Deportação de afegãos do Irão em 2025

A deportação de afegãos do Irão em 2025 foi uma expulsão em massa, conduzida pelo Estado, de migrantes e refugiados afegãos que viviam no Irão. Embora fizesse parte de uma campanha mais ampla anunciada no início do ano, as deportações se intensificaram drasticamente em junho e julho de 2025, após um conflito de 12 dias entre o Irão e Israel.[1][2] A Organização Internacional para as Migrações (OIM) relatou que mais de meio milhão de afegãos foram expulsos em apenas 16 dias, no que foi descrito como potencialmente um dos maiores movimentos forçados de população da década.[1] De acordo com fontes, o Irã praneja expulsar até 4 milhões de afegãos do Irão. Em julho de 2025, já haviam sido deportados 1,1 milhão.[3]

As autoridades iranianas citaram a segurança nacional como principal justificativa, apoiando-se em alegações infundadas de que afegãos teriam atuado como espiões de Israel durante o conflito.[4][5] A campanha desencadeou uma grave crise humanitária na fronteira entre Afeganistão e Irã e atraiu ampla condenação por violar o direito internacional, em especial o princípio da não repulsão.[4][6]

Antecendentes

Durante quatro décadas, em meio às guerras e à instabilidade no Afeganistão, o Irão acolheu uma das maiores populações de refugiados do mundo.[7] Após o retorno do Talibã ao poder em 2021, estimava-se que entre 4 e 6 milhões de afegãos vivessem no Irão, muitos em situação irregular.[7][8] Nesse período, enfrentaram discriminação frequente, restrições de liberdade, proteção legal limitada e abusos de direitos humanos.[9]

Ao longo dos anos, o Irã estabeleceu um padrão de deportações em massa de afegãos.

No início da década de 1990, após o colapso do regime comunista de Najib-Allāh em 1992 e em meio a crescentes pressões económicas e sociais, refugiados afegãos passaram a sofrer assédio sistemático por parte das autoridades iranianas. Essa pressão se manifestou de diversas formas: crianças foram impedidas de frequentar escolas públicas, documentos de identidade foram confiscados e afegãos sem status legal foram submetidos a deportações em massa, abuso físico e extorsão. Em resposta ao fluxo migratório e para formalizar sua presença, o governo iraniano emitiu mais de 500 mil cartões de registro temporário para afegãos indocumentados ou recém-chegados em 1993. Embora inicialmente renováveis, esses cartões foram invalidados em 1996, deixando muitos novamente vulneráveis à expulsão. Em 1999, cerca de 100 mil afegãos indocumentados foram deportados. Campanhas semelhantes, atingindo tanto residentes documentados quanto indocumentados, continuaram de forma esporádica.

Uma escalada significativa ocorreu em abril de 2007, quando o Irã lançou uma repressão sem precedentes, prendendo quase 490 mil afegãos até junho de 2008. Os detidos eram mantidos em centros de deportação por dias antes de serem expulsos. Relatos documentaram abusos generalizados: famílias separadas, indivíduos espancados ou maltratados, e muitos obrigados a deixar suas casas sem aviso prévio.[10][11]

Após a volta do Talibã ao poder em agosto de 2021, as repatriações aumentaram. Em 2022, cerca de 485 mil afegãos foram deportados,[12] e em 2023 o número superou 650 mil. Entre março de 2024 e março de 2025, o Irã deportou 1,2 milhão de afegãos.[13][14]

Pretexto e fatores contribuintes

O governo iraniano há muito considera a grande população de refugiados afegãos como um risco.[15] Após a guerra Irã-Israel em junho de 2025, o governo intensificou sua retórica anti-imigrante, culpando os afegãos por falhas de segurança e acusando-os de espionagem para Israel.[16] A mídia estatal iraniana exibiu imagens de um suposto "espião" afegão confessando suas atividades, embora nenhuma evidência de apoio tenha sido fornecida.[1]

Críticos e observadores internacionais sugeriram que as alegações de espionagem eram um pretexto infundado para concretizar uma ambição de longa data de reduzir a população afegã e desviar a dissidência interna, atribuindo a uma minoria vulnerável um bode expiatório.[1][4] Arafat Jamal, o representante do ACNUR para o Afeganistão, afirmou: "talvez os afegãos estejam a ser considerados bodes expiatórios e parte da raiva esteja a ser descarregada sobre eles".[5]

