Batalha de Vardanacerta

Batalha de Vardanacerta
DataJaneiro de 703
LocalVardanacerta, Airarate, perto do rio Aras
DesfechoVitória armênia decisiva
Beligerantes
Califado Omíada Família Bagratúnio
Comandantes
Desconhecido Simbácio VI
Bardas Restúnio
Simbácio
Forças
Cinco mil Duas mil
Baixas
Altas Desconhecido

A Batalha de Vardanacerta foi travada entre uma guarnição árabe de cinco mil soldados de Naquichevão liderada pelo general Abedalá e um exército liderado por nobres armênios descontentes em janeiro de 703.[1][2] Ao serem atacados repentinamente por Simbácio VI, os sobreviventes fugiram ao rio Aras e se afogaram ou morreram congelados.

Contexto

No início da década de 690, a Armênia encontrava-se em convulsão, pois o país era disputado entre o Império Bizantino e o Califado Omíada: aproveitando-se da guerra civil da Segunda Fitna no califado, o imperador Justiniano II invadiu a Armênia e instalou o seu próprio candidato, Narses V, como príncipe presidente, enquanto o antecessor de Camsaracânio, Asócio II, foi morto em 690 ao combater uma invasão árabe de retaliação.[3][4] As fontes armênias acusam as tropas bizantinas de saquearem o país, tomarem reféns para resgate e tentarem impor uma comunhão entre a Igreja Armênia miafisita e a Igreja Bizantina calcedoniana. Como resultado, os armênios passaram rapidamente a ver os árabes como libertadores.[5][6] O mandato de Narses foi breve, e ele foi sucedido por Simbácio VI, que havia servido como comandante-em-chefe sob Camsaracânio.[7] Simbácio passou para o lado dos muçulmanos e foi confirmado como “príncipe dos armênios” pelos omíadas,[5] mas, a partir de 695, a política árabe anterior de tolerância e respeito pela autonomia armênia foi abandonada. Após um tempo preso em Damasco, Simbácio retornou à Armênia e decidiu desertar para o lado bizantino.[8]

Batalha

Simbácio reuniu seus seguidores ao norte do Monte Ararate, incluindo o príncipe de Vaspuracânia, também chamado Simbácio, e Bardas Restúnio, cujo pai, Teodoro, havia desempenhado papel central na submissão da Armênia aos árabes na década de 650.[9] As forças de Simbácio, somando cerca de dois mil homens, iniciaram a marcha rumo ao território bizantino durante o inverno. A guarnição omíada de oito mil (cinco mil segundo Estêvão de Taraunitis) homens em Naquichevão perseguiu-os. O exército armênio atravessou para a margem esquerda do rio Aras e se entrincheirou no povoado de Vardanacerta. Durante o rigoroso inverno, as tropas árabes, incapazes de resistir à pressão dos ataques armênios e ao frio intenso, entraram em pânico e tentaram fugir para a margem direita do Aras, então congelado. O gelo, porém, rompeu-se, e muitos dos soldados inimigos morreram afogados.[10] Segundo relatos, apenas 300 sobreviveram à batalha e ao frio e conseguiram alcançar um lugar seguro. Simbácio perseguiu-os até as muralhas da fortaleza de Ernejaque, cuja governante, a senhora Susana, comovida por piedade, ofereceu refúgio aos árabes e persuadiu Simbácio a interromper a perseguição.[11]

Rescaldo

Simbácio enviou mensageiros a Constantinopla com a notícia de sua vitória. Foi bem recebido pelos bizantinos, recebeu o alto título de curopalata e estabeleceu-se em Tucarque, na região fronteiriça de Taique.[11][8] Ali, Simbácio aguardou uma oportunidade para retornar à sua pátria. Essa oportunidade surgiu em 705, quando numerosos nobres armênios foram convocados pelas autoridades omíadas sob o pretexto de serem registrados para o serviço militar, mas foram, em vez disso, queimados vivos em igrejas em Naquichevão e Crame.[12][13] À frente de uma força bizantina, Simbácio invadiu a Armênia, mas foi derrotado e teve de recuar, estabelecendo-se então em Poti, na costa do Mar Negro, o que provavelmente indica que os árabes ameaçavam sua base anterior.[14]

Notas

[a] ^ Macler afirma que foi o comandante árabe Alcácime que invadiu e reconquistou a Armênia.[13]

Referências

  1. Pogossian 2019, p. 149.
  2. Hacikyan 2000, p. 146.
  3. Laurent 1919, pp. 202–204, 334–335.
  4. Grousset 1973, pp. 307–309.
  5. a b Laurent 1919, p. 204.
  6. Grousset 1973, pp. 307–308.
  7. Laurent 1919, p. 204 (esp. nota 5), 334–335.
  8. a b Laurent 1919, pp. 175–176 (nota 9), 194, 205.
  9. Grousset 1973, pp. 302–304, 310.
  10. Hoyland 2015, p. 155.
  11. a b Grousset 1973, p. 310.
  12. Laurent 1919, pp. 180 (nota 4), 205.
  13. a b Macler 1923, p. 156.
  14. Laurent 1919, pp. 194 (nota 7), 205.

Bibliografia

  • Grousset, René (1973) [1947]. Histoire de l'Arménie: des origines à 1071. Paris: Payot 
  • Hacikyan, Agop Jack (2000). The Heritage of Armenian Literature. Detroit, Michigão: Wayne State University Press. ISBN 978-0-8143-3023-4 
  • Hoyland, Robert G. (2015). In God's Path: The Arab Conquests and the Creation of an Islamic Empire. Oxônia: Oxford University Press 
  • Laurent, Joseph L. (1919). L’Arménie entre Byzance et l'Islam: depuis la conquête arabe jusqu'en 886. Paris: De Boccard 
  • Macler, Frederic (1923). «Armenia». The Cambridge Medieval History. Vol. IV: The eastern Roman empire (717-1453). Cambrígia: Cambridge University Press 
  • Pogossian, Zaroui (2019). «Relics, Rulers, Patronage: the True Cross of Varag and the Church of the Holy Cross of Ałt'amar». In: Pogossian, Zaroui; Vardanyan, Edda. The Church of the Holy Cross of Ałt‘amar: Politics, Art, Spirituality in the Kingdom of Vaspurakan. Leida e Boston: Brill