Cerco de Saragoça (1086)

 Nota: Para outros significados, veja Cerco de Saragoça.
Cerco de Saragoça
Data1086
LocalSaragoça, Taifa de Saragoça
DesfechoRetirada castelhana
Beligerantes
Reino de Castela Taifa de Saragoça
Comandantes
Afonso VI Almostaim II
El Cid
Forças
Incertas Incertas
Baixas
Incertas Incertas

O Cerco de Saragoça de 1086 foi uma das batalhas da Reconquista. Após o colapso do Califado de Córdova, o Alandalus fragmentou-se em várias taifas rivais, situação que favoreceu o avanço cristão durante a Reconquista. As crises políticas, militares e econômicas estimularam pedidos por defesa eficaz, restauração da ordem islâmica e redução de impostos. Nesse cenário, o emir almorávida Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106) começou a ser chamado a intervir pelas taifas diante da ameaça castelhana. Antes de cruzar para a península, tomou a estratégica Ceuta, controlada por Iáia Dia Adaulá. Após longa resistência e ajuda naval do rei de Sevilha, Almutâmide (r. 1069–1091), Ceuta capitulou, permitindo que Iúçufe estabelecesse sólida base no lado africano do estreito de Gibraltar para futuras operações no Alandalus.

O avanço cristão intensificou-se quando Afonso VI conquistou Toledo e ocupou Valência com tropas de Álvaro Fanhes, deixando Iáia Alcadir governando a taifa. Em seguida, Afonso cercou Saragoça, defendida por El Cid como lugar-tenente do rei Almostaim II (r. 1085–1110). A ameaça forçou Almutâmide a reunir-se com Omar Almotauaquil (r. 1072–1094) de Badajoz e Abedalá ibne Bologuine (r. 1073–1090) de Granada, enviando uma embaixada a Iúçufe. Em troca da ajuda, o emir exigiu Algeciras, garantindo a travessia de seu exército, que somava cerca de 12 mil homens. Os almorávidas uniram-se às forças andalusinas e Afonso VI levantou o cerco para enfrentá-los. A batalha decisiva ocorreu em Zalaca em 23 de outubro, onde Afonso sofreu derrota esmagadora, recuando ao norte.

Contexto

Desde o colapso do Califado de Córdova, os territórios muçulmanos no Alandalus fragmentaram-se em pequenos reinos, por vezes hostis entre si, chamados taifas. A desunião abriu espaço para a expansão dos reinos cristãos (Reconquista). A turbulência militar (perda de territórios), econômica (salários dos mercenários, exação de butins de parias) e política (imposição de protetorados, vassalagens, zonas de influência) criaram uma situação em que a opinião pública andalusina exigia urgentemente o controle efetivo dos cristãos além-fronteiras, a restauração de uma ordem islâmica interna, a redução de impostos e um certo retorno à unidade califal.[1] Em 1077 (ocupação de Tânger) e 1083 (devido à campanha castelhana contra Sevilha, Medina Sidônia e Tarifa em 1082), o emir do Império Almorávida Iúçufe ibne Taxufine (r. 1061–1106) recebeu pedidos de ajuda das taifas contra os reinos cristãos.[2]

Iúçufe fez da captura de Ceuta seu objetivo principal antes de tentar intervir no Alandalus. Ceuta, a última grande cidade no lado africano do estreito de Gibraltar que ainda resistia a ele, era controlada pelas forças zenetas sob o comando de Iáia Dia Adaulá.[3] Quando Iáia se mostrou pouco cooperativo e não respondeu aos pedidos de Iúçufe para permitir a travessia do estreito, Iúçufe e a delegação enviada pelos andalusinos convocaram juízes para emitirem fátuas contra ele. Durante onze meses, Iúçufe sitiou Ceuta. Em seguida, pediu e recebeu ajuda naval do rei de Sevilha, Almutâmide (r. 1069–1091).[4] A frota sevilhana bloqueou a cidade por mar, enquanto o filho de Iúçufe, Tamime, liderou o cerco por terra.[3] A cidade finalmente se rendeu em junho-julho de 1083[5][6] ou em agosto de 1084.[3]

