Crateras de Wabar

Uma das menores crateras de Wabar visíveis na superfície. A cratera à esquerda tem cerca de 11 metros de diâmetro.
| Tipo |
Cratera de impacto |
|---|---|
| Material |
Areia e ferro meteórico fundido |
| Estatuto patrimonial |
Confirmado como cratera de impacto |
| Localização |
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| Coordenadas |
|---|
As Crateras de Wabar (também grafadas Ubar) são um conjunto de crateras de impacto localizadas no deserto da Arábia Saudita. Elas foram apresentadas pela primeira vez à comunidade científica ocidental pelo explorador e arabista britânico St. John Philby, que as descobriu em 1932 enquanto buscava a lendária cidade de Ubar no Rub' al-Khali — o “Quarto Vazio”, o maior deserto de areia contínuo do mundo.[1]
As expedições

Expedição de 1932 — Philby
O imenso deserto do sul da Arábia Saudita, conhecido como Rub' al-Khali (em árabe: الربع الخالي, “O Quarto Vazio”), é uma das regiões mais desoladas da Terra. Em 1932, Harry St. John “Jack” Philby empreendeu uma expedição em busca de uma cidade chamada Ubar, que o Alcorão descreve como destruída por Deus por desafiar o profeta Hud. Philby transliterou o nome como “Wabar”.
Philby havia ouvido de beduínos sobre uma região chamada Al-Hadida (“lugar do ferro”, em árabe), onde haveria ruínas e relatos de uma peça de ferro “do tamanho de um camelo”. Determinou-se a visitá-la, organizando uma longa jornada de mais de um mês através das areias do Quarto Vazio, tão severas que alguns camelos morreram durante o percurso.
Em 2 de fevereiro de 1932, Philby chegou a uma área de cerca de meio quilômetro quadrado coberta por fragmentos de arenito branco, vidro negro e blocos de meteorito de ferro. Ele identificou duas grandes depressões circulares parcialmente cheias de areia e três outras formações que poderiam ser “crateras submersas”. Philby também mapeou o local onde, segundo os beduínos, teria sido encontrado o grande bloco de ferro.
Na época, ele acreditava tratar-se de um vulcão. Somente ao retornar ao Reino Unido e submeter amostras ao Museu Britânico, o geólogo Leonard James Spencer concluiu que o local era resultado de um impacto de meteorito.[2]
“Um vulcão no meio do Rub’ al-Khali! Abaixo de mim, de onde eu observava, estavam as crateras gêmeas, cujas paredes negras erguiam-se como bastiões de um grande castelo acima da areia invasora. Essas crateras tinham, respectivamente, cerca de 90 e 45 metros de diâmetro, parcialmente afundadas e semiobstruídas por areia, enquanto dentro e fora delas havia o que tomei por lava endurecida, espalhada em círculos.” — Philby (1933)
Entre as amostras trazidas por Philby estavam fragmentos de ferro, escórias e vidro sílico, além de um bloco de ferro de cerca de 11 kg. Análises revelaram composição de aproximadamente 90% ferro e 5% níquel, com traços de cobre, cobalto e uma alta concentração de irídio (6 ppm), um elemento siderófilo típico de meteoritos. Esses resultados confirmaram a natureza meteórica do local.
