Bungarus multicinctus

Bungarus multicinctus

Estado de conservação
Espécie vulnerável
Vulnerável (IUCN 3.1) [1]
Classificação científica
Domínio: Eukaryota
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Reptilia
Ordem: Squamata
Subordem: Serpentes
Família: Elapidae
Gênero: Bungarus [en]
Espécie: B. multicinctus
Nome binomial
Bungarus multicinctus
Blyth, 1861[2]
Distribuição geográfica
Área de distribuição do Bungarus multicinctus
Área de distribuição do Bungarus multicinctus

Bungarus multicinctus[1] é uma espécie extremamente venenosa de serpente da família Elapidae encontrada em grande parte do centro e sul da China e do Sudeste Asiático. A espécie foi descrita pela primeira vez pelo cientista Edward Blyth em 1861. Com comprimento médio de 1 a 1,5 metro, é uma serpente preta ou azul-escura com numerosas faixas brancas ao longo do corpo. A cobra-de-bandas-brancas habita principalmente áreas pantanosas em sua distribuição geográfica, embora também ocorra em outros tipos de habitats.

Taxonomia

O zoólogo e farmacêutico Edward Blyth descreveu Bungarus multicinctus como uma nova espécie em 1861, observando que ela possuía muito mais faixas do que Bungarus fasciatus.[3] Ela ainda mantém seu nome original, Bungarus multicinctus.[2] O nome genérico é uma latinização da palavra em telugo baṅgāru, que significa "cobra".[4] O nome específico multicinctus deriva do latim multi-, forma combinada de multus, "muito, muitos",[5] e do latim cinctus, particípio passado de cingere, "cercar" — como em uma "faixa".[6] O nome comum em inglês "krait" vem do hindi (करैत karait), possivelmente derivado do sânscrito (काल kāla), que significa "preto".[7] Em tâmil, é chamada de "கட்டுவிரியன்", nome comum dado ao gênero Bungarus.

Espécime após a troca de pele.

A espécie possui duas subespécies: a nominal Bungarus multicinctus multicinctus e Bungarus multicinctus wanghaotingi.[2]

O herpetólogo americano Clifford H. Pope [en] descreveu Bungarus wanghaotingi em 1928 a partir de um espécime coletado no sudoeste da Província de Iunã em novembro de 1926 por Walter Granger. Nomeada em homenagem ao artista zoológico Wang Hao-t'ing, de Pequim, Pope a distinguiu de B. multicinctus pelo maior número de faixas dorsais e de B. candidus pela contagem mais alta de escamas ventrais.[8] Essa subespécie também é encontrada em Myanmar, nos estados de Cachim, Arracão e na divisão de Sagaingue. O herpetólogo Alan Leviton e colegas suspeitam que existam outros táxons não descritos dentro do complexo da espécie.[9]

Mao et al. (1983) demonstraram que Bungarus multicinctus era ligeiramente distinta de outros membros de seu gênero e imunologicamente mais próxima de Laticauda [en], espécimes terrestres australianos da família Elapidae e cobras marinhas verdadeiras do que de Elapsoidea sundevalli, Naja naja ou duas espécies de Micrurus.[10] Minton (1981), Schwaner et al. e Cadle & Gorman (1981) sugeriram conclusões semelhantes com base em dados imunológicos, indicando maior semelhança com espécimes australianos da família Elapidae, Laticauda e cobras marinhas.[11]

Uma análise genética de 2016 mostrou que Bungarus multicinctus é grupo-irmão de Bungarus candidus, ambas originadas de uma linhagem que deu origem a Bungarus niger [en].[12]

Descrição

Bungarus multicinctus encontrada em Taiwan.

Bungarus multicinctus é uma espécie de tamanho médio a grande, com comprimento médio de 1 a 1,5 metro, alcançando até 1,85 metro. Seu corpo é esguio e moderadamente comprimido. As escamas são lisas e brilhantes, com uma crista vertebral distinta. A coloração é preta ou azul-escura com aproximadamente 21 a 30 faixas brancas ou branco-creme ao longo do corpo. Espécimes maiores apresentam mais faixas. A cauda é curta, pontiaguda e preta, com 7 a 11 faixas brancas alternadas. A barriga é geralmente branca, podendo ser esbranquiçada ou branco-creme.[13] A cabeça é predominantemente preta, larga, oval, achatada e ligeiramente distinta do corpo. Os olhos são pequenos e pretos, com pupilas escuras que se misturam ao restante do olho. As narinas são grandes, e os dentes são pequenos, fixos e localizados na parte anterior da mandíbula superior. Filhotes geralmente apresentam manchas esbranquiçadas na parte inferior da cabeça.[14][15]

