Companhia Manufatora Fluminense de Tecidos

Companhia Manufatora Fluminense
Antigas instalações da Manufatora no Barreto.
S.A. (Extinta)
Fundação11 de abril de 1893
Fundador(es)Joaquim José Rodrigues Guimarães Júnior e José Domingues Teixeira Valle
Encerramento1997
SedeNiterói, RJ
ProdutosTecidos de algodão, fiação

A Companhia Manufatora Fluminense foi uma das mais importantes unidades fabris do estado do Rio de Janeiro, localizada no bairro do Barreto, em Niterói. Fundada no final do século XIX, a fábrica foi o principal motor de desenvolvimento da Zona Norte niteroiense, chegando a figurar entre as maiores indústrias têxteis da América Latina. Após encerrar suas atividades em 1997, o complexo industrial passou por um longo período de abandono. Apesar do reconhecimento de seu valor histórico e arquitetônico, e de discussões sobre possível requalificação urbana, o conjunto permanece em estado de deterioração, com suas edificações industriais e vilas operárias ameaçadas pela especulação imobiliária e pela falta de políticas efetivas de preservação do patrimônio industrial.[1]

História

Fundação e Primeiros Anos

A companhia foi formalmente constituída em 11 de abril de 1893 por iniciativa de Joaquim José Rodrigues Guimarães Júnior e José Domingues Teixeira Valle. A Manufatora surgiu no contexto do surto industrial brasileiro do início da República Velha. Sua localização no Barreto foi estratégica, aproveitando a proximidade com a Baía de Guanabara e a malha ferroviária da Estrada de Ferro Leopoldina, o que facilitava o recebimento de fardos de algodão e a distribuição da produção de tecidos para o interior do estado e para a capital federal à época.[2]

Expansão e Impacto Social

Durante a primeira metade do século XX, a companhia expandiu consideravelmente suas instalações, tornando-se uma "cidade dentro da cidade". A fábrica mantinha uma média superior a 500 operários. A Manufatora foi responsável pela criação de diversas vilas operárias, como a da Rua Dr. Luiz Palmier, que ofereciam moradia aos funcionários e ajudaram a consolidar a ocupação urbana do Barreto.[3] A empresa também oferecia assistência médica e mantinha grêmios recreativos, estabelecendo uma forte identidade cultural operária no bairro.

Decadência e Encerramento

A partir da década de 1970, o parque industrial do Barreto começou a entrar em decadência devido a mudanças no perfil industrial brasileiro e à concorrência com grandes indústrias multinacionais. A Manufatora resistiu por mais tempo que outras fábricas da região, mantendo suas atividades até 1997, quando encerrou definitivamente suas operações, já com um quadro reduzido de funcionários em relação ao seu período áureo.

A Manufatora e o Futebol

A relação da fábrica com o esporte foi um dos pilares de sua relevância social e um importante elemento da identidade operária do bairro.

Origens e o Byron Football Club

Antes da construção do estádio próprio da Manufatora, o local já tinha tradição futebolística. O Byron Football Club, fundado em 21 de outubro de 1913 por funcionários da fábrica, estabeleceu ali seu campo através de parceria com a direção da Companhia. O Byron ficou conhecido por ter revelado o craque Zizinho, um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro. No entanto, a partir do final da década de 1940, surgiram divergências entre os diretores da fábrica, que desejavam ter um clube próprio, e o Byron. O conflito foi parar na Justiça e o Byron acabou despejado da área onde havia construído o campo e a sede.[4][5][6]

Estádio Assad Abdalla

Em 1955, a companhia construiu um estádio próprio no terreno que pertencia ao Byron, batizado com o nome de Estádio Assad Abdalla, que foi um dos ex-presidentes da empresa e defensor da autonomia do clube no futebol. Localizado na Rua Dr. March nº 196, nos terrenos da fábrica, o estádio possuía capacidade para cerca de 3.000 espectadores.[7][8]

Durante quase 30 anos, entre as décadas de 1950 e 1980, o Estádio Assad Abdalla foi palco de importantes partidas do futebol fluminense. O estádio sediou jogos do Campeonato Fluminense, finais do campeonato municipal de São Gonçalo, e partidas memoráveis contra grandes clubes como o Flamengo e até mesmo contra a seleção juvenil do Kuwait. Em 1973, por exemplo, o estádio recebeu a final do campeonato municipal de São Gonçalo entre Porto da Pedra e Clube Mauá.

