Bíblia nas artes

A Criação de Adão (Michelangelo) - Capela Sistina

A Bíblia tem sido inspiração, desde a Antiguidade, para inúmeras formas de produção artística. As histórias bíblicas, desde a narrativa da criação do mundo, o dilúvio, a Vida de Cristo e seus discípulos, a Virgem Maria, e inúmeros outros epsódios são frequentemente retratados em pinturas e esculturas, músicas, filmes e em diversos monumentos arquitetônicos.[1]

As chamadas Sagradas Escrituras são consideradas uma das obras mais influentes de todos os tempos. São a base do Cristianismo, do Judaísmo e do Islamismo e isto teve reflexo na História de Arte.[2]

A Bíblia é tradicionalmente dividida entre dois conjuntos de livros: o Antigo Testamento e o Novo Testamento, respectivamente relacionadas ao período Antes de Cristo e ao período Depois de Cristo.[3]

Rembrandt van Rijn, O Retorno do Filho Pródigo, c. 1661–1669. 262 cm × 205 cm. Museu Hermitage, São Petersburgo

Rica em imagens e metáforas, a Bíblia se tornou atraente para os artistas. A partir das descrições encontradas nas escrituras, os artistas adquiriram autonomia para recriar os eventos e personagens, acrescentando as próprias interpretações. Artistas renomados como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Salvador Dali, Rembrandt e Caravaggio, dentre tantos outros (famosos e anônimos), na Bíblia encontraram uma inesgotável fonte de inspiração para os seus trabalhos.[1]

A arte religiosa cumpre uma função destacada na difusão das ideias e na formação dos adeptos, particularmente dos principiantes. Em períodos onde a população era analfabeta, em maioria, por exemplo, as imagens artísticas, contando as histórias e ensinamentos bíblicos ¨podiam ser transmitidos e compreendidos pelas pessoas de todas as classes sociais¨.[1]

A interpretação da Bíblia por intermédio das artes visuais é muito impactante. O talento e habilidades dos artistas na retratação dos diversos episódios, das passagens bíblicas, empregados em suas obras proporcionam reflexões sobre as mensagens que estas escrituras pretendem transmitir.[4][5]

Tais obras de arte permitem aos observadores uma experiência única de imersão nas histórias e ensinamentos bíblicos. Através de elementos visuais como cores, formas, texturas e composições, os artistas são capazes de transmitir emoções, transmitindo a mensagem divina contida nas páginas da Bíblia de forma tangível e acessível.[1]

Por intermédio da arte visual, a Bíblia deixa de ser apenar um livro sagrado, mas, por seu conteúdo altamente constituído por linguagem simbólica, constitui-se em manancial riquíssimo para a inspiração de artistas nos conteúdos da espiritualidade e da religiosidade. O simbolismo bíblico tem o poder de incentivar os recursos estéticos dos mestres da arte.[6][7]

De fato, a arte bíblica, ou derivada de suas narrativas, podem ser recordadas desde, por exemplo, a arquitetura do Templo de Salomão, ou à confecção da Arca da Aliança, até a arte contemporânea, tal como a obra magistral do Templo Expiatório da Sagrada Família de Gaudi.[8]

A mundialmente famosa Capela Sistina é outro, dentro muitos, monumentos artísticos derivados dos escritos bíblicos. Inspirada no Templo de Salomão do Antigo Testamento, reuniu os principais mestres renascentistas, tais como Michelangelo, Rafael, Perugino, Ghirlandaio e Sandro Botticelli.[9]

A arte é um fenômeno social e como tal deve ser tratada e estudada. Ela é reveladora de uma determinada sociedade e momento histórico.[10] A Bíblia como um dos principais monumentos literários da História, que influenciou diversas culturas e religiões de grande destaque e é o conjunto de escritos mais lidos e difundidos de todos o tempos sendo fonte de inspiração para muitos artistas em todos os tipos de realização artística, não pode deixar de ser analisada, sobre o prisma da História da Arte, em profundidade. Basta citar que um dos personagens presentes entre os considerados escritos sagrados, a Virgem Maria - que consta no Novo Testamento - é um dos motivos mais representados e referidos na arte.[11][12]

Origem

A Bíblia não é um único livro, mas, sim, uma compilação de livros escritos por diferentes autores. O termo é derivado do grego koiné τὰ βιβλία que significa 'os livros'. É uma antologia de textos religiosos ou escrituras sagradas para o Cristianismo, o Judaísmo, o Islamismo e muitas outras religiões. Esses textos, originalmente escritos em Hebraico, Aramaico e Grego Koiné, incluem instruções, histórias, poesias e profecias, entre outros gêneros literários. Per si, a Bíblia é uma obra de arte.[13][14]

Os livros são datados de muitos séculos antes de Jesus Cristo pela tradição judaica, ditos Antigo Testamento, e continuados depois do nascimento de Cristo com os textos chamados de Novo Testamento.

