Cerco de Fez (1146)
| Cerco de Fez | |||
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| Data | 1146 | ||
| Local | Fez, Império Almorávida | ||
| Desfecho | Vitória almóada | ||
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O cerco de Fez ocorreu em 1146, quando o Império Almorávida foi gradualmente conquistado pelo Califado Almóada sob o comando de Abde Almumine (r. 1133–1163). O episódio resulta de um longo processo iniciado em 1121, quando Ibne Tumarte, fundador e mádi do movimento almóada, chegou à cidade para pregar sua doutrina e acabou expulso devido à hostilidade almorávida. Estabelecendo-se em Tinmel, no Alto Atlas, Ibne Tumarte lançou as bases do futuro avanço almóada, que seu discípulo Abde Almumine transformou numa campanha militar sistemática ao longo dos anos 1130 e 1140.
Evitando inicialmente o confronto direto nas planícies, Abde Almumine concentrou-se em conquistar fortalezas e submeter tribos berberes no Suz, no vale do Drá e na cordilheira do Atlas, privando os almorávidas do acesso a riquezas minerais e às rotas comerciais com a África subsaariana, ao mesmo tempo em que formava alianças militares. Com suas forças consolidadas, expandiu os domínios almóadas em direção ao norte, conquistando o Médio Atlas, Tafilete e a região de Taza, bem como cidades e fortalezas desde Uádi Lau até o litoral oraniano. O enfraquecimento almorávida foi acelerado por crises internas e sucessivas derrotas, culminando no cerco de nove meses de Fez. Em seguida, em 1146, ele iniciou o cerco de Marraquexe, que durou onze meses e terminou com a captura da capital em 24 de março de 1147.
Contexto
Em 1121, Ibne Tumarte, fundador e mádi do movimento reformista almóada, chegou a Marraquexe para pregar as suas ideias, onde encontrou-se com o emir almorávida, Ali ibne Iúçufe (r. 1106–1143), durante as orações na mesquita, e o confrontou sobre os seus modos de governar.[1] A liderança política almorávida tornou-se hostil à sua presença, e Ibne Tumarte fugiu ao Atlas, estabelecendo-se em Tinmel, a sul de Marraquexe. Com apoio das tribos berberes locais, realizou uma tentativa frustrada de conquistar Marraquexe, que terminou em sua derrota na Batalha de Albuaira de 1130.[2] Seu pupilo e fiel seguidor, Abde Almumine, ao longo dos anos 1130 e 1140 dedicar-se-ia à conquista do Império Almorávida.[3][4] Evitando as planícies, onde a cavalaria almorávida tinha vantagem, Abde Almumine preparou-se para submeter as montanhas para tomar as riquezas minerais e controlar as vias comerciais. Obtendo apoio de várias cabilas do Atlas, submeteu Suz e o vale do rio Drá, regiões essenciais para o lucrativo comércio que os almorávidas mantinham com a África subsaariana, onde construiu sólida base de ataque e possível recuo. Dali, conquistou a linha de fortalezas que no norte cercavam o Alto Atlas, evitando o acesso às planícies e Marraquexe. Deixando as planícies, Abde Almumine seguiu o caminho das montanhas para nordeste, tomando as cidades fortificadas de Demnate e Dei, numa manobra destinada a isolar o território almorávida central.[5][4]
