Carlos I Luís, Eleitor Palatino

Carlos I Luís
Retrato por Anthony van Dyck, c. 1641
Eleitor Palatino do Reno
Período24 de outubro de 1648
a 28 de agosto de 1680
Antecessor(a)Frederico V
Sucessor(a)Carlos II
Dados pessoais
Nascimento22 de dezembro de 1617
Heidelberg, Eleitorado do Palatinado
Morte28 de agosto de 1680 (62 anos)
Edingen, Eleitorado do Palatinado
EsposasCarlota de Hesse-Cassel
Marie Luise von Degenfeld (morganática)
Elisabeth Hollander von Bernau (morganática)
Descendência
Carlos II, Eleitor Palatino
Isabel Carlota, Duquesa de Orleães
CasaWittelsbach
PaiFrederico V, Eleitor Palatino
MãeIsabel de Inglaterra
ReligiãoCalvinismo
AssinaturaAssinatura de Carlos I Luís

Carlos Luís I (Heidelberg, 22 de dezembro de 1617Edingen, 28 de agosto de 1680) foi eleitor palatino do Reno de 1648 até sua morte. Após viver a primeira metade de sua vida no exílio durante a Guerra dos Trinta Anos e a Guerra Civil Inglesa, em 1649 Carlos Luís recuperou o título de eleitor palatino de seu pai, junto com a maior parte de seus antigos territórios,[1] mas abaixo em precedência em relação aos outros eleitorados.

Personalidade

Príncipe Carlos Luís do Palatinado com seu tutor Volrad von Plessen em traje histórico
Jan Lievens, 1631, Getty Center

Carlos Luís exercia sua autoridade de forma absolutista, mas com traços paternalistas. Mantinha envolvimento direto com os assuntos do governo e fiscalizava pessoalmente a administração. Exigia pontualidade e disciplina de seus oficiais, repreendendo-os publicamente quando necessário, o que lhe granjeou popularidade entre o povo.

Como calvinista convicto, praticava diariamente o exame de consciência diante de Deus. Acreditava que a tolerância religiosa era fundamental para a convivência social pacífica. Em sua cidadela de Mannheim, mandou construir a Igreja da Concórdia (1677–1680), que serviria a diversas denominações cristãs: reformadas francesa, alemã e holandesa, luterana e até mesmo católica. Também permitiu a instalação de comunidades perseguidas em outros lugares, como os Huteritas e os unitarianos (ou Irmandade polonesa).[2]

Em 1652, nomeou Jacob Israel (1621–1674), médico judeu de Heidelberg, como professor titular de fisiologia, anatomia e cirurgia na Universidade de Heidelberg. O filósofo Baruch Spinoza recusou uma cátedra de filosofia que lhe foi oferecida.[3]

Primeiros anos

Os quatro filhos mais velhos do rei e da rainha da Boêmia. Da esquerda para a direita: Isabel, Carlos Luís, Ruperto e Henrique Frederico
Gerard van Honthorst, 1631, Royal Collection

Carlos Luís foi batizado em março de 1618, na presença do Príncipe de Sedan e de Albertus Morton, representante do Príncipe de Gales.[4] Com a morte de seu pai exilado, em 1632, Carlos Luís herdou os bens de sua família no Eleitorado do Palatinado. Seu irmão mais velho, Henrique Frederico, havia falecido nos Países Baixos em 1629.

Durante a década de 1630, Carlos Luís e seu irmão mais novo, Ruperto, passaram grande parte do tempo na corte de seu tio materno, Carlos I de Inglaterra, buscando apoio britânico para sua causa. Apesar da assistência de oficiais da corte de sua mãe, como William Curtius e Francis Nethersole,[5] o jovem eleitor palatino obteve apenas sucesso limitado. Em 17 de outubro de 1638, liderou um exército composto por voluntários britânicos, sob o comando de William Craven, 1.º Conde de Craven, e palatinos, em aliança com forças suecas lideradas pelo escocês James King, 1.º Lorde Eythin, na Batalha de Vlotho.[6] Durante a batalha, Lorde Craven, o príncipe Ruperto e o coronel William Vavasour foram capturados após um ataque precipitado liderado por Ruperto, que tentou responsabilizar King pelo revés.

No entanto, correspondências preservadas nos arquivos suecos indicam que o general King conseguiu retirar Carlos Luís e suas tropas do campo de batalha, mantendo-os sob sua proteção em Minden durante outubro e novembro. Isso causou desconforto ao marechal de campo Johan Banér, que espalhou rumores de que King favoreceria os interesses do eleitor em detrimento do serviço sueco, algo que King rejeitou veementemente, embora tenha solicitado instruções oficiais sobre como proceder em relação a Carlos Luís e seu exército.[7] Após esse episódio, Carlos Luís retirou-se primeiro para Haia e, depois, para a Grã-Bretanha. Em novembro de 1641, compareceu ao Parlamento da Escócia, onde obteve autorização para reunir 10.000 soldados escoceses Convenentes, que deveriam acompanhá-lo à Alemanha.[8] Contudo, a eclosão da Rebelião Irlandesa de 1641 obrigou o redirecionamento dessas tropas para a Irlanda, a fim de proteger a comunidade protestante local.