Para um público contemporâneo, as narrativas bíblicas que aparecem na arte, desde os primórdios, podem parecer impenetravelmente obscuras. A onipresença das imagens do Novo e do Antigo Testamento origina-se da necessidade de ilustrar visualmente e inspirar espiritualmente o público em grande parte analfabeto de uma maneira emocional – e não intelectual.[15]

Arquitetura

Catedral Metropolitana de Brasília - Oscar Niemeyer
Arquibasílica de São João de Latrão

A arquitetura durante séculos foi um dos principais destaques para a difusão das ideias religiosas e políticas. Esta arte na propagação das ideias contidas nas Sagradas Escrituras também foi muito importante.[16] Como bem acentuou Erwin Panofsky, os modelos arquitetônicos tem estreita relação com as formas de pensamento e ideologia. As ideias religiosas são transmitidas, também, pelas edificações. As edificações baseadas nos escritos bíblicos, portanto, exercem este papel.[17]

O antigo Templo de Salomão, em Jerusalém, pelas narrativas do Antigo Testamento, ou Bíblia Hebraica - onde eram guardadas a Arca da Aliança e ficava o Santo dos Santos -, era o centro, não somente da vida religiosa, mas, também da vida política do Reino de Israel e Judá.[18][19]

A Cidade do Vaticano, com sua imponente Basílica de São Pedro, a impressionante Colunata de Bernini, é um grande monumento arquitetônico a serviço da Igreja Católica e ponto de referência para todos os fiéis desta religião.[20]

Diversos monumentos arquitetônicos, tal como o Cristo Redentor, no alto do Corcovado, na cidade do Rio de Janeiro, servem como símbolos da identificação de um povo, ou parte deste povo, com suas crenças religiosas.[21]

A arquitetura bíblica acompanhou as mudanças de pensamento. As estruturas foram transmutando na medida que os diversos outros saberes humanos foram, também, se transformando.[22]

A importância e efeitos nas sociedades das construções arquitetônicas é notável, inclusive as religiosas. Até os seus vestígios. Um exemplo notável é a do Muro das Lamentações em Jerusalém para a comunidade judaica, destacado o seu poder simbólico[23]

As estruturas arquitetônicas, como todas as outras formas de arte, são códigos linguísticos, modelos de uma série de convenções comunicacionais.[24]

Escultura

Pietà (Michelangelo)
David - Michelangelo

Antes mesmo das grandes obras arquitetônicas poderemos nos referir às realizações esculturais, desde os primevos artífices até aos mais recentes artistas e suas obras magistrais, como as primordiais realizações artísticas com inspiração bíblica. O que os une é este propósito de retratarem personagens ou passagens das Sagradas Escrituras. O David de Michelangelo ou os profetas de Aleijadinho são exemplos de virtuosos relativamente recentes.[25][26][27]

Remonta, entretanto, eivados dos próprios escritos bíblicos, a produção de esculturas. Um exemplo é a passagem conhecida como a confecção e adoração ao Bezerro de Ouro.

Obras comoventes como a Pietà, de Michelangelo, que está em uma das capelas da Basílica de São Pedro, no Vaticano, é um dos exemplos significavos de como a arte contribui com a mensagem religiosa. As Pietàs são representações da Virgem Maria com o seu filho, Jesus, morto em seus braços. Na versão de Michelangelo o requinte e esmero da modelação e o tratamento da superfície do mármore, polido como um marfim, deram-lhe a reputação de uma das mais belas esculturas de todos os tempos.[28]

A arte escultural, depois da arte pictórica, é a manifestação artística preferencial e mais difundida, tanto na composição e decoração de templos, de igrejas, assim como no uso de locações públicas em cidades, e uso em oratórios domiciliares.[29] Tal prática mereceu disposição da Santa Sé no Código de Direito Canônico,[30] tamanha a dimensão desta prática devocional dos fiéis desta religião para com alguns destes objetos.