Em 1140-1141, assegurou o Médio Atlas e oásis de Tafilete. A partir do maciço montanhoso de Jebala, ao norte do Marrocos, tomou as fortalezas da região de Taza, de onde fez a conquista das cabilas submediterrâneas de Uádi Lau, Badis, Necor, Melilha e a região oraniana setentrional, terminando numa entrada triunfal em Tagra. Com tais sucessos, deixou os almorávidas flanqueados e os privou das minas das montanhas, centro nevrálgico da guerra. A partir de então, à frente de forças consideráveis e dispondo de importantes recursos, se preparou para enfrentar os almorávidas nas planícies. Sua investida foi facilitada porque, em 1143, a sucessão do emir Taxufine ibne Ali ibne Iúçufe (r. 1143–1145) provocou dissensões entre os chefes lantunas e massufas, e em 1145 a morte do catalão Reverter, chefe das milícias cristãs almorávidas, privou-os de seus generais mais devotos e hábeis. Além disso, o tawhid (unicidade) almóada compeliu os zenetas a tomarem Tremecém, obrigando o emir Taxufine a recuar para Orã, onde morreu em consequência de uma queda de cavalo.[6] Com essas vitórias, Abde Almumine marchou contra Ujda e Guercife, Salé, Mequinez e Fez.[7]
Cerco e rescaldo
Em 1146, Abde Almumine iniciou o cerco de Fez, que se prolongou por nove meses. Em paralelo, iniciou o cerco de Marraquexe, onde o último emir almorávida, Isaque ibne Ali (r. 1147), estava aquartelado.[8] Um judeu de Segelmeça, chamado Salomão, relatou que durante a conquista de Fez teriam sido mortos 100 mil muçulmanos e judeus; embora estes números não devam ser tomados literalmente, correspondem a fontes árabes que mencionam que a população masculina foi passada ao fio da espada enquanto as mulheres foram vendidas como escravas.[9] Iáia ibne Isaque Almassufi, um dos nobres almorávidas, filho de Ali ibne Iúçufe, estava com Taxufine ibne Ali quando o emir recuou para Orã. Ao perceber que a causa almorávida estava perdida, fugiu ao deserto e, algum tempo depois, apresentou-se a Abde Almumine quando sitiava fez. Ibne Idari coloca que Iáia foi acompanhado por um grupo de seus irmãos massufas, trajados com litame, que retiraram diante de Fez e adotaram os trajes almóadas. Ao apoiar os almóadas, Iáia garantiu a segurança de sua esposa e família, que viviam em Marraquexe e corriam risco durante o cerco almóada.[10]
Referências
- ↑ Deverdun 1959.
- ↑ Bennison 2016, p. 69.
- ↑ Lévi-Provençal 1986, p. 79.
- ↑ a b Saidi 2010, p. 37; 39.
- ↑ Lévi-Provençal 1986, p. 78.
- ↑ Saidi 2010, p. 39.
- ↑ Lévi-Provençal 1986, p. 79.
- ↑ Beauregard 1998, p. 4.
- ↑ Goitein 1967, p. 59.
- ↑ Lourinho 2023, p. 73.
Bibliografia
- Beauregard, Erving E. (1998). «Abd al-Mu'min». In: Magill, Fank Northen; Aves, Alison. Dictionary of World Biography: The Middle Ages. Londres e Nova Iorque: Routledge
- Bennison, Amira K. (2016). The Almoravid and Almohad Empires. Edimburgo: Editora da Universidade de Edimburgo
- Deverdun, Gaston (1959). Marrakech: Des origines à 1912. Rabate: Éditions Techniques Nord-Africaines
- Goitein, S. D. (1967). A Mediterranean Society: The individual. Berkeley: Editora da Universidade da Calífórnia
- Kennedy, Hugh (2014). Muslim Spain and Portugal: A Political History of al-Andalus. Londres e Nova Iorque: Routledge
- Lévi-Provençal, E. (1986). Gibb, H. A. R.; Kramers, J. H.; Levi-Provençal, E.; Schacht, J., ed. The Encyclopaedia of Islam Vol. I A-B. Leida: Brill
- Lourinho, Inês (2023). Guerra, Amílcar; Rodrigues, Hermenegildo Fernandes Nuno SImões; Horta, Martim Aires, eds. «O rei Esmar e a "Batalha" de Ourique: Uma identificação a partir das fontes muçulmanas». Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa. Cadmo: Revista de História Antiga. II (4)
- Saidi, O. (2010). «2 - A unificação do Magreb sob os Almóadas». In: Niane, Djibril Tamsir. História Geral da África IV - África do Século XII ao XVI. Paris; São Carlos: UNESCO; Universidade de São Carlos