Expedição de 1937 — Aramco
Em 1937, geólogos da companhia Aramco, T. F. Harriss e Walton Hoag Jr., também visitaram o local, confirmando as crateras e a presença de fragmentos metálicos, embora não tenham conseguido localizar o grande bloco de ferro mencionado por Philby.[3]
Expedição de 1966 — National Geographic e Aramco
Em 1966, relatos informaram que as dunas haviam mudado e que o grande bloco de ferro estava novamente visível. O jornalista Thomas J. Abercrombie, da revista National Geographic, visitou o local e relatou:
O rumor tornou-se realidade; o maior meteorito de ferro já encontrado na Arábia estava a nossos pés... com formato aproximadamente de um disco, media cerca de 1,2 metro de diâmetro e 60 centímetros de espessura no centro. Um cálculo rápido indicou peso de quase duas toneladas e meia. — Abercrombie, 1966[4]
Em outubro de 1966, uma equipe liderada por James Mandaville, funcionário da Aramco, retornou ao local com equipamentos de escavação pesada. Eles encontraram dois grandes meteoritos parcialmente cobertos por areia. O maior, com cerca de 2.045 kg (4.508 lb), possuía superfície superior irregular de aproximadamente 1 m (3 ft 3 in) de diâmetro e uma extremidade em forma de cone — resultado da penetração atmosférica a alta velocidade. O meteorito foi fotografado in situ, removido com auxílio de um trator e transportado em um reboque até Dhahran, junto com outro fragmento menor.[5]
Expedição de 1982 — Aramco
Mandaville retornou ao sítio duas vezes após a visita de 1966. Em sua última viagem, em 1982, observou que os ventos e o deslocamento constante das dunas estavam encobrindo gradualmente o local:
Em vez de dois terços da borda da cratera visível como antes, menos de um quarto dela podia ser vista. — Mandaville, 1982
Expedições de 1994–1995 — Zahid Tractors
Entre 1994 e 1995, três novas expedições foram organizadas, patrocinadas pela empresa saudita Zahid Tractor Corporation. Participaram o geólogo do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), Jeffrey C. Wynn, e o renomado astrônomo e geólogo Eugene Merle Shoemaker.[7]
Mesmo com veículos modernos e tecnologia avançada, as expedições enfrentaram dificuldades consideráveis. Além das altas temperaturas e tempestades de areia, a ausência de marcos fixos no deserto dificultava a navegação — as crateras de Wabar encontram-se em meio a um vasto campo de dunas em constante movimento.
O sítio
A área das crateras de Wabar cobre aproximadamente 500 por 1.000 metros (1.600 por 3.300 pés). O mapeamento mais recente indica três crateras principais de formato aproximadamente circular, embora St. John Philby tenha relatado cinco crateras em 1932 — a maior medindo cerca de 116 m (381 ft) e outra, 64 m (210 ft) de diâmetro.
Uma cratera adicional de 11 m (36 ft) foi descrita durante a segunda expedição Zahid e pode corresponder a uma das três menores identificadas por Philby. Todas estão assentadas sobre uma camada hemisférica de rocha fundida localmente apelidada de “Insta-Rock” — formada pela fusão instantânea da areia sob a onda de choque do impacto — e encontram-se hoje quase completamente preenchidas por areia.

A superfície do local é composta parcialmente por essa rocha de impacto (impactito) de coloração branca e textura laminada, misturada a escórias e fragmentos vítreos pretos. Esses vidros contêm quartzo transformado em coesita, mineral que se forma apenas sob pressões extremamente altas — evidência direta de impacto meteórico. Como o impacto não atingiu o embasamento rochoso, o evento permaneceu restrito à areia superficial, tornando o sítio particularmente valioso para estudos de processos de fusão em ambientes arenosos.
A presença de fragmentos metálicos reforçou a natureza meteórica do evento, já que não há depósitos de ferro na região. Os fragmentos, encontrados tanto na superfície quanto enterrados, variam entre pequenas esferas fraturadas e blocos de grande porte. O maior deles, recuperado em 1966, pesa cerca de 2,2 toneladas e ficou conhecido como “Corcova de Camelo” (Camel’s Hump). Ele esteve exposto por décadas na Universidade Rei Saud, em Riade, e atualmente integra o acervo do Museu Nacional da Arábia Saudita, onde é exibido no átrio principal.[8]
As areias próximas às crateras foram transformadas em vidro negro, cujos pequenos fragmentos se espalham pela área, diminuindo de tamanho conforme a distância ao ponto de impacto. A composição do vidro é de cerca de 90% areia local e 10% ferro e níquel meteóricos.
A disposição das crateras indica que o corpo celeste entrou na atmosfera em ângulo raso, viajando entre 11 e 17km/s — uma velocidade típica para meteoritos, ainda que um pouco inferior à média. Estima-se que sua massa total fosse superior a 3.500 toneladas, o que corresponderia a um diâmetro de cerca de 16 metros. O ângulo raso fez com que o objeto sofresse maior resistência atmosférica e se fragmentasse em pelo menos quatro partes antes do impacto. A maior delas atingiu o solo com uma energia comparável à da bomba atômica lançada sobre Hiroshima.
