Do Tempo e da História

Capa do primeiro volume da revista Do Tempo e da História

Do Tempo e da História foi uma revista académica portuguesa de História, publicada entre 1965 e 1972 pelo Centro de Estudos Históricos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sob a direção de Virgínia Rau.[1][2][3] Constituiu um dos principais instrumentos de afirmação científica daquele centro de investigação e um marco importante na renovação da historiografia portuguesa da segunda metade do século XX.[2]

A revista foi concebida como órgão próprio do Centro de Estudos Históricos, com o objetivo de divulgar os resultados dos trabalhos de investigação em curso, acolher estudos de historiadores portugueses e estrangeiros e promover a circulação de novas problemáticas e metodologias historiográficas em Portugal.[2]

Contexto de criação

A criação de Do Tempo e da História insere-se no programa científico desenvolvido pelo Centro de Estudos Históricos a partir do início da década de 1960. A direção do Centro considerava essencial dispor de uma publicação periódica que permitisse apresentar regularmente os resultados da investigação coletiva e individual realizada no seu âmbito, bem como estabelecer um diálogo com a historiografia internacional.[2]

O primeiro volume da revista foi publicado em 1965, embora o projeto editorial estivesse em preparação desde 1962, ano em que o Centro iniciou uma política sistemática de edições científicas. A revista foi publicada pelo Instituto de Alta Cultura, através do Centro de Estudos Históricos, e esteve sempre ligada institucionalmente à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.[2]

Orientação científica e programa historiográfico

A revista assumiu desde o início uma orientação claramente associada à renovação da historiografia portuguesa, em particular no domínio da história económica e social, da história das estruturas e da história das mentalidades. Esta orientação refletia diretamente o programa científico do Centro de Estudos Históricos e a influência das correntes historiográficas francesas associadas à chamada Escola dos Annales.[2]

O título da revista exprimia essa intenção: articular a análise do tempo histórico curto com o estudo das estruturas de longa duração. O programa científico organizava-se em torno de três grandes eixos principais:[2]

  • História das estruturas da sociedade portuguesa (económicas, sociais, culturais e institucionais);
  • Demografia histórica;
  • História das relações internacionais de Portugal.

A investigação histórica era entendida como uma disciplina centrada no estudo rigoroso das realidades concretas, afastada de leituras ideológicas ou exclusivamente narrativas, privilegiando a análise estrutural, serial e comparativa.[2]

Conteúdos e temáticas

Entre 1965 e 1972 foram publicados cinco volumes da revista.[3] No seu conjunto, os artigos incidiam sobretudo sobre:[2]

  • a Baixa Idade Média e a Idade Moderna, com especial destaque para os séculos XV a XVIII;
  • a História dos Descobrimentos e da expansão portuguesa;
  • a história social, económica e institucional;
  • a edição e comentário crítico de fontes históricas;
  • a história das ordens militares, a antroponímia medieval e a história do pensamento político.

A maior parte dos estudos concentrava-se na história das estruturas da sociedade portuguesa e na história das relações internacionais, sendo menor, embora significativa, a presença de edições de fontes e de estudos comparativos ou de história estrangeira.[2]

Autores e colaboradores

A revista contou com a colaboração dos principais investigadores ligados ao Centro de Estudos Históricos. Entre os autores mais presentes destacam-se Virgínia Rau, José Mattoso, Jorge Borges de Macedo, A. H. de Oliveira Marques, Eduardo Borges Nunes, Iria Gonçalves, Maria José Lagos Trindade, Maria José Ferro Tavares e Maria Olímpia da Rocha Gil.[2]

Participaram também alguns historiadores estrangeiros, como Frédéric Mauro e Hermann Kellenbenz.[2]

Virgínia Rau foi a principal responsável científica pela revista, assegurando a sua orientação editorial e a coerência com o programa de investigação do Centro.[2]

Papel na historiografia portuguesa

Do Tempo e da História é geralmente considerada uma das publicações mais importantes no processo de renovação da historiografia universitária portuguesa durante as décadas de 1960 e início de 1970.[2] A revista contribuiu para a afirmação da história económica e social como área central da investigação histórica em Portugal, para a introdução de novas problemáticas e métodos de análise e para a consolidação de práticas de trabalho coletivo e de investigação estruturada em torno de projetos.[2]

Fim da publicação

A revista deixou de ser publicada em 1972, pouco antes da morte de Virgínia Rau, ocorrida em 1973.[2] O desaparecimento da sua diretora e a profunda reestruturação institucional que se seguiu à revolução de 25 de Abril de 1974 levaram ao fim deste projeto editorial.[2]

Acesso e legado

Atualmente, os cinco volumes da revista Do Tempo e da História encontram-se digitalizados e disponíveis em acesso aberto através do site do Centro de História da Universidade de Lisboa.[3]

A revista é considerada um antecedente direto da publicação Clio – Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa, que viria a desempenhar, em contexto institucional diferente, um papel parcialmente semelhante nas décadas seguintes.[2]

Referências

  1. «Do tempo e da história / direção, Virgínia Rau ; Centro de Estudos Históricos do Instituto de Alta Cultura». catalogobib.uportu.pt. Consultado em 20 de janeiro de 2026 
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q r Castro Leal, Ernesto, «Memória e Historiografia. Notas sobre a revista Do Tempo e da História (1965–1972)», Clio – Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa, Nova Série, vol. I, Lisboa, 1996, pp. 163–173.
  3. a b c Do tempo e da história chul.letras.ulisboa.pt. Consultado em 20 de janeiro de 2026