Manufatora Atlético Clube

Fundado em 11 de abril de 1944 pelos próprios operários da Cia. Manufatora Fluminense de Tecidos, o clube representou o orgulho da classe trabalhadora do Barreto.[9] O Manufatora foi bicampeão do Campeonato Fluminense (1958 e 1977), sendo que na conquista de 1958, derrotou o Rio Branco de Campos na final, tornando-se assim o primeiro representante fluminense na Taça Brasil, competição nacional que antecedeu o Campeonato Brasileiro.[10][11] Na sua única participação na Taça Brasil, foi eliminado na primeira fase pelo Rio Branco do Espírito Santo.[12]

Quando o Manufatora chegou à elite do futebol estadual, o clube mudou de nome para Associação Desportiva Niterói (ADN) em 1978, buscando ampliar sua representação e disputar o Campeonato Carioca entre 1979 e 1981.[13][14] Além do campo, o complexo esportivo contava com área social e instalações que funcionavam como concentração para os jogadores.

Fim do Estádio e do Clube

Após dois rebaixamentos consecutivos no Campeonato Carioca e com o agravamento da crise financeira da fábrica de tecidos, o clube foi extinto em 1983, mesmo ano em que o estádio encerrou suas atividades. A partir de então, o Estádio Assad Abdalla foi progressivamente abandonado, sendo literalmente "engolido" pela vegetação.[15]

Muito embora hoje seja apenas mato, abandono e ruínas no terreno da antiga fábrica, o estádio permanece vivo na memória de ex-atletas e moradores da região que, em domingos já distantes na história, viveram ali emocionantes momentos do futebol operário fluminense.[16]

Patrimônio e Preservação

Estado Atual e Abandono

Após o fechamento definitivo em 1997, o complexo industrial da Manufatora encontra-se em avançado estado de abandono e deterioração. As edificações fabris, que incluem galpões com arquitetura em shed característica da indústria têxtil, apresentam sinais evidentes de degradação: telhados danificados, estruturas comprometidas, vegetação invasora e depredação. O antigo Estádio Assad Abdalla, que foi símbolo do futebol operário, permanece como área abandonada no terreno, tomado pela vegetação.

As vilas operárias construídas pela empresa, especialmente o conjunto de residências da Rua Dr. March, enfrentam situação variada: algumas mantêm-se habitadas e em relativo estado de conservação graças aos esforços individuais de moradores e locatários, enquanto outras apresentam descaracterizações significativas, falta de manutenção ou encontram-se vazias e deterioradas.

Questões de Preservação

O conjunto arquitetônico da Manufatora representa importante exemplar do patrimônio industrial brasileiro, com valor histórico, arquitetônico e social. As edificações documentam não apenas a história da industrialização fluminense, mas também a memória operária e as transformações urbanas de Niterói. No entanto, o complexo não possui proteção legal efetiva através de tombamento em nível municipal, estadual ou federal.

Estudos acadêmicos têm apontado a necessidade urgente de reconhecimento e proteção deste patrimônio. Em trabalho de conclusão de curso desenvolvido na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ (2021), foi proposta a criação de uma Zona Especial de Preservação do Ambiente Cultural (ZEPAC) para o conjunto, instrumento previsto no Plano Diretor de Niterói que permitiria a preservação da memória industrial sem inviabilizar novos usos.[17]

Desafios e Perspectivas

A localização privilegiada do complexo em área urbana consolidada, próxima à divisa com São Gonçalo e à Baía de Guanabara, torna o terreno alvo da especulação imobiliária. A ausência de instrumentos legais de proteção e a falta de interesse do poder público em desenvolver projetos de requalificação urbana colocam em risco a permanência das edificações históricas.

Possíveis cenários de requalificação incluiriam a transformação das edificações industriais em espaços culturais, educacionais ou de uso misto, preservando elementos arquitetônicos significativos e mantendo a memória do lugar. As vilas operárias poderiam ser restauradas mantendo seu uso habitacional, com diretrizes que garantissem a preservação de suas características originais. No entanto, tais iniciativas dependem de vontade política, recursos financeiros e participação da comunidade local.