Escamas

A quantidade e disposição das escamas no corpo de uma serpente são elementos-chave para identificação ao nível de espécie.[16] Bungarus multicinctus possui 15 fileiras de escamas dorsais na região média do corpo e uma escama anal sem divisão.[a] Machos têm de 200 a 231 escamas ventrais e 43 a 54 escamas subcaudais sem divisão, enquanto fêmeas têm de 198 a 227 escamas ventrais e 37 a 55 escamas subcaudais.[15]

Distribuição e habitat

A espécie é encontrada em Taiwan (incluindo os arquipélagos de Matsu e Quemói), Hong Kong, Myanmar, Laos e norte do Vietnã.[13] Também pode ser encontrada na Tailândia.[14]

Na China, cobras com faixas brancas foram inicialmente consideradas Bungarus multicinctus, mas um estudo genético de 2017 revelou que a maioria dos espécimes de museu assim classificados era, na verdade, Bungarus candidus, com as verdadeiras Bungarus multicinctus restritas ao sul da China (Fuquiém, Jiangxi, Hubei, Hunão, Ainão, Zhejiang, Cantão e Quancim). Os autores sugeriram que espécimes identificados como Bungarus multicinctus no Vietnã, Tailândia e Myanmar também podem ser Bungarus candidus.[18]

Espécime encontrado em Tai Mo Shan [en], Hong Kong.

Embora possa ser encontrada em altitudes de até cerca de 1.500 metros,[1] é mais comum em áreas úmidas de baixa altitude, frequentemente observada em regiões pantanosas subtropicais.[14] Também é encontrada em arbustos, bosques, campos agrícolas e manguezais, muitas vezes próximos a corpos d'água como rios, riachos, arrozais e valas. Ocasionalmente, pode ser vista em vilarejos e áreas suburbanas.[13] É capaz de sobreviver em outros habitats.[1]

Comportamento e dieta

Detalhe da cabeça com escamação visível.

É noturna e pode ser mais defensiva à noite. No entanto, é uma espécie tímida. Durante o dia, esconde-se sob pedras ou em buracos. Aparece em abril e entra em hibernação em novembro. É considerada mais defensiva que Bungarus fasciatus, debatendo-se quando manipulada.[13]

Diferentemente de outras espécies de Bungarus, que são principalmente ofiófagas, Bungarus multicinctus alimenta-se principalmente de peixes,[19] mas também caça outras serpentes, incluindo membros da própria espécie. Além disso, alimenta-se de roedores, enguias, sapos e, ocasionalmente, lagartos.[14]

Reprodução

Há informações limitadas sobre os hábitos reprodutivos dessa serpente. Como muitos membros da família Elapidae, Bungarus multicinctus é ovípara. O acasalamento ocorre entre agosto e setembro. As fêmeas depositam de 3 a 15 ovos, embora até 20 possam ser produzidos. Os ovos são depositados no final da primavera ou início do verão, geralmente em junho. A eclosão ocorre cerca de um mês e meio depois. Os filhotes têm aproximadamente 25 cm de comprimento.[13]

O exemplar mais velho registrado foi um indivíduo em cativeiro que viveu 13,7 anos.[20]

Veneno e toxinas

O veneno de Bungarus multicinctus contém neurotoxinas pré e pós-sinápticas, como α-bungarotoxinas e β-bungarotoxinas, entre outras. Quase metade do conteúdo proteico do veneno é composta por β-bungarotoxinas.[21]

A produção média de veneno em espécimes mantidos em criadouros varia de 4,6 mg a 19,4 mg por mordida.[13] O veneno é altamente tóxico, com valores de DL50 de 0,09 mg/kg[13] a 0,108 mg/kg[22] SC, 0,113 mg/kg IV e 0,08 mg/kg IP em ratos.[22] Com base em vários estudos de DL50 (DLM) em ratos desde 1943, Bungarus multicinctus está entre as serpentes mais venenosas do mundo.[22] To & Tin (1943) relataram 0,07 mg/kg (IV), Lee et al (1962) reportaram 0,16 mg/kg (SC), Fischer e Kabara (1967) listaram 0,2 mg/kg (IP), Lee e Tseng (1969) listaram 0,16 mg/kg (SC), Kocholaty et al (1971) listaram 0,07 mg/kg (IV) e 0,08 mg/kg (IP), Minton (1974) listou 0,07 mg/kg (IV) e 0,08 mg/kg (IP), valores idênticos aos de Kocholaty et al em 1971 para IV e IP, e 0,19 mg/kg (SC).[14]

A α-bungarotoxina é importante para a histologia neuromuscular, sendo conhecida por se ligar irreversivelmente aos receptores da junção neuromuscular, podendo ser marcada com proteínas fluorescentes como proteína verde fluorescente ou o corante rodamina tetrametilrodamina isotiocianato.[23]

