Estelinha Epstein
| Estelinha Epstein | |
|---|---|
![]() Estelinha Epstein, em 1933 | |
| Informações gerais | |
| Nome completo | Estelinha Sima Epstein |
| Nascimento | 25 de fevereiro de 1914 Campinas, SP, Estados Unidos do Brasil |
| Morte | 08 de julho de 1980 (66 anos). Águas de São Pedro, SP, República Federativa do Brasil |
| Nacionalidade | |
| Progenitores | Mãe: Annita Epstein |
| Cônjuge | Bertholdo Martin Hein[1] |
| Instrumento(s) | Piano |
| Período em atividade | 1922-1980 |
| Gravadora(s) | |
Estelinha Sima Epstein (Campinas, 25 de fevereiro de 1914 - Águas de São Pedro, 08 de Julho de 1980), mais conhecida simplesmente como Estelinha Epstein, foi uma pianista brasileira de habilidade notável, reconhecida desde muito jovem por sua destacada vocação para a música, particularmente para o piano. Dentre suas diversas realizações como artista e professora de piano, é também conhecida por ter sido a primeira instrumentista no mundo a gravar o ciclo completo das 12 Cirandinhas de Heitor Villa-Lobos[2][3][4][5]
Ao longo de sua carreira, também tocou para outros grandes pianistas como Brailowsky, Borowsky, Moiseiwitsch, Antonietta Rudge, e Guiomar Novaes, recebendo muitos elogios destes importantes artistas. Tocou sob a regência dos maestros Francisco Braga, Eleazar de Carvalho, Souza Lima, Armando Belardi, Eduardo Guarnieri, Francisco Chiaffitelli, Bernardo Federovski e Jorge Salim Filho.[6][7]
Biografia
Filha de D. Annita Epstein, nasceu em Campinas, no dia 25 de fevereiro de 1914. Desde a mais tenra idade, acompanhava seus pais a óperas e concertos. Certa vez, foi com seus pais assistir a uma apresentação da Companhia de Operetas de Clara Vals, e ficou encantada a tal ponto que, no dia seguinte, foi à casa de uma de suas vizinhas, onde havia um piano, tendo reproduzido as músicas que escutara na noite anterior.[6][2]
Algum tempo depois, seu pai comprou um piano para sua mãe, que se esforçava para aprender a tocar o instrumento. Estelinha começou a tocá-lo sozinha acompanhando as lições de sua mãe, demonstrando um talento extraordinário.[6][2]
Vendo que as lições de que dispunha, por simples que lhe pareciam, não lhe eram suficientes para aperfeiçoar suas habilidades, pediu aos pais que lhe encaminhassem a um professor de piano.[2]
Seu tio, o professor russo José Kliass, havia chegado da Europa, radicando-se em São Paulo após a 1ª Guerra Mundial. Cinco dias após sua chegada no Brasil, Estelinha tornou-se sua primeira aluna. Algum tempo após ter iniciado as aulas o tio, convidou suas primas Yara Bernette e Anna Stella Schic, além de outros amigos, para se tornarem alunos também, dando início à grande escola de Kliass no Brasil.[2][6]
Primeiras apresentações
Realizou sua primeira apresentação pública em 12 de maio de 1922, no Clube Semanal de Cultura Artística de Campinas, com 08 anos de idade. No ano seguinte, também tocou em recitais em sua cidade natal.[6]
Em 1924, aos 10 anos de idade, Estelinha já era considerada uma virtuose no piano, a tal ponto que, naquele mesmo ano, ela se apresentou como solista, tocando o Concerto para piano n.º 23, de Mozart, no Theatro Municipal de São Paulo, pouco mais de uma década da inauguração deste.[6]

Em 1925, fez uma apresentação no Salão de Instituto Nacional de Música, no Rio de Janeiro, acompanhada do professor Kliass, que também organizou o evento. Juntos, tocaram composições de Bach, Mozart, Hummel, Chopin, Granados, Villa-Lobos, Mussorgsky, Lyadov e Martucci. Foi exaltada pela crítica por seu virtuosismo, sua fidelidade de memória, o emprego perfeito dos pedais e o temperamento artístico de um nível acima da média dos intérpretes.[2]
Em 1926, foi novamente solista tocando o Concerto n.º 23 de Mozart, dessa vez no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e acompanhada por orquestra sob regência de Francisco Braga. Um mais tarde, retornou ao mesmo teatro para tocar o Concerto n.º 01, de Mendelssohn, novamente como solista e sob regência do mesmo maestro Braga.[2]
Na Europa