As pressões económicas também desempenharam um papel. Com a economia iraniana a sofrer com as sanções internacionais, a inflação crescente e o desemprego, os apelos públicos para expulsar os refugiados afegãos, frequentemente acusados de roubar empregos, aumentaram.[15]

Campanha de deportação

Escala e cronograma

Em 6 de junho de 2025, o governo iraniano anunciou um prazo de um mês para que todos os refugiados afegãos indocumentados deixassem o país ou enfrentassem prisão e deportação.[17] A campanha acelerou dramaticamente após o conflito com Israel. A OIM relatou que 508 426 afegãos foram expulsos entre 24 de junho e 9 de julho, com travessias diárias chegando a 51 mil.[1] A FICV declarou que mais de 800 mil afegãos retornaram do Irã desde o início de 2025.[16]

Métodos

As autoridades iranianas realizaram incursões em massa, estabeleceram postos de controlo e realizaram inspecções nos locais de trabalho.[18] Testemunhos de deportados descreveram a polícia a recolhê-los nas suas casas e ruas, muitas vezes a meio da noite, e a levá-los para centros de detenção superlotados.[6][1] Uma deportada, Sahar, disse ao The Guardian: "Eles vieram a meio da noite. Implorei-lhes que me dessem apenas dois dias para recolher as minhas coisas. Mas eles não ouviram. Atiraram-nos para fora como lixo."[6]

Nos centros de detenção, os deportados relataram espancamentos, extorsão e privação de comida e água. Um jovem, Bashir, declarou: "Eles nos espancavam, abusavam de nós".[1] Houve relatos generalizados de funcionários destruindo documentos legais, incluindo passaportes e vistos válidos, para impedir qualquer contestação à deportação.[4][19] Os deportados foram então forçados a entrar em ônibus e transportados para a fronteira afegã.

Acidente de trânsito em Herat

Em 19 de agosto de 2025, um ônibus de passageiros superlotado, possivelmente em alta velocidade, transportando migrantes deportados do Irão, saiu da estrada e colidiu com um caminhão e uma motocicleta antes de pegar fogo no trecho do distrito de Guzara da Rodovia Herate-Islam Qala, uma extensão do Anel Viário do Afeganistão. O acidente matou pelo menos 79 pessoas, incluindo 19 crianças, e feriu outras duas. É um dos acidentes mais mortais do país nos últimos anos.[20][21]

Crise humanitária

As deportações em massa criaram uma grave crise humanitária na passagem de fronteira de Islam Qala, na província de Herat. Dezenas de milhares de pessoas, muitas delas mulheres e crianças, ficaram isoladas sob calor extremo, com temperaturas superiores a 50°C (122°F), resultando em mortes por exaustão e desidratação.[22][6] Mihyung Park, da OIM, descreveu a cena como "milhares de pessoas sob o sol". ... É bastante terrível."[1]

As agências humanitárias estavam sobrecarregadas. A OIM declarou que a sua capacidade de prestar ajuda estava gravemente prejudicada, chegando apenas a 10% dos necessitados.[16] O ACNUR alertou que as suas operações estavam gravemente subfinanciadas e poderiam ser forçadas a parar.[4]

Impacto sobre mulheres e crianças

A crise afetou desproporcionalmente mulheres e crianças. Só em junho, a UNICEF relatou que mais de 5 mil crianças afegãs desacompanhadas ou separadas foram devolvidas do Irão.[19] Para as mulheres e raparigas, regressar ao Afeganistão significou enfrentar o sistema opressivo de "apartheid de género" dos talibãs.[6] Com leis que proíbem as mulheres de viajar ou trabalhar sem um tutor masculino (mahram), muitas mulheres solteiras e viúvas deportadas viram-se retidas na fronteira, sem poderem continuar a sua viagem ou aceder a ajuda.[6][4]

Análise jurídica

Organizações de direitos humanos e especialistas jurídicos argumentaram que as deportações em massa constituíam graves violações do direito internacional. O Centro para os Direitos Humanos no Irão declarou que as ações equivaliam a uma punição colectiva.[4]

Expulsão colectiva: A prática de deportar grupos sem uma revisão individual das suas circunstâncias viola o artigo 13.º do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (PIDCP), do qual o Irão é um Estado Parte.[4]

Não-repulsão: Forçar refugiados a regressar a um país onde enfrentam um risco real de perseguição ou graves violações dos direitos humanos viola o princípio da não-repulsão. Dado o regime do Talibã, em particular as suas políticas em relação às mulheres e às minorias, estas deportações constituíram uma clara violação.[4]

Potenciais crimes contra a humanidade: Saeid Dehghan, um advogado iraniano de direitos humanos, sugeriu que "Dada a escala, a violência e a natureza sistémica destas deportações... poderá haver motivos para considerá-las como potenciais crimes contra a humanidade."