Legado Cultural

Em 2021, a memória da fábrica e sua ligação com o futebol foram resgatadas no documentário "Relembra – Futebol de Operários do Manufatora Atlético Clube", dirigido por Fabrício Basílio. O filme destaca como a fábrica não era apenas um local de trabalho, mas o centro da vida social e esportiva da Zona Norte de Niterói, contribuindo para manter viva a memória operária na região.[18]

A identidade operária permanece presente na memória dos antigos trabalhadores e moradores do Barreto, que mantêm viva as lembranças do apito da fábrica marcando a troca de turnos, dos jogos de futebol no estádio, das festas e encontros nas vilas operárias. Essa memória coletiva representa patrimônio imaterial que corre o risco de se perder com o desaparecimento definitivo das estruturas físicas que lhe dão suporte.

Ver também

Referências

  1. «Cia. Manufatora Fluminense de Tecidos». Fundação de Arte de Niterói. Consultado em 20 de maio de 2024 
  2. Soares, Bruno Marques (2015). O Barreto Industrial: Patrimônio e Memória Operária em Niterói (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal Fluminense (UFF) 
  3. «Cia. Manufatora Fluminense de Tecidos». Fundação de Arte de Niterói. Consultado em 20 de maio de 2024 
  4. «Byron, do Barreto, fez história e até jogo contra o Flamengo». O São Gonçalo. 14 de julho de 2015. Consultado em 1 de julho de 2025 
  5. «Byron Football Club – Niterói (RJ): Uniforme de 1922, com as linhas em zigue-zague». História do Futebol. 18 de março de 2017. Consultado em 21 de abril de 2025 
  6. de ALMEIDA, Auriel (1 de outubro de 2015). Camisas do Futebol Carioca. Rio de Janeiro: Maquinária. ISBN ‎978-8562063602 
  7. «'Palco' de dribles de Zizinho está abandonado no Barreto». O São Gonçalo. 28 de julho de 2015. Consultado em 29 de julho de 2025 
  8. Ari Lopes; Sérgio Soares; Gustavo Aguiar (5 de janeiro de 2017). «Estádio Assad Abdalla, no Bairro do Barreto, em Niterói (RJ): 'Palco' de dribles de Zizinho está abandonado». História do Futebol. Consultado em 29 de julho de 2025 
  9. Andriel, Gabriel (10 de Fevereiro de 2022). «Manufatora Atlético Clube: o brilho de uma estrela que não se apaga». Última Divisão. Consultado em 25 de Outubro de 2023 
  10. Matos, Antônio (1 de fevereiro de 2021). Heróis de 59. [S.l.]: Solisluna Editora 
  11. «Manufatora no jogo das faixas». Jornal dos Sports (RJ) (edição14640): 06. 23 de novembro de 1977. Consultado em 26 de outubro de 2023 
  12. «BOLA N@ ÁREA - Taça Brasil 1959 - Tabela». www.bolanaarea.com. Consultado em 25 de outubro de 2023 
  13. Ricão, Roberto (31 de março de 1978). «Meio Tempo: Uma vaga para a Manufatora». Editora Abril. Revista PLACAR (414): 26. Consultado em 25 de Outubro de 2023 
  14. Ricão, Roberto (12 de maio de 1978). «Meio Tempo: Manufatora já é Niterói». Editora Abril. Revista Placar (420): 60. Consultado em 25 de Outubro de 2023 
  15. «Mais um clube que pára, mais um estádio que fecha: AD Niterói não existe mais. E o Assad Abdala é demolido.». O Fluminense( RJ) (24658). 4 de janeiro de 1984. Consultado em 25 de Outubro de 2023 
  16. «Manufatora: Clube de futebol niteroiense vira filme». O Fluminense. Consultado em 20 de maio de 2024 
  17. Sinfronio, Suellen Correia Lopes (2021). Proposta de preservação de conjunto industrial no Barreto (Trabalho Final de Graduação). Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 
  18. «Filme sobre o Manufatora Atlético Clube». Guia de Niterói. Consultado em 20 de maio de 2024 

Ligações externas