Baccio Bandinelli

Baccio Bandinelli
Nascimento12 de novembro de 1493
Florença
Morte7 de fevereiro de 1560 (66 anos)
Florença
SepultamentoBasilica della Santissima Annunziata
CidadaniaRepública Florentina, Ducado de Florença
Progenitores
  • Michelangelo de' Brandini
Ocupaçãoescultor, pintor, desenhista, historiador da arte, designer
Distinções
Obras destacadasRetrato de Michelangelo, Hércules e Caco, Adam and Eve, Bacchus, Bust of Cosimo I de' Medici, Bargello, Bust of Cosimo I de' Medici, Faun, Bust of Cosimo I de' Medici

Bartholomeo Giovanni di Michelagnolo di Viviano, mais conhecido como Baccio Bandinelli (Florença, 12 de novembro de 1493 - Florença, 7 de fevereiro de 1560) foi um pintor, desenhista e escultor da Itália.

Na sua juventude foi elogiado por Leonardo da Vinci e Michelangelo, e patrocinado pela família Médici, foi contratado para diversas obras importantes, algumas monumentais, atuando principalmente em Florença e Roma, mas grande parte dos seus projetos ficou inacabada ou nem foi iniciada. Absorveu influências diversificadas, formando um estilo eclético, em que predominam elementos clássicos interpretados pelo viés maneirista. Relatos da época afirmam que tinha um temperamento difícil, e teve rivais que denegriram implacavelmente sua imagem, influenciando negativamente a historiografia crítica, mas fez considerável fama enquanto viveu, sendo particularmente louvada sua habilidade no desenho. Nas últimas décadas diversas obras têm sido redescobertas e uma massa de documentos antes inacessíveis tem vindo à luz, levando a uma revisão dos estudos anteriores e consolidando para ele um lugar de destaque entre artistas do Maneirismo italiano.

Biografia

Filho do ourives florentino Michelagnolo Bernardino di Viviano di Meo, Bandinelli nasceu em Florença em 12 de novembro de 1493, sendo batizado como Bartholomeo Giovanni di Michelagnolo di Viviano. Teve os irmãos Giannozzo Taddeo e Bartholomeo Domenico e a irmã Lucrezia, que foi monja com o nome de Piera no Mosteiro de São Vicente em Prato.[1]

Com o pai foi iniciado na arte, fazendo cópias de obras de Donatello, Masaccio, Verrocchio, Michelangelo e outros mestres.[2] Frequentou esporadicamente o atelier de um pintor menor, Girolamo del Buda,[3] e com 15 anos foi admitido como discípulo no atelier do escultor Giovanni Rustici, onde conheceu Leonardo da Vinci, que admirou as qualidades do seu desenho, considerando-o uma grande promessa e aconselhando-o a abandonar a pintura e se concentrar na escultura.[4] Sua primeira atividade profissional é documentada em 1 de março de 1512, recebendo o pagamento de 10,10 liras por uma pintura para o Convento da Santíssima Anunciada, mas em 6 de março de 1513 o Convento abriu uma queixa contra ele na Guilda dos Pintores por motivo não muito claro, aparentemente por não cumprir o contrato. No documento aparece pela primeira vez com o apelido Baccino. No ano seguinte é dito Baccio quando Juliano de Médici paga 6 ducados a ele e dois familiares, sendo citado como escultor.[5]

Bandinelli foi desde jovem protegido por Michelangelo,[6] que também apreciava seus desenhos,[2] e cujo estilo muito influenciou o seu, e depois tornou-se um artista favorito da poderosa família Médici, em particular os papas Leão X e Clemente VII e o duque Cosme I, permanecendo longos anos ligado a eles por relações de trabalho,[6][7] e através deles ganhou fama, riqueza e respeitabilidade para sua família, que tinha origens humildes; seu avô Viviano era um ferrador de cavalos.[6] O primeiro resultado artístico importante dessa associação foi uma estátua de São Pedro para a Catedral de Florença, encomendada em 1515 pelo cardeal Júlio de Médici. Pouco depois esculpiu um Orfeu para o Palácio Médici, inspirado no Apolo Belvedere, que foi muito louvado e é a principal criação da fase inicial de sua carreira.[3]

