Falcão-preto

Falcão-preto

Estado de conservação
Espécie pouco preocupante
Pouco preocupante (IUCN 3.1) [1]
Classificação científica
Domínio: Eukaryota
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Falconiformes
Família: Falconidae
Género: Falco
Espécie: F. subniger
Nome binomial
Falco subniger
Gray, 1843
Distribuição geográfica

O falcão-preto (Falco subniger) é um falcão de tamanho médio a grande, endêmico da Austrália. Pode ser encontrado em todos os estados e territórios do continente, mas é considerado o falcão menos estudado do país.[2]

Descrição

As informações desta seção baseiam-se em descrições recentes de diversos autores (notadamente Debus & Davies 2012, Debus & Olsen 2011, Morcombe 2002 e Birds in Backyards s.d.).[2][3][4][5]

  • Tamanho (adulto, do bico à cauda): 45–56 cm (média de 50 cm), com a cauda representando cerca da metade do comprimento. As fêmeas são maiores que os machos, uma forma de dimorfismo sexual.
  • Peso médio: 833 g (fêmea), 582 g (macho).
  • Envergadura: 95–115 cm.

A coloração é uniformemente marrom-escura a preto-fuliginoso; os filhotes são geralmente mais escuros que os adultos; as penas sob as asas apresentam dois tons (as penas de voo são ligeiramente mais claras); os adultos podem exibir uma faixa escura evidente abaixo do olho. Ocasionalmente, as aves podem ter queixo branco, manchas nas penas cobertoras sob as asas ou barras nas cobertoras sob a cauda. O anel ocular e os pés são cinza-claros (ou azul-cinza claro); os olhos são marrom-escuros e a ponta do bico é preta. As garras são pretas. O filhote possui penugem branca.

O corpo do falcão é aerodinâmico, com cauda relativamente longa e estrutura esguia. As asas são longas e pontiagudas, afilando-se em direção às extremidades.

Notas sobre identificação

Ao tentar identificar um rapinante em voo, Debus & Davies[3] recomendam focar na silhueta da ave (incluindo a forma das asas e proporções), estilo de voo e vocalizações, em vez de detalhes da coloração.

Os falcões australianos diferem dos gaviões por sua mandíbula superior dentada (com uma correspondente incisura na mandíbula inferior) e por suas asas longas e pontiagudas.[3]

O falcão-marrom [en] (Falco berigora) é uma espécie comum e amplamente distribuída na Austrália, sendo a mais propensa a ser confundida com o falcão-preto (especialmente filhotes e morfos escuros do falcão-marrom).[4] De fato, Debus & Olsen[2] sugerem que muitas observações e comportamentos atribuídos ao falcão-preto foram, na verdade, do falcão-marrom devido a identificação incorreta. As duas espécies diferem no comprimento relativo dos tarsos expostos (a metade inferior visível da perna) em relação às penas da coxa, no estilo de voo, na postura das asas e nas barras marcadas sob as asas e cauda (presentes apenas no falcão-marrom).[5][6][7]

Taxonomia

O falcão-preto pertence à família Falconidae, assim como as outras três espécies de falcões encontradas na Austrália: o falcão-marrom, o falcão-cinzento [en] (Falco hypoleucos) e o falcão-peregrino (F. peregrinus).

Análises genéticas indicam que o falcão-preto pode ser um ramo antigo do subgênero hierofalco do Velho Mundo, como o falcão-sacre (F. cherrug) e o falcão-caçador [en] (F. jugger).[8]

População e status de ameaça

O falcão-preto é classificado pela IUCN como espécie pouco preocupante.[1] É geralmente considerado escasso, incomum e nômade,[4][7] mas possui pelo menos um reduto no interior de Queensland.[6] Está listado como espécie vulnerável em Nova Gales do Sul e Victoria.[3][9]

Em 2009, a BirdLife International estimou a população do falcão-preto entre 670 e 6700 indivíduos maduros, com uma tendência populacional estável.[10]

Distribuição e habitat

Mapa de distribuição mostrando registros do falcão-preto.

O falcão-preto está amplamente distribuído pelo continente australiano, exceto em áreas de florestas densas. É raramente visto no interior sul da Austrália Ocidental e é escasso nas áreas costeiras do sudeste da Austrália.[3][4] A BirdLife International também registra avistamentos ocasionais de indivíduos não reprodutores na Nova Zelândia.[10]

A área total de distribuição foi estimada em 5.910.000 km².[10]

O habitat do falcão-preto é geralmente nas zonas áridas e semiáridas, frequentemente perto de cursos d’água ou em áreas com árvores isoladas. Ele caça em pastagens arborizadas abertas, planícies de Maireana e outras vegetações baixas. Em áreas áridas, costuma caçar sobre pântanos ou próximo a corpos d’água artificiais ou temporários, locais que atraem maior abundância de aves.[4][7]

Comportamento e ecologia

O falcão-preto é conhecido por assediar e ser assediado por outras espécies de aves, incluindo rapinantes e corvídeos. Pode ser encontrado descansando em postes de energia durante o dia, mas não pousa em fios.[3][11]

