Determinismo histórico

A ideia de determinismo histórico está ligada a reflexões filosóficas sobre o tempo e a história, presentes desde a Antiguidade.

Na imagem, escultura de Chronos, divindade da mitologia grega associada ao tempo e ao Destino, esculpida por Santo Saccomanno no final do século XIX. A obra está localizada no Cemitério Monumental de Staglieno, em Gênova.

O determinismo histórico é um conceito na filosofia da história baseado na ideia de que todo evento tem causas anteriores — diferentemente da teleologia, que vê os eventos como orientados por um propósito futuro, ou do voluntarismo, que os atribui à ação consciente e deliberada. O determinismo é aplicado em muitas áreas: determinismo biológico, geográfico, linguístico, social, psicológico, tecnológico, entre outras. O conceito surgiu durante o século XIX, ao mesmo tempo que o do individualismo, com o qual contrasta. A partir daí, surge uma questão central — explícita[1] ou implícita: a liberdade humana. Apesar de suas diferenças, as abordagens deterministas compartilham a ideia de que certos fatores moldam a existência humana, limitando seu livre-arbítrio.

O determinismo histórico se torna especialmente relevante nas ciências sociais e na historiografia, quando os historiadores passam a buscar explicações mais profundas para os eventos, além da simples descrição. Parte-se da ideia de que os acontecimentos não ocorrem por acaso.

É importante distinguir duas abordagens distintas. A dos historiadores, que analisam de forma científica os fatores que levam, involuntariamente, a certos eventos; e a dos ideólogos, que interpretam a história como portadora de um sentido intrínseco. A expressão "determinismo histórico" refere-se especialmente a esta última visão. Ela, por sua vez, pode ser subdividida conforme o contexto histórico: antes do humanismo, os eventos eram interpretados como parte de um plano superior — expressão do destino, da natureza ou da vontade divina; após o humanismo, o significado passa a ser atribuído aos próprios acontecimentos, como o progresso científico ou técnico.

Em meados do século XIX, Marx e Engels desenvolveram esse segundo significado, através de seu conceito de materialismo histórico. Para eles, a história pode ser moldada conscientemente por meio da ação coletiva — a revolução. No final do século, sob a influência de Augusto Comte, surgem as ciências humanas ( sociologia, psicologia, história), que buscam analisar o comportamento humano de forma objetiva, cada uma com seu próprio modo de entender o determinismo.

No final do século XX, o espírito positivista que inspirava as ciências humanas tende a esmaecer em favor de um certo relativismo — marcando a transição da modernidade para a pós-modernidade. Pesquisadores passam a valorizar a interdisciplinaridade e o conceito de determinismo perde espaço, sendo substituído por novos modelos de pensamento, que oscilam entre dois polos: sentido e absurdo. Alguns recuperam os conceitos de indivíduo e livre-arbítrio, enquanto outros enfatizam o indeterminismo, a incerteza, o acaso, a desordem — até mesmo o caos. Entre esses extremos, surgem análises que propõem que um mesmo evento pode ter múltiplas interpretações e significados. Assim, os diferentes tipos de determinismo passam a ser vistos como interdependentes. Como resultado, as fronteiras entre conceitos como “determinismo histórico” e “determinismo psicológico” tornam-se cada vez mais difusas.

Mudanças de significado

Assim como outros conceitos, o determinismo histórico tem origens antigas e seu significado foi se transformando ao longo do tempo. A forma como os seres humanos compreendem a passagem do tempo varia significativamente — dependendo, por exemplo, de estarem organizados segundo os ciclos naturais, como as estações do ano, ou da maneira como interpretam o nascimento e a morte, vistos como limites que marcam o início e o fim da existência.

Embora a ideia de relação entre causa e efeito sempre tenha acompanhado a história da humanidade, o sentido atribuído a essa relação se modificou consideravelmente ao longo dos séculos. De forma geral, podem-se distinguir quatro grandes formas de compreender o determinismo ao longo do tempo. Na fase das origens, o fator determinante era entendido como algo que transcendia a vontade humana — forças divinas ou natureza que regiam os acontecimentos. Em seguida, na fase da emergência, entre os séculos XVIII e XIX, o determinismo passou a ser concebido como imanente, ou seja, interno ao mundo humano e, em princípio, regulável. Já na fase do desenvolvimento, ao longo do século XIX, mesmo sendo visto como imanente, o determinismo começou a parecer difícil de controlar, revelando suas limitações. Por fim, a partir do século XX, tem início a fase da contestação: o determinismo passa a ser considerado apenas um entre diversos fatores explicativos, e, em alguns contextos, chega a ser visto como secundário ou até irrelevante.

Referências

  1. Alfred Fouillée, La liberté et le déterminisme, 2e édition refondue et augmentée, Paris, Félix Alcan, coll. «Bibliothèque de philosophie contemporaine», 1884

Bibliografia

  • Cícero, Du Destin, traduction et préface de Hélène Parent et Mathieu Cochereau, Paris, Payot et Rivages, 2013.
  • Séneca, De la Providence, dans Dialogues. Tome IV, texte établi et traduit par René Waltz, Paris, 1927.
  • Giambattista Vico, La Science nouvelle (1744), traduit par Alain Pons, Paris, Fayard, 2001.
  • Emmanuel Kant, Idée d'une histoire universelle d'un point de vue cosmopolitique (1784), traduit par Jean-Michel Muglioni, Paris, Bordas, 1993.
  • Hegel, La Philosophie de l'Histoire, sous la direction de Myriam Bienenstock. Paris, Pochothèque, 2009.
  • Hegel, La Raison dans l'Histoire, Éditions 10/18, 1955.
  • Gueorgui Plekhanov, La conception matérialiste de l'histoire (1897).

Ligações externas