Em 1927, quando contava treze anos, Estelinha foi contemplada com o Pensionato Artístico do Estado de São Paulo, uma espécie de bolsa de estudos para artistas do Governo Paulista, para que se aperfeiçoasse em escolas da Europa.[2]
Embarcando no transatlântico alemão Cap Polonio, em companhia de sua família, seguiu para a Alemanha, passando por Paris. Na Alemanha, o presidente Washington Luís decidiu reconhecer novamente seu talento, dessa vez lhe presenteando com um piano, o Bechstein B130621.[2]
Na capital da alemã, conhece Artur Schnabel, considerado o maior interprete de Beethoven da primeira metade do século XX. O pianista alemão não apenas aceitou tomar Estelinha como aluna, como também tomou providências para que ela se apresentasse na cidade, que veio a ser no Salão Bechstein, o mesmo famoso salão que viria a ser totalmente destruído por um ataque aéreo realizado em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial.[8]
Em seguida, abriram-se outras oportunidades para que Estelinha se apresentasse.Ela tocou não apenas em outros espaços na Alemanha, como também também no Salão Pleyel, na França, e também na Itália, tendo recebendo excelentes críticas.[2]

Em 1933, ano que marcou a ascensão do nazismo, Estelinha já era nome consagrado na Europa, o que inicialmente viabilizou a continuidade de suas apresentações na Alemanha. No entanto, devido a sua origem judia, chegou um momento em que ela passou a sofrer restrições, o que a obrigou a cancelar importantes apresentações programadas. Segundo notícias da época, Estelinha só escapou da prisão a graças à intervenção do embaixador do Brasil na Alemanha, que providenciou seu retorno ao Brasil.[2]
Retorno ao Brasil
Retornando ao Brasil, em 1933, Estelinha iniciou uma série de apresentações. Em 1933, apresentou-se no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e no Theatro Municipal de São Paulo, tocando composições de J. S. Bach, Beethoven, Chopin, além da Sonata de Liszt. Estelinha se apresentou na sua cidade natal, Campinas, e também na cidade de Piracicaba.[2]

Ao longo de sua carreira, Estelinha chegou a tocar em quase todos os estados do Brasil. Tocou em cidades dos estados do Maranhão, do Piauí, do Ceará, de Pernambuco, da Bahia, do Espírito Santo e de Minas Gerais. e nestes estados realizou muitos concertos beneficentes, por iniciativa própria, para ajudar orfanatos, hospital de crianças, asilos e entidades locais. Percorreu também os estados do Sul.[2]
Quando voltou de uma de suas turnês ao norte do país, disse ter ficado encantada com a variedade cultural e com as pessoas que cruzaram seu caminho. Chegou a se referir ao norte e nordeste como seu "verdadeiro país". Certa vez, disse que o nordeste "[sendo ] tão longe da metrópole, a hospitalidade e a índole do povo conservam mais puro, o caráter de brasilidade".[2]
Em meados de 1942, embora não tenha sido nem uma nem outra a vencedora do concurso de piano "Columbia Concerts Award for Young Brazilian Pianists", realizado na Escola de Música da UFRJ, Estelinha e sua prima Anna Stella Schic conseguiram ser finalistas na disputa. O concurso, no qual concorreram diversos pianistas brasileiros, tinha em sua comissão julgadora pianistas, compositores, regentes e críticos musicais, dentre eles Guiomar Novaes, Radamés Gnattali e Eduardo Guarnieri. Ao final, o ganhador foi Arnaldo Estrella.[9][10]

