Coração de Santos Dumont

Fotografia do escrínio projetado para guardar o coração de Alberto Santos Dumont, em 1944.

O coração de Santos Dumont refere-se ao órgão cardíaco conservado do inventor brasileiro Alberto Santos Dumont (1873-1932), preservado como relíquia histórica e exposto no Museu Aeroespacial (MUSAL) no Rio de Janeiro.

História

Após o suicídio de Santos Dumont, em 23 de julho de 1932, em Guarujá, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, seu corpo foi transportado para São Paulo. Devido à instabilidade política que impedia o sepultamento no Rio de Janeiro, a família contratou o médico legista Walther Haberfeld, professor da Faculdade de Medicina de São Paulo, para embalsamar o cadáver no Hospital Santa Catarina.[1][2]

Remoção e conservação (1932)

Durante o embalsamamento (acompanhado dos assistentes Ferdinando Dissman e Isidoro Teixeira da Silva), Haberfeld removeu as vísceras para retardar a decomposição do corpo. Impressionado com o tamanho do coração de Dumont – que descreveu como um "coração bovino" – conservou-o em formol a pedido de Dissmann. As vísceras foram enterradas na chácara do médico em São Paulo, e o coração preservado, sem autorização formal da família.[3] Haberfeld afirmou ter enviado duas cartas aos familiares oferecendo o órgão, mas não obteve resposta, sentindo-se então responsável por sua preservação como relíquia nacional.[1][3]

O restante do cadáver de Dumont seria então velado na casa da família, na Avenida Paulista. Em razão da impossibilidade de levar o corpo para o Rio de Janeiro, em razão da guerra, o corpo foi depositado na cripta da Catedral da Sé no dia 25 de julho.[4] O corpo só seria sepultado no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro, em 22 de dezembro de 1932.[3][5]

Redescoberta e doação (1944)

Em 1944, o diretor da Panair do Brasil, Paulo Gomide, descobriu a existência do coração durante visita ao laboratório de Haberfeld na Rua Aurora, em São Paulo. Gomide intermediou sua doação ao Ministério da Aeronáutica, sob a condição de que não fosse descartado e que a família fosse consultada. Os familiares concordaram com a destinação, e o órgão foi transportado em um voo histórico da Panair durante a Semana da Asa (1944), sendo entregue ao ministro Joaquim Pedro Salgado Filho.[1][2][6]

Relicário e exposição

Sob supervisão de Gomide, os artistas Américo Monterosa e Guy Eymmonet criaram um relicário artístico sem conhecer seu propósito final: uma esfera dourada de 25 cm (10 polegadas) com perfurações que simbolizam "as estrelas do universo", sustentada por uma estátua de bronze de Ícaro.[2][7] O coração foi alojado no interior da esfera, dentro de uma redoma de vidro com líquido conservante.[2][3]

Trajetória museológica (1944-presente)

Vista aérea da Escola de Aviação Militar, em Campo dos Afonsos, no ano de 1937.

Guarda na Academia da Força Aérea (1944-1990)

Após a doação, o relicário permaneceu no salão nobre da Escola de Aviação Militar, em Campo dos Afonsos (RJ). Com a transformação da escola na Academia da Força Aérea, e com a transferência da sede para Pirassununga em 1971, o coração foi realocado para a cidade paulista.[8]

Em 1981, Eduardo Gomes, patrono da Força Aérea Brasileira, teve seu coração preservado em relicário similar ao de Dumont após sua morte. As relíquias passaram a serem exibidas juntas.[3][9]

Museu Aeroespacial (1990-presente)

Em fevereiro de 1990, por decisão do INCAER e do DEPENS, o coração foi transferido para o Museu Aeroespacial no Rio de Janeiro, juntamente com o coração do Marechal-do-Ar Eduardo Gomes – único outro órgão humano preservado em museu aeronáutico mundial.[10][11]

Em 2020, ambos os corações passaram por restauração na Fiocruz, sob coordenação do pesquisador Marcelo Pelajo, que descartou a hipótese de hipertrofia cardíaca ("coração bovino") que havia sido levantada por Haberfeld.[12]

