Comissão da Verdade e Reconciliação de Fiji
A Comissão da Verdade e Reconciliação de Fiji é um órgão de justiça restaurativa estabelecido em Fiji para investigar violações de direitos humanos durante o período de turbulência política que se seguiu aos golpes de Estado de 1987, incluindo os golpes de Estado subsequentes de 2000 e de 2006 e o regime militar de Bainimarama. É presidida pelo diplomata austríaco Marcus Brand.[1]
Contexto
Os golpes de Estado de 1987 deram início a um período de instabilidade política em Fiji. Após os golpes, Fiji tornou-se uma república parlamentarista. A constituição foi reescrita em um esforço para consolidar a supremacia i-Taukei e, em seguida, reescrita novamente em um esforço para restaurar a harmonia racial.[2] A Constituição de Fiji resultante, de 1997, não conseguiu resolver as tensões subjacentes sobre poder e propriedade de terras, e a eleição de Mahendra Chaudhry como o primeiro primeiro-ministro indo-fijiano resultou em uma tentativa de restaurar a supremacia i-Taukei durante o golpe de Estado de 2000.
No golpe de 2000 observou-se abusos significativos dos direitos humanos, tanto como parte da violência e ilegalidade que cercaram o golpe, quanto da resposta militar. Os aldeões indo-fijianos foram aterrorizados e expulsos de suas casas,[3] enquanto um motim subsequente da Unidade de Guerra Contrarrevolucionária em Suva testemunhou quatro soldados rebeldes torturados até a morte por lealistas no rescaldo.[4] Embora George Speight e outros líderes golpistas foram processados por traição e presos,[5] outros (incluindo o futuro presidente Naiqama Lalabalavu) foram eleitos para o parlamento nas eleições gerais de 2001 e posteriormente se juntaram ao governo. Quando foram finalmente condenados e presos por seus crimes,[6] foram liberados para cumprir suas sentenças extramuros após apenas 11 dias,[7] e posteriormente autorizados a retornar aos seus assentos no parlamento.[8] Além disso, ocorrem especulações constantes de que Speight era apenas uma fachada para outras forças e que os responsáveis pelo golpe nunca foram identificados e punidos.[9][10]:263
O governo do Soqosoqo Duavata ni Lewenivanua (SDL) de Laisenia Qarase tentou resolver o problema por meio do Projeto de Lei de Reconciliação, Tolerância e Unidade, que teria estabelecido uma comissão da verdade no estilo sul-africano e perdoado aqueles que prestassem depoimento. A oposição ao projeto de lei pelo líder militar Frank Bainimarama resultou no golpe de Estado de 2006[11] e em uma nova série de abusos de direitos humanos. O regime militar de Bainimarama impôs uma nova constituição por decreto antes da transição para a democracia nas eleições gerais de 2014. Assim como nas constituições pós-golpe anteriores, a Constituição de Fiji de 2013 incluiu uma cláusula que garantia imunidade aos regimes militares por seus crimes.[12] Essa imunidade foi consolidada com uma cláusula que afirmava que "não será revisada, emendada, alterada, anulada ou revogada".[13]
Uma comissão de verdade e reconciliação permaneceu como política dos sucessores políticos do SDL. O Partido Liberal Social-Democrata a incluiu em seu manifesto para a eleição de 2014.[14] O líder da Aliança Popular (e líder do golpe de 1987), Sitiveni Rabuka, prometeu uma comissão de verdade e reconciliação durante a campanha nas eleições gerais de 2022.[15] Em dezembro de 2023, o governo Rabuka perdoou vários dos condenados por envolvimento no golpe de 2000.[16] O líder golpista, George Speight, foi perdoado e libertado em setembro de 2024.[17][18]
Criação e composição
A comissão foi criada pela Lei da Comissão da Verdade e Reconciliação de Fiji de 2024.[19] A lei foi desenvolvida por um comitê diretor liderado pela ministra associada para as mulheres, Sashi Kiran,[20] que conduziu um processo de consulta pública para desenvolver um projeto de lei.[21][22] A lei foi aprovada em 5 de dezembro de 2024, com 33 parlamentares a favor e 15 contra.[23]
A comissão é composta por cinco comissários, três dos quais devem ser cidadãos fijianos.[24] Os membros iniciais foram Marcus Brand, Sekove Naqiolevu, Rachna Nath, Ana Laqeretabua e Rajendra Hiralal Dass. Eles foram empossados em 30 de janeiro de 2025.[25] Após um período preparatório de três meses, realizará audiências durante 18 meses, antes de apresentar um relatório ao presidente das Fiji.[26]
A comissão está autorizada a ouvir provas em sigilo[27] e está proibida de identificar qualquer indivíduo sem o seu consentimento, a menos que tenha sido previamente identificado publicamente..[28] As provas apresentadas à comissão não podem ser utilizadas em nenhum caso civil ou criminal, exceto aquelas relacionadas à indução em erro da comissão.[29] O objetivo do inquérito da comissão é a responsabilização social e a apuração da verdade, e não o processo criminal.[30]
Paralelamente à criação da comissão, as Forças Militares da República de Fiji iniciaram seu próprio processo de reconciliação e se comprometeram a pôr fim à sua cultura golpista.[31][32]
Em janeiro de 2025, o primeiro-ministro em exercício e ex-líder golpista, Sitiveni Rabuka, declarou que testemunharia voluntariamente perante a comissão e identificaria os responsáveis pelos golpes de 1987 e de 2000.[26][33]
Nota
- Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em inglês cujo título é «Fiji Truth and Reconciliation Commission».