Posteriormente, Carlos Luís começou a se afastar gradualmente do rei Carlos I, que temia que o sobrinho se tornasse um ponto de aglutinação para as forças de oposição na Inglaterra. De fato, na crise inglesa que levou à eclosão da Guerra Civil Inglesa, Carlos Luís demonstrava significativa simpatia pelos líderes parlamentares, em especial pelo Conde de Essex, por considerá-los mais dispostos a apoiar a restauração do Palatinado na Europa continental.

Guerra Civil Inglesa

Retrato de Carlos Luís, Eleitor Palatino (1617-1680) e seu irmão, Ruperto do Palatinado (1619-1682)
Anthony van Dyck, 1637, Museu do Louvre

Embora Carlos Luís tenha se envolvido nas fases iniciais da Guerra Civil Inglesa ao lado de seu tio, foi visto com desconfiança devido às suas simpatias pelo Parlamento e, em pouco tempo, retornou à companhia de sua mãe em Haia. Ali, passou a se distanciar da causa realista (Cavaleira), temendo que Carlos I pudesse sacrificá-lo politicamente em troca do apoio espanhol.

Em 1644, Carlos Luís retornou à Inglaterra a convite do Parlamento. Instalou-se no Palácio de Whitehall e aderiu à Liga e Aliança Solene (Solemn League and Covenant), mesmo com seus irmãos, os príncipes Ruperto e Maurício do Reno, atuando como generais ao lado dos Realistas. Na época, contemporâneo, incluindo o próprio rei Carlos I, e também analistas posteriores, suspeitavam que a motivação de Carlos Luís ao se aproximar dos Parlamentares fosse o desejo de ser entronizado em lugar de seu tio. Seu apoio à facção parlamentar causou profunda animosidade entre tio e sobrinho, e quando Carlos I, já prisioneiro, voltou a encontrar Carlos Luís em 1647, acusou-o diretamente de conspirar para tomar-lhe o trono inglês. Carlos Luís ainda se encontrava na Inglaterra em outubro de 1648, quando a Paz de Vestfália restaurou-lhe o Baixo Palatinado, embora, para sua grande decepção, o Alto Palatinado tenha permanecido sob controle do Eleitor da Baviera.[9] Permaneceu no país tempo suficiente para presenciar a execução de seu tio em janeiro de 1649, fato que o abalou profundamente. Os dois não haviam se reconciliado antes da morte do rei, Carlos I recusou-se a ver o sobrinho antes de sua execução.

Eleitor Palatino do Reno

Retrato de Carlos I Luís, Eleitor Palatino (1617-1680)
Johann Baptist Ruel, 1676, Museu do Palatinado

Com a assinatura da Paz de Vestfália (1648), Carlos Luís foi restaurado como eleitor do Palatinado em 1649, embora com um território reduzido. Isso foi possível com a criação de um oitavo eleitorado no Sacro Império Romano-Germânico, conferindo-lhe novamente a dignidade eleitoral. O cargo de grão-mestre do tesouro imperial foi-lhe atribuído, uma vez que o cargo de grão-mordomo fora transferido para o Eleitor da Baviera em 1623. A região do Alto Palatinado, que antes pertencia ao Palatinado, permaneceu com a Baviera. No entanto, ficou estabelecido que, na ausência de herdeiros bávaros, os territórios e dignidades deveriam retornar ao Palatinado, o que de fato ocorreu em 1777, com a formação do Palatinado-Baviera.

Carlos I Luís desempenhou papel fundamental na reconstrução do eleitorado após as devastadoras consequências da Guerra dos Trinta Anos. Enviou emissários a regiões vizinhas como Württemberg, Baviera, Tirol e Suíça com o intuito de atrair colonos, oferecendo terras e isenção de impostos. Essas medidas tiveram êxito em repovoar a região. Investiu fortemente na reorganização da administração pública, na recuperação do sistema educacional e na reforma das finanças públicas.[10]

Diante da destruição do Castelo de Heidelberg durante a guerra, Carlos Luís procurou um novo local para estabelecer a sede do governo. Em 1659, ofereceu à cidade de Worms a instalação da nova residência e da universidade, além da construção de uma cidadela no Reno, às suas próprias custas. Após a recusa da cidade, voltou-se para Mannheim, onde planejou uma nova e imponente residência, que viria a ser a segunda maior da Europa.[11]