Ao longo da história da arte cristã, a escultura bíblica consolidou-se como meio privilegiado de corporificação do sagrado, sobretudo pela sua capacidade de conferir presença material às figuras e narrativas das Escrituras. Diferentemente da pintura, a tridimensionalidade da escultura favorece uma relação espacial e tátil com o objeto devocional, intensificando sua função litúrgica e catequética. Desde a Antiguidade Tardia, com relevos sarcofágicos e esculturas paleocristãs de caráter simbólico, até o florescimento da escultura monumental medieval e renascentista, observa-se um esforço contínuo de traduzir visualmente conceitos teológicos complexos — como encarnação, sacrifício e redenção — em formas acessíveis à experiência sensível dos fiéis. Nesse sentido, a escultura bíblica atua como mediadora entre texto, doutrina e devoção, articulando matéria e transcendência.[31][32]

Pintura

Fra Angelico - Anunciação
Velásquez, Cristo Crucificado

A presença da Bíblia na história da pintura ocidental constitui um dos eixos estruturantes da formação iconográfica, estética e simbólica das artes visuais. Desde a Antiguidade Tardia e, de modo mais sistemático, a partir da arte paleocristã e medieval, o texto bíblico ofereceu não apenas um repertório narrativo, mas um verdadeiro arcabouço teológico-visual que orientou temas, gestos, hierarquias espaciais e convenções iconográficas. Episódios do Antigo e do Novo Testamento — como a Criação, o Sacrifício de Isaac, a Anunciação, a Paixão e a Ressurreição de Cristo — foram continuamente reelaborados à luz de contextos históricos e doutrinais específicos, conforme demonstram estudos clássicos de iconologia e história da arte. Nesse sentido, a pintura bíblica não se reduz à ilustração do texto sagrado, mas configura-se como espaço de interpretação visual, mediação catequética e reflexão estética sobre o mistério cristão.[33][34]

Ao longo dos séculos, grandes mestres da pintura recorreram à Bíblia como fonte privilegiada de inspiração e experimentação formal. Giotto di Bondone, nos afrescos da Capela Scrovegni, traduziu os Evangelhos em uma linguagem narrativa marcada pela expressividade emocional e pela construção espacial inovadora.[35] Michelangelo Buonarroti, na Capela Sistina, articulou episódios do Gênesis e do Juízo Final em uma síntese monumental entre teologia, anatomia e ideal humanista.[36] No Barroco, Caravaggio reinterpretou cenas bíblicas como A Vocação de São Mateus e A Ceia em Emaús por meio de um realismo dramático e do uso radical do claro-escuro, enfatizando a corporeidade e a presença do sagrado no cotidiano.[37]Rembrandt van Rijn, em obras como O Retorno do Filho Pródigo, explorou a dimensão interior e espiritual do texto bíblico, privilegiando a introspecção e a misericórdia como categorias visuais centrais.[38] Esses exemplos evidenciam como a pintura bíblica, longe de constituir um gênero homogêneo, reflete múltiplas leituras do texto sagrado, moldadas por contextos culturais, teológicos e estéticos distintos.[39]

Marc Chagall, Crucificação Branca

A partir do Renascimento tardio e, sobretudo, no contexto da modernidade, a pintura bíblica passa a experimentar deslocamentos significativos em seus modos de representação e interpretação. A progressiva autonomia da arte em relação às instituições eclesiásticas permitiu leituras menos normativas do texto sagrado, nas quais a Bíblia é abordada não apenas como autoridade doutrinal, mas também como patrimônio cultural e fonte de questionamento existencial. Artistas como William Blake reinterpretaram episódios bíblicos a partir de uma imaginação visionária e simbólica, frequentemente em tensão com a ortodoxia teológica, enquanto, no século XIX, pintores como Gustave Doré e James Tissot buscaram conciliar rigor histórico, sensibilidade moderna e fidelidade narrativa aos relatos bíblicos. Esse período marca, assim, uma ampliação do campo hermenêutico da pintura bíblica, na qual tradição e subjetividade passam a coexistir de forma mais explícita.[40]