Respostas

Irã

O governo iraniano defendeu suas ações com base na segurança nacional. Um porta-voz do governo declarou: "Sempre nos esforçamos para ser bons anfitriões, mas a segurança nacional é uma prioridade e, naturalmente, os cidadãos ilegais devem retornar".[5] Outras autoridades afirmaram que os retornos seriam graduais e dignos, respeitando seus "vizinhos e irmãos na fé".[23]

Em uma entrevista televisiva no início de julho de 2025, Mustafa Kavakebian, um ex-deputado iraniano, afirmou que a expulsão de afegãos do Irã por razões de segurança é falsa, enquanto o verdadeiro motivo foi a "profunda infiltração ocidental" por meio das supostas atividades de espionagem da jornalista francesa Catherine Perez-Shakdam.[24][25][26] Em 20 de julho, foi relatado que um processo judicial foi iniciado contra ele por suas alegações.[27]

Afeganistão

Governo talibã

A liderança do Talibã apelou publicamente ao Irão para permitir o regresso dos afegãos com respeito e de forma gradual, observando que o país não tinha recursos para suportar um afluxo repentino em massa.[23] O primeiro-ministro do Talibã, Hassan Akhund, pediu ao Irão para evitar "comportamentos humilhantes" que pudessem levar ao "ódio entre as duas nações".[19]

sociedade civil afegã

Na ausência de uma resposta oficial robusta, os cidadãos afegãos organizaram esforços de ajuda humanitária de base. Em Herat, empresários e moradores formaram comboios de carros particulares para transportar gratuitamente milhares de deportados da fronteira, enquanto outros forneceram comida, água e abrigo temporário.[19]

UN

A ONU e a sua agência para os refugiados (ACNUR) alertaram que o regresso forçado dos afegãos corre o risco de desestabilizar ainda mais o Afeganistão, que já enfrenta uma crise humanitária com mais de 29 milhões de pessoas a necessitarem de ajuda.[22][23] Richard Bennett, o Relator Especial da ONU sobre os direitos humanos no Afeganistão, condenou o "incitamento à discriminação e à violência" e a utilização de "linguagem desumanizante" contra os afegãos no Irão.[16]

Outras respostas internacionais e da sociedade civil

As deportações foram condenadas por diversas figuras e organizações internacionais.

Hannah Neumann, membro do Parlamento Europeu, classificou as expulsões como "ilegais" e como uma "expulsão pela força e pelo terror".[19]

Narges Mohammadi, um laureado iraniano do Prémio Nobel da Paz que se encontra preso, emitiu uma declaração da prisão criticando as deportações como uma violação dos compromissos internacionais do Irão.[19]

A Associação de Escritores Iranianos e outros grupos da sociedade civil iraniana condenaram o tratamento “racista” dos migrantes e apelaram ao fim das deportações.[19]

