Dissolução da Grã-Colômbia

Dissolução da Grã-Colômbia
Departamentos da Grã-Colômbia em 1824
Nome nativo disolución de la Gran Colombia
Nome em portuguêsDissolução da Grã-Colômbia
Data30 de abril de 1826 (1826-04-30)
Duração30 de abril de 1826 – 21 de novembro de 1831
LocalGrã-Colômbia
LocalizaçãoAmérica do Sul
TipoDissolução de entidade territorial administrativa
TemaFragmentação política e territorial
CausaConflitos regionais, rivalidades políticas, oposição ao centralismo e diferenças econômicas e sociais
ParticipantesDepartamentos da Venezuela, Equador, Nova Granada e Panamá
ResultadoDissolução da Grã-Colômbia e formação das repúblicas de Venezuela, Equador e Nova Granada
AfetadosPopulação da Grã-Colômbia

A dissolução da Grã-Colômbia ou dissolução da Grande Colômbia e a desintegração de suas estruturas políticas e do governo central criaram três países independentes: a República da Venezuela, a República do Equador e a República da Nova Granada.[1]

O principal líder ideológico da Grande Colômbia foi Simón Bolívar, conhecido como o Libertador, que queria criar uma nação forte o suficiente para manter sua independência e competir economicamente com as potências europeias. Foi o mais ambicioso sonho de unidade na América Latina.[2]

Contexto

A Grande Colômbia foi criada em 1819 com a união de Nova Granada (hoje Colômbia), Venezuela, Equador e Panamá, numa tentativa de unir os povos do norte da América do Sul em uma única nação. As nações constituintes viam a nova república como uma junção de forças para evitar o restabelecimento do Vice-reinado da Nova Granada, não como uma união social, econômica e política de sociedades marcadamente diferentes em sua composição e na estrutura de seu poder social.[1]

Bolívar e Santander durante o Congresso de 1821.

Antes da união, alguns países constituintes já haviam tentado outras formas de governo, notadamente o federalismo nas Províncias Unidas de Nova Granada e nas Províncias Unidas da Venezuela. Esses experimentos e os confrontos resultantes com grupos pró-espanhóis ou defensores de um governo mais centralizado causaram seu fracasso e a reconquista pelas forças vice-reais. Simón Bolívar concluiu que uma nação deveria ser construída com uma base unitária sólida em sua Carta da Jamaica.[3]

Após a formação da República, as diferenças de opinião entre federalistas e centralistas, assim como as disparidades entre as regiões e seus interesses distintos, aceleraram a disputa sobre a forma de governo da Grande Colômbia. Como forma de concertação, decidiu-se pelo sistema centralista chefiado por Bolívar.[2]

Quito e Panamá não tiveram representação real nas deliberações constitucionais de 1821 em Villa del Rosario, porque só se tornaram formalmente parte da Grande Colômbia em 1822. Apesar do apoio à Constituição de 1821 em Guayaquil, Quito e Caracas, muitos apoiavam uma constituição federalista que permitisse controle regional e autonomia; em particular, os militares venezuelanos esperavam exercer mais poder em sua região. Da mesma forma, os heróis e líderes do Panamá eram empresários ligados ao transporte marítimo e ao tráfego internacional. Anglófilos por razões mercantis, professavam o Liberalismo de Manchester e, portanto, apoiavam o abstencionismo estatal, o livre-comércio e uma economia essencialmente comercial.[4]

A união das quatro nações nunca foi sólida devido ao seu desenvolvimento econômico desigual e à falta de rotas de ligação entre as três regiões do país, cuja coesão só foi mantida durante os anos de guerra graças ao prestígio e à vontade de Bolívar.[5]

Os militares haviam recebido o direito de voto na Constituição de 1821 como reconhecimento por seu esforço na campanha libertadora de Bolívar. Em 1827, o Congresso fez uma mudança constitucional para que apenas oficiais pudessem votar.[carece de fontes?]

La Cosiata

Retrato do general José Antonio Páez, 1838.

Ver também

Como resultado do constante ataque de guerrilhas realistas e do medo de uma suposta "Santa Aliança" entre França e Espanha para recuperar as colônias americanas, Francisco de Paula Santander decretou em 31 de agosto de 1824 um alistamento geral de todos os cidadãos entre 16 e 50 anos, exigindo do departamento da Venezuela um contingente de 50.000 homens para serem enviados a Bogotá. O general José Antonio Páez, que era o comandante geral do departamento desde 1822, retardou a execução do decreto por quase um ano, temendo não apenas um motim geral, mas também para demonstrar seu desagrado com as decisões do governo central.

Após vários levantes na Venezuela devido ao alistamento forçado, à pressão contínua de Bogotá para cumprir o decreto e à intervenção de líderes influentes, incluindo Miguel Peña,[6] finalmente, José Antonio Páez declarou motim em 30 de abril de 1826, assumiu o governo da Venezuela e comprometeu-se a recusar ordens do governo central de Bogotá.[carece de fontes?]