Em torno de 1518 participou da decoração da Santa Casa de Loreto, sob a supervisão de Sansovino, criando um relevo do Nascimento da Virgem Maria, para o qual pode ter recebido ajuda de outros artistas, e que foi deixado incompleto. Depois elaborou dois Gigantes em estuque para a Villa Madama dos Médici, mais tarde destruídos, e em Roma começou uma cópia do Grupo de Laocoonte para ser oferecida ao rei Francisco I da França, que foi interrompida com a morte de Leão X em dezembro de 1521.[3] Sua família até então não tinha um sobrenome estável, e nesta época adotou o sobrenome Brandini.[6] Durante o pontificado de Adriano VI realizou um grande desenho sobre o Massacre dos Inocentes, copiado em gravura alguns anos depois por Agostino Veneziano e Marco Dente, uma das composições gráficas mais ambiciosas de seu tempo, que recebeu aclamação geral e foi importante para a consolidação de seu prestígio.[3]

Hércules e Caco, mármore, 1530-1534

Depois que Júlio de Médici foi eleito papa em 1523 com o nome de Clemente VII, Bandinelli terminou a cópia do Laocoonte, muito apreciada pelo papa e nunca remetida para a França, sendo instalada no Palácio Médici de Florença. Clemente VII lhe confiou outras encomendas de vulto, entre elas dois grandes afrescos para o coro da Igreja de São Lourenço de Florença, que nunca foram realizados, mas cujos projetos lhe valeram a outorga do título de cavaleiro de São Pedro (Espora de Ouro).[3] Em torno de 1524, na sua biografia de Michelangelo, Paolo Giovio cita Bandinelli como um dos principais escultores de seu tempo.[8] De Clemente também recebeu em 1524 a encomenda do grupo monumental de Hércules e Caco para a Praça da Signoria de Florença, para fazer um par com o celebrado Davi de Michelangelo. A encomenda enfrentou a oposição das autoridades locais, que desejavam atribuí-la a Michelangelo, e o trabalho foi interrompido por problemas técnicos e turbulências políticas. Enquanto isso, em 1525 realizou projetos para pinturas, uma delas da Anunciação, executada e exposta no Mercado Novo de Florença, e projetou um grupo de esculturas para o Castelo de Santo Ângelo de Roma, que não foram terminadas.[3]

Em 1527 ele aparece pela primeira vez com o sobrenome Bandinelli, e em 1529 aparece pela última vez com o sobrenome Brandini, que vinha usando inconsistentemente desde alguns anos antes.[8] Em 1529 criou um relevo de bronze que ofereceu ao imperador Carlos V. Por este trabalho, o imperador se dispôs a outorgar-lhe o título de cavaleiro da Ordem de Santiago, mas a admissão à Ordem exigia comprovação de nobreza. Como Bandinelli era plebeu, forjou um parentesco com os nobres Bandinelli de Siena. A documentação falsa foi aceita e ele foi investido. Essa pretensão de nobreza logo foi denunciada por seus rivais, que lançaram intensos ataques e críticas contra ele, mas foi essencial para as tentativas de ascensão social de seus descendentes nos séculos XVI e XVII.[6]

Estudo para a base da tumba de Clemente VII

Em 1530 retomou o trabalho no Hércules e Caco, instalado na praça de Florença em 1534 em meio a muitos protestos, pois a obra se tornara um símbolo do partido dos Médici.[3] Neste meio tempo, ainda em 1530 aceitou uma encomenda da família Doria para uma estátua de Andrea Doria como Netuno, mas jamais a realizou e passaria anos em conflito com a família.[3] Em 1531 fundou uma academia para artistas em Roma, e em 1536 foi contratado para criar tumbas para os papas Leão X e Clemente VII, a serem instaladas na Igreja de Santa Maria sobre Minerva. O projeto previu dois monumentos arquiteturais com estátuas dos papas, oito estátuas de santos, dois relevos grandes em mármore e quatro relevos menores em bronze, ficando responsável também por providenciar a extração do mármore nas minas de Carrara,[8] mas o contrato foi alterado pelos executores testamentários e atribuído a Antonio da Sangallo, o Jovem, e a participação de Bandinelli foi limitada.[3] Não chegou a terminar as obras. Em 1539 foi incumbido de procurar antiguidades para o duque Cosme I de Médici,[8] e partiu para Florença em 1540 para criar a tumba de outro Médici, Giovanni dalle Bande Nere. Teve de interromper também este trabalho ao ser obrigado a voltar a Roma em 1541 para terminar sua parte nas tumbas papais, mas a criação das estátuas dos papas foi delegada para outros artistas e Bandinelli só chegou a concluir as estátuas dos santos João Batista e João Evangelista para a tumba de Clemente, e os santos Pedro e Paulo para a tumba de Leão, junto com três relevos para cada uma.[3]

