Campanha de Madrid

A fuga de Filipe V de Madrid.

A campanha de Madrid deu-se em 1706, no contexto da Guerra de Sucessão Espanhola (1701-1714), e foi uma ofensiva militar de Portugal, Inglaterra e Holanda, que apoiavam Carlos da Casa de Habsburgo, na luta pelo trono da monarquia espanhola, contra Filipe V da Casa de Bourbon.

O Arquiduque Carlos teve diversos títulos, sendo o mais conhecido o de Carlos VI, Sacro Imperador Romano-Germânico. Foi aclamado como Carlos III de Espanha pelos seus partidários. O Arquiduque Carlos foi apoiado por Portugal, Inglaterra e Holanda. Filipe V era apoiado por França. O apoio dado por Portugal foi acordado em Maio de 1704 com Pedro II.

As forças de Filipe V eram lideradas por Jaime FitzJames, 1.º Duque de Berwick. Diversas batalhas navais dão o domínio dos mares aos ingleses e holandeses. O desenrolar das batalhas noutros palcos da Europa entre os aliados dos Habsburgos e os aliados dos Bourbon influenciam os acontecimentos na Península Ibérica, nomeadamente a Batalha de Blenheim, na Baviera.

A campanha militar da tomada de Madrid teve duas ofensivas, uma a partir do Reino de Portugal e outra a partir do Principiado da Catalunha.

A campanha

A concentração de forças espanholas no cerco de Barcelona, na Catalunha, implicou um enfraquecimento das guarnições que defendiam a fronteira ocidental de Espanha.[1] A maioria dos oficiais portugueses defendia a ocupação das regiões fronteiriças mas os ingleses propuseram a conquista de Madrid e esta opção foi aprovada pelo rei D. Pedro II e o marquês das Minas.[1]

Tomada de Brozas

Brozas.

A ofensiva a partir de Portugal iniciou-se meados de Março, contou com 14.700 portugueses, 2.200 britânicos e 2000 holandeses, sob o comando de D. António Luís de Sousa, 2º Marquês das Minas. O exército aliado entrou em Espanha pela fronteira de Badajoz a partir de Atalaia dos Sapateiros e, sem perder tempo com cercos e assédios, avançou rapidamente para norte, capturando pelo caminho Caya, a 31 de Março, Cayolla, São Salvador, Nossa Senhora do Carrião a 1 de Abril, Castelho de Maiorca, São Vicente. Atravessado o rio Salor, pela parte de Porto Lhano, ocuparam Brozas, a 7 de abril, após um combate de alguma intensidade com as forças do duque de Berwick, que contabilizavam 9,000 homens e que se retirou para Cáceres.[1]

Deixando para trás a artilharia pesada, a maior parte do exército e a bagagem, o marquês das Minas partiu no encalço do duque de Berwick com um destacamento de 10 terços de infantaria, a maior parte da cavalaria e 6 peças de campo.[1] O marquês mandou atacar a rectaguarda franco-espanhola, o que foi feito com tal vigor que o duque de Berwick passou da vanguarda à rectaguarda com todos os granadeiros ou clavineiros e rebateu a investida mas com perigo para a sua pessoa, tendo-lhe sido morto o cavalo.[1] As forças aliadas empenharam-se, porém, no combate com ânimo e os espanhóis foram obrigados a retirarem-se pelo bosque de Santa Ana, não tendo os aliados dado perseguição pois já se fazia de noite.[1] Destacou-se em defesa de Berwick o conde de Finnes, ao comando de quatro esquadrões franceses.[1] Os franco-espanhóis perderam 100 homens entre mortos, feridos e prisioneiros, contando-se entre eles figuras importantes como o coronel marquês de São Vicente, o marechal de campo Don Diogo de Monroy e o conde de Canillejas.[1] Os aliados, por sua vez, tiveram alguns mortos e 25 feridos.[1]

As tropas do marquês das Minas chegaram a Brozas de noite, quando já cerca de 300 casas tinham sido saqueadas e incendiadas por desordem dos soldados mas o exemplo de castigo dado fez com que muitas vilas circundantes apresentassem a obediência.[1] Na fortaleza os aliados encontraram muitas munições e mantimentos abandonados pelos franco-espanhóis.[1] Deixando um terço de guarnição no castelo da vila, o exército aliado seguiu para Alcântara.[1]

Tomada de Alcântara

A vila de Alcântara e as suas defesas.

