Eduardo Borges Nunes

Eduardo Alexandre Borges Nunes (1924–2008) foi um historiador português. Professor universitário, paleógrafo e editor de textos históricos, centrou a sua atividade científica sobretudo no estudo da sociedade e da cultura do século XV, na história da escrita e na paleografia. A sua carreira académica esteve profundamente ligada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde lecionou durante várias décadas. Contribuiu decisivamente para a institucionalização do ensino da paleografia em Portugal.[1][2]
Biografia e formação
Nascido em 1924, em Vilar Seco da Lomba, no concelho de Vinhais, Eduardo Borges Nunes iniciou a sua formação em filosofia, teologia e humanidades em Braga. Durante esse período frequentou a Companhia de Jesus. Posteriormente, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em história.[1]
A partir do final da década de 1950, Borges Nunes integrou o corpo docente da Faculdade de Letras de Lisboa, tendo sido convidado por Virgínia Rau a colaborar no Centro de Estudos Históricos.[1] Este contacto foi determinante para a sua orientação científica e para a sua inserção num meio historiográfico atento às correntes metodológicas então em renovação.
A sua investigação inicial centrou-se na cronologia e na cultura histórica do século XV, com especial atenção à obra de Paulo Orósio, tema que esteve na base da sua tese de doutoramento. O século XV tornou-se, desde então, um dos eixos centrais da sua produção científica, tanto do ponto de vista da História cultural como da História das mentalidades. Entre 1960 e 1962, foi bolseiro em Florença, Roma e no Vaticano, período durante o qual aprofundou o contacto com arquivos e bibliotecas estrangeiras e consolidou a sua formação em paleografia e história da escrita. Este estágio teve impacto direto na orientação posterior do seu trabalho académico, que passou a privilegiar o estudo das práticas documentais e da transmissão escrita.[1]
Ensino e atividade institucional
A partir de meados da década de 1960, Eduardo Borges Nunes assumiu o ensino regular da paleografia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, disciplina que lecionou até 1994. A sua ação docente foi acompanhada por uma intensa atividade científica, nomeadamente no domínio da edição e da reprodução de documentos históricos.[1]
A sua conceção da paleografia como disciplina histórica — e não apenas como técnica auxiliar — foi explicitada em vários textos de reflexão metodológica publicados a partir da década de 1970, nos quais articulou a análise gráfica com a história cultural da escrita e com os problemas da edição de textos.[3]
Um dos resultados mais relevantes desse trabalho foi o Álbum de Paleografia Portuguesa, publicado entre 1964 e 1969, sob a égide do Centro de História da Universidade de Lisboa e com o apoio do Instituto de Alta Cultura, obra que se tornou referência no ensino e na investigação paleográfica em Portugal.[1]
Ao longo da sua carreira, que se estendeu entre 1958 e 1994 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Borges Nunes produziu uma obra historiográfica significativa, centrada na história social e cultural da Baixa Idade Média, na história da escrita e nas instituições documentais. Para além da investigação, teve um papel relevante na formação de várias gerações de historiadores, em particular no campo da paleografia e da diplomática.[1]
Em 1985, foi responsável pela criação do mestrado em Paleografia e Diplomática na Faculdade de Letras de Lisboa, contribuindo para a consolidação institucional dessas áreas no ensino superior português. Paralelamente, exerceu docência noutras instituições universitárias, como a Universidade Livre de Lisboa e a Universidade Lusíada.[1]
Eduardo Borges Nunes faleceu em Lisboa, em 2008, deixando um legado duradouro no estudo da escrita, da cultura histórica e da sociedade portuguesa dos séculos finais da Idade Média.[1]
Produção científica e linhas de investigação
A produção científica de Eduardo Borges Nunes inclui monografias, edições de fontes, obras coletivas e numerosos artigos publicados em revistas académicas portuguesas. Os seus principais domínios de investigação foram a sociedade, a cultura e as mentalidades do século XV português e europeu, a cronologia histórica, a paleografia e a história da escrita, bem como a edição e interpretação de fontes documentais medievais.[1]
Publicou artigos em revistas como Do Tempo e da História e Brotéria, bem como em atas de congressos e volumes coletivos, contribuindo para a renovação metodológica do estudo da documentação histórica.[4]
A sua reflexão sobre a paleografia enquanto prática historiográfica encontra-se particularmente desenvolvida em textos de carácter programático, nos quais defendeu uma abordagem integrada da escrita enquanto fenómeno histórico e cultural.[3] A importância da sua obra para o ensino e a investigação em paleografia portuguesa continua a ser reconhecida em estudos recentes sobre a área.[5]
Obras (seleção)
- Dom Frey Gomez, abade de Florença (1420–1440), Braga, Edição do Autor, 1963.
- Álbum de Paleografia Portuguesa, Lisboa, Centro de História / Instituto de Alta Cultura, 1964–1969.
- Abreviaturas Paleográficas Portuguesas, Lisboa, Faculdade de Letras, 1981.[2]
- Ordenações del-rei Dom Duarte, co-editor com Martim de Albuquerque, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1988.
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j Bernardo de Sá Nogueira, verbete «Eduardo Alexandre Borges Nunes», Dicionário de Historiadores Portugueses, Biblioteca Nacional de Portugal. Disponível em: Biblioteca Nacional de Portugal
- ↑ a b «Abreviaturas Paleográficas Portuguesas». Bertrand. Consultado em 4 de fevereiro de 2026
- ↑ a b Eduardo Borges Nunes, «O conceito novo de Paleografia», Portugaliae Historica, vol. I, Lisboa, 1973; — «História portuguesa do cifrão», Portugaliae Historica, vol. I, Lisboa, 1973; — «Algumas amostras da minha Paleografia», in Estudos em Memória do Professor Doutor Mário de Albuquerque, Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – Instituto Histórico Infante Dom Henrique, 2009, pp. 307–318 (edição póstuma).
- ↑ Eduardo Borges Nunes, «Nótulas de história do século XV português», Do Tempo e da História, vol. 1, Lisboa, 1965. Disponível em: http://hdl.handle.net/10451/38467; Eduardo Borges Nunes; Martim de Albuquerque, «Parecer do Doutor “Velasco di Portogallo” sobre o beneplácito régio (Florença, 1454)», Do Tempo e da História, vol. 2, Lisboa, 1968. Disponível em: http://hdl.handle.net/10451/38225; Eduardo Borges Nunes, «Observações à última edição do “Livro de cozinha” da Infanta D. Maria», Do Tempo e da História, vol. 2, Lisboa, 1968. Disponível em: http://hdl.handle.net/10451/38227.
- ↑ Leonor Calvão Borges; Ana Margarida Dias da Silva, «Transcrições em linha: e-learning de Paleografia em arquivos europeus», Revista Portuguesa de História, vol. 49, n.º 2, 2018, pp. 31–54. DOI: https://doi.org/10.14195/0870-4147_49_2