Família

Nome Nascimento Morte Notas
Com Carlota de Hesse-Cassel[12](20 de novembro de 1627 – 16 de março de 1686; casados em 22 de fevereiro de 1650)
Carlos[13] 31 de março de 1651 26 de maio de 1685 Casou-se com Guilhermina Ernestina da Dinamarca, sem descendência.
Isabel Carlota[14] 27 de maio de 1652 8 de dezembro de 1722 Casou-se com Filipe de França, Duque de Orleães, com descendência.
Frederico 12 de maio de 1653 13 de maio de 1653
Com Marie Luise von Degenfeld[12] (28 de novembro de 1634 – 18 de março de 1677; casados morganaticamente em 6 de janeiro de 1658)
Karl Ludwig 15 de outubro de 1658 12 de agosto de 1688
Karoline 19 de novembro de 1659 28 de junho de 1696 Casou-se com Meinhardt Schomberg, 3º Duque de Schomberg, com descendência.
Louise 25 de janeiro de 1661 6 de fevereiro de 1733
Ludwig 19 de fevereiro de 1662 7 de abril de 1662
Amalie Elisabeth 1 de abril de 1663 13 de julho de 1709
George Ludwig 30 de março de 1664 20 de julho de 1665
Frederike 7 de julho de 1665 7 de agosto de 1674
Friedrich Wilhelm 25 de novembro de 1666 29 de julho de 1667
Karl Eduard 19 de maio de 1668 2 de janeiro de 1690
Sophie 19 de julho de 1669 28 de novembro de 1669
Karl Moritz 9 de janeiro de 1671 13 de junho de 1702
Karl August 19 de outubro de 1672 20 de setembro de 1691
Karl Kasimir 1 de maio de 1675 28 de abril de 1691
Com Elisabeth Hollander von Bernau[15] (1659 – 8 de março de 1702; casados morganaticamente em 11 de dezembro de 1679)
Charles Louis[15] 17 de abril de 1681 26 de maio de 1685

Também teve um filho ilegítimo, Ludwig von Seltz (1643–1660), com uma amante de nome desconhecido.

Referências

  1. Großkopf, Gertrud (1987). Historischer Verein für Hessen, ed. «Wilhelm Curtius. Lebensspuren eines kurpfälzischen Adeligen aus Bensheim im Dienst der englischen Krone». Archive für hessische Geschichte und Altertumskunde (em alemão). Neue Folge 45. Band 1987. ISSN 0066-636X 
  2. Friedrich Walter (1901). Sekten-Niederlassungen in Mannheim unter Karl Ludwig. Col: Mannheimer Geschichtsblätter Mannheimer Altertumsverein ed. Mannheim: Verlag des Mannheimer Altertumsvereins. pp. 56–61 
  3. Juden an der Universität Heidelberg, Ausstellung, 2002
  4. HMC 75 Downshire, vol. 6 (Londres, 1995), pp. 397, n.º 863; 398, n.º 866.
  5. Nadine Akkerman, ed. (2011). The Correspondence of Elizabeth Stuart, Queen of Bohemia. Oxford: Oxford University Press. p. 139. ISBN 978-0-19-955108-8 
  6. Steve Murdoch e Alexia Grosjean, Alexander Leslie and the Scottish Generals of the Thirty Years' War, 1618–1648 (Londres, 2014), pp. 89–91.
  7. Rikskanslern Axel Oxenstiernas skrifter och brefvexling, segunda série, vol. 9 (Estocolmo, 1898), pp. 934–939. Duas cartas de James King ao chanceler Oxenstierna e ao governo sueco, novembro de 1638.
  8. Murdoch e Grosjean, Alexander Leslie, p. 118.
  9. Chisholm 1911b, p. 59.
  10. Peter Fuchs, ed. (1977). «Karl Ludwig». Neue Deutsche Biographie (NDB) (em alemão). 11. 1977. Berlim: Duncker & Humblot . pp. 246–249.
  11. Friedrich Peter Wundt, Daniel Ludwig Wundt: Versuch einer Geschichte des Lebens und der Regierung Karl Ludwigs Kurfürst von der Pfalz, Genf, bei H. L. Legrand, 1786, S. 143–145; Ludwig Häusser: Geschichte der Rheinischen Pfalz, 2. Band, 1856, S. 644–645.
  12. a b Fuchs, Peter (1977). «Karl I. Ludwig». www.deutsche-biographie.de (em alemão). Neue Deutsche Biographie 11. pp. 246–249. Consultado em 23 de maio de 2022 
  13. cites Morby 1989, p. 141
  14. cites Louda & MacLagan 1999, table 68
  15. a b Huberty, Michel; Giraud, Alain; Magdelaine, F. and B. (1985). L'Allemagne Dynastique, Tome IV. France: Laballery. pp. 196–197, 223–224, 269–270, 302–304. ISBN 2-901138-04-7