Bolívar foi reeleito presidente e, ao saber da rebelião, partiu de Lima para a Venezuela em 4 de setembro, chegando a Guayaquil em 12 de setembro e a Bogotá em 16 de novembro, seguindo depois para Cartagena e de lá chegando por mar a Puerto Cabello em 31 de dezembro. Dias depois, Bolívar se reuniu com Páez, reafirmou a união, concedeu-lhe anistia geral e o ratificou como chefe civil e militar da Venezuela. No entanto, as divisões entre venezuelanos e neogranadinos cresceram diante do atraso nas reformas constitucionais solicitadas pelos cidadãos, intensificando-se nos anos seguintes.[carece de fontes?]

Bolívar retornou a Santafé no início de 1827, encontrando forte resistência nos círculos políticos em torno do general Santander. A confiança que ele depositava em seus colaboradores militares mais próximos, na maioria venezuelanos e britânicos, e os excessos frequentes destes, somaram-se às diferenças entre Bolívar e o Congresso, que convocou uma nova Assembleia Constituinte. Essa assembleia reuniu-se em 9 de abril de 1828 em Ocaña para eleger o Congresso Constituinte que reformaria a Constituição de Cúcuta, sendo composta por representantes das paróquias. O inevitável confronto entre bolivarianos e seguidores de Santander ocorreu: os santanderistas (federalistas) obtiveram grande representação enquanto os bolivarianos decidiram abandonar as deliberações, não se alcançando quórum. Três meses depois a convenção foi encerrada sem resultado.[5]

Conspiração Setembrina

Ver também

General Francisco de Paula Santander.
Manuelita Sáenz

Em 27 de agosto de 1828, Bolívar assumiu os poderes legislativos e iniciou uma ditadura,[7] abolindo a vice-presidência. Santander juntou-se à oposição ao ser afastado do governo. Bolívar emitiu decretos econômicos de emergência restabelecendo impostos abolidos e tornando as tarifas mais protecionistas. Removeu o ensino de Jeremy Bentham da educação e dissolveu organizações maçônicas numa tentativa de apaziguar a oposição católica.[5] Ele também projetou uma constituição que incluía Peru e Bolívia (já separada do Vice-reino do Rio da Prata), com um governo central forte e uma presidência com poderes ditatoriais.

Essas medidas criaram um clima de tensão, que inflamou os santanderistas, pois viam nessa proposta um retorno à monarquia. Santander escreveu a Bolívar expressando seu desacordo:

"Além disso, não lutei quatorze anos contra Fernando VII para agora ter um rei chamado Simón I".

Uma facção chegou ao ponto de tentar assassinar o libertador em 25 de setembro do mesmo ano, numa conspiração que envolveu intelectuais neogranadinos como es, es, Mariano Ospina e Wenceslao Zulabair, acompanhados pelo militar venezuelano Pedro Carujo, o francês Agustín Horment e o aventureiro português Dr. Arganil. Eles invadiram o Palácio de São Carlos, mataram os soldados da guarda e o ajudante de ordens de Bolívar. Ele, seminu, protegido por criados e por Manuelita Sáenz, permaneceu escondido por horas debaixo de uma ponte sobre o rio San Francisco.[5]

Como resultado da conspiração, quatorze conspiradores foram executados, entre eles o almirante José Prudencio Padilla, herói naval da guerra de independência. Santander, acusado de autoria intelectual do atentado, também foi condenado à morte, mas sua pena foi comutada para o exílio. Foi para a Europa como exilado político e retornou para assumir a presidência da Nova Granada em 1833, quando a dissolução da Grande Colômbia já havia se completado.[5]

Guerra com o Peru e morte de Bolívar

Ver também

Disputas territoriais por antigos decretos coloniais levaram à guerra Grã-Colombo-Peruana.[8] Bolívar marchou para o sul e deixou o Conselho de Ministros, presidido por Domingo Caicedo, no poder. O Congresso, reunido no fim de 1828, nomeou o general Antonio José de Sucre presidente interino, apesar do mérito do general Rafael Urdaneta para o cargo. Em 4 de junho de 1830, Sucre foi assassinado nas selvas de Berruecos, fim prematuro para um herói considerado herdeiro político do Libertador. Sua morte causou grande comoção, especialmente política. A constituição da Grande Colômbia ficou sem grandes defensores. Caicedo pediu ao Congresso que não a ratificasse sem antes garantir sua aceitação na Venezuela. No entanto, foi sancionada em 15 de maio (sem consultar Caracas), três dias após sua promulgação. A constituição gerou insubordinação e agitação: batalhões se levantaram por ignorar o comando de Bolívar, e os conselhos municipais de Pasto, Buenaventura e Cauca pediram anexação ao Equador. Cúcuta, Casanare e Pamplona solicitaram anexação à Venezuela. Críticas abundaram também no Peru, que se recusou a fazer parte da ditadura. Bolívar renunciou à presidência em 4 de maio de 1830, deixando Domingo Caicedo como presidente interino. No dia seguinte, 5 de maio, o Congresso aprovou uma nova constituição que mantinha a unidade da Grande Colômbia, mas que nunca entrou em vigor.