Voo e estilo de caça

Falcão-preto em voo

O voo do falcão é descrito como variável. Geralmente, voa com batidas de asas relaxadas, semelhantes às de um corvo, com períodos ocasionais de planar. Também utiliza batidas de asas mais rígidas e curtas. Plana e sobe com asas ligeiramente caídas ou, às vezes, horizontais, com os carpos voltados para a frente (asas esticadas durante o planar). A cauda é normalmente fechada (exceto ao planar, quando se abre com cantos entalhados). Frequentemente plana por longos períodos sem bater as asas e captura presas no ar ou no solo. Em perseguição, usa batidas de asas rápidas e poderosas. Em repouso, as pontas das asas são mais curtas que a cauda, e as pernas parecem curtas.[3][4]

A espécie geralmente caça sozinha, mas também foi observada caçando em pares ou, ocasionalmente, em grupos maiores quando há presas abundantes (especificamente em queimadas de restolho que geram fontes ricas de presas).[6] Doze indivíduos foram vistos em uma dessas queimadas perto de Gundagai, Nova Gales do Sul.[6]

É comum observá-lo caçando ao longo do contorno das copas das árvores, surpreendendo e capturando aves em voo. Às vezes, persegue outras aves por longas distâncias e, menos frequentemente, realiza um mergulho vertical semelhante ao do falcão-peregrino.[12] A espécie preda e, por vezes, é predada por outros rapinantes.[13]

Dieta

A dieta do falcão-preto consiste principalmente de espécies de aves, desde aves pequenas da família Fringillidae, até aves maiores como as cacatuas, mas também foi observado alimentando-se de pequenos mamíferos (como coelhos, camundongos e ratos), insetos e carniça.[2][6] As presas aviárias incluem:

  • petinha-australiana [en] (Anthus australis)
  • lagarteiro-de-cara-preta [en] (Coracina novaehollandiae)
  • galah (Eolophus roseicapillus)
  • marreca-cinzenta [en] (Anas gracilis)
  • cotovia-australasiática [en] (Mirafra javanica)

Debus & Zuccon também observaram o falcão-preto caçando o periquito-turquesa [en] (Neophema pulchella) e o corvino-apóstolo [en] (Struthidea cinerea), mas nesses casos os ataques não tiveram sucesso.[6]

Reprodução

O período de postura é entre maio e novembro (geralmente julho a setembro). O tamanho da ninhada varia entre 1 a 5 ovos (normalmente 3 ou 4). O tamanho do ovo é de 42x32 mm. O período de incubação dura cerca de 34 dias (pela fêmea, possivelmente pelo macho por curtos períodos). O período em que o filhote permanece no ninho varia entre 5,5 a 7 semanas. A expectativa de vida é de pelo menos 12 anos na natureza e 20 anos em cativeiro.[3][4][6]

O falcão-preto nidifica em árvores vivas ou mortas, usando ninhos de gravetos de corvídeos ou outros rapinantes.[3] Pode tomar ninhos ocupados por outras aves.[4] Parece haver competição interespecífica por locais de nidificação entre o falcão-preto e outros rapinantes e corvídeos.[14] Os locais de nidificação podem ser um fator limitante para o falcão-preto, especialmente onde houve desmatamento em larga escala, como no Cinturão Trigo-Ovelha de Nova Gales do Sul.[2]

Durante a temporada de reprodução, os machos realizam exibições de cortejo, como voos em forma de oito horizontal ao redor do ninho.[3] O macho leva alimento à fêmea durante a incubação e criação. Na fase final do período de filhotes, ambos os sexos podem caçar para alimentar os jovens.[5][14]

O comportamento pós-emplumamento e o desenvolvimento dos jovens são muito semelhantes aos do falcão-peregrino, incluindo passar tempo com irmãos e pais, praticar caça, comportamentos territoriais e de cortejo.[15]

Vocalizações

O chamado mais comum é semelhante ao "cacarejo" do falcão-peregrino, mas mais lento e grave – gaak-gaar-gaak. O chamado gutural é mais curto e rápido quando atacado ou com intrusos por perto – gak-gak-gak-gak.[4][6] Alguns autores sugerem que a ave grita ao atacar presas, mas essa atribuição pode resultar de confusões com o falcão-marrom, com outros contestando que ela é geralmente silenciosa durante o ataque.[2] O macho emite um som agudo, como eeik..eeik..eeik ou ee-chip…ee-chip durante exibições de cortejo, e a fêmea tem um gemido ou lamento ao pedir comida ou copular.[6]

Área de vida e dispersão

A área de vida da espécie é indeterminada, mas provavelmente superior a 100 km².[9] A espécie parece ter ampla movimentação na estação não reprodutiva, mas também é conhecida por permanecer em territórios regulares fora da reprodução por longos períodos.[2]

Ameaças e manejo

O declínio no número de falcões-pretos é uma preocupação crescente, com dois estados (Victoria e Nova Gales do Sul) já listando a espécie como vulnerável. Vários autores apontam que os dados populacionais e ecológicos sobre a espécie são insuficientes, e abordar essa questão deve ser uma prioridade para gestores no futuro.[6]