Batalha e rescaldo

Em 25 de maio de 1085, Afonso VI conquistou Toledo, aproveitando a reivindicação de um antigo aliado contra um usurpador do trono. Com essa conquista, o rei castelhano-leonês assumiu o título de Imperador das Duas Religiões e seus domínios se estenderam até o rio Tejo, o que permitiu a ameaça constante sobre Córdova, Sevilha e Granada. Em fevereiro de 1086, o rei conquistou Valência com as tropas de Álvaro Fanhes, que ficou encarregado da defesa para que Iáia Alcadir pudesse governar a Taifa de Valência.[7] Na primavera do mesmo ano, Afonso VI pôs cerco a Saragoça, que contou para sua defesa com El Cid como lugar-tenente do rei Almostaim II (r. 1085–1110).[8] Em decorrência dessa ameaça, Almutâmide de Sevilha convocou uma reunião com seus vizinhos, Omar Almotauaquil (r. 1072–1094) de Badajoz e Abedalá ibne Bologuine (r. 1073–1090) de Granada e eles concordaram em enviar uma embaixada a Iúçufe para solicitar auxílio. Almutâmide teria dito na ocasião: "Melhor apascentar camelos do que porcos" — isto é, melhor submeter-se a outro soberano muçulmano do que terminar como súdito de um rei cristão.[9][10]

Como condição para prestar auxílio, Iúçufe exigiu que Algeciras (cidade na margem norte de Gibraltar, em frente a Ceuta) fosse entregue a ele, de modo que pudesse utilizá-la como base para suas tropas, o que Almutâmide concordou. Desconfiado da hesitação dos reis, Iúçufe enviou uma força avançada de 500 soldados através do estreito para tomar Algeciras. Eles o fizeram em julho de 1086, sem encontrar resistência. O restante do exército almorávida, em número aproximado de 12 mil homens, partiu logo em seguida.[9] Diz-se que Abedalá ibne Bologuine ordenou que os tambores da capital ressoassem com a notícia da chegada almorávida, bem como decretou celebrações oficiais.[1] Iúçufe marchou para Sevilha, onde se uniu às forças de Almutâmide, Almutauaquil e Abedalá. Ciente da ameaça, Afonso VI, levantou o cerco de Sevilha e marchou ao sul para confrontá-los. Os exércitos se encontraram ao norte de Badajoz, num local chamado Zalaca, e na Batalha de Zalaca de 23 de outubro, Afonso foi completamente derrotado e forçado a recuar desordenadamente para o norte.[11][12]

Referências

  1. a b Chalmeta 1993, p. 591.
  2. Messier 2010, p. 66–67.
  3. a b c Messier 2010, p. 66–67.
  4. Gómez-Rivas 2014, p. 115.
  5. Kennedy 2014, p. 161.
  6. Hrbek & Devisse 2010, p. 413.
  7. Coscollá 2003, p. 35.
  8. Fletcher 1999, p. 150.
  9. a b Kennedy 2014, p. 162.
  10. Bennison 2016, p. 43.
  11. Kennedy 2014, p. 162–163.
  12. Bennison 2016, p. 43–44.

Bibliografia

  • Bennison, Amira K. (2016). The Almoravid and Almohad Empires. Edimburgo: Editora da Universidade de Edimburgo. ISBN 978-0748646821 
  • Chalmeta, P. (1993). «al-Murābiṭūn». In: Bosworth, C. E.; van Donzel, E.; Heinrichs, W. P.; Pellat, Ch. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. Volume VII: Mif–Naz. Leida: E. J. Brill. ISBN 978-90-04-09419-2 
  • Coscollá, Vicente (2003). La Valencia musulmana. Valência: Carena Editors. ISBN 8487398758 
  • Fletcher, Richard (1999). El Cid. San Sebastián: Editorial NEREA. ISBN 8489569290 
  • Gómez-Rivas, Camilo (2014). Law and the Islamization of Morocco Under the Almoravids:The Fatwās of Ibn Rushd Al-Jadd to the Far Maghrib. Leida: Brill 
  • Hrbek, Ivan; Devisse, Jean (2010). «Capítulo XIII. Os almorávidas». História Geral da África. Vol. III: África do século VII ao XI. São Carlos e Paris: UNESCO e Universidade Federal de São Carlos 
  • Kennedy, Hugh (2014). Muslim Spain and Portugal: A Political History of al-Andalus. Londres e Nova Iorque: Routledge 
  • Messier, Ronald A. (2010). The Almoravids and the Meanings of Jihad. Santa Bárbara: Praeger/ABC-CLIO. ISBN 978-0-313-38590-2