Intoxicação por metanol
| Intoxicação por metanol | |
|---|---|
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| Estrutura molecular do metanol | |
| Especialidade | Medicina de emergência |
| Sintomas | Nível de consciência alterado, má coordenação, vômito, dor abdominal, odor característico no hálito |
| Causas | Metanol (como encontrado em limpadores de para-brisas) |
| Método de diagnóstico | Acidose no sangue, aumento da diferença de osmolaridade, níveis de metanol no sangue |
| Condições semelhantes | Infecção, exposição a àlcoois tóxicos, síndrome da serotonina, cetoacidose diabética |
| Tratamento | Antídoto, hemodiálise |
| Medicação | Fomepizol, etanol |
| Prognóstico | Bom com tratamento imediato |
| Frequência | 1.700 casos por ano (EUA) |
| Classificação e recursos externos | |
| CID-10 | T51.1 |
| eMedicine | 1174890 |
A intoxicação por metanol é a intoxicação causado pela exposição ao metanol.[1] Os sintomas podem incluir diminuição do nível de consciência, falta de coordenação motora, vômitos, dor abdominal e um odor característico no hálito.[1][2] A perda de visão pode começar até doze horas após a exposição.[2] Os efeitos a longo prazo podem incluir cegueira e insuficiência renal.[1] A toxicidade e a morte podem ocorrer mesmo com a ingestão de pequenas quantidades.[1]
A intoxicação ocorre mais comumente pela ingestão de fluido para limpador de para-brisas,[2] seja acidentalmente ou de forma intencional em tentativas de suicídio.[1] Em casos raros, a toxicidade também pode ocorrer por exposição prolongada da pele ou pela inalação dos vapores.[1] Quando o metanol é metabolizado pelo organismo, ele se transforma em formaldeído, ácido fórmico e formiato, substâncias responsáveis por grande parte de sua toxicidade.[2] O diagnóstico pode ser suspeitado diante da presença de acidose com aumento da diferença de osmolaridade, sendo confirmado pela medição direta dos níveis sanguíneos de metanol.[1][2] Outras condições que podem causar sintomas semelhantes incluem infecções, exposição a outros álcoois tóxicos, síndrome da serotonina e cetoacidose diabética.[2]
O tratamento imediato aumenta as chances de um bom desfecho.[2] Ele consiste em estabilizar a pessoa afetada e, em seguida, administrar um antídoto.[2] O antídoto de escolha é o fomepizol; como alternativa, pode-se usar o etanol.[2] A hemodiálise também pode ser indicada em casos de lesão de órgãos ou acidose metabólica grave.[2] Outros tratamentos podem incluir bicarbonato de sódio, folato e tiamina.[2]
Surtos já ocorreram devido à contaminação de bebidas alcoólicas,[2] sendo esse fenômeno mais comum em países em desenvolvimento.[2] Em 2013, foram registrados mais de 1.700 casos nos Estados Unidos.[3] As pessoas afetadas são, na maioria das vezes, homens adultos.[3] A toxicidade do metanol foi descrita já em 1856.[4]
Causa
Os efeitos tóxicos do metanol são moderados a graves e tipicamente manifestados por meio de sua ingestão. Ingerir apenas 10 mL de metanol puro pode levar à cegueira permanente; a dose fatal mediana é de 100 mL.[5]
A intoxicação por metanol pode se dar por meio da ingestão de líquido de limpador de para-brisa, que é a causa mais comum em países desenvolvidos, ou pela contaminação ou adulteração de bebidas alcoólicas, que normalmente contém etanol, um composto de propriedades químicas parecidas, mas muito menos tóxico.[6]
Mecanismo
Embora o metanol atue como um depressor do sistema nervoso central, à semelhança do etanol, os efeitos tóxicos mais graves de sua ingestão decorrem principalmente da formação de metabólitos durante seu metabolismo, sobretudo o ácido fórmico.[7]
No fígado, o metanol é oxidado pela enzima álcool desidrogenase em formaldeído, por sua vez convertido em ácido fórmico pela enzima aldeído desidrogenase.[8] O CYP2E1 e a catalase têm uma participação maior ou menor neste processo consoante a espécie animal exposta. No ser humano e nos primatas, a álcool desidrogenase assume 90% do papel metabólico.