Alcântara era defendida por 5000 homens com gente de toda a Espanha e 47 canhões e o seu governador, Don Diego Gasco, recebera ordens para resistir o máximo possível mas a povoação estava fracamente fortificada, sem fosso e sem defesas exteriores.[1] Ao aproximar-se, o marquês das Minas recebeu uma carta do duque de Berwick a reclamar do saque de Brozas mas o marquês respondeu educadamente que fora o resultado do desmando dos soldados e fez alusão aos actos semelhantes praticados pelos espanhóis em Idanha e outras terras.[1] Durante os trabalhos de reconhecimento à vila a 9 de Abril começou o assédio à praça com um bombardeamento por uma bateria de seis canhões de campo instalada num monte próximo, causando muitos estragos.[1] Na noite seguinte os franco-espanhóis fizeram uma saída mas foram rechaçados.[1] O sítio do Convento de São Francisco foi tomado pelos terços de Moura, 2 batalhões ingleses e 1 batalhão holandês. Nos dias que se seguiram a artilharia destruiu as partes fortes da vila e desmoralizou os defensores.[1] O marquês das Minas mandou então um destacamento sob o comado do marquês de Fronteira lançar uma ponte de barcas e atravessar o rio Tejo, o que foi feito a 12 de Abril a meia légua de distância.[1] Acreditando os sitiados tratarem-se de reforços, deixaram-nos aproximar-se, pelo que sofreram muitas baixas num primeiro ataque. Sofreram um bombardeamento das baterias aliadas em ambas as partes do Tejo e a cidade rendeu-se pouco depois, a 14.[1]

Alcântara, ponte romana.

Compreendendo o Marquês das Minas não ter homens para guarnecer todas as conquistas que fizesse, impôs às suas tropas o máximo de disciplina e profissionalismo para não hostilizar os espanhóis e 4200 prisioneiros foram encaminhados com honra para Santarém, onde ficariam mais seis meses.[1] Foram capturados muitos mantimentos e na igreja matriz foi cantado um Te Deum, com as normais solenidades e salvas de artilharia.[1] A conquista de Alcântara foi determinante para o sucesso da campanha, pois constituía-se numa importante base de abastecimento, para além do elevado número de tropas capturadas.[1]

Tomada de Cidade Rodrigo

Ocupada Alcântara, os aliados reocuparam Salvaterra do Extremo a 19 e seis dias mais tarde o marquês convocou aqui os generais a conselho e propôs-lhes marchar sobre Madrid por Talavera e Toledo, o que foi aprovado por unanimidade.[1] No dia seguinte, os aliados puseram-se em marcha pela margem direita do Tejo em direcção a Plasência, mas se havia grandes informações acerca do exército de Berwick, a grande dúvida para o marquês das Minas e o seu comando aliado era se o arquiduque Carlos teria tido sucesso na Catalunha.[1]

Cidade Rodrigo.

Os aliados ocuparam Moraleja, ao fim de um combate de dois dias com a sua guarnição de 400 homens, Coria e Plasencia, tendo sido enviados alguns destacamentos a ocupar Cáceres e Trujilho.[1] Em Almaraz, houve uma mudança de planos: suspeitando da retirada sistemática do duque de Berwick e da destruição dos armazéns de mantimentos, o marquês das Minas decidiu não perder tempo a conquistar território e não avançar por Talavera, o que daria aos franco-espanhóis a linha defensiva do Tejo, mas por Panharanda, o que lhe abria as portas da Serra de Guadamarra e da almejada capital.[1]

Cidade Rodrigo carecia de obras exteriores, fosso e de caminho coberto e só estava guarnecida por 400 soldados e 2000 milicianos. A cidade foi sitiada a 2 de Maio.[1] A 22, o visconde de Fonte Arcada, general da Beira, deslocou-se para o outro lado do rio com 2000 homens e artilharia pesada para impedir a união das tropas do duque de Berwick aos sitiados por Carretas.[2] Don Antonio de la Veiga capitulou a 26.[2] Depois de sabidas notícias de Barcelona, os aliados dotaram-se de 24 dias de abastecimentos e partiram para Madrid.[2]

Marcha para Madrid

Granadeiro português.

