunca senti tanto os inconvenientes dos ranchos."[4]

Em 1858, com o falecimento de João Ferreira de Sousa, a Fazenda Pau d'Alho é transferida para sua filha Maria Ferreira Ayrosa. À esta época, a fazenda já era bem próspera, em seu auge a ter em torno de trezentos escravos, uma plantação em torno de trezentos mil pés de café, produzindo mais de seis mil arrobas anuais. Contava também com um professor para os escravizados menores.[1][3]

Em 1822, D. Pedro I visitou a Fazenda no caminho a São Paulo dias antes da Independência.[2] Diz-se que ele então pediu comida à proprietária da casa, que o atendeu apesar de não ter reconhecido e pediu para que ele fizesse sua refeição sentado nos degraus ao lado de fora da cozinha, pois dentro da casa estavam preparando para a chegada do príncipe regente. Após tudo esclarecido, Dom Pedro I convidou o proprietário João e seu filho para acompanharem sua comitiva, fazendo parte da guarda de honra do imperador.[3][5] Porém com o passar dos anos, por volta de 1900, já em posse de seu neto, o comendador Zebedeu Antônio Ayrosa, ela já demonstrava os primeiros sinais de uma futura decadência.[1] Com a queda do café, a fazenda foi voltada para a pecuária leiteira e permaneceu entre os descendentes da família até a década de 1960, quando o Governo Federal a adquire para transformá-la no Museu Nacional do Café.[5]

Conjunto Arquitetônico

O conjunto arquitetônico da Fazenda Pau d’Alho foi implantado sobre uma sucessão de planos, que se acomodam gradativamente à encosta do terreno.[4] A casa sede da Fazenda Pau d’Alho, projeto do escritório de Ramos de Azevedo, foi construída em taipa de pilão com base de pedra e cercada por varanda em toda a sua fachada. Possuía alpendres de acesso à entrada principal da residência e capela, com portas e janelas no modelo guilhotina. Sua capela possui uma imagem de São Roque e um crucifixo, ambos tombados. É coberta por um telhado em quatro águas.[1][3] Possuía um alpendre que foi fechado.[4]

O terreiro era uma superficie plana pintada de branco para absorver e concentrar o calor do sol, para agilizar ao máximo a secagem dos grãos. As edificações e todas as suas aberturas eram voltadas para esse enorme vazio central no conjunto arquitetônico. Nesse espaço inóspito, alguns poucos escravizados revolviam os grãos de café que "se estendem sobre um cimento de brancura ofuscante cuja claridade, sob um céu escaldante, é insuportável e obriga logo a gente a descansar a vista em algum trato de verdura." Até por isso o casarão ficava um pouco afastado do terreiro e era separado dele por um jardim.[6]

A configuração espacial em quadros, tendo o casarão em posição de destaque, permitia uma fácil verificação das atividades no conjunto das edificações, [...] ampliada quando as atividades aconteciam em pátios fechados à frente do casarão. Assim, estavam em jogo, [...] tanto o controle da mão-de-obra escrava, subjugada pela possibilidade de castigos corporais e por uma legislação extremamente favorável ao fazendeiro, como o próprio controle do trabalho ali desenvolvido.[7]

Com relação às outras edificações que formam o conjunto arquitetônico da fazenda, impressiona a racionalidade do planejamento e conhecimento na implementação de técnicas para aproveitamento do espaço e dos recursos do terreno, como o uso da roda d’água, bateria de pilões, tulhas, depósitos, oficina, terreiro.[1][5] Este último dispõe de uma canaleta de pedra em sua face inferior, que conduz as águas para fora do terreiro (a partir de determinado ponto, via canal subterrâneo). O que configurava cuidado com a boa drenagem dessa superfície onde secavam os grãos que financiavam toda o funcionamento e mesmo a existência da fazenda.[4]

A água é muito importante nessas propriedades, já que é utilizada para movimentar as máquinas. Na Fazenda Pau d’Alho, o rego percorre um longo trajeto pelas bordas da encosta do terreno e, ao chegar ao conjunto arquitetônico, alinha-se às edificações. Primeiro alimenta a roda d'água via bicame. Depois coleta as águas servidas e, em seguida, alimenta a turbina de dois moinhos, cada qual em um plano abaixo do outro. "O suceder de quedas e as mudanças de nível determinam a posição e a cota dos edificios de beneficiamento e vinculam a sua disposição".[4]

A senzala, diferentemente de outros conjuntos arquitetônicos da época, localiza-se na posição mais elevada do terreno, em destaque. Como os escravos representavam um elevado investimento financeiro, recomendava-se que a senzala estivesse em lugar arejado e seco, isso explica a sua localização.[3] Na Fazenda Pau d'Alho os únicos remanescentes que remetem ao engenho são os muros que embasavam a roda d'água.[4] Possui duas edificações utilizadas pelos tropeiros para se abrigarem enquanto aguardavam para fazer o transporte do café até os portos localizados no litoral.[3]

No início do século XXI, a Fazenda Pau d’Alho passou a integrar de forma mais sistemática iniciativas de preservação e pesquisa histórica, tornando-se um importante campo de estudos sobre arquitetura rural, formação das elites cafeeiras e a dinâmica do trabalho escravizado no Vale do Paraíba. Projetos de universidades e do IPHAN passaram a utilizar o sítio como referência para o mapeamento de técnicas construtivas em taipa e para análises de paisagem cultural, permitindo reconstruir parte do cotidiano da produção cafeeira e das relações sociais que ali se desenvolveram. Além disso, a fazenda tem sido incluída em roteiros de turismo histórico e educativo, contribuindo para a valorização do patrimônio material e imaterial vinculado ao ciclo do café e ampliando o debate sobre memória, escravidão e preservação no Brasil.

Vista ampla da fazenda e dos morros que a circundam

Referências

  1. a b c d e f «São José do Barreiro - Fazenda Pau d'alho -ipatrimônio». Consultado em 11 de maio de 2021 
  2. a b «Fazenda que foi visitada por Dom Pedro dias antes da Independência é atingida por incêndio em SP». G1. 24 de setembro de 2024. Consultado em 23 de setembro de 2025 
  3. a b c d e f «Fazenda Pau d'Alho na charmosa cidade de São José do Barreiro». www.cidadeecultura.com. Consultado em 11 de maio de 2021 
  4. a b c d e f g Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
  5. a b c «Faz. Pau D´alho - Serra da Bocaina, São José do Barreiro-SP». Barreiro Turismo. Consultado em 11 de maio de 2021 
  6. Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
  7. Benincasa, Vladimir (2007). «Fazendas paulistas: arquitetura rural no ciclo cafeeiro» (PDF). Consultado em 4 de novembro de 2025