Militares e grupos liberais descontentes confrontaram as forças do governo na savana de Funza em 27 de agosto de 1830, o que levou à ditadura do general Urdaneta e à derrubada de Joaquín Mosquera. Finalmente, exilado da Venezuela e vendo seu sonho de uma América unida ruir, Simón Bolívar morreu em 17 de dezembro de 1830.[9]

Separação da Venezuela

Após anos de tentativas de conciliar federalistas e centralistas, a separação da Venezuela começou a se materializar em 1826 com o movimento La Cosiata de José Antonio Páez. Bolívar, vendo a separação iminente, convocou uma assembleia constituinte em 20 de março de 1830 para reconciliar as diferentes facções e evitar a dissolução. Foi o chamado Congresso Admirável, pela qualidade dos participantes; apesar de alguma reconciliação, não foi possível unir as regiões sob o comando de Bogotá.[10]

Antes do Congresso, assembleias populares em Valência e Caracas em 23 e 25 de novembro de 1829 decidiram sobre a forma de governo e eleição presidencial. Concordaram com a secessão definitiva da Venezuela de Bogotá e o desprezo pela autoridade de Bolívar. Um congresso constituinte foi então instalado em Valência em 6 de maio de 1830, de tendência antibolivariana;[10] confirmou José Antonio Páez como presidente, declarou a autonomia total da Venezuela e promulgou regulamentos eleitorais.[11][12]

Em 22 de setembro, o Congresso de Valência sancionou a nova constituição e a separação da Venezuela foi consumada. Bolívar, doente e próximo da morte, foi de Cartagena a Soledad, depois a Barranquilla. Em 1º de dezembro chegou por mar a Santa Marta, onde em 6 de dezembro foi levado à Quinta San Pedro Alejandrino, morrendo em 17 de dezembro aos 47 anos.[10]

Separação do Equador

Quito, sabendo da separação da Venezuela e da retirada definitiva de Bolívar, decidiu se separar. Com isso, a Grande Colômbia desapareceu após 11 anos.

Em 13 de maio de 1830, o Distrito do Sul declarou sua independência, formando o Estado do Equador. Nesse dia, uma Assembleia de Notáveis se reuniu em Quito para formalizar a separação e formar um Estado independente, embora inicialmente federado. Dela emergiu o general Juan José Flores, venezuelano de origem, como Chefe Supremo do Governo.[13]

A assembleia encarregou Flores de integrar os outros departamentos do sul, já que seus governadores eram militares sob seu comando; assim, em 19 e 20 de maio, os departamentos de Guayaquil e Azuay separaram-se para formar o novo Estado. Em 14 de agosto, Flores convocou uma Assembleia Constituinte em Riobamba para promulgar a Constituição Política do Equador, composta por seus apoiadores, que o nomearam presidente provisório.[13]

Em 22 de setembro de 1830 foi promulgada a primeira constituição equatoriana, que declarou que os departamentos de Azuay, Guayaquil e Equador estavam unidos e formavam um corpo independente com o nome de Estado do Equador. Juan José Flores assumiu como presidente e José Joaquín de Olmedo como vice-presidente.[13]

Com o desaparecimento definitivo, em 1831, da Grande Colômbia, o Equador proclamou-se república com a constituição de 1835.

Separações do Panamá

Tomás Herrera

Após esses desmembramentos, a Grande Colômbia ficou composta apenas pela região central, que incluía os departamentos de Boyacá, Cauca, Cundinamarca, Magdalena e Istmo.

Em 26 de setembro de 1830, o Departamento do Istmo (Panamá) também se separou do Estado grã-colombiano. Seu líder foi o panamenho es, mulato de origem popular, grande defensor de Bolívar, de quem foi secretário. Com a crise causada pela renúncia do Libertador e o desmembramento da Grande Colômbia, Espinar, apoiado pelas massas suburbanas, rebelou-se contra o governo esperando o retorno de Bolívar ao poder.[14]

Uma delegação panamenha foi até Barranquilla para convidar Bolívar a regressar e reconstruir a Grande Colômbia. Bolívar recusou e aconselhou seu ex-secretário a reincorporar o istmo à Colômbia. Espinar assim procedeu, mas logo outro movimento separatista ocorreu.[14]

A segunda separação foi liderada pelo coronel venezuelano es em 9 de julho de 1831, inicialmente com apoio da oligarquia panamenha. Porém, os métodos de Alzuru foram cruéis e puseram em risco os interesses da elite. Para restaurar a ordem, o governo da Nova Granada encarregou o general Tomás de Herrera de derrotar Alzuru e reincorporar as províncias, nomeando-o "Comandante Geral do Istmo". Herrera capturou Alzuru e o fuzilou em 29 de agosto. Após a vitória, Herrera ficou encarregado do território.[14]

Consequências

Repúblicas da Venezuela, Nova Granada e Equador, surgidas após a dissolução da Gran Colômbia.