Busto de Cosme I, bronze, c. 1554-58

A partir da década de 1540 seu interesse se voltou para a tentativa de controlar a direção artística das obras florentinas durante o governo de Cosme I de Médici, mas o descompasso entre suas ambições e as suas possibilidades se revela na grandiosidade dos projetos concebidos contra os resultados fragmentários obtidos. A tumba Giovanni dalle Bande Nere nunca foi realizada conforme seu projeto, e sua participação direta se resumiu à estátua do morto e um relevo para a base. Projetou uma vasta reforma na Sala do Cinquecento do Palácio Velho, que incluía uma tribuna monumental, uma escadaria e uma parede com nichos, um conjunto repleto de relevos e esculturas, mas pouco depois Bandinelli perdeu o interesse e abandonou o trabalho.[3] Seus projetos para uma nova fachada para o Palácio Velho, um coro para a Basílica da Santa Cruz, uma grande estátua de mármore de Cosme I para a Catedral, uma fonte para o jardim do Palácio Pitti e um novo Palácio Médici em Pisa nunca foram executados. Entretanto, criou algumas estátuas de bronze, incluindo um grande busto de Cosme I, diversas estatuetas de bronze, e projetou estátuas para uma gruta nos jardins do Palácio Pitti, realizadas por seu assistente Nanni di Stocco. Em 1545 foi recebido na Academia Florentina, criada por Cosme I, voltada para o estudo de literatura, línguas e filosofia, e em 1546 começou o grupo de Cristo morto apoiado por Nicodemos para sua própria tumba, só terminado em 1558.[8]

Cristo morto apoiado por um anjo, mármore, c. 1550
Relevos para o coro da Catedral, mármore, 1547-72

Mais importante foi seu empenho em uma grande encomenda para a Catedral de Florença, incluindo projetos para o coro e o altar-mor, esculturas monumentais de Adão e Eva, um Cristo morto acompanhado de um anjo e um Deus Pai para o altar-mor, e um grupo de 24 relevos para o coro, que estão entre suas melhores criações, executados com interrupções a partir de 1547 com a ajuda de Giovanni Bandini e Francesco de' Rossi. As primeiras estátuas de Adão e Eva não agradaram o autor, e ele transformou o Adão em um Baco e seu assistente Nanni di Stocco transformou a Eva em uma Ceres, providenciando outras em seu lugar. O Deus Pai foi abandonado incompleto e mais tarde transformado em um Júpiter, e um segundo anjo para o Cristo não foi iniciado.[8][9] O projeto para a Catedral incluía diversas outras estátuas e relevos de profetas e figuras do Antigo Testamento, que não foram executados, completados mais tarde por Giovanni Bandini, provavelmente a partir dos desenhos do mestre.[3]

A partir de meados da década de 1550 seu prestígio parece declinar, sofrendo com a concorrência de artistas mais jovens, especialmente Vasari, que assumiu o protagonismo nas obras ducais em Florença.[3] Em 1559 foi admitido na Guilda dos Escultores, Pedreiros e Carpinteiros, e no mesmo ano comprou uma capela na Basílica da Santíssima Anunciada.[8] Seus últimos projetos importantes foram a Fonte de Netuno para a praça central, com a ajuda de Vincenzo de' Rossi, e a tumba de sua própria família, ambos deixados inconclusos com sua morte em 7 de fevereiro de 1560.[3]

Bandinelli teve dois filhos naturais antes do casamento: Michelagnolo Domenico Romolo (1528, de mãe desconhecida) e Clemente (c. 1532, filho da sua serva Francesca, legitimado em 1551). Em 1534 iniciou as tratativas para seu casamento com Jacopa, filha de Giovambattista d'Ottaviano Doni, que lhe trouxe um substancial dote de 800 florins,[8] gerando com ela Alexandro lulio (1536), Cesare Romolo (1537), Catterina Cicilia (1538), Scipione Cosimo Romolo (1540), Cosimo Vincenzio Romolo (1541), Giulio Scipio (1542), Lucretia Magdalena Romola (1544), Beatrice Dianora Romola (1545), Beatrice (1548), Dianora Vincentia Romola (1550), Laura Benedetta (1551), Michelagnolo Vincentio Romolo (1553) e Caterina Leonora Romola (1555).[10]

Obra

Adão e Eva, mármore, 1551
Hércules sentado sobre a pele do Leão de Nemeia, desenho, c. 1520-24

Bandinelli deixou obra variada e de alta qualidade, que o torna um dos artistas notáveis da passagem do Renascimento para o Maneirismo italiano. Seu estilo eclético foi formado pela fusão de influências da escultura da Grécia Antiga, através do estudo de relíquias preservadas em Roma e Florença, em particular do Período Helenístico, do Renascimento do século XV, da Alta Renascença e do Maneirismo, principalmente através de Michelangelo.[3][7]

