Doutrina Dahiya

A doutrina Dahiya ou Dahya[1] é uma estratégia militar israelense baseada no domicídio, ou seja, na destruição, em larga escala, de habitações e infraestrutura civil[2] que alegadamente sirvam ou possam servir como base de ataques a Israel.[3] Segundo tal estratégia - que defende o uso desproporcional da força,[4] o que é incompatível com o conceito de legítima defesa -, não existe distinção entre alvos civis e militares, algo que também contraria o princípio fundamental do direito de guerra.[5]
A doutrina recebeu seu nome em alusão a Dahieh Janoubyé (também transliterado como Dahiyeh ou Dahieh), zona densamente povoada de Beirute, onde o Hezbollah tinha sua base, em 2006. Naquele ano, em retaliação ao sequestro de alguns soldados israelenses pelo Hezbollah, forças israelenses bombardearam e danificaram severamente toda aquela zona residencial, dando início à chamada guerra do Líbano de 2006.[4]
A doutrina Dahiya foi delineada pelo ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Gadi Eizenkot, em 2006, por ocasião da guerra do Líbano. No verão de 2006, forças israelenses bombardearam maciçamente Dahiya, subúrbio do sul de Beirute, destruindo grande parte da cidade. A alegada justificativa para tal bombardeio foi a presença de partidários do Hezbollah, combatentes ou não, na área. Na ocasião, o então chefe do Estado-Maior de Israel, general Dan Halutz, gabou-se de que os ataques das FDI à infraestrutura "fariam o Líbano retroceder vinte anos"[6] e argumentou que causar danos graves a áreas civis enviaria uma mensagem dissuasória a qualquer grupo armado hostil a Israel. Na época, organizações de direitos humanos condenaram os ataques israelenses como "graves violações do direito internacional", descrevendo-os como "indiscriminados, desproporcionais e injustificados".[7] Todavia grande parte da comunidade internacional não se manisfestou. O coronel israelense Gabi Siboni escreveu que os ataques de Israel "devem ter como alvo tanto as capacidades militares do Hezbollah como os interesses econômicos e os centros de poder civil que apoiam a organização".[2] A lógica dessa estratégia seria prejudicar a população civil de tal forma que esta se voltasse contra os militantes, forçando-os a capitular.[2][8]
Novamente em 2014, sem se referir explicitamente à doutrina Dahiya e contando com forte apoio midiático, Israel realizou outro intenso ataque a Gaza, durante a chamada Operação Margem Protetora, sem também sofrer críticas por parte da comunidade internacional, apesar de violar repetidamente as normas do direito internacional, e sempre se apresentando como vítima de ameaça existencial por parte dos palestinos. Estes, por sua vez, eram descritos como atores irracionais e culpados por suas próprias mortes.[7]
Referências
- ↑ Samaan, Jean-Loup. «From War to Deterrence? Israel-Hezbollah Conflict Since 2006». Strategic Studies Institute. Arquivado do original em 12 de janeiro de 2015
- ↑ a b c The Public Committee Against Torture in Israel. "No Second Thoughts", pp. 20-21. Arquivado em 2010-02-15 no Wayback Machine
- ↑ Byman, Daniel (2011). «What Israel can Teach the World and What Israel should Learn». A High Price. [S.l.: s.n.] p. 364. ISBN 978-0-19-539182-4. doi:10.1093/acprof:osobl/9780195391824.003.0026
- ↑ a b «Pourquoi la riposte israélienne à Gaza semble disproportionnée». France Inter. 21 de novembro de 2023
- ↑ Barthe, Benjamin. Israël et le Hezbollah, des ennemis de trente ans. Le Monde, 20 de dezembro de 2015. Cópia arquivada em 21 de dezembro de 2015.
- ↑ McGreal, Chris. Capture of soldiers was 'act of war' says Israel. The Guardian, 13 de julho de 2006.
- ↑ a b Buttu, Diana (2014). "Blaming the Victims". Journal of Palestine Studies, 44(1), 91–96 doi:10.1525/jps.2014.44.1.91, pp. 91-92.
- ↑ Amos Harel (5 de outubro de 2008). «ANALYSIS / IDF plans to use disproportionate force in next war». Haaretz
Ligações externas
- 'Dahiya', a estratégia militar iniciada no Líbano e prosseguida em Gaza. Notícias ao Minuto, 7 de dezembro de 2023.