No século XX, a presença da Bíblia na pintura assume contornos ainda mais plurais e problematizadores, refletindo as transformações culturais, filosóficas e políticas da contemporaneidade. Artistas como Marc Chagall recorreram ao imaginário bíblico para articular memória, identidade judaica e experiência do exílio, reinterpretando narrativas veterotestamentárias por meio de uma linguagem poética e simbólica profundamente pessoal.[41] Paralelamente, abordagens iconológicas mais recentes enfatizam que a pintura bíblica moderna e contemporânea não deve ser compreendida apenas em termos de crença religiosa, mas também como forma de reflexão visual sobre sofrimento, redenção, violência e esperança, temas universais inscritos no texto bíblico e reatualizados pela arte. Dessa forma, a Bíblia mantém-se como matriz viva na história da pintura, capaz de gerar novas imagens, sentidos e interrogações em diferentes contextos históricos.[42]

Na segunda metade do século XX e início do século XXI, a pintura bíblica passa a ser frequentemente atravessada por abordagens críticas, simbólicas e, em certos casos, abertamente desconstrutivas. A Bíblia deixa de funcionar apenas como narrativa fundadora e passa a ser mobilizada como repertório imagético capaz de interpelar traumas históricos, conflitos identitários e dilemas éticos contemporâneos. Nesse contexto, a releitura de motivos bíblicos por artistas modernos e contemporâneos — como a Crucificação, o Êxodo ou as figuras proféticas — tende a enfatizar menos a ortodoxia doutrinal e mais a potência simbólica dessas imagens enquanto metáforas universais de sofrimento, exílio, redenção e esperança. Estudos de história da arte e iconologia ressaltam que esse deslocamento não representa um abandono do texto sagrado, mas uma ampliação de suas possibilidades interpretativas no campo visual, em consonância com transformações culturais mais amplas.[43][44]

Paralelamente, a historiografia recente tem enfatizado a necessidade de compreender a pintura bíblica a partir de uma perspectiva trans-histórica e intercultural, reconhecendo tanto suas continuidades quanto suas rupturas. A Bíblia, enquanto texto fundacional do Ocidente, permanece como matriz iconográfica recorrente, mas sua visualidade é continuamente renegociada em função de novos públicos, linguagens e contextos sociais. As imagens religiosas não existem de modo isolado, mas circulam entre devoção, cultura visual e história, assumindo sentidos distintos conforme seus usos e recepções. Assim, a pintura bíblica, longe de constituir um capítulo encerrado da história da arte, mantém-se como campo vivo de produção simbólica, no qual tradição, memória e experimentação estética se articulam de forma dinâmica e plural.[45]

Cinema

Cartaz de Os Dez Mandamentos (filme de 1956)

A presença da Bíblia no cinema constitui um dos diálogos mais duradouros e complexos entre o texto sagrado e a cultura visual moderna. Desde os primórdios da sétima arte, narrativas bíblicas foram mobilizadas não apenas por sua força simbólica e dramática, mas também por seu potencial de legitimação moral e cultural do próprio cinema, então visto com desconfiança por setores religiosos. Filmes como La Vie et la Passion de Jésus-Christ (1903), de Ferdinand Zecca e Lucien Nonguet, já indicavam a capacidade do cinema de traduzir visualmente episódios centrais das Escrituras, ainda que de forma reverencial e estática, próxima à iconografia sacra tradicional.[46]

Nos primeiros anos da cinematografia, as narrativas bíblicas desempenharam papel decisivo na construção de uma legitimidade simbólica para o novo meio, especialmente em contextos nos quais o cinema era percebido como entretenimento moralmente ambíguo. Ao recorrer às Escrituras, os realizadores não apenas exploravam histórias já consagradas no imaginário coletivo, mas também vinculavam o cinema a uma tradição cultural reconhecida e socialmente autorizada.[47]

Com o desenvolvimento técnico, narrativo e industrial do cinema ao longo das décadas seguintes, essa abordagem inicial cedeu lugar a formas mais complexas de encenação bíblica, culminando, a partir dos anos 1950, no surgimento do épico religioso hollywoodiano. Nesse novo estágio, a Bíblia passa a ser mediada por uma estética do espetáculo, caracterizada por grandes cenários, elencos numerosos e recursos técnicos avançados, que transformam o relato sagrado em narrativa histórica de alcance universal. Filmes como The Ten Commandments (1956), de Cecil B. DeMille, ilustram essa inflexão, na qual a história bíblica é integrada a discursos contemporâneos sobre moralidade, identidade nacional e destino coletivo, evidenciando como o cinema bíblico se adapta às demandas culturais e ideológicas de seu tempo. Assim, a trajetória da Bíblia no cinema revela não apenas a persistência de seus temas fundamentais, mas também a capacidade do meio cinematográfico de reconfigurá-los segundo diferentes regimes estéticos e contextos históricos.[48]