Referências

  1. a b c d e f g h Walsh, Nick Paton; Popalzai, Masoud; El-Sirgany, Sarah (11 de julho de 2025). «Iran expels half a million Afghans in 16-day stretch since recent conflict with Israel, UN says». CNN. Consultado em 11 de julho de 2025 
  2. «Client Challenge». www.ft.com. Consultado em 21 de julho de 2025 
  3. Lamb, Christina (12 de julho de 2025). «One of history's biggest expulsions: Iran is throwing out 4m Afghans». www.thetimes.com (em inglês). Consultado em 14 de julho de 2025 
  4. a b c d e f g h i «Iran Forcibly Deports Nearly 600,000 Afghan Migrants Amid Post-War Crackdown». Center for Human Rights in Iran. 9 de julho de 2025. Consultado em 11 de julho de 2025 
  5. a b c Yawar, Mohammad Yunus (2 de julho de 2025). «Surge in Afghans driven from Iran in spy hunt after Israel attacks». Reuters. Consultado em 11 de julho de 2025 
  6. a b c d e f Haqiqatyar, Hamasa; Radan, Rad (7 de julho de 2025). «'They threw us out like garbage': Iran rushes deportation of 4 million Afghans before deadline». The Guardian. Consultado em 11 de julho de 2025 
  7. a b Naseh, Mitra (6 de janeiro de 2025). «One of the World's Largest Refugee Populations, Afghans Have Faced Increasing Restrictions in Iran». migrationpolicy.org (em inglês). Consultado em 7 de julho de 2025 
  8. «Iran tells millions of Afghans to leave or face arrest on day of deadline». Al Jazeera (em inglês). Consultado em 7 de julho de 2025 
  9. «Iran's Mistreatment of Afghans: Human Rights Violations of Refugees and Asylum Seekers». Refugee Research Online (em inglês). 25 de janeiro de 2018. Consultado em 7 de julho de 2025 
  10. «AFGHANISTAN xiv. AFGHAN REFUGEES IN IRAN». Encyclopaedia Iranica (em inglês). Consultado em 13 de julho de 2025 
  11. Ghaffari, Bita (17 de maio de 2025). «Iran steps up mass deportation of Afghan migrants». Financial Times. Consultado em 13 de julho de 2025 
  12. Council, DRC Danish Refugee. «Afghans increasingly forced to return from Iran, an overlooked population in dire need of protection». pro.drc.ngo (em inglês). Consultado em 13 de julho de 2025 
  13. «SHARP RISE IN FORCED RETURNS FROM IRAN» (PDF) 
  14. Naseh, Mitra (6 de janeiro de 2025). «One of the World's Largest Refugee Populations, Afghans Have Faced Increasing Restrictions in Iran». migrationpolicy.org (em inglês). Consultado em 13 de julho de 2025 
  15. a b Sinaiee, Maryam (6 de julho de 2025). «Iran steps up Afghan deportation drive with Israel espionage as pretext». www.iranintl.com (em inglês). Consultado em 7 de julho de 2025 
  16. a b c d «Hundreds Of Thousands Of Afghans Forced To Leave Iran Amid Crackdown, UN Says». Radio Free Europe/Radio Liberty (em inglês). 6 de julho de 2025. Consultado em 7 de julho de 2025 
  17. «Millions of Afghans living in Iran are threatened with expulsion» (em inglês). 5 de junho de 2025. Consultado em 7 de julho de 2025 
  18. «More than 250,000 Afghans left Iran in June alone, UN says». www.bbc.com (em inglês). 30 de junho de 2025. Consultado em 7 de julho de 2025 
  19. a b c d e f g «Live Blog: Taliban Calls on Iran to Avoid 'Humiliating' Treatment of Afghan Migrants». Afghanistan International (em persa). 11 de julho de 2025. Consultado em 11 de julho de 2025 
  20. «At least 79 dead after bus crashes carrying Afghans deported from Iran». The Washington Post (em inglês). 20 de agosto de 2025. Consultado em 20 de agosto de 2025 
  21. «Afghanistan bus crash death toll rises to 79, including 19 children» (em inglês). Al Jazeera English. 20 de agosto de 2025. Consultado em 20 de agosto de 2025 
  22. a b Cam (4 de julho de 2025). «[Statement] AFGHANISTAN: Immediately Halt Mass Deportation of Afghanistan's Migrants from Iran - FORUM-ASIA». forum-asia.org (em inglês). Consultado em 7 de julho de 2025 
  23. a b c «Iran: Nearly 450,000 Afghans have left since June 1 under pressure from Tehran» (em inglês). 7 de julho de 2025. Consultado em 7 de julho de 2025 
  24. «Former Iranian MP Alleges Deep Western Espionage Behind Journalist Catherine Shakdam's Infiltration». Watan (em inglês). 11 de julho de 2025. Consultado em 16 de julho de 2025 
  25. Ranjith, Lakshmi. «Who Is Catherine Perez-Shakdam? Mossad Mole That Undermined Iran From Within To Trigger June 13 Israel Strike- A Story Of Faith & Espionage News24 -». News24 (em inglês). Consultado em 16 de julho de 2025 
  26. «استمرار الجدل حول العلاقات الجنسية لـ "كاترين شكدم" مع 120 من كبار المسؤولين في إيران». www.iranintl.com (em árabe). 13 de julho de 2025. Consultado em 16 de julho de 2025 
  27. «The Judiciary Pursued Legal Action Against Mostafa Kavakebian - Iran - IranGate» (em inglês). 11 de julho de 2025. Consultado em 16 de julho de 2025 

Ver também