Entre suas obras principais estão o Orfeu, o grupo monumental de Hércules e Caco, peças para as tumbas dos papas Leão X e Clemente VII, uma cópia do grupo escultórico grego Laocoonte e seus filhos, um grupo de Cristo morto apoiado por Nicodemos instalado em sua própria tumba, cujo Nicodemos é um autorretrato,[7] e um importante grupo de obras para a Catedral de Florença, que incluem o projeto do coro, 24 relevos para o coro, junto com as estátuas monumentais de Deus Pai, Cristo morto e o par Adão e Eva, destinadas ao altar-mor.[9]

Até o século XVIII permaneceu em geral em alta estima, mas no século XIX sua reputação já havia se deteriorado, principalmente pela grande influência negativa exercida pelos escritos pouco lisonjeiros de seus rivais Vasari e principalmente Cellini, então tomados como principais referências para sua historiografia, e que o retratavam como um bufão perverso e sem talento. Uma biografia supostamente escrita pelo próprio artista oferecia uma visão diametralmente oposta, sendo usada por alguns críticos para recriar sua imagem de maneira mais equilibrada, mas pesquisas recentes revelaram que foi escrita por seu neto Baccio o Jovem com o propósito de dignificar sua família, contendo muita documentação falsificada.[6]

De qualquer maneira, muitas outras fontes da época trazem descrições negativas sobre sua personalidade, citando seu caráter beligerante e intempestivo, sua arrogância, sua dissimulação e sua tendência a deixar seus projetos inacabados. Por outro lado, também há muitos testemunhos depondo em favor de seu talento, em particular seus desenhos, dos quais sobrevivem mais de 400, e que de toda a sua obra parecem ter gozado do favor mais constante da crítica, tanto em sua vida como posteriormente, e mesmo alguns dos seus inimigos reconheceram que neste campo ele tinha mérito invulgar.[2] Seus desenhos se tornaram modelos para muitos artistas, que os recriaram em pintura, gravura e cerâmica.[4]

Em anos recentes muitas obras vêm sendo redescobertas e em 2004 Louis Waldman publicou uma compilação de cerca de 1.600 documentos a seu respeito, em sua vasta maioria inéditos, favorecendo uma revisão crítica de sua vida e obra,[6][11] mas dos artistas notáveis deste período ele permanecia um dos menos estudados e conhecidos.[6] Uma grande retrospectiva de sua carreira montada em 2014 no Museu do Bargello, que foi amplamente divulgada e teve favorável repercussão, reunindo peças de coleções e museus italianos e estrangeiros, contribuiu para desfazer alguns mitos que o cercavam e restabelecer para ele uma posição de destaque na história do Maneirismo italiano.[11][12][4][13][14][15]

Ver também

Referências

  1. Waldman, Louis Alexander. "Baccio Bandinelli and art at the Medici Court : a corpus of early modern sources". In: Memoirs of the American Philosophical Society, 2014 (251), pp. 1; 7; 20; 25
  2. a b c Wolk-Simon, Linda. "Disegno as Ritratto: Drawing in the Biography of Baccio Bandinell". In: Cole, Michale (ed.). Donatello, Michelangelo, Cellini: Sculptors Drawings from Renaissance Italy. Isabella Stewart Gardner Museum, 2014, pp. 75-95
  3. a b c d e f g h i j k l m n o Hirst, Michael. "Bandinelli, Baccio". In: Dizionario Biografico degli Italiani, Volume 5. Treccani, 1963
  4. a b c Wicks, Elizabeth. "A Renaissance Rival's Revival—The Art of Baccio Bandinelli". La Repubblica, 11 de abril de 2014
  5. Waldman, pp. 24-25; 28
  6. a b c d e f g h Waldman, pp. ix-xii
  7. a b c "Baccio Bandinelli". In: Encyclopedia Britannica online, consulta em 11 de novembro de 2025
  8. a b c d e f g h Waldman, pp. xv-xxviii
  9. a b "Baccio Bandinelli e Giovanni Bandini dell'Opera, Ventiquattro bassorilievi". Opera di Santa Maria del Fiore, consulta em 11 de novembro de 2025
  10. Waldman, pp. 101-102
  11. a b Ekserdjian, David. "Review: Baccio Bandinelli at the Bargello". Apollo Magazine, 6 de junho de 2014
  12. "Bandinelli, a Renaissance Genius, Is Finally Given His Due". The New York Times, 18 de junho de 2014
  13. "Baccio Bandinelli Sculptor and Maestro". Italian Art Society, junho de 2014
  14. "Baccio Bandinelli. Firenze riscopre un genio del Cinquecento". ArTribune, 11 de abril de 2014
  15. "At the Bargello Baccio Bandinelli takes his revenge against Michelangelo’s supporters". Conceptual Fine Arts, 22 de setembro de 2014