Cide Hamete Benengeli
| Cide Hamete Benengeli | |
|---|---|
| Personagem de Dom Quixote | |
![]() A primera página do capítulo XV da edição de Dom Quixote de Manuel Martín traz menção ao nome de Cide Hamete Benengeli | |
| Informações gerais | |
| Criado(a) por | Miguel de Cervantes |
| Informações pessoais | |
| Nome completo | Cide Hamete Benengeli |
| Informações profissionais | |
| Ocupação | |
Cide Hamete Benengeli é um personagem chave do romance "Dom Quixote", apresentado como suposto autor original da história. Cervantes, o verdadeiro autor, idealizou Benengeli, fingindo ser apenas o "padrasto" da obra, que teria encontrado e publicado em versão final.[1]
Apresentação do personagem
Cervantes declara, no prólogo de "Dom Quixote", que não é o "pai" da obra, mas seu "padrasto".[nota 1] Esta afirmação pode fazer com que os leitores se perguntem quem, então, seria o autor da história.[1]
A resposta aparece no capítulo IX,[1][3] quando Cide Hamete Benengeli é introduzido na obra como um historiador mourisco, supostamente o autor original do calhamaço manuscrito descoberto em Alcaná de Toledo,[3] intitulado "História de Dom Quixote de la Mancha",[1] que narra as aventuras de Dom Quixote.[1][3]
Origem do nome
A escolha do nome de Cide Hamete não foi mero capricho de Cervantes. Estes dois primeiros nomes seriam paronomásticos, ou seja caracterizados por som semelhante, se aproximando de uma tradução românica de sigillum Hermetis, ou selo de Hermes. Tal como o selo hermético é um componente importante da grande obra alquímica, Benengeli, por sua função, atua como selo de Hermes no romance, selando a narrativa e impedindo a entrada de "realidade" no vaso alquímico da história, que contém o "doente" Dom Quixote.[4]
Traduzido literalmente, Cide Hamete pode ser interpretado como "um da tribo da abóbora", alusão a uma tradição literária que simboliza as cabeças e as mentiras contadas pelos poetas.[4] Assim, Benengeli pode ser interpretado como o "senhor ou controlador, do domínio da imaginação".[4]
Além disso, os próprios personagens da obra passam tempo tentando compreendê-lo:
- Dom Quixote interpreta que "Cide", em arábico, quer dizer "senhor". O nome "Cide" (ou Cid) é comparado à forma castelhana de uma palavra árabe (sīdi, ou sīd), que pode ser traduzida como "Senhor" ou "Sir".[4]
- Sancho Pança traduz o sobrenome Benengeli, inadvertidamente, como "Berenjena", palavra espanhola para beringela, justificando para isso que "os mouros são amigos de berenjenas".[4]
Características

Cervantes — o "padrasto" do livro —, desconfia dos árabes por, naquela época, serem considerados "mentirosos".[1] Assim, como narrador principal, vive criticando Benengeli, chamando-o de "falsário" e "enganador", ironicamente tudo o que um historiador não deveria ser.[1] Tal desconfiança também se justifica pelo papel de Benengeli ser uma paródia da figura do "sábio" que registrava as façanhas dos cavaleiros nos romances de cavalaria.[4] No entanto, por ser um "infiel" e oriundo de um povo de enganadores, falsários e sonhadores, a relação entre o que ele escreveu e a verdade pode estar comprometida.[4]
Além de ser alvo de desconfiança por sua origem, Benengeli é criticado por seu jeito de escrever, que não é direto. O narrador o acusa de ter um estilo "exagerado, enfático e fantasioso", cheio de palavras difíceis e redundâncias.[1] O narrador chega a zombar do historiador, chamando-o de "filósofo maometano", para depois provar que suas ideias não eram profundas, mas apenas "clichês".[1] Em termos de função, Benengeli atua como uma das "múltiplas máscaras de Cervantes", o que, paradoxalmente, concede ao autor "liberdade para criar e controlar o que ele criou".[4]
Tal desqualificação tem um objetivo: o narrador de "Dom Quixote" se coloca como um "censor".[1] Ao mostrar que Benengeli é mentiroso e exagerado, o narrador principal se torna a voz sóbria, verdadeira e coerente,[1] que diz ao leitor que "o que você está lendo não é a história mal contada do árabe, mas a versão corrigida e confiável por mim".[1] Com isso, Benengeli, que começou como um artifício narrativo simples,[5] torna-se o bode expiatório para que o narrador ganhe credibilidade com o leitor.[1]
Em uma leitura mais profunda, Benengeli também assume um papel esotérico: seu nome, Cide Hamete, é comparado a sigillum Hermetis (o Selo de Hermes), o que o caracteriza como o selo hermético que protege, ou sela, a obra em curso.[4] Por essa perspectiva, ele aprisiona Dom Quixote, a "prima materia 'doente'", dentro do "vaso alquímico" da narrativa, garantindo que nenhuma "incursão da realidade" entre no mundo da ficção, estendendo seu controle até que seja visto como "o senhor, ou controlador, do domínio da imaginação".[4]
Notas
- ↑ Conforme edição em português do Brasil de "Dom Quixote", da Penguin-Compahia:[2] "Acontece de um pai ter um filho feio e sem graça alguma, e o amor que tem por ele venda-lhe os olhos para que não veja seus defeitos [...] Mas eu — que, embora pareça pai, sou padrasto de dom Quixote — não quero [...] que me perdoes ou toleres os defeitos que vires neste meu filho [...]"
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j k l m Pitol, Celso A. Uequed (11 de julho de 2017). «Um caso de manipulação». Digestivo Cultural. Consultado em 2 de dezembro de 2025
- ↑ Cervantes, Miguel de (5 de dezembro de 2012). Dom Quixote. [S.l.]: Penguin-Companhia. 1328 páginas. ISBN 978-8563560551. Consultado em 3 de dezembro de 2025
- ↑ a b c Arrieta, José Ángel Ascunce (1 de novembro de 2005). «O historiador Cide Hamete Benengeli ou a tragicomédia do primeiro autor». Revista USP (67): 270–281. ISSN 2316-9036. doi:10.11606/issn.2316-9036.v0i67p270-281. Consultado em 2 de dezembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j Soons, C. A. (1959). «Cide Hamete Benengeli: His Significance for "Don Quijote"». The Modern Language Review (3): 351–357. ISSN 0026-7937. doi:10.2307/3720901. Consultado em 3 de dezembro de 2025
- ↑ Gurgen, Emre (16 de junho de 2014). Don Quixote Explained Reference Guide: Character Encyclopedia, Relationship Dictionary, Theme Reader, Episode Primer, Geographic Atlas, Joke Digest, Latin Translator, and More. (em inglês). [S.l.]: AuthorHouse. 576 páginas. ISBN 9781491873717. Consultado em 2 de dezembro de 2025
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