A partir de 1830, em meio às separações do Equador (1830), do Panamá (1830 e 1831) e da Venezuela (1830), a desintegração do governo da Gran Colômbia e de suas estruturas políticas foi precipitada. Surgiram como consequência o Estado do Equador e o Estado da Venezuela, enquanto o Panamá permaneceu sob governos militares ditatoriais que não conseguiram organizar as instituições básicas de um Estado.

Por meio do Acordo de Apulo (realizado em 28 de abril de 1831), o general Rafael Urdaneta, o último presidente da Gran Colômbia, entregou o comando a Domingo Caicedo (3 de maio). Ele presidiu até 21 de novembro, quando a entidade foi legalmente abolida.

Em 7 de maio, foi convocada uma convenção nos departamentos centrais da antiga Gran Colômbia, na qual representantes de Cundinamarca, Cauca, Antioquia, Istmo (Panamá), Magdalena e Boyacá deveriam se reunir. O encontro seria em Bogotá em 15 de outubro. O Panamá aderiu à iniciativa após a queda do regime ditatorial no final de agosto de 1831. O objetivo desta convenção era acordar uma constituição para os departamentos centrais da extinta Gran Colômbia e eleger os magistrados que deveriam governá-la. Na convenção realizada em 20 de outubro de 1831, foi criado o Estado da Nova Granada, que com a Constituição de 1832 passou a ser oficialmente chamado de República da Nova Granada.

Referências

  1. a b «La Red Cultural del Banco de la República» 
  2. a b Blanco, Jacqueline (18 de outubro de 2007). «De La Gran Colombia a La Nueva Granada, Contexto Histórico - Político de La Transición Constitucional» (PDF). Universidade Militar Nueva Granada. Consultado em 3 de julho de 2022. Cópia arquivada (PDF) em 4 de dezembro de 2019 
  3. Bolivar, Simon (1 de janeiro de 1965). Carta de Jamaica (em espanhol). [S.l.]: NoBooks Editorial 
  4. Navarro, Alfredo Figueroa (1982). Dominio y sociedad en el Panamá colombiano (1821-1903): escrutinio sociológico (em espanhol). [S.l.]: Editorial Universitaria 
  5. a b c d e «Etapas y Sentido de la Historia de Colombia» (PDF) Predefinição:Fonte não fiável?
  6. Bolívar, Antonio Ecarri (2017). Miguel Peña y la Cosiata: Bolívar, Santander, Páez, Peña : relectura de una controversia histórica (em espanhol). [S.l.]: IPAPEDI. ISBN 978-980-12-9713-0 
  7. The Last Dictatorship: Betrayal or Consummation?, David Bushnell, The Hispanic American Historical Review Vol. 63, No. 1 (Feb., 1983), pp. 65-105 (41 pages), Duke University Press https://doi.org/10.2307/2515359
  8. «cap2». www4.congreso.gob.pe. Consultado em 10 de outubro de 2023 
  9. «Historia de Colombia - Colombia Info». www.colombia.com (em espanhol). Consultado em 4 de julho de 2022 
  10. a b c «leosociales - DISOLUCIÓN DE LA GRAN COLOMBIA.docx - Detail». 24 de julho de 2018. Consultado em 4 de julho de 2022. Cópia arquivada em 24 de julho de 2018 
  11. «Proclamación de la separación de Venezuela de la Gran Colombia | banrepcultural.org». 16 de outubro de 2013. Consultado em 4 de julho de 2022. Cópia arquivada em 16 de outubro de 2013 
  12. Picón, Delia (1999). Historia de la diplomacia venezolana: (1811-1985) (em espanhol). [S.l.]: Universidad Catolica Andres. ISBN 978-980-244-204-1 
  13. a b c «13 de mayo de 1830; Nacimiento de la República del Ecuador». 7 de junho de 2013. Consultado em 4 de julho de 2022. Cópia arquivada em 7 de junho de 2013 
  14. a b c Sosa, Juan Bautista (2003). Compendio de historia de Panamá: edición corregida del libro original de 1911 con un estudio preliminar de Carlos Manuel Gasteazoro (em espanhol). [S.l.]: Editorial Universitaria. ISBN 978-9962-53-118-0 

Ligações externas