Casa do Gaiato
A Obra da Rua, ou Obra do Padre Américo MHM, mais conhecida como Casa do Gaiato, é uma instituição particular de solidariedade social com sede em Paço de Sousa (Penafiel), fundada pelo Padre Américo (Américo Monteiro de Aguiar) em 1940, e que tem como objetivo acolher, educar e integrar na sociedade crianças e jovens que, por qualquer motivo, se viram privados de meio familiar normal.
Descrição
A Obra da Rua consiste numa organização religiosa, integrada na Igreja Católica, e legalmente considerada como uma Instituição Particular de Solidariedade Social.[1] Tem como finalidade apoiar pessoas em situação financeira precária, principalmente crianças e doentes, de acordo com os princípios doutrinários cristãos.[1] Tem o lema «Obra de rapazes, para rapazes, pelos rapazes», o que significa que o pessoal da organização deve tentar reduzir a sua interferência durante os processos formativos, no sentido de impulsionar os ideais de responsabilidade e iniciativa entre os pupilos.[1] Destaca-se igualmente a iniciativa do Património dos Pobres, que tem como fim melhorar as condições de habitação das famílias, através da autoconstrução e outras intervenções.[1]
Está sedeada na Casa do Gaiato do Porto, em Paço de Sousa, e opera tanto em território nacional como em Angola e Moçambique.[1] Está organizada em vários núcleos, incluindo as Casas do Gaiato, os Lares de Estudo e de Trabalho, que têm como finalidade desenvolver a formação escolar a integração social e profissional, os Lares de Férias, e o Calvário, destinado a doentes incuráveis e abandonados.[1] Em Portugal possui as Casas do Gaiato do Porto, em Paço de Sousa,[2] de Coimbra, em Miranda do Corvo,[3] de Setúbal,[4] e de Beire,[5] além das Escolas Oficinas de Paço de Sousa e de Setúbal.[6] Em Angola mantém as Casas do Gaiato de Malanje,[7] e de Benguela,[8] e no passado também teve uma delegação em Moçambique, a Casa do Gaiato de Maputo.[9]
História
Início das operações
As primeiras instalações da Casa do Gaiato foram abertas em 7 de Janeiro de 1940, com a Casa do Gaiato de Coimbra, em Miranda do Corvo, por iniciativa do Padre Américo Monteiro de Aguiar.[10] Cerca de três anos depois, em 31 de Maio de 1943, entrou em serviço a segunda delegação, a Casa do Gaiato do Porto, situada em Paço de Sousa, no concelho de Penafiel.[1] Esta tornou-se desde logo na sede da organização.[1] Alojava originalmente cerca de trezentas crianças e jovens do sexo masculino, e era formada por quartos, oficinas um capela, uma escola, uma cozinha, campos de jogos e um campo agrícola.[11] Porém, a instituição só foi constituída do ponto de vista jurídico em 1947, por um despacho do Subsecretário de Estado da Assistência Social.[1]

Expansão
Em 1947[11] ou 1948 foi fundada a Casa do Gaiato de Lisboa, situada na Quinta do Palácio dos Arcebispos, em Santo Antão do Tojal, no concelho de Loures, igualmente pelo Padre Américo de Aguiar.[12] Foi criada a pedido do cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, no sentido de ajudar o grande número de crianças e jovens em risco que se fazia sentir nessa época.[12]
Em 1951 entrou ao serviço a Casa do Gaiato de São Miguel, no Arquipélago dos Açores, por pedido do presidente da Junta Geral de Ponta Delgada, Pedro Cymbron.[11] Em 1955 foi inaugurada a Casa do Gaiato de Setúbal,[13] em 5 de Novembro de 1964 abriu a Casa do Gaiato de Benguela, em Angola[14] no ano seguinte a Casa do Gaiato de Malanje, e em 1967 a delegação de Lourenço Marques, em Moçambique.[11]
Em 1984, por decreto do Arcebispo-Bispo do Porto, D. Júlio Tavares Rebimbas, a Obra da Rua deixou de ser uma instituição civil, e passou a estar integrada na organização da Igreja Católica.[1] Em 1996 foram aprovados novos estatutos, por decreto episcopal.[1] A 15 de Janeiro de 1998 foi feita Membro-Honorário da Ordem do Mérito.[15]
Décadas de 2000 e 2010
A partir da década de 2000, surgiram várias acusações sobre as condições nos estabelecimentos geridos pela Casa do Gaiato, tendo em 2004 sido publicado o relatório de uma auditoria da Inspecção-Geral do Ministério da Segurança Social, onde foram listadas várias situações graves, como «indícios de maus tratos, psicológicos e físicos», a «sobrelotação das camaratas», o avançado estado de degradação das instalações, e um ambiente de «isolamento, repressão e clausura».[16] Desta forma, na auditoria recomendou-se que todos os alunos menores deveriam ser urgentemente retirados da Casa do Gaiato e transferidos para outras instituições ou famílias de acolhimento, e foi desde logo suspenso o envio de novas crianças para aquele organismo.[16] Em 2006, a delegação de Loures foi desagregada da organização geral da Casa do Gaiato, passando a fazer parte do Patriarcado de Lisboa, tendo alterado a sua denominação para a Casa São Francisco de Assis - Antiga Casa do Gaiato de Lisboa.[12] Esta decisão foi oficialmente justificada pela falta de sacerdotes ao serviço da instituição da Obra de Rua, embora o jornal Público tenha avançado a teoria de que também terá sido motivada pelos vários inquéritos abertos pelo Ministério Público sobre alegados maus tratos dentro do estabelecimento.[17]
Em 8 de Novembro de 2018, o jornal Público noticiou que as instalações em Beire tinham sido encerradas pela Segurança Social, alegando que tinha sido verificada a existência « graves irregularidades», como «deficientes condições das instalações e de segurança e insuficiência de recursos humanos», situação «que colocava em perigo iminente a integridade de utentes, portadores de deficiências físicas e/ou mentais, entre outras». Este processo foi criticado pelo padre Júlio Pereira, que dirigia a unidade de Beire, que denunciou a forma como os utentes foram retirados, explicando que «Depois de tantos anos nesta comunidade, para onde alguns vieram ainda muito novos com doenças crónicas, retirá-los assim, desta forma quase selvagem, isto causa sofrimento». Segundo Júlio Pereira, o edifício «tem todas as condições para funcionar, como já funciona há 60 anos», e denunciou que «querem-nos encaixar à força no modelo da Segurança Social. Nós não encaixamos num modelo que não é o nosso».[18]
Casas
A Obra da Rua ou Obra do Padre Américo tem casas em:
- Miranda do Corvo (Coimbra), Casa do Gaiato de Coimbra, fundada em 1940;
- Paço de Sousa (Porto), Casa do Gaiato de Paço de Sousa, fundada em 1943;
- Beire (Paredes), Calvário e Casa do Gaiato de Beire, fundada em 1956;
- Setúbal, Casa do Gaiato de Setúbal, fundada em 1955.