A partir da década de 1960, observa-se uma inflexão crítica no cinema bíblico, marcada pela crise do modelo clássico do épico e pela emergência de abordagens autorais mais problematizadoras. Cineastas como Pier Paolo Pasolini, em O Evangelho segundo São Mateus (1964), propuseram uma leitura radicalmente distinta das Escrituras, rejeitando o espetáculo grandioso em favor de uma estética austera, inspirada no neorrealismo italiano. Nesse contexto, o texto bíblico é tratado com rigor literal, mas reinterpretado por meio de uma linguagem cinematográfica moderna, que enfatiza a materialidade dos corpos, a paisagem e a dimensão histórica da mensagem cristã.[49] Tal abordagem evidencia que a fidelidade bíblica no cinema não se limita à reprodução narrativa, mas envolve escolhas formais e ideológicas que reconfiguram o sentido do sagrado na imagem em movimento.[50]

Nas últimas décadas, o cinema bíblico passou a dialogar de modo mais explícito com questões hermenêuticas, políticas e culturais contemporâneas, frequentemente tensionando a tradição religiosa. Obras como A Última Tentação de Cristo (1988), de Martin Scorsese, exemplificam essa fase ao explorar a dimensão humana e psicológica de Jesus, suscitando debates teológicos e controvérsias institucionais. O cinema moderno não apenas ilustra narrativas bíblicas, mas atua como espaço de interpretação religiosa, funcionando como uma forma alternativa de teologia visual. Assim, a Bíblia no cinema contemporâneo deixa de ser apenas fonte de enredos para tornar-se campo de disputa simbólica, no qual fé, crítica cultural e linguagem cinematográfica se entrecruzam, reafirmando a vitalidade do texto sagrado no imaginário audiovisual.[51]

A intensificação dessas abordagens interpretativas no cinema bíblico contemporâneo relaciona-se diretamente à ampliação do debate acadêmico sobre recepção, mídia e religião. O filme bíblico deixa de ser compreendido apenas como adaptação narrativa das Escrituras e passa a ser analisado como prática hermenêutica situada, na qual escolhas estéticas, enquadramentos narrativos e estratégias de representação constroem sentidos teológicos específicos. Nesse horizonte, a noção de fluxo hermenêutico reverso, formulada por Kreitzer, segundo a qual o cinema não apenas recebe o texto bíblico, mas também condiciona sua leitura contemporânea, revela-se particularmente elucidativa. Desse modo, a linguagem cinematográfica atua como mediadora ativa entre tradição e contemporaneidade, reconfigurando o imaginário religioso por meio de uma teologia visual implicitamente construída pelas imagens em movimento.[52]

Paralelamente, esse deslocamento interpretativo evidencia como o cinema bíblico contemporâneo se insere em debates mais amplos sobre poder simbólico, identidade e ideologia. O diálogo entre teologia e cinema exige o reconhecimento do filme como espaço legítimo de produção de sentido religioso, dotado de autonomia simbólica e capacidade crítica frente às tradições institucionais.[53] Nesse sentido, as controvérsias suscitadas por determinadas obras não devem ser entendidas como meros desvios ou provocações, mas como manifestações estruturais das tensões entre fé e modernidade cultural. Assim, a Bíblia no cinema afirma-se como campo dinâmico de negociação simbólica, no qual Escritura, crítica cultural e linguagem audiovisual se entrecruzam, reafirmando a centralidade do texto bíblico como matriz viva de interpretação no contexto contemporâneo.[54]

Ver também


Referências

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  7. PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 2009.
  8. Confira Arte Sacra Cristã Contemporânea (Museu de Arte Sacra de São Paulo)
  9. Confira Capela Sistina
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  11. Jenner, Henry, Mrs. Our Lady In Art. Introductory Summary. Chicago: Chicago, A.C. McClurg & Co., 1910.
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