Conquista de Saragoça (1118)

 Nota: Para outros significados, veja Cerco de Saragoça.
Cerco de Saragoça
Reconquista

O barranco da morte, de Agustín Salinas Teruel, retratando o alegado morticínio provocado pelos almorávidas por ocasião do cerco
DataMarço a dezembro de 1118
LocalSaragoça, Império Almorávida
DesfechoConquista da cidade
Beligerantes
Reino de Aragão
Viscondado de Bearne
Reino de Pamplona
Império Almorávida
Comandantes
Afonso I
Gastão IV
Cêntulo II
Abedalá ibne Masdali
Forças
Incertas Incertas
Baixas
Incertas Incertas

A conquista de Saragoça de 1118 foi uma operação militar liderada por Afonso I, rei de Aragão e Pamplona, que terminou com a eventual captura da cidade de Saragoça de seu governador Abedalá ibne Masdali, que estava na posição em nome do Império Almorávida. O avanço cristão ocorreu no contexto da fragmentação do Alandalus em diversos reinos independentes após a queda do Califado de Córdova, levando a tensões militares, políticas e econômicas e estimulando pedidos de ajuda aos almorávidas por parte das taifas ameaçadas. O enfraquecimento interno dos territórios muçulmanos favoreceu a iniciativa militar cristã e inseriu Saragoça no centro das disputas da Reconquista, sendo repetidamente sitiada antes de 1118 por forças castelhanas e aragonesas, até sua anexação direta ao domínio almorávida.

Em 1118, Afonso I reuniu um exército composto por aragoneses e contingentes aliados de distintas regiões europeias e lançou um novo cerco a Saragoça, contando com apoio nobre e motivação religiosa. Apesar da presença inicial de defesa almorávida, a cidade enfrentou falta de liderança e perda moral após a morte de Ibne Tifiluite e, durante o cerco, de Abedalá ibne Masdali. A fome crescente enfraqueceu as forças sitiadas e levou à capitulação em 11 de dezembro, permitindo a entrada vitoriosa dos cristãos poucos dias depois. A tomada da cidade abriu caminho para novas conquistas aragonesas, como Tudela e Taraçona, e enfraqueceu o peso político de centros como Jaca, consolidando a expansão territorial liderada por Afonso I.

Contexto

Desde o colapso do Califado de Córdova, os territórios muçulmanos no Alandalus fragmentaram-se em pequenos reinos, por vezes hostis entre si, chamados taifas. A desunião abriu espaço para a expansão dos reinos cristãos (Reconquista). A turbulência militar (perda de territórios), econômica (salários dos mercenários, exação de butins de parias) e política (imposição de protetorados, vassalagens, zonas de influência) criaram uma situação em que a opinião pública andalusina exigia urgentemente o controle efetivo dos cristãos além-fronteiras, a restauração de uma ordem islâmica interna, a redução de impostos e um certo retorno à unidade califal.[1]

Em 1077 (ocupação de Tânger) e 1083 (devido à campanha castelhana contra Sevilha, Medina Sidônia e Tarifa em 1082), o emir do Império Almorávida Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106) recebeu pedidos de ajuda das taifas contra os reinos cristãos.[2] Em 1085, a Taifa de Toledo foi tomada por Afonso VI (r. 1065–1109). Esse revés compeliu o rei sevilhano Almutâmide (r. 1069–1091) a convocar uma reunião com seus vizinhos, Omar Almotauaquil (r. 1072–1094) de Badajoz e Abedalá ibne Bologuine (r. 1073–1090) de Granada, e eles concordaram em enviar uma embaixada a Iúçufe para solicitar auxílio.[3][4]

Saragoça, capital da Taifa de Saragoça,[5] contava com cerca de 25 mil habitantes considerando sua periferia.[6] Tinha sido anteriormente sitiada por Afonso VI em 1086, que abandonou sua investida com a chegada dos almorávidas e investiu contra os invasores, sendo derrotado na Batalha de Zalaca daquele ano.[7][8] Depois, Saragoça foi novamente cercada por Sancho I (r. 1063–1094) em 1091[5] e por Afonso I (r. 1104–1134) em 1110.[9] No mesmo ano, o emir almorávida Ali ibne Iúçufe decidiu destituir Imade Adaulá de sua posição em Saragoça, anexando a taifa ao território almorávida.[10]