As principais ameaças à espécie são todas antropogênicas, incluindo desmatamento, degradação de habitat por pastagem excessiva, colisão com veículos e abate por tiro. A remoção de árvores grandes e antigas e locais de nidificação em áreas ribeirinhas é especialmente preocupante.[2][6][9][16]

A espécie também enfrenta competição com corvídeos e outros rapinantes por locais de nidificação e, possivelmente, presas. A perturbação dos ninhos e o assédio por outras aves (incluindo cacatuas) também parecem impactar o sucesso reprodutivo do falcão.[14]

Recomendações para manejo contínuo incluem monitoramento das populações e mais pesquisas sobre sua biologia e ecologia.[2][3] O Escritório de Meio Ambiente e Patrimônio de Nova Gales do Sul identificou oito ações prioritárias para ajudar na recuperação da espécie, como: proteger e monitorar ninhos conhecidos; preservar ninhos de gravetos antigos adequados para reprodução; proteger e restaurar árvores grandes e antigas; envolver proprietários rurais no manejo do habitat; expandir o habitat (especialmente em áreas ribeirinhas); pesquisar requisitos alimentares e aumentar a conscientização.[17] Victoria não parece ter um plano de recuperação para o falcão-preto.

Referências

  1. a b BirdLife International (2016). «Falco subniger». Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. 2016: e.T22696484A93567053. doi:10.2305/IUCN.UK.2016-3.RLTS.T22696484A93567053.enAcessível livremente. Consultado em 11 de novembro de 2021 
  2. a b c d e f g h i Debus, S.J.S. & Olsen, J. (2011). Some aspects of the biology of the Black Falcon Falco subniger. Corella 35: 29-36
  3. a b c d e f g h i j k Debus, S.J. S & Davies, J. (2012). Birds of prey of Australia: a field guide (2nd ed). CSIRO Publishing, Collingwood, Vic
  4. a b c d e f g h i Morcombe, M. (2002). Field guide to Australian birds. Steve Parish Publishing, Archerfield, Qld
  5. a b c Birds in Backyards (s.d.). Black Falcon. Consultado em 19 de outubro de 2013 http://www.birdsinbackyards.net/species/Falco-subniger Arquivado em 2019-10-16 no Wayback Machine
  6. a b c d e f g h i j k Debus, S.J.S & Zuccon, A.E. (2013). Observations on hunting and breeding behaviour of the Black Falcon (Falco subniger). Sunbird 43(1): 12-26
  7. a b c Morris, F.T. (1976). Birds of prey of Australia: A field guide. Lansdowne Editions, Melbourne, Vic
  8. Wink, M.; Sauer-Gürth, H.; Ellis, D. & Kenward, R. (2004). Phylogenetic relationships in the Hierofalco complex (Saker-, Gyr-, Lanner-, Laggar Falcon). In: Chancellor, R.D. & Meyburg, B.-U. (eds.): Raptors Worldwide: 499-504. WWGBP, Berlin
  9. a b c NSW Government Office of Environment and Heritage (2013). Black Falcon - profile. Consultado em 20 de outubro de 2013 http://www.environment.nsw.gov.au/threatenedSpeciesApp/profile.aspx?id=20269
  10. a b c BirdLife International (2013). Species factsheet: Falco subniger. Consultado em 17 de outubro de 2013 http://www.birdlife.org/datazone/speciesfactsheet.php?id=3616&m=1
  11. BirdLife Australia (2012). Black Falcon. Consultado em 23 de outubro de 2013 - http://www.birdlife.org.au/bird-profile/black-falcon
  12. Debus, S.J.S & Tsang, L.R. (2011). Notes on Black Falcons Falco subniger breeding near Tamworth, New South Wales. Australian Field Ornithology 28: 13-26
  13. Olsen, J.; Rose, A.B. & Boles, W.E. (2011). Black Falcon taken by Peregrine Falcon. Australian Field Ornithology 28: 133-135
  14. a b c Debus, S.J.S. & Tsang, L.R. (2011). Notes on Black Falcons Falco subniger breeding near Tamworth, New South Wales. Australian Field Ornithology 28: 13-26
  15. Barnes, C.P. & Debus, S.J.S. (2012). A snapshot in the post-fledging period of the Black Falcon. Australian Field Ornithology 29: 86–88
  16. NSW Scientific Committee (2013). NSW Scientific Committee: Final determination. [Black Falcon]. Consultado em 21 de outubro de 2013 - http://www.environment.nsw.gov.au/resources/threatenedspecies/BlackFalcVSFD.pdf
  17. NSW Government Office of the Environment and Heritage (s.d.). Priority actions by type of threatened species: Black Falcon. Consultado em 24 de outubro de 2013 - http://www.environment.nsw.gov.au/threatenedSpeciesApp/PasSearchSpecies.aspx?speciesName=Black+Falcon&generalType=Birds

Ligações externas