Erotismo de tentáculos

O Sonho da Esposa do Pescador (1814), de Hokusai, retrata uma mulher fazendo sexo com dois polvos.

Erotismo de tentáculos (japonês: 触手責め, Hepburn: shokushu zeme; lit. "ataque de tentáculo") é um tipo de pornografia, mais comum no Japão, que integra pornografia tradicional com elementos de zoofilia, fantasia, terror e ficção científica. Aparece em alguns títulos de terror erótico ou Hentai, com criaturas tentaculares (geralmente monstros fictícios) tendo relações sexuais, predominantemente com mulheres e, em menor grau, com homens. O erotismo de tentáculos pode ser consensual, mas na maior parte contém elementos de Estupro.

O gênero é suficientemente conhecido no Japão a ponto de ser alvo de paródias. No século XXI, filmes japoneses desse gênero passaram a ser reconhecidos nos Estados Unidos e na Europa, embora permaneça uma parte pequena e fetichista da indústria de filmes adultos. Embora a maior parte do erotismo de tentáculos seja animado, também existem alguns filmes de live-action que o retratam.

História

Os primeiros exemplos de erotismo de tentáculos foram xilogravuras que retratavam mulheres sendo violadas por polvos, como Programme of Erotic Noh Plays (1781), de Kitao Shigemasa, e Lust of Many Women on One Thousand Nights (1786), de Shunshō Katsukawa.[1]

Outro caso precoce é uma ilustração do livro de 1814 de Hokusai, Kinoe no Komatsu, conhecida como O Sonho da Esposa do Pescador. É um exemplo de Shunga (arte erótica japonesa em xilogravura) e foi retrabalhada por vários artistas,[2] como Masami Teraoka, que atualizou a imagem com sua obra de 2001 "Sarah and Octopus/Seventh Heaven", parte de sua coleção Waves and Plagues.

Tamatori rouba a joia do Rei Dragão; xilogravura de Utagawa Kuniyoshi.

Enquanto públicos ocidentais, em muitos casos, interpretam o famoso desenho de Hokusai como estupro, o público japonês do Período Edo o veria como consensual, reconhecendo a gravura como uma representação da lenda da mergulhadora de abalone Tamatori.[3] Na história, Tamatori rouba uma joia do Rei Dragão. Durante sua fuga, o Rei Dragão e seus súditos marinhos (incluindo polvos) a perseguem. Os diálogos na ilustração mostram a mergulhadora e dois polvos expressando prazer mútuo.

A censura contemporânea no Japão remonta ao Período Meiji. A influência da cultura vitoriana europeia foi um catalisador para o interesse legislativo nas práticas sexuais públicas. Após a Segunda Guerra Mundial, os Aliados impuseram uma série de reformas ao governo japonês, incluindo leis de censura. As proibições legais contra a pornografia, portanto, derivam do código penal do país. Atualmente, a "obscenidade" ainda é proibida. Contudo, a forma como o termo é interpretado não permaneceu constante. Enquanto genitais expostos (e, até recentemente, pelos pubianos) são ilegais, a diversidade de atos sexuais permitidos agora é relativamente ampla, em comparação com outras democracias liberais.

Líderes dentro da indústria de porno de tentáculos afirmaram que muito do seu trabalho foi inicialmente direcionado a contornar essa política. Segundo o mangaká Toshio Maeda:

Cultura

Animação

A forma animada mais antiga de erotismo de tentáculos apareceu no OVA de 1985 Dream Hunter Rem, embora a cena em questão tenha sido suprimida quando o OVA foi relançado numa versão com cenas sexuais removidas. O primeiro anime puramente não erótico que retratou um ataque tentacular seria o OVA de 1986 Guyver: Out of Control, em que uma soldado de Chronos chamada Valcuria é envolvida pela segunda unidade (danificada) de Guyver, que a circunda em forma de tentáculos e a agride.

Numerosos filmes animados de erotismo de tentáculos se seguiram nas duas décadas seguintes. Títulos populares como Urotsukidoji (1986), La Blue Girl (1992) e Demon Beast Resurrection (1995) tornaram-se presenças comuns em grandes redes de locadoras nos Estados Unidos e em outros lugares. O volume de filmes desse gênero diminuiu desde o auge nos anos 1990, mas eles continuam a ser produzidos até hoje.[carece de fontes?]

Mangá

Hentai de tentáculos sendo vendido na exposição Fancy Frontier 30.5, em Taiwan

Embora o mangá apresente histórias de heróis atacados por monstros com tentáculos desde seus primórdios, os primeiros exemplos de erotismo de tentáculos no mangá pertencem às revistas de comédia erótica de "vida real", que antecedem o ero-gekiga. Diversas cenas foram encontradas na edição de 12 de março de 1968 da Weekly Manga Q, em que várias criaturas com tentáculos atacavam mulheres. Outro exemplo precoce pertence à história de ficção científica The Returnees (1973), de Osamu Tezuka, em que uma cena mostra uma mulher sendo agredida e engravidada por uma criatura espacial.[4] Legend of Lyon: Flair (1986), dirigido por Yorihisa Uchida, apresentou cenas de estupro por tentáculos e é, possivelmente, o primeiro título de hentai animado conhecido a incluí-las.