Cerco e rescaldo

Em maio de 1118, Afonso I investiu contra Saragoça novamente, com um contingente formado por aragoneses, bearneses, gascões, germanos, franceses, castelhanos e navarros.[11] Junto ao rei aragonês, combateram nobres como Gastão IV e Cêntulo II.[12] O monge Pedro de Librana levou a indulgência papal,[13] concedida pelo papa Gelásio II em dezembro de 1118.[14] O reduzido contingente almorávida defensor, que carecia de líder após a morte do governador Ibne Tifiluite em 1116, recebeu apoio externo de tropas comandadas pelo governador granadino Abedalá ibne Masdali,[15][14] que faleceu em 16 de novembro, desmoralizando as tropas defensoras.[16] Estas capitularam em 11 de dezembro e as tropas cristãs entraram triunfais na cidade no dia 18 do mesmo mês.[11] Apesar das abundantes armas de cerco dispostas pelo exército de Afonso I durante o assédio, a capitulação da cidade deveu-se mais à fome sofrida pelos sitiados.[17] Também os cristãos padeceram fome, abandonando o cerco parte das tropas francas.[14] Após a conquista de Saragoça, Afonso I prosseguiu com a campanha militar, com a conquista de Tudela e Taraçona no ano seguinte.[18] Também em consequência da tomada da cidade, a cidade de Jaca perderia importância política.[19]

Referências

  1. Chalmeta 1993, p. 591.
  2. Messier 2010, p. 66–67.
  3. Kennedy 2014, p. 162.
  4. Bennison 2016, p. 43.
  5. a b Lafuente 1998, p. 56.
  6. Ramírez 2014, p. 19.
  7. Kennedy 2014, p. 162–163.
  8. Bennison 2016, p. 43–44.
  9. Lafuente 1998, pp. 57-58.
  10. Molins 2007, p. 183-184.
  11. a b Lafuente 1998, p. 59.
  12. Mouton 1980, p. 61.
  13. Arteta 1957, p. 60.
  14. a b c Stalls 1995, p. 39.
  15. Utrilla 2007, p. 114.
  16. Guichard 2001, p. 96.
  17. Montserrat 1958, pp. 237-238.
  18. Corbera 2005, p. 128.
  19. Mouton 1980, p. 17.

Bibliografia

  • Arteta, Antonio Ubieto (1957). «Nota sobre el obispo Esteban (1099-1130)». Huesca: Instituto de Estudios Altoaragoneses. Argensola: Revista de Ciencias Sociales del Instituto de Estudios Altoaragoneses (29): 59-64. ISSN 0518-4088 
  • Bennison, Amira K. (2016). The Almoravid and Almohad Empires. Edimburgo: Editora da Universidade de Edimburgo. ISBN 978-0748646821 
  • Chalmeta, P. (1993). «al-Murābiṭūn». In: Bosworth, C. E.; van Donzel, E.; Heinrichs, W. P.; Pellat, Ch. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume VII: Mif–Naz. Leida: E. J. Brill. ISBN 978-90-04-09419-2 
  • Corbera, Carlos Laliena (2005). «Frontera y conquista feudal en el valle del Ebro desde una perspectiva local (Tauste, Zaragoza, 1086-1200)». Salamanca: Ediciones Universidade de Salamanca. Studia Historia. Historia Medieval. 23: 115-138. ISSN 0213-2060 
  • Guichard, Pierre (2001). Abad, Josep Torró (tradutor), ed. Al-Andalus frente a la conquista cristiana: los musulmanes de Valencia, siglos XI-XIII. Madri e Valência: Biblioteca Nova; Universidade de Valência. ISBN 84-7030-852-1 
  • Kennedy, Hugh (2014). Muslim Spain and Portugal: A Political History of al-Andalus. Londres e Nova Iorque: Routledge 
  • Messier, Ronald A. (2010). The Almoravids and the Meanings of Jihad. Santa Bárbara: Praeger/ABC-CLIO. ISBN 978-0-313-38590-2 
  • Molins, María Jesús Viguera (2007). Los reinos de Taifas y las invasiones magrebíes: al-Ándalus del XI al XIII. Madri: RBA Coleccionables. ISBN 9788447348152 

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