- Teve em Loures - Santo Antão do Tojal (Lisboa), a Casa do Gaiato de Lisboa, a qual deixou de pertencer à Obra da Rua em 2006. Fora fundada em 1948. É propriedade da Diocese de Lisboa. Tem atualmente o nome de Casa de S. Francisco de Assis, mantendo em subtítulo o nome de "antiga Casa do Gaiato de Lisboa").
- Tem igualmente Casas em Angola (Benguela e Malanje, ambas fundadas em 1964).
- Teve a Casa do Gaiato de Moçambique, em Maputo, Moçambique, até 2018. A Embaixada do Japão reabilitou o abastecimento de água em 2017.[19] Em 2020, durante a Pandemia de COVID-19, foi noticiado um surto na Casa do Gaiato de Maputo.[20]
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j k «Estatutos em vigor (Ano de 2015)». Obra da Rua. Consultado em 28 de Janeiro de 2026
- ↑ «Casa do Gaiato do Porto». Obra da Rua. Consultado em 29 de Janeiro de 2026
- ↑ «Casa do Gaiato de Coimbra». Obra da Rua. Consultado em 29 de Janeiro de 2026
- ↑ «Casa do Gaiato de Setúbal». Obra da Rua. Consultado em 29 de Janeiro de 2026
- ↑ «Casa do Gaiato de Beire». Obra da Rua. Consultado em 29 de Janeiro de 2026
- ↑ «Escolas Oficinas». Obra da Rua. Consultado em 29 de Janeiro de 2026
- ↑ «Casa do Gaiato de Malanje». Obra da Rua. Consultado em 29 de Janeiro de 2026
- ↑ «Casa do Gaiato de Benguela». Obra da Rua. Consultado em 29 de Janeiro de 2026
- ↑ «Casa do Gaiato de Maputo (Moçambique)». Obra da Rua. Consultado em 29 de Janeiro de 2026. Arquivado do original em 19 de Abril de 2018
- ↑ «Igreja: Casa do Gaiato de Miranda do Corvo celebrou 80 anos, à espera da beatificação do Padre Américo». Ecclesia. 11 de Janeiro de 2020. Consultado em 28 de Janeiro de 2026
- ↑ a b c d «A Instituição». Casa do Gaiato de São Miguel. Consultado em 28 de Janeiro de 2026
- ↑ a b c «Sobre». Casa São Francisco de Assis - Antiga Casa do Gaiato de Lisboa. Consultado em 28 de Janeiro de 2026
- ↑ «História da Casa do Gaiato de Setúbal». Obra da Rua. Consultado em 29 de Janeiro de 2026
- ↑ «História da Casa do Gaiato de Benguela». Obra da Rua. Consultado em 29 de Janeiro de 2026
- ↑ «Cidadãos Nacionais Agraciados com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "Obra do Padre Américo". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 9 de abril de 2016
- ↑ a b CAMPOS, Alexandra (18 de Novembro de 2004). «Cenário de repressão e clausura na Casa do Gaiato». Público
- ↑ MARUJO, António (12 de Junho de 2006). «Patriarcado de Lisboa toma posse da Casa do Gaiato do Tojal». Público. Consultado em 28 de Janeiro de 2026
- ↑ Agência Lusa; CAMPOS, Alexandra (9 de Novembro de 2018). «Casa do Gaiato de Beire foi fechada pela Segurança Social». Público. Consultado em 28 de Janeiro de 2026
- ↑ Lusa, Agência. «Japão reabilita abastecimento de água da Casa do Gaiato em Moçambique». Observador. Consultado em 27 de janeiro de 2026
- ↑ Agência Lusa (19 de janeiro de 2021). «Covid: Internato da Casa do Gaiato em Moçambique com 23 alunos infetados». Notícias ao Minuto. Consultado em 27 de janeiro de 2026