Referências
- ↑ «The EU supports Fiji to foster national reconciliation in the country». Delegation of the European Union to the Pacific. 30 de janeiro de 2025
- ↑ Ghai, Yash; Cottrell, Jill (2007). «A tale of three constitutions: Ethnicity and politics in Fiji». International Journal of Constitutional Law. 5 (4): 639–669
- ↑ Matthew Brace (31 de Julho de 2000). «Ethnic attack raises Fiji tension». The Guardian
- ↑ «Fiji commemorates 2000 mutiny». Radio New Zealand. 2 de Novembro de 2020
- ↑ «Jail for Fiji rebels». BBC. 19 de fevereiro de 2002
- ↑ «Fiji's lands minister jailed for 8 months for coup offences». RNZ. 4 de Abril de 2005
- ↑ «Criticism in Fiji over release of Lalabalavu and Dimuri». RNZ. 15 de Abril de 2005
- ↑ «Jailed Fiji government MPs cleared to return to parliament». RNZ. 11 de agosto de 2005
- ↑ «The truth about the 2000 coup and mutiny». Fiji Times. 3 de agosto de 2024
- ↑ Field, Michael; Baba, Tupeni; Nabobo-Baba, Unaisi (2005). Speight of Violence : Inside Fiji's 2000 coup (PDF). Canberra: Pandanus Books. ISBN 9781740761703
- ↑ «Fiji military seizes power in bloodless coup». Guardian. 5 de dezembro de 2006
- ↑ «TRUTH RECONCILIATION COMMISSION: 'No Help & Value'». Fiji Sun. 2 de setembro de 2024
- ↑ Constitution of the Republic of Fiji (2013), section 158(1).
- ↑ «SODELPA launches manifesto». Fiji Sun. 19 de Julho de 2014
- ↑ «Commission To Reconcile The Past: Sitiveni Rabuka». Fiji Sun. 9 de dezembro de 2022
- ↑ «Fiji's president pardons coup prisoners - No threat to 'established order', expert says». RNZ. 22 de dezembro de 2023
- ↑ «Fiji coup leader George Speight granted Presidential pardon». RNZ. 19 de setembro de 2024
- ↑ «Chaudhry Expresses Disappointment, Speight Should Reveal the Truth». Fiji Sun. 21 de setembro de 2024
- ↑ «Fiji Truth and Reconciliation Commission Act 2024» (PDF). Parliament of Fiji. 6 de dezembro de 2024
- ↑ «Committee to help in developing a legal framework for the Fiji Truth and Reconciliation Commission - Kiran». Fiji Village. 24 de agosto de 2024
- ↑ «Families Seek Answers on Alleged Torture». Fiji Sun. 29 de agosto de 2024
- ↑ «Reconciliation Commission to Have Neutral Chair». Fiji Sun. 29 de agosto de 2024
- ↑ «MPs Pass Truth Bill». Fiji Sun. 5 de dezembro de 2024
- ↑ Fiji Truth and Reconciliation Commission Act 2024, section 5(2)
- ↑ «Commissioners of Fiji Truth and Reconciliation Commission sworn in today». Fiji Village. 30 de janeiro de 2025
- ↑ a b «Rabuka to come clean about 1987 coups to Fiji's Truth and Reconciliation Commission». RNZ. 31 de janeiro de 2025
- ↑ Fiji Truth and Reconciliation Commission Act 2024, section 15(5)
- ↑ Fiji Truth and Reconciliation Commission Act 2024, section 15(9)
- ↑ Fiji Truth and Reconciliation Commission Act 2024, section 16(3)
- ↑ «Commission has teeth but we will not pass judgments or pronounce anybody guilty – Dr Brand». Fiji Village. 31 de janeiro de 2025
- ↑ «Fiji military chief outlines commitment to end coup culture». RNZ. 26 de setembro de 2024
- ↑ Praneeta Prakash (26 de agosto de 2024). «RFMF committed to national reconciliation process». FBC News
- ↑ «1987 Coup: Rabuka To Tell All at TRC». Fiji Sun. 31 de janeiro de 2025