O ácido fórmico (ou formato na sua forma ionizada) é tóxico e causa danos a diversos órgãos, especialmente na retina, área fundamental para a visão (levando, portanto, à perda irreversível de visão), e nos núcleos da base. Ele inibe a atividade da enzima citocromo c oxidase, levando à hipóxia no nível celular, além de provocar uma acidose metabólica de intervalo aniônico elevado.[9][10]
A metabolização do ácido fórmico é demorada e ocorre por meio de sua conjugação com tetrahidrofolato, substância que depende da nutrição de ácido fólico. O conjugado de ácido fórmico e tetrahidrofolato sofre a ação de duas enzimas, a 10-formil-tetrahidrofolato sintetase e a 10-formil-tetrahidrofolato desidrogenase. No final da via metabólica, os subprodutos são gás carbônico e água.[11]
Quadro clínico
Os sintomas iniciais da intoxicação por metanol são semelhantes ao da intoxicação por etanol, incluindo depressão do sistema nervoso central, dor de cabeça, náuseas e confusão mental; de forma semelhante, doses consideráveis podem levar à inconsciência, sendo potencialmente fatais. Várias horas após a exposição inicial, surgem novos sintomas, que podem incluir visão turva, fotofobia e perda de visão, evoluindo para rebaixamento do nível de consciência até a morte por insuficiência respiratória.[7]
O exame físico pode revelar um paciente taquipneico. O exame de fundo de olho pode revelar hiperemia do disco óptico e edema macular.[12]
Tratamento
A intoxicação por metanol deve ser tratada em regime hospitalar, devendo se buscar assistência médica imediata.[13] Pode ser tratada com fomepizol intravenoso ou, na sua ausência, com etanol. Ambas as drogas atuam como inibidores competitivos da álcool desidrogenase, impedindo a conversão do metanol em seus metabólitos tóxicos no fígado e acelerando a sua eliminação pelos rins. Pode-se também utilizar ácido fólico para acelerar a metabolização do ácido fórmico, utilizar bicarbonato de sódio para tratar a acidose metabólica ou remover o metanol por hemodiálise.[8]
Outros efeitos para a saúde
O metanol causa irritação ao contato com os olhos e leve irritação às mucosas quando inalado. Ao contato com a pele, pode deixá-la seca e quebradiça. Se ocorrer absorção; sintomas parecidos com a inalação. À exposição crônica repetida, causa aumento do fígado (hepatomegalia) e irritação na pele. Pessoas com desordens de pele, problemas nos olhos, ou com função prejudicada dos rins e fígado podem ser mais suscetíveis aos efeitos da substância.[13]
Incidentes históricos de envenenamento em massa
- Cachaça da morte (na Bahia; 1990)
- Intoxicações por metanol em Irkutsk em 2016 (na Rússia)
- Surto de intoxicações por metanol no Brasil em 2025 (diversos estados)
Ver também
Referências
- ↑ a b c d e f g Kruse, JA (outubro de 2012). «Methanol and ethylene glycol intoxication.». Critical Care Clinics. 28 (4): 661–711. PMID 22998995. doi:10.1016/j.ccc.2012.07.002
- ↑ a b c d e f g h i j k l m Beauchamp, GA; Valento, M (setembro de 2016). «Toxic Alcohol Ingestion: Prompt Recognition And Management In The Emergency Department.». Emergency Medicine Practice. 18 (9): 1–20. PMID 27538060
- ↑ a b Ferri, Fred F. (2016). Ferri's Clinical Advisor 2017: 5 Books in 1 (em inglês). [S.l.]: Elsevier Health Sciences. p. 794. ISBN 9780323448383. Cópia arquivada em 8 de setembro de 2017
- ↑ Clary, John J. (2013). The Toxicology of Methanol (em inglês). [S.l.]: John Wiley & Sons. p. 3.4.1. ISBN 9781118353103. Cópia arquivada em 8 de setembro de 2017
- ↑ «Methanol Poisoning Overview». Antizol. Cópia arquivada em 5 de outubro de 2011
- ↑ Beauchamp GA, Valento M (setembro de 2016). «Toxic Alcohol Ingestion: Prompt Recognition And Management In The Emergency Department». Emergency Medicine Practice. 18 (9): 1–20. PMID 27538060
- ↑ a b National Institute for Occupational Safety and Health (22 de agosto de 2008). «The Emergency Response Safety and Health Database: Methanol». Consultado em 17 de março de 2009. Cópia arquivada em 23 de abril de 2009
- ↑ a b Schep LJ, Slaughter RJ, Vale JA, Beasley DM (2009). «A seaman with blindness and confusion». BMJ. 339. PMID 19793790. doi:10.1136/bmj.b3929. Cópia arquivada em 8 de outubro de 2009 Parâmetro desconhecido
|article-number=ignorado (ajuda); Verifique o valor de|url-access=subscription(ajuda) - ↑ Liesivuori J, Savolainen H (setembro de 1991). «Methanol and formic acid toxicity: biochemical mechanisms». Pharmacol. Toxicol. 69 (3): 157–63. PMID 1665561. doi:10.1111/j.1600-0773.1991.tb01290.x
- ↑ Ashurst, John V.; Schaffer, David H.; Nappe, Thomas M. (6 de fevereiro de 2025). «Methanol Toxicity». StatPearls Publishing. PMID 29489213. Consultado em 3 de outubro de 2025
- ↑ «metanoltoxiffup». metanoltoxiffup
- ↑ Jafarizadeh, A., Homaie, M., Abdollahi, M., & Niyousha, M. (2023). Time course study of optical coherence tomography angiography in patients with methanol-induced optic neuropathy. BMC ophthalmology, 23(1), 178. https://doi.org/10.1186/s12886-023-02937-x
- ↑ a b «ICSC 0057 - METANOL». chemicalsafety.ilo.org. Consultado em 30 de setembro de 2025