Novas turnês na Europa e no Brasil
Posteriormente, ela continuou a realizar turnês internacionais e locais. Em 1947, realizou nova turnê na Europa, oportunidade em que conheceu a desenhista Lucy Citti Ferreira.[11]
Em 1950, quando estava realizando apresentações em Haia, conheceu o pianista Edwin Fischer, que ficava ouvindo Estelinha estudar ao piano uma página de Mozart, sem que esta percebesse sua sua presença.Mais tarde, ela afirmou que receber elogios de Fischer foi uma das maiores emoções de sua vida.[2]
Em 1972, em celebração de seus 50 anos de carreira artística, Estelinha se apresentou no no Clube Semanal de Cultura Artística de Campinas, o mesmo onde se apresentara pela primeira vez, aos 08 anos de idade, em 12 de maio de 1922.
Em 1979, Estelinha realiuzou um concerto na Sala I do Teatro Municipal de Piracicaba. Essa foi provavelmente a última apresentação realizada pela artista.
Morte e doação de pertences para museus
Faleceu em 08 de julho de 1980, em Águas de São Pedro, cidade do interior paulista onde tinha um estúdio.[2]
Pouco depois da morte de sua esposa, o viúvo Bertholdo Martin Hein doou ao Museu Campos Sales várias peças que pertenciam à sua esposa. Não se tem informação da data do casamento de Estelinha e Bertholdo, embora este seja mencionado e notícias da época do falecimento da pianista.[1]
Entre as peças recebidas está o piano Bechstein meia cauda de 88 teclas, que Estelinha recebera de presente do ex-presidente Washington Luís, além da banqueta do piano. Também foram doados pelo viúvo um metrônomo, estantes, fotografias, retratos a lápis e óleo, fotografias de vários artistas, pinturas, desenhos, medalhas, placas comemorativas, troféus, correspondências, livros e partituras musicais.[1]
Discografia
Álbuns de estúdio
- "Estelinha Epstein", 1958, São Paulo, RGE (XRLP 100003)[12]
- "Estelinha Epstein", 1965, Rio de Janeiro, Copacabana (CLP 11432). Reedição do álbum de 1958[12]
- "Villa Lobos, 12 Cirandinhas", 1968, São Paulo Chantecler (CMG-1045)[13]
Compilações
- Estelinha Epstein, 2000, São Paulo, Master Class (MC-019), da série "Grandes Pianistas Brasileiros"[14]
Prêmios e homenagens
- Medalha Euclides da Cunha[2]
- Medalha José Vieira Couto de Magalhães[2]
- Medalha Dom João VI[2]
- Medalha Anchieta (1970)[2]
- Recebeu uma homenagem da Câmara Municipal de São Paulo[2]
Ligações Externas
É possível escutar os álbuns de Estelinha Epstein no canal do Instituto Piano Brasileiro no YouTube:
- Clique aqui para escutar a reedição de 1965 do primeiro álbum, "Estelinha Epstein" (1958)
- Clique aqui para escutar o segundo e último álbum, "Villa Lobos - 12 Cirandinhas" (1968)
Referências
- ↑ a b c «Um museu dinâmico: meta do diretor do Campos Salles» (PDF). Campinas. Diário do Povo. 29 de agosto de 1984. Consultado em 19 de dezembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u POZZANI, Márcia. «Estelinha Epstein». Instituto Piano Brasileiro. Consultado em 15 de dezembro de 2025
- ↑ «Catálogo de Discos - Estelinha Epstein». Instituto Piano Brasileiro. Consultado em 15 de dezembro de 2025
- ↑ GUIMARÃES, Maria Inês (2008). «Estelinha Epstein». Revista Brasil-Europa (116). ISSN 1866-203X. Consultado em 26 de dezembro de 2025
- ↑ «Estelinha Epstein». Classical Pianists (em inglês). 21 de junho de 2025. Consultado em 26 de dezembro de 2025
- ↑ a b c d e f VILLAGELIN, Arthur Nazareno Pereira (1980). «Rua Estelinha Epstein» (PDF). Centro de Memória Unicamp. Consultado em 19 de dezembro de 2025
- ↑ COSTA, Rubem (13 de março de 2019). «Estelinha Epstein e a biografia que não foi escrita». Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas (IHGG-Campinas). Consultado em 26 de dezembro de 2025
- ↑ «Bechstein-Tradition: 1890-1900». C. Bechstein (em inglês). Consultado em 26 de dezembro de 2025
- ↑ FURTADO, Celso (4 de julho de 1942). «Onde a Voz do Povo não é a Voz de Deus». Revista da Semana (Ano XLIII) (27): 20-21. Consultado em 26 de dezembro de 2025
- ↑ «Pianists' Award Won by Arnaldo Estrella: Rio de Janeiro Artist Gets the Columbia Prize for Brazilians». The New York Times (em inglês): 12. 14 de agosto de 1942. Consultado em 26 de dezembro de 2025
- ↑ LIMA, Nerian Teixeira de Macedo de (4 de setembro de 2025). «Lucy Citti Ferreira (1911-2008) peintre-musicienne». Sociétés & représentations (em francês) (59): 267–286. ISSN 1262-2966. doi:10.4000/14lkv. Consultado em 20 de dezembro de 2025
- ↑ a b Estelinha Epstein - Estelinha Epstein (em inglês), 1965, consultado em 26 de dezembro de 2025
- ↑ «Catálogo de Discos - Estelinha Epstein». Instituto Piano Brasileiro. Consultado em 15 de dezembro de 2025
- ↑ Estelinha Epstein - Grandes Pianistas Brasileiros (em inglês), 2000, consultado em 26 de dezembro de 2025