Sancti Espiritus foi ocupada a 3 de Junho e Salamanca a 6 sem resistência, tendo o duque de Berwick abandonado esta cidade no dia anterior.[2] Nesta cidade o marquês fez aclamar o arquiduque Carlos com grandes festejos.[2] Berwick, com 9000 soldados de infantaria e 4000 de cavalaria recusava dar batalha e recuava sempre, destruíndo os meios de abastecimento numa política de terra queimada.[3] Reabastecidos, a 12 de Junho os aliados iniciaram a etapa final até Madrid, através de marchas forçadas.[3]

Filipe V juntou-se a Berwick com 8000 homens mas, vendo-se impotente contra as tropas do marquês das Minas, desistiu de barrar a passagem no rio Guadarrama e refugiou-se com o duque de Berwick em Burgos.[3]

Passando por Villanueva de Gomez e Labajos, o exército aliado acampou em Villacastin.[3] Os monges do Escorial temeram que o seu mosteiro fosse saqueado mas isto não se deu.[4] Passando por El Espinal, o Guadarrama foi atravessado a 22 de Junho, com toda a cavalaria e 12 terços de infantaria, divididos entre 8000 portugueses, 2000 ingleses e 2000 holandeses, totalizando 14,000 a 16,000 homens.[3] A 24 de Junho o marquês das Minas mandou acampar em Retamar, para aguardar informações políticas e militares e decidir a acção a empreender.[3] Recebeu então uma deputação de madrilenos notáveis a prestar-lhe homenagem e a pedir que nomeasse um corregedor para governar a cidade, assim como Segóvia, Toledo, Ávila e Talavera, as quais enviaram também emissários a pedir protecção.[3] O tenente-general Pedro Amassa foi enviado com um destacamento ao Prado, onde ainda se encontravam 200 cavaleiros inimigos e em Foncarral todos os clavineiros.[3] O conde de Vila Verde Pedro António de Albuquerque por sua vez, foi enviado a 26 de Junho com 12 esquadrões a ocupar as vilas que se haviam rendido.[3] Ainda houve combates com tropas comandadas pelo francês Choserville na passagem de Manzanares mas ao alcançarem esta vila foram recebidos por alguma nobreza a prestar homenagem.[5]

Entrada em Madrid

O marquês das Minas, António Luís de Sousa.

A 26 de Junho entraram em Madrid os esquadrões de cavalaria do conde de Vila Verde e dois dias depois, a 28 de Junho de 1706, o marquês das Minas entrou triunfalmente na cidade e fez aclamar rei de Espanha o arquiduque Carlos como Carlos III.[5] Neste próprio dia o marquês enviou o seu filho varão de regresso a Portugal para dar à Corte "a notícia de haver posto à obediência de El Rey Catholico a Corte de Madrid, com tanta glória do nome Portuguez."[5] A rainha viúva de Carlos II, Mariana de Neoburgo, reconheceu Carlos III, o que fez muitos nobres passarem-se para a causa aliada.[5] Por ordem do marquês das Minas, a 3 de Julho foi aclamado o rei Carlos III na Praça Maior com um teatro perante um retrato seu.[5] Dinheiro foi lançado dinheiro à população, feitos juramentos de fidelidade e executadas salvas de artilharia.[5]

De Madrid, o marquês das Minas enviou cartas a Carlos III para que se dirigisse a Madrid com as suas tropas.[7] Devido à acção de guerrilhas espanholas, porém, o arquiduque fez a viagem de Barcelona a Madrid devagar e antes deu ao marquês indicação que se fosse juntar a ele em Guadalajara.[7] Esta espera foi fatal para a causa aliada e vital para o duque de Berwick, que mais tarde escreveu nas suas memórias que se os aliados lhe tivessem dado perseguição, ele não estaria em posição de responder.[7]

Durante a campanha foram capturados cerca de 9.000 prisioneiros e uma centena de peças de artilharia, em combates contra forças franco-espanholas.

Perante a falta de apoios em Madrid, os exércitos do Arquiduque Carlos avançam para Valência, passando por Toledo.

As tropas portuguesas estiveram envolvidas em diversas outras campanhas e batalhas.

Ver também

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa Borges, João Vieira (2003). Conquista de Madrid 1706: Portugal Faz Aclamar Rei de Espanha o Arquiduque Carlos de Habsburgo, Tribuna da História, pp. 59-69.
  2. a b c d e Borges, 2003, p. 70.
  3. a b c d e f g h i Borges, 2003, p. 71.
  4. Hugas, Bonaventura Bassegoda i (2002). El Escorial como museo: la decoración pictórica mueble en el monasterio de El Escorial desde Diego Velázquez hasta Frédéric Quilliet (1809) (em espanhol). Bellaterra (Barcelona): Univ. Autònoma de Barcelona. p. 61. Consultado em 24 de setembro de 2025 
  5. a b c d e f Borges, 2003, p. 72.
  6. Terceira Relação dos Gloriosos Sucessos das Armas Portuguesas depois da Expugnação e Rendição da Praça de Alcântara in Borges, 2003, p. 71.
  7. a b c Borges, 2003, p. 74.