Sintomas clínicos

Os sintomas locais em vítimas mordidas por Bungarus multicinctus geralmente não incluem inchaço significativo ou dor intensa; as vítimas sentem apenas leve coceira e dormência. Sintomas sistêmicos aparecem, em geral, de uma a seis horas após a mordida, incluindo ptose bilateral, diplopia, desconforto torácico, dores generalizadas, fraqueza nos membros, ataxia, glossolalia, perda de voz, disfagia, visão em túnel e dificuldade respiratória. Em casos graves, pode ocorrer supressão respiratória, levando à morte.[13] Hiponatremia também é observada, mas menos comumente.[24]

As taxas de mortalidade estimadas para mordidas não tratadas variam entre estudos, de 25–35%[14] a 70–100%.[25] Durante a Guerra do Vietnã, soldados americanos chamavam Bungarus multicinctus de "cobra de dois passos", acreditando erroneamente que seu veneno era letal o suficiente para matar em dois passos.[26]

Bungarus multicinctus ganhou atenção mundial após um filhote morder Joseph Bruno Slowinski [en] em 11 de setembro de 2001, em Myanmar. Ele faleceu no dia seguinte, 29 horas após a mordida.[26]

Ver também

Notas

  1. Uma escama dividida é aquela separada ao meio em duas escamas.[17]

Referências

  1. a b c d Ji, X.; Rao, D.-Q.; Wang, Y.; Ding, L.; Qi, S.; Cai, B. (2024). «Bungarus multicinctus». Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. 2024: e.T191957A199532037. doi:10.2305/IUCN.UK.2024-1.RLTS.T191957A199532037.enAcessível livremente. Consultado em 29 de junho de 2024 
  2. a b c Bungarus multicinctus at the Reptarium.cz Reptile Database
  3. Blyth, E. (1860). «Proceedings of the Society. Report of the Curator.». The Journal of the Asiatic Society of Bengal. 29 (1): 98. Consultado em 4 de janeiro de 2014 
  4. «Bungarum». Unabridged Dictionary. Merriam-Webster. Consultado em 13 de julho de 2014 
  5. Harper, D. «multi-». The American Heritage Dictionary. Chester County Historical Society. Consultado em 5 de janeiro de 2014 
  6. Harper, D. «Cincture». Online Etymology Dictionary. Chester County Historical Society. Consultado em 5 de janeiro de 2014 
  7. «Krait - Bungarus». The American Heritage Dictionary. Houghton Mifflin Harcourt Publishing Company. Consultado em 5 de janeiro de 2014 
  8. Pope, Clifford Hillhouse (1928). «Four new snakes and a new lizard from South China» (PDF). American Museum Novitates (325): 3–4 
  9. Leviton, A.E.; Wogan, G.O.U.; Koo, M.S.; Zug, G.R.; Lucas, R.S.; Vindum, J.V. (2003). «The dangerously venomous snakes of Myanmar. Illustrated checklist with keys» (PDF). Proceedings of the California Academy of Sciences. 54 (24): 407–462 [423] 
  10. Mao, SH; Chen BY; Yin FY; Guo YW (1983). «Immunotaxonomic relationships of sea snakes to terrestrial elapids». Comparative Biochemistry and Physiology A. 74 (4): 869–872. doi:10.1016/0300-9629(83)90360-2 
  11. Cadle, JE.; Gorman, GC. (31 de julho de 1981). «Albumin Immunological Evidence and the Relationships of Sea Snakes». Journal of Herpetology. 15 (3): 329–334. JSTOR 1563437. doi:10.2307/1563437 
  12. Figueroa, A.; McKelvy, A. D.; Grismer, L. L.; Bell, C. D.; Lailvaux, S. P. (2016). «A species-level phylogeny of extant snakes with description of a new colubrid subfamily and genus». PLOS ONE. 11 (9): e0161070. Bibcode:2016PLoSO..1161070F. PMC 5014348Acessível livremente. PMID 27603205. doi:10.1371/journal.pone.0161070Acessível livremente 
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  20. «AnAge entry for Bungarus multicinctus». AnAge:The Animal Ageing and Longevity Database. Human Ageing Genomic Resources. Consultado em 26 de julho de 2021 
  21. Ziganshin, RH; Kovalchuk, SI; Arapidi, GP; Starkov, VG; Hoang, AN; et al. (dezembro de 2015). «Quantitative proteomic analysis of Vietnamese krait venoms: Neurotoxins are the major components in Bungarus multicinctus and phospholipases A2 in Bungarus fasciatus». Toxicon. 107 (Part B): 197–209. PMID 26341420. doi:10.1016/j.toxicon.2015.08.026 
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Ligações externas