Urotsukidōji, de Toshio Maeda, foi pioneiro no gênero de estupro por tentáculos com sua mistura de sexo, bishōjo e tentáculos. A representação dos tentáculos por Maeda era mais orgânica e dotada de vontade, imitando genitália masculina. No entanto, seis anos antes de Urotsukidōji, em 1976, Maeda criou sua primeira obra com tentáculos num conto experimental chamado SEX Tearing, considerado a origem de Urotsukidōji, bem como o trabalho mais antigo a retratar sexo entre mulheres e tentáculos.[5][6] Em 1989, o mangá Demon Beast Invasion, de Maeda, consolidou o que pode ser considerado o paradigma japonês moderno do porno de tentáculos, no qual os elementos de agressão sexual são enfatizados. Maeda explicou que inventou a prática para contornar as rigorosas leis de censura japonesas, que proíbem a representação do pênis, mas não proíbem mostrar penetração sexual por um tentáculo ou apêndice semelhante.

Go Nagai também é conhecido por incluir cenas de estupro por tentáculos em suas histórias, sendo os exemplos mais notáveis Barabanba e MazinSaga.

Live-action

O uso de tentáculos sexualizados em filmes live-action, embora bem mais raro, começou em filmes de terror B americanos e desde então migrou para o Japão. O produtor de filmes B Roger Corman usou o conceito de estupro por tentáculos em uma breve cena de seu filme de 1970 O Horror de Dunwich, adaptação cinematográfica do conto homônimo de H. P. Lovecraft. A revista Vice identifica essa cena como "talvez a primeira cena de estupro por tentáculos da história do cinema".[7]

Uma década depois, Corman voltaria a usar estupro por tentáculos ao produzir Galaxy of Terror, lançado em 1980. Corman também dirigiu uma cena em que a atriz Taaffe O'Connell, interpretando uma astronauta em uma missão espacial futura, é capturada, estuprada e morta por um gigantesco verme tentacular. O filme toma emprestado o conceito do "Monstro do Id" do filme dos anos 1950 Planeta Proibido, sendo o verme uma manifestação dos temores da personagem de O'Connell. A cena foi suficientemente gráfica para que o diretor do filme, B. D. Clark, se recusasse a filmá-la, e O'Connell se recusou a fazer o nu integral exigido por Corman; assim, Corman dirigiu a cena ele próprio e usou uma dublê de corpo para alguns dos trechos mais explícitos. Inicialmente classificado como X pela MPAA, pequenos cortes foram feitos na cena, o que mudou a classificação do filme para "R".[7]

The Evil Dead, de Sam Raimi, inclui uma cena em que a personagem da atriz Ellen Sandweiss é atacada pela floresta possuída pela qual caminha. O espírito maligno que habita a mata usa galhos e ramos para imobilizá-la, despi-la e estuprá-la, possuindo-a por meio dos atos sexuais de modo semelhante à forma como os tentáculos são retratados em outras obras.[8] A cena foi repetida, de forma mais curta, na sequência Evil Dead II, lançada em 1987.[8]

O filme japonês Edo Porn (1981), sobre a vida do artista Katsushika Hokusai, apresentou a pintura O Sonho da Esposa do Pescador em uma representação live-action. No filme Possession (1981), uma mulher copula com uma criatura tentacular, embora os tentáculos em si nunca sejam mostrados penetrando-a explicitamente.[8]

A popularidade desses filmes levou à produção subsequente de numerosos filmes live-action de tentáculos no Japão dos anos 1990 até o presente. O tema raramente aparece no cinema e na arte adulta norte-americanos; um exemplo é o artista americano Zak Smith, que pintou diversas obras retratando polvos e estrelas pornôs em vários estágios de relação sexual.[9] Em 2016, Amat Escalante dirigiu o filme de arte A Região Selvagem, que retrata uma cena live-action entre a protagonista e um alienígena tentacular.[10]

Ver também

Referências

  1. Kimi, Rito (2021). The History of Hentai Manga: An Expressionist Examination of Eromanga. [S.l.]: FAKKU. pp. 137, 138. ISBN 978-1-63442-253-6 
  2. Courage, Katherine Harmon (2013). «Tentacle Erotica». Octopus!: The Most Mysterious Creature in the Sea. [S.l.]: Penguin Books. ISBN 9780698137677 
  3. Talerico, Danielle. "Interpreting Sexual Imagery in Japanese Prints: A Fresh Approach to Hokusai's Diver and Two Octopi", in Impressions, The Journal of the Ukiyo-e Society of America, Vol. 23 (2001).
  4. Kimi, Rito (2021). The History of Hentai Manga: An Expressionist Examination of Eromanga. [S.l.]: FAKKU. pp. 141, 142. ISBN 978-1-63442-253-6 
  5. Kimi, Rito (2021). The History of Hentai Manga: An Expressionist Examination of Eromanga. [S.l.]: FAKKU. 144 páginas. ISBN 978-1-63442-253-6 
  6. Kimi, Rito (2021). The History of Hentai Manga: An Expressionist Examination of Eromanga. [S.l.]: FAKKU. 156 páginas. ISBN 978-1-63442-253-6 
  7. a b Eil, Philip (20 de agosto de 2015). «The Posthumous Pornification of H. P. Lovecraft». Vice. Consultado em 10 de março de 2017 
  8. a b c Scherer, Agnes (2016). Plant Horror: Approaches to the Monstrous Vegetal in Fiction and Film. [S.l.]: Springer Publishing. p. 41. ISBN 9781137570635 
  9. «Zak Smith - Artist - Saatchi Gallery». www.saatchigallery.com. 3 de fevereiro de 2023. Consultado em 9 de fevereiro de 2023 
  10. Bradshaw, Peter (17 de agosto de 2017). «The Untamed review – a film about love, pleasure and a tentacular sex monster». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077. Consultado em 7 de julho de 2023 

Ligações externas