Significado simbólico

O gesto de Haberfeld e a posterior musealização transformaram o órgão em "objeto-semióforo", dotado de significado cultural além de sua função biológica. Representa simbolicamente as paixões de Dumont: seu idealismo ao compartilhar invenções sem patentes, a angústia pelo uso bélico de aviões e seu legado como pioneiro da aviação. O escritor Raul de Polillo (1948) descreveu-o como pulsante "para bondade, para a grandeza da Pátria".[3][6]

No dia 13 de maio de 1989, durante o período em que estava sob a guarda do museu da Academia da Força Aérea, em Pirassununga, o coração de Santos Dumont foi exposto no programa televisivo Cidade Contra Cidade, apresentado por Gugu Liberato.[13]

A preservação do órgão inspirou o romance histórico O Homem com Asas (2023) do autor holandês Arthur Japin. A trama usa o furto do coração como ponto de partida ficcional, imaginando uma conspiração contra o governo Vargas para acobertar o suicídio de Dumont (desgostoso com bombardeios na Revolução de 1932). Japin retrata o inventor como figura sensível e solitária, explorando também supostos relacionamentos homoafetivos – aspecto que gerou debates durante o lançamento na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).[6][14][15]

Referências

  1. a b c Viegas, Luciane (2017). «Uma história cheia de mistério: O coração de Santos Dumont demorou para ser "devolvido" ao país». EPTV. G1. Consultado em 19 de junho de 2025. Arquivado do original em 18 de maio de 2024 
  2. a b c d Ferrari, Wallacy (2 de janeiro de 2021). «A saga do coração do inventor brasileiro Santos Dumont». Aventuras na História. Consultado em 19 de junho de 2025 
  3. a b c d e f Negrão, Daniele Rodrigues Barros Nunes (2020). O coração de Alberto Santos Dumont: um caso incomum de preservação pelo Museu Aeroespacial (PDF) (Dissertação de Mestrado). Rio de Janeiro: Museu de Astronomia e Ciências Afins. Programa de Pós-Graduação em Preservação de Acervos de Ciência e Tecnologia. 118 páginas 
  4. «A trasladação dos restos mortaes de Santos Dumont para a crypta da cathedral». Acervo Folha de São Paulo. 26 de julho de 1932. Consultado em 19 de junho de 2025 
  5. Junior, Roberto (2 de janeiro de 2021). «Os funerais de Santos Dumont: Pai da Aviação e Patrono da Aeronáutica Brasileira». Cariri das Antigas. Consultado em 19 de junho de 2025 
  6. a b c Ferreira, Luiz Claudio (23 de outubro de 2021). «"Santos Dumont era um homem brilhante e doce", diz romancista holandês». Agência Brasil. Consultado em 19 de junho de 2025 
  7. TIME (20 de novembro de 1944). «Art: The Heart of Santos-Dumont». TIME (em inglês). Consultado em 19 de junho de 2025 
  8. «Transferência da AFA para Pirassununga/SP - AFA». www2.fab.mil.br. Consultado em 19 de junho de 2025 
  9. «O Brigadeiro deixa seu coração». Acervo Folha de São Paulo. 16 de junho de 1981. Consultado em 19 de junho de 2025 
  10. Centro de Documentação da Aeronáutica, ed. (2023). E o Brasil falava de Santos-Dumont (PDF). Rio de Janeiro, RJ: Editora Benedictus. 122 páginas. ISBN 978-85-53019-53-3. Consultado em 19 de junho de 2025 
  11. Barbosa, Jônatas Ribeiro (1 de abril de 2025). «Museu Aeroespacial recebe visita da equipe da Revista Força Aérea - MUSAL». www2.fab.mil.br. Consultado em 19 de junho de 2025 
  12. Cayres, Kadu (10 de outubro de 2023). «Cientista do IOC recebe honraria do Comando da Aeronáutica». Instituto Oswaldo Cruz. Consultado em 19 de junho de 2025 
  13. Vianna, Branca (15 de março de 2024). «A parte que falta» (PDF). Rádio Novelo Apresenta (Podcast). (transcrição). pp. 1-18. Minutos 00:00 - 36:48. Rádio Novelo. Consultado em 18 de junho de 2025 
  14. Freitas, Guilherme (11 de abril de 2016). «Arthur Japin virá à Flip para lançar romance sobre Santos Dumont». O Globo. Consultado em 19 de junho de 2025 
  15. «O coração de Santos Dumont sobre a mesa». O Globo. 2 de julho de 2016. Consultado em 19 de junho de 2025 

Ver também

Ligações externas