Datação do evento de impacto
As primeiras tentativas de determinar a idade das crateras de Wabar usaram datação por trilhas de fissão em fragmentos de vidro. Em 1965, Storzer sugeriu que o impacto teria ocorrido há milhares de anos. Contudo, a presença de delicadas filigranas vítreas e o fato de as crateras estarem bem preenchidas desde a visita de Philby em 1932 indicam uma origem muito mais recente.
Um estudo posterior, com datação por termoluminescência realizado por Prescott et al. (2004),[9] estimou que o impacto ocorreu há menos de 250 anos.
Essa hipótese é compatível com relatos árabes de uma bola de fogo que cruzou o céu sobre Riade — em 1863 ou 1891 — movendo-se em direção sudeste. O próprio St. John Philby menciona o episódio em seu livro The Empty Quarter (1933). Fragmentos metálicos encontrados no sítio de Umm al-Hadidah, cerca de 25km a noroeste de Wabar, apresentam composição idêntica à dos fragmentos de Wabar, sugerindo que se tratam de destroços do mesmo evento.
Mapeamentos realizados em 1995[10] mostraram distribuição assimétrica do “Insta-Rock” — o arenito fundido pela onda de choque — concentrando-se na direção sudeste, o que confirma a trajetória do meteorito.
Ver também
Referências
- ↑ «Wabar». Earth Impact Database
- ↑ Spencer, L. J. (setembro de 1933). «Meteoric Iron and Silica-Glass from the Meteorite Craters of Henbury (Central Australia) and Wabar (Arabia)». Mineralogical Magazine. 23 (142): 387–404. doi:10.1180/minmag.1933.023.142.01
- ↑ Bilkadi, Z. (1986). «The Wabar Meteorite». Saudi Aramco World. 37 (6): 26–33. Consultado em 19 de julho de 2008
- ↑ Abercrombie, Thomas J. (janeiro de 1966). «Beyond the Sands of Mecca». National Geographic Magazine
- ↑ Bilkadi, Z. (1986). «The Wabar Meteorite». Saudi Aramco World. 37 (6): 26–33. Consultado em 19 de julho de 2008
- ↑ Bilkadi, Z. (1986). «The Wabar Meteorite». Saudi Aramco World. 37 (6): 26–33
- ↑ Wynn, Jeffrey C.; Eugene M. Shoemaker (1998). «The Day the Sands Caught Fire». Scientific American. 279 (5): 64–71. doi:10.1038/scientificamerican1198-64
- ↑ Bilkadi, Z. (1986). «The Wabar Meteorite». Saudi Aramco World. 37 (6): 26–33
- ↑ Prescott, J. R.; G. B. Robertson; C. Shoemaker; E. M. Shoemaker; J. Wynn (2004). «Luminescence dating of the Wabar meteorite craters, Saudi Arabia». Journal of Geophysical Research. 109 (E1): E01008. doi:10.1029/2003JE002136
- ↑ Wynn, Jeffrey C.; Eugene M. Shoemaker (1998). «The Day the Sands Caught Fire». Scientific American. 279 (5): 64–71. doi:10.1038/scientificamerican1198-64
Fontes
- Philby, H. St John (janeiro de 1933). «Rub' al Khali: An Account of Exploration in the Great Desert of Arabia under the auspices and patronage of His Majesty Abdul Aziz ibn Sa'ud, King of the Hejaz and Nejd and its Dependencies». The Geographical Journal. 81 (1)
Ligações externas
- Relatório do US Geological Survey — Jeff Wynn e Gene Shoemaker (arquivo, 2020)
- Fotografia do grande fragmento de meteorito (“Corcova de Camelo”), tirada por James Mandaville em 1966
- Uma das grandes crateras de Wabar (foto de 1966)
- Descrição técnica de um fragmento de Wabar
- Expedições de Jeff Wynn ao Quarto Vazio (arquivo, 2020)
- Fotografias e informações geológicas
- Informações e imagens aéreas das crateras (NASA, 2012)